Elis, uma saudade plural

Ana Celia Ossame*

Depois de 1982, o mês de janeiro nunca mais foi o mesmo. As chuvas, comuns desse período, encharcam a saudade e uma melancolia paira sobre as canções marcadas pela voz e emoção de Elis Regina de Carvalho Costa.

Se Elis nasceu para pássaro, não tenho como afirmar. Sei que seu canto continua vivo nas coletâneas preservadas pelos milhares de fãs que, de quando em quando, deliciam-se com as músicas eternizadas pela cantora. A lista é enorme e ela, que passeou por vários gêneros musicais, cantou a alma dos brasileiros em canções como “O Bêbado e a Equilibrista”, “Como Nossos Pais” e “Madalena”, para citar algumas canções que depois, cantadas por outras e outros, demonstraram que a interpretação dela foi definitiva.

Nada contra Gal, Bethânia, Marisa… Mas sei que parece repetitivo dizer que raras cantoras conseguiram, como ela, unir técnica e emoção na medida certa para fazer não só produzir faíscas, mas incendiar corações e almas com um canto perfeito e irretocável de letras bem escolhidas. Não é demais afirmar que não houve cantora com a capacidade dela de garimpar, no universo de compositores, tantos talentos autorais formidáveis como Gilberto Gil, Milton Nascimento, João Bosco, Aldir Blanc e Belchior.

O poetinha Vinícius de Moraes a chamava de “Pimentinha” e a roqueira Rita Lee de “Elis-cóptero” para citar alguns que, tocados pelo brilho da estrela, viram a Elis como um sinal do novo, do raro, do único. Elis estará sempre na memória da música porque, insuperável, deu um tom especial ao que cantava.

Neste janeiro de 2012, três décadas depois de sua partida, inusitada num acidente fatal com a ilusão do ópio, não é demais afirmar que na Música Popular Brasileira (MPB), o título de melhor cantora e intérprete ainda é dela. Quando arrancava lágrimas ao cantar “Atrás da porta” e nos levava ao palco de suas mais profundas emoções assim, no plural, como o seu nome, Elis.

*Ana Celia Ossame é jornalista.

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As louças verdes

Ivânia Vieira*

Estava guardado em um armário velho esperando um momento especial para ser colocado à mesa. Assim tinha sido nos dois últimos Natais. Afinal, esse, sim, era um grande evento e merecia ter à mesa as louças em cor verde-folha. Elas tinham o “poder” de ajudar a temperar o clima de festa e embelezar o espaço onde eram colocadas: uma animação a mais para olhos, corações e estômagos famintos.

Dessa vez, as louças verdes foram descobertas antes das datas especiais e todos os dias serviam de abrigo para algum alimento no café da manhã, no almoço, no jantar e nas merendas. Para os visitantes da casa elas eram apenas louças e deveriam ser usadas conforme a demanda do dia e não em função de um evento. E assim fizeram.

A preocupação, nos primeiros dias, com o fim das louças verdes, agora tão usadas a cada instante pelos adultos e pelas crianças, deu lugar a uma tentativa de proteção para evitar o pior: a destruição em série dos pratos grandes, dos pequenos e das três tigelas (as peças mais requisitados).

Então, nessa espécie de agonia preventiva, o jeito era lavar imediatamente após o uso e colocá-las por trás das outras louças – as do dia a dia – também guardadas no velho armário. Assim, haveria mais dificuldade na retirada delas para uso diário.

Não deu certo. Todos os dias, nos diferentes horários, o vai-e-vem das peças continuava a acontecer de forma natural. Ironicamente, as de uso diário é que ficaram de lado, embora estivessem ali na primeira fila, facéis de serem manuseadas.

Nesses dias, alguns objetos quebraram. E com eles quebraram-se resistências, ideias foram desfeitas e conceitos desmantelados. Os momentos especiais ganharam outra compreensão, sem data e sem horário. Aconteceram, acontecem.

As louças verdes puderam testemunhar vários deles, outros não, porque não tinha louça alguma quando eles ocorreram. Apenas a presença, os gestos, as palavras. A reviravolta na casa mostrou a aventura vivida em torno das coisas que dão vida à vida.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Para as meninas

Ivânia Vieira*

Talvez o tempo tenha passado e nós não tenhamos percebido o ritmo. As perdas se ampliam e se diversificam enquanto a jornada da vida exige exercícios mais intensos. Esse 2011 é uma  maratona. Não sei se das mais dura ou se das mais sentidas.

A largada, em janeiro, teve brinde de esperança mas os acontecimentos nessa maratona engoliram o tempo de enfeitar a casa, construir a árvore e organizar a flora e a fauna numa versão amazônica do ritual do presépio; não permitiram as visitas nem a celebração dos encontros aguardados com tanta saudade apesar de estarmos na mesma cidade.

Estão distantes o som da voz e das gargalhadas das minhas amigas e minhas companheiras de lutas e de sonhos. Enredadas numa outra peleja emudecemos um pouco mais, deixamos a distância tomar conta das nossas vidas e, com ela, o tempero da existência tornou-se insípido. O olhar ficou embaçado.

A marotona de 2011 nos desafia. Triplica os obstáculos e tenta esticar o percurso. É possível que a árvore, desta vez, não seja montada e o presépio engraçado se realize apenas na lembrança. É possível que as paredes de dezembro permaneçam desnudas e os enfeites guardados em uma gaveta.

Pode ser que a nossa teimosia seja reanimada. Então, para quem já enfrentou tantas outras maratonas, a de 2011 é apenas mais uma. Doída sim, deixando marcas no corpo e na alma, mas não como derrota. A distância e a saudade dos encontros, das brincadeiras e dos saraus serão superadas porque mesmo nesse grande aperto as oportunidades do encontro se insinuam para aquietar a onda de desencontros dessa temporada.

Ontem, na noite tarde, até uma lua em êxtase fazia sinal para terra em agonia. Foi possível percebê-la, renovando o pacto de que a vida vai triunfar e a amizade tem um outro tempo.

Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Uma noite no pronto-socorro

 

Neuton Corrêa*

Embarquei no 439 ainda lembrando as cenas que presenciei nas seis horas em que estive na porta da emergência do Hospital Pronto-Socorro João Lúcio, no sábado que passou. Fui ali à espera de notícia de minha cunhada que fora levada para lá após queda de moto.

Daquelas cenas, uma se repetia incessantemente em minha cabeça, a de um garoto que desembarcou de uma ambulância, entubado, com cilindro de oxigênio ao lado dele e, entre as pernas, um depósito de plástico cheio de sangue que se interligava ao corpo por um dreno que saía debaixo de um curativo à altura do peito esquerdo.

A imagem daquele moleque poderia se tornar comum entre tantas cenas semelhantes que se sucederiam no local numa frequência não superior a vinte minutos entre um desembarque e outro de vítimas de crimes e acidentes, mas a curiosidade dele em erguer a cabeça e atirar em minha direção um olhar suplicante o fez diferente em meio a tantos desesperos.

Hoje, intrigado estou, pois minha memória, impetuosamente seletiva, não se ocupou com o caso da moça que deu entrada ali com os braços jorrando sangue do profundo golpe que recebera do padrasto. E ainda dá pouca importância ao rapaz que chegou desesperado pedindo socorro para uma mulher que havia machucado as pernas em uma queda. Aliás, ele mesmo, depois de chegar naquele portão deve ter se convencido que era apenas mais um e que, se comparasse os dramas da noite, o da amiga dele seria o menor.

Mais intrigante ainda, para mim, agora, é que minhas lembranças insistem em pedir que eu não fale do homem que deu entrada com um tiro na cabeça. Mas pede que eu conte as histórias do maqueiro que, enquanto aguardava os pacientes das ambulâncias, contava casos de pessoas importantes na sociedade que passaram pelas mãos dele:

“Um dia eu estava aqui e aí desembarcou um cara que eu tinha conhecido há muito tempo. Quando olhei, eu gritei:

- Tenente!!!

E ele respondeu:

- Tenente uma porra, agora eu sou coronel! – fez-se um silêncio e o maqueiro retornou a fala do oficial – Mas do que adianta? Olha como eu estou aqui!”

Um cidadão fez um comentário e ele continuou suas histórias:

“Porrada (assim mesmo) foi um desembargador!

O cara chegou ali e, quando eu toquei nele, um camarada gritou: ‘Olha, ele é desembargador’. Eu fiquei muito puto. Porra, aqui, na maca, ninguém tem diferença”.

Depois disso, ele acabou de contar o caso.

“Não deu dez minutos aí a médica chamou o cara que tinha me falado do desembargador e perguntou:

- O senhor é o acompanhante do (e deu o nome)?

- Sim.

- Ele tinha plano de saúde?

- Tinha. Ele é desembargador.

Aí a médica disse pra ele:

- Era! O desembargador acabou de morrer”.

O maqueiro puxou outro fato, mas logo em seguida um dos seguranças do hospital se aproxima das dezenas de pessoas que estavam à espera de notícia e anuncia, lendo um papel: “acompanhante do fulano de tal (não entendi o nome)”.

Nessa hora, acompanhada do segurança, uma mulher entra para uma sala e, em menos de dez segundos, ouço um grito e, ao meu lado, vejo um cidadão bater os pés no chão e socar desesperadamente a parede do pronto-socorro, gritando:

“Ai, meu Deus! Ai, Deus! Ele era meu único filho!”

Hoje, o corre-corre da porta do hospital, o olhar do menino e os gritos do pai dele ainda ressoam em meus ouvidos.

*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam).

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Uma chuva na parada

Neuton Corrêa*

Era meio-dia, mas o Sol havia acanhado o brilho por causa da nuvem carregada que corria empurrada por um vento agitado que soprava para todos os lados. Olhando o tempo que se formava, calculei que ainda havia tempo de alcançar o abrigo de ônibus antes da chuva. Fui o primeiro a chegar e não se demorou muito para o ponto ficar lotado de gente à espera do busão e gente à espera de o temporal passar.

Dessa gente, lembro-me de uma garota que vestia roupa colegial e que atravessou a rua desafiando os carros, correndo de cabeça baixa e protegida por um caderno que colocara sobre si para se proteger das gotas maduras de águas que começam a molhar o asfalto. Depois dela, apareceram um vendedor de lanche de bicicleta cargueira; um policial militar fardado; um mototaxista que parou ali apressado; e outros de que não sei dar definição.

O corre-corre de pessoas atrás do abrigo se encerrou com a chegada de três mulheres que surgiram correndo com uma criança de colo protegida por elas com pedaços de pano que me fizeram lembrar os antigos cueiros que minha mãe usou para me embrulhar e vestir meus outros sete irmãos.

As três se sentaram e uma delas, sem embaraço consigo e com a plateia, foi logo suspendendo a camisa e puxando o peito para dar de mamar ao filho. Esta, a que amamentava, ficou sentada ao meio às amigas, sendo que, a da esquerda me fez ficar por algum tempo tentando ler o que estava escrito em uma tatuagem que trazia no toco (metacarpo) dos dedos, mas, com muito esforço, consegui decifrar a inscrição: “Rosa Maria”. “Rosa” ela escreveu no lado esquerdo e do outro lado da mão, ocupando todos os dedos, “Maria”.

A terceira delas, que se sentava à direita da mãe e do menino, era bem diferente das demais. Era bem mais alta que as amigas, vestia-se bem menos despojada do que as outras. Aliás, a calça de malha apertadinha que usava modelava-lhe as coxas e as batatas das pernas. Ela era também a mais falante do grupo.

A mulher era tão falante, que abriu espaço para que o mototaxista lhe abordasse com alguma coisa que não entendi. Imaginei que ele havia perguntado alguma coisa sobre a mulher com o filho no colo, porque a assim ela respondeu em alto e nítido som:

- Não, o marido dela está com um ano que morreu.

Com a resposta, quase como reflexo, dobrei a cabeça ligeiramente em direção à criança para supor a idade dela e calculei pelos dentinhos que começam a brotar que o bebê não tinha mais do que seis meses. Ou seja: a criança não chegou a conhecer o pai.

Enquanto eu fazia essas conjecturas, a porta-voz do grupo falou, como se estivesse lendo meu pensamento:

- Mataram o pai dele, né bebê? – disse apertando a bochecha do menino.

Eu pensei que a conversa continuaria nessa direção, mas outra vez o motataxista fez uma pergunta sussurrada e a mulher respondeu:

- Já sofri muito como criança. Agora, meu filho, toda folga tomo minha cervejinha. Passei o feriado todo dormindo. Ah, vida boa!

Como a conversa já dava caldo para uma crônica e tudo ali acontecia desnudado, saquei minha caderneta de passageiro-repórter para anotar os detalhes do papo, quando, outra vez, respondendo às silenciosas perguntas, respondeu:

- Tu tá doido? Mal sair duma entrar noutra? Não!

Desta vez, senti o mototaxista constrangido, mas ele insistiu (e juro que não ouvi nada) e a mulher rebateu:

- Mano, hoje a gente não casa mais por amor, né? Mas nunca se sabe!

Depois disso, a chuva e os nossos ônibus passaram levando o que temporal testemunhara.

*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam).

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Briga de amigos

 

Neuton Corrêa*

A luta entre os dois amigos estava boa, boa para assistir. Só não ficou melhor porque o busão atrapalhou. A peleja começou no bar e foi parar na viela, onde, para passar um carro, o outro precisa pedir permissão, porque, juntos, os dois não cruzam a via de jeito nenhum, sob pena de se baterem. É claro que quem conhece já sabe que estou falando do bairro Alvorada. Pois foi nesse lugar de ruas apertadas e trânsito intenso que eles resolveram medir forçar e tirar a limpo as diferenças.

Ninguém se meteu na querela. Eles ficaram à vontade, até porque todo mundo os via dia e noite secando milimetricamente, gole a gole, a garrafa cheia de aguardente. Ao contrário, houve quem ajudasse a formar o ringue para que eles estivessem protegidos para trocação de socos, dos quais 99,9% não atingiam o oponente, e o percentual que restava chegava sem violência. O bom era ouvir o que eles diziam, cheios de si, da maldita e de sabedoria.

E essas coisas que eles falavam podiam ser ouvidas fora do cinturão de gente que se formou para assistir à briga. Dessas sábias frases que eles pronunciavam, algumas o Antônio, colega de trabalho que me contou esse episódio, ainda recorda. Eram coisas do tipo: “Vem, pode vir, chapéu de otário é marreta” ou “Quarenta anos (talvez a idade de um deles) de lagoa, perder pra sapo?” E por aí foi o Antônio, que jura não ter feito parte da plateia, narrando detalhes que me custaram a acreditar.

Mas não era difícil deixar de crer. Eu mesmo fui testemunha de algo semelhante em 1989, quando cumpria serviço militar obrigatório, em São Gabriel da Cachoeira. A briga envolveu dois parceiros de farda, dois infantes, dois combatentes de selva, o 1460 (cabo Inácio) e o 1489 (soldado Gama). Eu era o 1481 (cabo Corrêa). Os dois brigaram por causa de fila para o almoço. Um queria passar na frente do outro. O Gama, mais forte do que o Inácio, agrediu o superior, que lhe aplicou uma garfada. Nada grave.

O problema, amigas e amigos do busão, é que a confusão chegou ao conhecimento do Comando da 1ª Cia de Selva e o julgamento sumário do caso ocorreu duas horas depois da briga, na formatura da tarde (no quartel é assim: formatura toda hora).

Inácio e Gama foram chamados para frente do grupamento e interrogados ali mesmo, na frente da tropa. Como não souberam ou não quiseram explicar as razões das agressões, o comandante, com ordens de “direita volver” e “esquerda volver”, abriu um corredor de mais ou menos quatro metros entre os pelotões reunidos e ordenou que os dois continuassem a luta iniciada antes do almoço. E eles lutaram, lutaram, lutaram, lutaram. Lutaram! Até que, sem força, resolveram cessá-la, entreolhando-se, rindo e se abraçando por ordem oficial.

Assim como aconteceu com meus colegas de quartel de fronteira, os amigos do bar do bairro Alvorada, também se cansaram, contou Antônio. Cansaram-se ao ponto de dormir na rua e obrigarem os carros a desviarem-se deles.

Um dos veículos, porém, não pôde parar. Era um ônibus, daqueles verdes que passam por lá. Nessa hora, um deles recobrou o juízo e se levantou, olhou para o lado e auxiliou o parceiro a sair dali, mas quando a plateia achava que a confusão já havia terminado, depois que o ônibus passou, eles voltaram para rua e recomeçaram a briga.

*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Abraço pela vida

Ivânia Vieira*

Mulheres do Amazonas estão sendo mortas por tiros, facadas, espancamentos. São mortes anunciadas com antecedência. Ainda assim os pedidos de socorro não são ouvidos. A quem importa essa tragédia?

As autoridades têm discursos prontos para apresentar números e até imagens. Não raro são dados distantes da realidade de isolamento e de abandono a que estão submetidas essas mulheres. A estrutura dos governos na maioria das cidades brasileiras e, de forma particular, nos municípios amazonenses é marcada pela precariedade e pela ausência. Não é a falta de recursos financeiros e sim a falta de vontade política para virar essa página. Em geral, violência doméstica contra a mulher é assunto tratado com importância menor pelo conjunto das autoridades e amplos setores da sociedade.

Prevalece um pensamento de que as mulheres vitimizadas o são porque querem ser e com ele mantém-se o alimento de uma cultura de violência naturalizada, reforçada pela mídia e pela publicidade.

O movimento de mulheres local/regional é convocado a olhar com atenção ampliada e levar de volta às ruas as bandeiras de luta (pela qualificação dos agentes públicos que atuam nessa área, por espaços físicos dignos  para receber e atender as mulheres vitimizadas, para que programas de governo contemplem essas mulheres).

Estudos mostram que, em todo o mundo, em pelo menos 80%  dos casos de assassinatos de mulheres a motivação é a tentativa delas de encerrar um relacionamento. Aquelas que não são mortas de imediato passam a viver um longo processo de violência traduzida numa outra forma de matar.

No 25 de novembro, milhares de mulheres organizaram mobilizações em várias regiões do mundo para marcar o Dia Internacional pela Não-Violência contra a mulher. Está nas ruas e nas praças, na Internet, a campanha “quem ama abraça, pelo fim da violência contra a mulher”. Mulheres e homens estão sendo convidados a abraçar a causa. Olhar em casa, no trabalho, na escola, na vizinhança, ser parte de um outro elo de promoção e de zelo por uma vida sem violência.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Melzinha e Segundinho


Neuton Corrêa*

A Mel chegou em casa ainda bebê: fofinha, chorona, tola e manhosa. Uma dessas manias nunca perdeu: esparramar-se ao chão até que alguém a carregasse. Nem gritos para repreendê-la nem palminhas davam jeito. Era uma menina cheia de vontade.

A Mel foi a companhia e o xodó de meu filho, Neuton 2º, em curtíssimos dez anos. Fotos de um álbum só dela registraram a amizade e a cumplicidade em peraltices que juntos aprontavam. Em uma dessas imagens, apareço dormindo numa rede e os dois atrás de mim fazendo chifrinhos.

Ela sentia minha presença a distância. Minha esposa cansou de ganhar apostas, observando a Mel anunciar que eu estava chegando. Bastava ela levantar a cabeça e correr para o portão, barulhando as unhas no piso que a Darci dizia: “O passageiro-repórter está chegando! Quer ver?”. E, minutos depois, a visão se confirmava.

Mas a vida da Mel não foi só de maravilha. Em 2006, por descuido, perdemos nossa parceirinha. Ela foi raptada num domingo de muita tristeza para a família. E reanimou a casa cinco meses depois, pulando e batendo no portão num domingo inesquecível. Era Dia das Mães e ela foi o melhor presente que se poderia dar e receber naquela data.

O Segundinho ainda estava dormindo quando ela retornou, mas não perdi tempo em avisá-lo. Os olhos dele brilharam nublados, como num dia de Sol e chuva. Nesse dia de choro de alegria, o Segundo até dispensou brincar com outros colegas.

Mas a Mel não chegou tão bem. Deu apenas um sorriso, parecendo ter agradecido a calorosa recepção que recebera, porém, depois da festa, mergulhou numa profunda depressão. Ela se recolheu a um cantinho e por cerca de dois anos não se ouvia nenhum barulho da Mel. Eu até achava que ela havia ficado muda.

A única coisa que fazia, quando a gente se aproximava dela, era colocar a mãozinha direita em seu rostinho, baixando a cabeça e tremendo os olhinhos. O dia em que voltou a falar foi outra festa para nós. Daí em diante, recobrou o ânimo e até a mania de se jogar no chão voltou a usar, dessa vez acrescentando uma submania: colocar a língua pra fora.

A vida, no entanto, reservara-lhe outro problema. Aos poucos, foi perdendo a visão e, nos últimos anos, percebemos que ela só andava se orientando (e muito bem) pela pontinha do focinho.

Ah, já ia esquecendo. Mas a Mel também era companhia de minha sogra, a Dinoca. E se tratavam como gente grande.

Na semana passada, no Dia de Finados, a Mel se despediu deste mundo e nos últimos momentos de sua vida tentei confortá-la, mas não conseguia. Seus suspiros finais sopravam em meus olhos uma profunda certeza do adeus. Do nunca mais.

O Segundo nem quis ver o passamento dela, e eu, para fingir ser forte, na frente de parentes e amigos que estavam em casa, fiz uma sussurrada despedida, erguendo uma represa para conter a correnteza que se formava em mim.

Mas, amigas e amigos do busão, a água represada transbordou em meus olhos esta semana, quando peguei o busão, acessei o Facebook pelo meu telefone e abri um post que o Segundinho acabara de publicar.

Lá estava a foto da Mel esparramada ao chão de barriga para cima, com as patinhas no peito, os olhinhos entreabertos, fazendo carinha de tolona. E, abaixo da foto, ele escreveu: “Uma cadelinha feliz, uma boa menina. Assim termina sua vida. Sentiremos muito sua falta, Melzinha…”

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Dores da alma

Neuton Corrêa*

Vai fazer dois meses e ainda hoje continuo sem saber o que dizer para aquele homem. Sou péssimo nesse negócio de manifestar sentimentos com palavras faladas. Condolência, por exemplo, evito, mas admiro quem a expressa. E olha que tem gente que o faz como se há muito estivesse esperando a notícia apenas para dizer, solenemente: “Sinto muito, aceite minhas condolências” ou “aceite meus pêsames”.

Já contei para vocês, aqui na “Crônicas do busão”, no início de nossos encontros de todos os sábados, há três anos, a história de dona Varlinda que caça velórios apenas para dizer à família do morto, com muito dó: “cuinfeito (com efeito), ainda ontem vi esta pessoa por aqui”, mesmo que não conhecesse o falecido.

Minha sogra, Dinoca, também tem grande experiência nessas coisas. Ela é um obituário ambulante. Sabe tudo sobre quem morreu ou está para morrer. De tanto eu zoá-la por causa disso, ela parou um pouco, mas antes, ela só puxava conversa com outros assim: “Sabem quem morreu?”

O noticiário preferido dela é o caderno policial. E, quando conhece o morto ou a família do morto, não pensa duas vezes em fazer uma ligaçãozinha para prestar solidariedade. Ela tem uma frase pronta que eu já decorei: “Querida (sempre ela começa assim), pôôôôôxa!!! Coitado do fulano! Me conte como foi?”.

Era essa disposição, de perguntar como foi e depois dar um “cuinfeito”, que eu precisava naquele último dia 7 de Setembro, quando aquele homem começou a contar a história que viveu há 55 anos em um seringal no interior do Estado, na calha do rio Madeira. Ainda me lembrei da Dinoca, mas não tive coragem de perguntar o que havia acontecido. Na verdade, nem era problema de coragem. Acontece que a história deixa qualquer pessoa sem saber o que dizer.

Ele não estava na conversa. Naquele dia, eu havia saído do Sambódromo, após a parada militar do Dia da Independência e tomado um ônibus com um colega de profissão, o Bosco, com quem certamente eu falava alto no ônibus por causa do busão superlotado. O Bosco me abordara sobre a saúde dos meus pais:

- E aí, como estão os velhos? (Já havia contado para ele que meu pai estava com complicações de próstata). E eu, mais pelo costume do que pela realidade dos fatos, respondi:

- Estão bem.

- Graças a Deus…

Nem o deixei concluir o raciocínio e contei.

- Na verdade, não está tão bem.

- Piorou!?

- O tratamento com remédio não deu jeito. Ele teve que se operar. Faz dois dias.

O Bosco, então, replicou:

- Pô, cara, perdi meu pai. Deus levou o velho Atalaia. Ele já estava bem velhinho, mas eu senti muito, porque eu fiz de tudo para que ele ainda estivesse por aqui.

Depois disso, senti que meu amigo fez uma pausa esperando que eu o confortasse, mas o mal de travar as palavras nessa hora me acometeu, porém fui salvo por aquele moreno que atentamente ouvia nossa conversa.

Ele, reduzindo o vazio que se abria no diálogo, falou:

- Sei o que vocês estão sentido. Isso é triste! – lamentou com uma breve pausa e depois continuou – Mas vocês não sabem o que é perder oito irmãos e o pai… de uma só vez. Só sobrou eu e minha mãe.

Eu travei a língua e o Bosco não conteve as lágrimas. Em seguida, desci para fazer integração com outro busão.

*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Antes da morte

Neuton Corrêa*

Já testemunhei e ouvi fatos de pedidos que se fazem antes da morte. É claro que são apelos de pessoas que sabem que a única solução para a vida, naquele extremo instante, é a morte. Mas desejar ver um policial antes da derradeira viagem era a primeira vez. Aconteceu a bordo do 125, véspera do feriado do Dia da Criança.

Não escutei a conversa inteira, apenas um pedaço. E esse pedaço, uma súplica: “Senhor, antes ‘deu’ morrer, mande-me um policial, ao menos um policial”. A própria frase saía espedaçada: o vocativo (senhor), ofegante e, talvez por isso, a pronúncia das orações seguintes tenha vindo emendada, para esperar longamente o complemento da sentença (ao menos um policial).

Depois disso, o passageiro desceu à altura do bulevar Álvaro Maia, em frente ao primeiro portão do cemitério São João Batista, dando apenas um “tchau” bem baixinho, quase sussurrado, para a pessoa que lhe ouvia.

Tentei imaginar o que poderia ter acontecido àquele homem, mas o barulho do motor e o silêncio de vozes da ausência de passageiros na linha universitária em véspera de feriado eram as únicas coisas que se podiam ouvir.

Até poderia perguntar ao estudante que ficara ali (acho que era um estudante, porque ele estava com bolsa e lia um texto pintado de cores luminosas), mas não me senti encorajado. As linhas da área central não são como as de periferia, onde todo mundo conversa de tudo e fala de todos sem cerimônia.

Então, passei a conjecturar coisas para tentar alcançar um raciocínio que me pudesse fazer imaginar a situação que aquele homem alto e forte, no vigor físico de sua idade (não creio que ele tivesse mais de quarenta anos), tivesse vivido para implorar a Deus o último desejo de sua vida.

Aquela frase, “senhor, [...] ao menos um policial”, martelou meu juízo por alguns instantes, ainda mais porque um dia antes, uma conhecida da família, após longo sofrimento, recebera a notícia de que sua pressão estava 7 por 4 e que sua partida era questão de horas (no máximo).

A velha amiga, então, preparou-se. Chamou os filhos, primeiro um a um. Não eram tantos, apenas três, que não se falavam depois de um bate-papo que deixou a casa deles como um campo de guerra com pedaços de paus e facas atiradas para todos os lados. Mas, no fim, a morte acabou unindo-os, atendendo ao pedido da mãe.

Eu também fiquei imaginando qual seria meu último desejo. Pensei, pensei e pensei. Se fosse hoje, nem pensaria duas vezes. Rogaria a Deus, honestamente: “Deus, meu amigo, deixe-me aqui”. E se ele não atendesse minhas preces faria o que mandou fazer um conhecido cidadão de minha terra, que pediu aos filhos, e foi atendido, que se mandasse escrever em sua lápide: “Aqui, jaz, muito contrariado, Otávio Guedes de Araújo”.

Depois disso, recobrei o juízo, dei três cascudinhos no banco do ônibus e voltei a pensar na frase: “Senhor, antes de eu morrer, mande-me um policial, ao menos um policial”, decido a perguntar de meu parceiro de viagem sobre o que aquele homem havia falado, mas, quando me encorajei, que me aproximei, o passageiro se levantou e puxou a cordinha para desembarcar.

*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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