O terrorista

Neuton Corrêa*

Alguma coisa deve ter traumatizado o Juliano Petro Velho. À noite, quando já está recolhido, qualquer coisa o assusta, até mesmo o sopro de uma brisa fina na janela de seu quarto o faz tremer. Mas isso não tem sido tão ruim em sua vida. Graças a esse problema salvou seu casamento em uma aguda crise no relacionamento.

Nessa época, ele ainda morava perto de casa e, há alguns dias, estava em crise com a esposa, Katyane. Ah, preciso fazer esse registro antes de seguir a história. Os dois se conheceram na infância; na pré-adolescência, começaram a namorar; aos 17 anos, foram morar juntos; e, aos 30, casaram-se.

Eles não se falavam há dias e, naquela noite, as coisas atingiram o limite. O Petro Velho chegou meia-noite em casa, para o tudo ou nada: xingou e foi xingado; ameaçou e foi ameaçado; tentou seduzir, mas dona Katy não cedeu. Ele, então, estufando o peito e engrossando a voz, decretou: “Se for assim, não fala mais comigo”. E dormiu.

Mas, lá pelas tantas da madrugada, observando o relógio rodar sem conseguir dormir, Katyane ouviu movimentos no quintal e percebeu que a fechadura da porta da casa estava sendo forçada. Naquele instante, ainda lembrando a briga, hesitou em avisar o Petro Velho, mas depois deu o braço a torcer e, tremendo, cutucou o parceiro, sussurrando:

- Juliano! Juliano!

E ele, achando que ela havia cedido aos seus encantos, quis se valorizar:

- O que é? Agora quem não quer sou eu!

Ela imediatamente sussurrou:

- Tem gente querendo entrar em casa.

E ele, num abrupto reflexo, abraçou a parceira de cama e, como o milagre da transformação da água para vinho, afinou a voz e sussurrou longamente:

- Onnnnndee!!!!

Katyane não se segurou e deu uma gargalhada que deve ter assustado o ladrão.

Conto essa história porque esta semana encontrei o Juliano, que agora é vereador em Parintins. Assim que a gente se encontrou, ele contou:

“Rapaz, pois não é que o ladrão entrou em casa, de novo, e, por pouco, não virei um assassino? A gente tinha acabado de chegar da festa, umas duas horas da madrugada. Quando estava deitado, ouvi um barulho no quintal. A Katyane, também, e me olhou no mesmo instante, assustada.

Meu compadre, eu disse: ‘É ladrão e está rondando a casa. É um bandido perigoso e já matou os cachorros’. Eu falei isso porque nem o Fiuk nem a Miúcha latiam. O ladrão rodeava e casa: dava três passos e batia no piso. Aí, eu pensei: ‘esse cara quer me assustar e depois me matar. Mas eu não pensei duas vezes, peguei o telefone e liguei pra Polícia, mas não completava a chamada. Aí, eu comecei a tremer nas pernas.

Como o bandido continuava rondando a casa, assustando a gente, eu disse: ’Katyane, traz o Luan (filho) pra cá e vamos trancar o quarto‘. E assim fizemos. Empurramos mesa, cama, cômoda, guarda-roupa. Tudo! E disse: ‘aqui ele não entra!’

Compadre, aí deu três horas, deu quatro, deu quatro e meia… Liguei pro meus amigos e ninguém atendia. E o ladrão continuava rondando a casa. Andava e batia no chão.

Quando deu cinco e meia, eu decidi: Katiane, eu vou matar esse terrorista. Combinei com ela: na hora que ele passar por aqui (eles já estavam na cozinha), tu abre a porta que eu vou lá dar uma facada nele. E assim, combinamos. Dei um beijo de despedida na minha velha, porque eu poderia me dar mal. Mas quando ele passou dando pegadas pela porta, e que a minha velha abriu a porta, eu não tive coragem e pensei: ‘deixa eu primeiro olhar pela brecha da janela pra medir o tamanho desse bandido’.

Quando olhei, meu compadre, com o dia claro, dei de cara com o bandido perigoso: Pois não é que era um tracajá que me deram no interior, que andava e batia o peito no piso, mas fazia isso parece gente?”

Meu amigo Petro Velho não teve coragem de matar o bicho de casco e mandou soltar o quelônio no lago do Macurany.


*Filósofo e escritor.

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O homem-Onça

Neuton Corrêa*

O homem sentado no cantinho do busão me fez lembrar do Maneco, o Homem-Onça. Talvez a lembrança fosse porque o passageiro estava exatamente do mesmo jeito que o Maneco estava a última vez que o vi na cabeceira do rio Uaicurapá, zona rural de Parintins. Esse passageiro vestia bermuda, camisa desbotada do Flamengo e grudava ao ouvido a um rádio de pilha.

Assim estava o Maneco quando fui apresentado a ele em abril do ano passado. Para ser mais preciso: às três da tarde do dia 30 de abril, um sábado. Era festa de padroeiro na comunidade, mas, mesmo com a movimentação do povo, o Maneco mantinha-se imóvel e distraidamente sorridente ouvindo a narração de uma transmissão esportiva.

Eu estava só de passada por ali, mas, tão logo desembarquei da voadeira, meu amigo Juliano, que me convidara para a viagem, interrompeu o rumo em que caminhávamos e, puxando-me para o sentido contrário, disse: “Vem cá que eu vou te apresentar o homem que lutou com a onça”. O Juliano falou isso perto do Maneco, a quem pediu o testemunho:

- Não é verdade, Maneco, que você é caçador de onça?

E o Maneco, desgrudando o rádio da cabeça, respondeu meio assoviado por causa da dentadura que quase caía de sua boca.

- É verdade!

E o Manoel Rodrigues, este é o nome do Maneco, um sujeito de mais ou menos 60 anos de idade, moreno e rústico, de braços que não abriram espaço para nenhum pedacinho de gordura, começou, calmamente, como o lugar onde mora, a contar suas caçadas aos felinos.

A primeira e a mais marcante delas aconteceu quando ele ainda estava com 27 anos. Maneco se recorda bem da idade, porque naquele ano havia se casado. A caça era para festa do padroeiro. Cinco homens saíram para o mato. Estavam armados de espingardas e acompanhados de cães caçadores.

À certa altura da caça, o cachorro que lhe acompanhava acuou e passou a seguir uma presa. Era um veado. Quando percebeu que se tratava de um animal de grande porte, no ímpeto de sua juventude, resolveu acompanhar o cão até que o veado ficasse acuado em meio a uma galhada de uma enorme árvore caída na floresta.

Observando a galhada a distância e ouvindo o cachorro latir, Maneco gritava para que o cão continuasse cercando a presa. Mas, ao chegar perto da árvore caída, o caçador ouviu um latido desesperado e, após o desespero, o silêncio do animal.

Maneco não teve dúvida. “Era uma onça”, asseverou. Mas não pense que se intimidou. Não! Ele municiou a espingarda e rondou a galhada à procura da onça. O problema foi que a onça o surpreendeu antes e, assustado, Maneco fez um disparo que apenas raspou o couro da onça, deixando o animal ainda mais furioso.

- Ela veio pra cima de mim. Aí nós começamos a brigar: brigamos, brigamos, brigamos até eu e ela se cansar.

- Como? Perguntei, tentando entender. E ele:

- Minha preocupação era segurar a pata do bicho. Eu sabia que, se ela tocasse a pata em mim, não tinha jeito. E usei a arma pra me defender.

E continuou:

- Teve uma hora que ela veio pra cima de mim e, pra me defender, coloquei o cano da espingarda na barriga dela e ela voltou. Ficamos mais uma hora brigando, até ela me respeitar. E ela me respeitou!

- E aí, pergunto ao Maneco se ele ainda continuou saindo pra caçar e ele respondeu:

- Tenho evitado, parente, porque toda vez que saio à noite pra caçar morre um cachorro e amanheço sem saber onde estou.

Lembrando do Maneco, nem vi o que aconteceu com o flamenguista do busão.

*Filósofo e escritor.

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Ética e política: uma aula de Português

Darlem da Silva Monteiro*

Na preparação das aulas de acentuação, procuro sempre antecipar (ainda que mentalmente) um elenco de vocábulos com um mesmo padrão sistemático de acentuação gráfica, para não dar aquele “branco” lacunar na hora de provar os argumentos e a lógica das regrinhas gramaticais.

À guisa de exemplo, para as palavras oxítonas sempre vêm “paletó”, “guaraná” e às vezes “mané”.  Para as paroxítonas… Bem, para essas a lista é bem mais esticada.

Pensando nas proparoxítonas, veio-me à mente “política”. Em seguida, por uma razão que só Freud poderia explicar, “ética”! Seria muito fácil, para qualquer um (inclusive professor de Português!), construir uma oração, na qual essas palavras se relacionem muito bem sintaticamente. Difícil é demonstrar onde, na realidade fática (e às vezes fatídica) dos alunos, elas figurem juntinhas de verdade.

Se isolar os termos, um dicionário resolve. “Política”, ciência dos fenômenos referentes ao Estado e arte de bem governar os povos. “Ética”, juízo de conduta humana relativa às faculdades morais, do ponto de vista do bem e do mal, do certo e do errado, etc. Pronto, moleza! O problema é unir essas palavras. Separadas são apenas acepção; juntas, revolução. Quem quer se meter num assunto desses, numa aula de acentuação, às 9 da noite…?

– Talvez se eu colocasse num período “política” perto de “paletó” e “guaraná”, facilitaria para eles e para mim – pensei –, pois eles já sabem que quem anda envolvido com política, usa paletó e gosta de um “guaraná”. De quebra, aprenderiam o que é “período composto” e com um verbo transitivo indireto, pois na política as coisas “transitam indiretamente”. Logo, “quem gosta” deve gostar “de alguma coisa”.

Faltaria a oxítona terminada em “e”. Onde colocar o “mané”, então? Juntinho de ética, claro! Por que não pensei nisso antes?! Onde mais poderia andar o mané nesse país senão do lado da ética? Logicamente, não vou me preocupar em explicar o que (o) “Mané” está fazendo aí. Elementar coincidência. Melhor é mostrar como é interessante que o e é aberto em ética no início e o de mané no fim, para não ter trabalho com outras discussões. E país…? Bem, o que há nesse caso é apenas um grande hiato que separa os pólos silábicos, políticos e éticos, entre paletós e manés.

*Licenciado em Letras pela Ufam, especialista em Língua Portuguesa pela Ufam, Professor de Língua Portuguesa no Ensino Público Fundamental.

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O barco do asfalto

Aldenor Ferreira*

Toda semana tenho que pegar o busão intermunicipal para ir à aula na Unicamp, já que agora estou morando em Jaboticabal (SP), a terra da cana-de-açúcar e do amendoim, distante 260 quilômetros de Campinas.

Na minha primeira viagem, com o trajeto ainda inédito, comprei um bilhete onde pudesse sentar na cadeira da janela para apreciar bem a paisagem. E de fato fiquei apreciando tudo, de um lado e de outro das rodovias Washington Luis e Anhanguera, importantes rodovias que ligam o interior do Estado à capital.

Amigos do TEXTOBR, a paisagem é monótona, possui uma única cor e uma ausência. A cor é o verde, da imensidão das plantações de cana-de-açúcar, paisagem humanizada que mostra a força do agronegócio na região. Quanto à ausência, esta é de fácil percepção, ou seja, nada de florestas, apenas pingos de matas, tristes e isolados uns dos outros, como se fossem as lágrimas do Criador caídas ao chão.

Logo de imediato lembrei de Antônio Carlos Belchior, naquela sua modinha chamada “Fotografia 3×4”. No primeiro verso dessa canção o poeta diz: “eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei; jovem que desce do Norte pra cidade grande; os pés cansados e feridos de andar légua tirana; e lágrima nos olhos de ler o Pessoa e de ver o verde da cana…”. De fato foi um momento de emoção.

O itinerário do busão é planejado para que o mesmo pare em várias cidades que se localizam às margens das rodovias acima citadas. O silêncio interno do busão, com suas poltronas reclináveis, onde todos dormiam ajudados e embalados por um potente condicionador de ar, possibilitou-me divagar e voltar à infância.

Nesse ambiente tranquilo, lembrei das viagens que fazíamos todos os meses do Aduacá para Parintins. A cena é a mesma, só que lá viajávamos no barco de recreio que, ao longo dos anos, tal qual o busão, também foi evoluindo.

De um motor 4 Yamaha, para um 25, depois para um 52 e até quando viajei, para um 114 MWM. As viagens que duravam até 12 horas, hoje duram a metade. Ao longo do Paraná do Cabori várias comunidades, vários portos, rica paisagem e muitos embarques e desembarques.

Quando saíamos no rio Amazonas a mesma coisa. Então, mentalmente transladei o Paraná do Aduacá para São Paulo e conclui: aqui os paranás são as rodovias, as comunidades são as cidades e o barco é o busão, “o barco do asfalto”, até o ronco do motor é parecido. Cada manobra de entrada e de saída das rodoviárias das cidades me remetia às mesmas manobras do comandante do barco Cel. Tavares.

E a viagem seguia; vários portos, várias comunidades, muitas manobras, muitas rodoviárias. Aqui, como lá, a cada porto uma parada, muitos embarques e desembarques, todos carregados de sonhos e esperanças.

Aqui como lá, há alegrias de chegadas e tristezas de partidas, todos esses pontos comuns apontam para uma mesma realidade, ou seja, tanto aqui, quanto lá, todos estão inseridos nessa colossal máquina da vida. Sem dúvidas foi uma viagem recheada de lembranças e comparações, sem água, e com muito asfalto.

*Sociólogo, mestre em Sociedade e Cultural/Ufam; dourando em Sociologia pela Unicamp.

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Ré-tchem-tché

Neuton Corrêa*

Entretidamente, três amigas embarcaram no ônibus falando alto e pouco se importando com o busão lotado. Como falavam, falavam e falavam, detive-me com outras coisas. Porém, a certa altura da viagem, quando boa parte dos passageiros já havia desembarcado, escutei uma delas dizer: “Ela matou a jornalista”.

A frase não apenas aguçou minha atenção, mas, também, deixou-me com as mãos e os pés gelados por trazer uma informação do meio profissional em que atuo. Para começar, tenho dezenas de colegas jornalistas e, por isso, logo preparei o telefone esperando que ela dissesse algo mais para que eu buscasse outras notícias.

A sequência da narração que ela fazia, contudo, permitiu que eu respirasse aliviado, mas, ainda assim, fiquei impressionado com a performance que exibiu para contar o capítulo da noite anterior da novela. Parecia ser ela mesma quem havia segurado o travesseiro para sufocar a repórter dentro do hospital.

A riqueza de interpretação me trouxe à mente o esforço que a garotada de meu tempo fazia para assistir aos filmes do velho oeste americano, exibidos nos saudosos Cine Saul e Cine Oriental. Eu já não me recordava mais disso, mas o conterrâneo (o mais famosos de todos) Chico da Silva, há poucos dias, contou detalhes de como isso se dava.

Na verdade, segundo o Chico, nem todo mundo, naquela época, conseguia vender tucumã e picolé suficiente para comprar o ingresso. Então, para não perder o filme nem “furar” o cinema, a curuminzada se cotizava e elegia um que depois soubesse contar para os que não entraram ao que havia assistido.

E não pense que a turma se contentava apenas com a narração, conta o Chico. Dependendo da história, fazia-se até montagem de espetáculo com direito a cenário e personagens que Hollywood mandava para o interior da Amazônia nos antigos rolos de películas que circulavam o mundo todo.

Um desses episódios o Chico contou assim, com sua voz inconfundível:

“Era um daqueles filmes de guerra de índios contra o exército americano. O Narciso foi escalado para assisti-lo e, quando voltou, levou a turma para a praça pra contar a história. Aí, num círculo, fez aquele ritual: uns se fantasiaram de índio e outros de soldado.

Ficaram divididos. De um lado, os índios; de outro, os soldados. E, no meio, sentados, ficaram um chefe sioux, um chefe cheyenne e um chefe apache, que conversavam com um general da brigada americana do Western por intermédio de um tradutor, que ouvia as lideranças e falava para o general e, no sentido contrário, ouvia o general e falava para os chefes.

Era uma guerra por território. Os líderes estavam reunidos para decidir se iriam ou não para o combate. Aí, o tradutor ia e vinha; ouvia as palavras enroladas das lideranças e depois falava para o general, que sempre perguntava: “O que ele disse?”

Na primeira pergunta, o tradutor respondeu: “O chefe siouxdisse que, em memória dos jovens que morreram em combate, ele não aceita levar seu povo para guerra”. Na segunda, ele traduziu: “O chefe cheyenne disse que, por seu território, ele vai para guerra para honrar a terra em que vive”.

O problema foi quando o tradutor ouviu o chefe apachedizer: “Ré-tchem-tché”. O general perguntou: “O que ele disse?”. Sem saber responder, ele olha novamente para o apache, que, irritado, dançando em círculo e batendo sua lança no chão, começou a cantar:

Ré-tchem-tché; Ré-tchem-tché;

Ré-tchem-tché; Ré-tchem-tché.

O general outra vez perguntou o que ele havia dito e o próprio chefe apache respondeu, cantando: “Vai quem quer; Vai quem quer”.

*Filósofo e escritor; mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Para Benúdia

Ivânia Vieira*

Benúdia tinha um sonho: vir ao Amazonas. Talvez ficasse apenas em Manaus – pedaço menor e o mais dominador desse imenso território. Na cidade, buscaria um lugar para melhor ver o rio Negro, o “mais lindo rio do mundo”, como o apresentamos no passado. Talvez saísse triste pelas tintas carregadas em coisas tão feias.

Esse jornalista angolano, guerrilheiro e, depois, parte do ‘governo revolucionário’ virava menino quando falava das histórias contadas pelo pai sobre o Brasil e o Amazonas, espécie de terra prometida.

Morto há pouco mais de dois anos, Benúdia não conseguiu chegar até aqui. Apenas espalhou seus sonhos, desejos, projetos e, em meio as marcas deixadas pelas guerras para libertar Angola, não perdeu a capacidade de ter compaixão. Olhava atento para os dramas de outros povos, transpunha-se até ser um deles e se perguntava: “o que posso fazer para ajudá-los a superar essa angústia?” Nessa inquietação que o acompanhou sempre percorreu o mundo de guerras e escreveu em meio a agonia da sua existência sobre as longas trilhas a serem vencidas na construção de um estado de paz.

As exigências à construção da paz estão postas para os governos, os jornalistas, os intelectuais, os artistas, os empresários, a sociedade organizada em todo mundo, em todo lugar. E a intolerância é uma das mais cruéis barreiras para essa obra.

É profundamente destrutível. Humanos condenando humanos a uma sub-humanidade, negando o direito do ser uma pessoa e, por isso, portadora universal de uma dignidade que não pode ser aniquilada, desqualificada.

Os povos indígenas do Brasil, os caboclos sabem, em grau diferenciado, o tamanho da dor causada, das vidas perdidas por esse motivo articulado a projetos de dominação de uns poucos sobre muitos. Até hoje, nesse novo milênio de triunfo da ciência e das novas tecnologias, a ignorância alimenta a intolerância e esta justifica a cultura de guerra, das políticas de segregação – um triunfo e uma denúncia de como os humanos podem ser miseravelmente desumanos.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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A revolucionária

Aldenor Ferreira*

Em um final de tarde de muita chuva, aqui em Campinas (SP), o trânsito ficou complicado, como ocorre em qualquer cidade grande brasileira. O problema é que eu havia de enfrentar esse caos, pois tinha que voltar para casa e, nesse sentido, só há um jeito: embarcar no 332 para fazer baldeação no terminal de Barão Geraldo e pegar 331 e ir para casa.

Por volta das 17h, é natural que esses ônibus estejam lotados, pois todo mundo está saindo da universidade. Até aí tudo bem. É a rotina dos universitários menos favorecidos que dependem do busão ou dos que optam por se deslocar por essa modalidade de transporte.

Mas, naquele dia, uma coisa me incomodou muito. Na verdade, inquietou-me demais, fazendo-me pensar e indagar o porquê daquela correria.

Tratava-se da indignação de uma senhora, que aparentava ter uns 35 anos, magra, estatura mediana, cabelos à altura do ombro, carregando uma bolsa na cor cinza e com um semblante extremamente indignado.

E ela, ainda na parada, já questionava o porquê do busão estar demorando tanto. “Isso é uma falta de respeito com a gente”. E continuou: “Eles têm que colocar mais ônibus! Como é que pode a gente ficar aqui pegando chuva e sol, esperando mais de uma hora?” Ela falava e tentava achar um olhar que a “ouvisse” e que a voz fizesse coro com a dela, mas ninguém a olhava nem lhe dava a atenção que esperava. Até eu, inclusive, calei.

Depois de algum tempo, o busão apareceu e embarcamos. Então, pensei, agora ela vai se acalmar, pois já está no ônibus e, com certeza, sua angústia passará, conjecturei. Engano meu. Ela continuou indignada e as críticas ao sistema continuaram em voz cada vez mais alta.

Dessa vez, porém, ela encontrou ressonância, contudo, de forma muito tímida, apenas monossílabos, do tipo, “é”, “sim”. Suas críticas continuaram até o terminal, mas, antes de chegar ao ponto, ela então começou a convocar deliberadamente os passageiros, 90% estudantes universitários de diferentes níveis (graduação, mestrado e doutorado), para ir até os fiscais do terminal e denunciar o número reduzido de carros, bem como a demora, e outros problemas.

Ela dizia: “nós temos que ir lá com os fiscais e cobrar deles, se todo mundo for lá e pressionar e protestar, eles vão tomar uma atitude”. E prosseguiu: “Vamos lá, todo mundo, hein? Assim que desembarcarmos, vamos todo mundo lá”. Todavia, ninguém se manifestava em apoio.

Ela seguiu tentando cooptar aliados até chegar ao terminal. Tentou inclusive comigo, mas não obteve sucesso.

Quando o ônibus chegou ao terminal, todo mundo desembarcou correndo para pegar os seus respectivos ônibus. Então, acho que ela desistiu. Eu, envolvido naquele mar de gente, perdi a mulher de vista e corri também para pegar o 331, que estava quase saindo.

Aquela cena, porém, incomoda-me ainda hoje. Como pode um monte de gente tão esclarecida ser tão inerte e mansa, em contraponto àquela mulher que, nitidamente, sem muita instrução, tinha um poder de indignação tão grande.

Pensei no sociólogo italiano Antonio Gramsci e seu conceito de intelectual orgânico, mas isso é assunto para outra conversa

*Sociólogo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam), dourando em Sociologia (USP).

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Elis, uma saudade plural

Ana Celia Ossame*

Depois de 1982, o mês de janeiro nunca mais foi o mesmo. As chuvas, comuns desse período, encharcam a saudade e uma melancolia paira sobre as canções marcadas pela voz e emoção de Elis Regina de Carvalho Costa.

Se Elis nasceu para pássaro, não tenho como afirmar. Sei que seu canto continua vivo nas coletâneas preservadas pelos milhares de fãs que, de quando em quando, deliciam-se com as músicas eternizadas pela cantora. A lista é enorme e ela, que passeou por vários gêneros musicais, cantou a alma dos brasileiros em canções como “O Bêbado e a Equilibrista”, “Como Nossos Pais” e “Madalena”, para citar algumas canções que depois, cantadas por outras e outros, demonstraram que a interpretação dela foi definitiva.

Nada contra Gal, Bethânia, Marisa… Mas sei que parece repetitivo dizer que raras cantoras conseguiram, como ela, unir técnica e emoção na medida certa para fazer não só produzir faíscas, mas incendiar corações e almas com um canto perfeito e irretocável de letras bem escolhidas. Não é demais afirmar que não houve cantora com a capacidade dela de garimpar, no universo de compositores, tantos talentos autorais formidáveis como Gilberto Gil, Milton Nascimento, João Bosco, Aldir Blanc e Belchior.

O poetinha Vinícius de Moraes a chamava de “Pimentinha” e a roqueira Rita Lee de “Elis-cóptero” para citar alguns que, tocados pelo brilho da estrela, viram a Elis como um sinal do novo, do raro, do único. Elis estará sempre na memória da música porque, insuperável, deu um tom especial ao que cantava.

Neste janeiro de 2012, três décadas depois de sua partida, inusitada num acidente fatal com a ilusão do ópio, não é demais afirmar que na Música Popular Brasileira (MPB), o título de melhor cantora e intérprete ainda é dela. Quando arrancava lágrimas ao cantar “Atrás da porta” e nos levava ao palco de suas mais profundas emoções assim, no plural, como o seu nome, Elis.

*Ana Celia Ossame é jornalista.

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As louças verdes

Ivânia Vieira*

Estava guardado em um armário velho esperando um momento especial para ser colocado à mesa. Assim tinha sido nos dois últimos Natais. Afinal, esse, sim, era um grande evento e merecia ter à mesa as louças em cor verde-folha. Elas tinham o “poder” de ajudar a temperar o clima de festa e embelezar o espaço onde eram colocadas: uma animação a mais para olhos, corações e estômagos famintos.

Dessa vez, as louças verdes foram descobertas antes das datas especiais e todos os dias serviam de abrigo para algum alimento no café da manhã, no almoço, no jantar e nas merendas. Para os visitantes da casa elas eram apenas louças e deveriam ser usadas conforme a demanda do dia e não em função de um evento. E assim fizeram.

A preocupação, nos primeiros dias, com o fim das louças verdes, agora tão usadas a cada instante pelos adultos e pelas crianças, deu lugar a uma tentativa de proteção para evitar o pior: a destruição em série dos pratos grandes, dos pequenos e das três tigelas (as peças mais requisitados).

Então, nessa espécie de agonia preventiva, o jeito era lavar imediatamente após o uso e colocá-las por trás das outras louças – as do dia a dia – também guardadas no velho armário. Assim, haveria mais dificuldade na retirada delas para uso diário.

Não deu certo. Todos os dias, nos diferentes horários, o vai-e-vem das peças continuava a acontecer de forma natural. Ironicamente, as de uso diário é que ficaram de lado, embora estivessem ali na primeira fila, facéis de serem manuseadas.

Nesses dias, alguns objetos quebraram. E com eles quebraram-se resistências, ideias foram desfeitas e conceitos desmantelados. Os momentos especiais ganharam outra compreensão, sem data e sem horário. Aconteceram, acontecem.

As louças verdes puderam testemunhar vários deles, outros não, porque não tinha louça alguma quando eles ocorreram. Apenas a presença, os gestos, as palavras. A reviravolta na casa mostrou a aventura vivida em torno das coisas que dão vida à vida.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Para as meninas

Ivânia Vieira*

Talvez o tempo tenha passado e nós não tenhamos percebido o ritmo. As perdas se ampliam e se diversificam enquanto a jornada da vida exige exercícios mais intensos. Esse 2011 é uma  maratona. Não sei se das mais dura ou se das mais sentidas.

A largada, em janeiro, teve brinde de esperança mas os acontecimentos nessa maratona engoliram o tempo de enfeitar a casa, construir a árvore e organizar a flora e a fauna numa versão amazônica do ritual do presépio; não permitiram as visitas nem a celebração dos encontros aguardados com tanta saudade apesar de estarmos na mesma cidade.

Estão distantes o som da voz e das gargalhadas das minhas amigas e minhas companheiras de lutas e de sonhos. Enredadas numa outra peleja emudecemos um pouco mais, deixamos a distância tomar conta das nossas vidas e, com ela, o tempero da existência tornou-se insípido. O olhar ficou embaçado.

A marotona de 2011 nos desafia. Triplica os obstáculos e tenta esticar o percurso. É possível que a árvore, desta vez, não seja montada e o presépio engraçado se realize apenas na lembrança. É possível que as paredes de dezembro permaneçam desnudas e os enfeites guardados em uma gaveta.

Pode ser que a nossa teimosia seja reanimada. Então, para quem já enfrentou tantas outras maratonas, a de 2011 é apenas mais uma. Doída sim, deixando marcas no corpo e na alma, mas não como derrota. A distância e a saudade dos encontros, das brincadeiras e dos saraus serão superadas porque mesmo nesse grande aperto as oportunidades do encontro se insinuam para aquietar a onda de desencontros dessa temporada.

Ontem, na noite tarde, até uma lua em êxtase fazia sinal para terra em agonia. Foi possível percebê-la, renovando o pacto de que a vida vai triunfar e a amizade tem um outro tempo.

Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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