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Juventude transviada
sábado, 9 de agosto de 2008
*Tenório Teles
Viver nestes dias é mais que um desafio, é um exercício de perseverança, confiança e fé. Diante do absurdo, violência e falta de sentido que marcam o cotidiano, é imperativo manter-se esperançoso e confiante, sob pena de sucumbirmos, de sermos tragados pelo desânimo e indiferença. Todos os dias somos postos à prova: enfrentar incompreensões, maldades e a hipocrisia de uma sociedade que virou as costas para o cultivo dos valores e esvaziou de sentido o espaço do sagrado.
Essa situação explica o triunfo do individualismo, do sucesso a qualquer custo e da cultura de resultado que determinam as relações e práticas sociais. Para os que vivem sob as imposições dessa lógica perversa, não importa se os comportamentos e os meios são ilícitos ou reprováveis, o que importa para esses seres, despojados de qualquer fundamento moral, ético ou religioso, é o triunfo, o resultado... ter sucesso, dinheiro, visibilidade. Ser admirado, mesmo que essa admiração seja fruto de ações espúrias. O fim justifica tudo.
Essas reflexões nasceram a partir de duas situações que testemunhei nos últimos dias: a primeira, foi uma conversa, entre autoridades, que ouvi e fiquei inquieto. Uma senhora influente dizia que não entendia o porquê “desses jovens, filhos de famílias ricas, só quererem saber de cheirar cocaína e de farras...” Complementou sua observação lamentando o fato de eles não aproveitarem as condições que têm para estudar, “ser gente”. Fiquei imaginando a situação desses jovens, ponderando os motivos que os levam a seguir esse caminho tenebroso, para muitos, sem volta. É uma situação muito grave não só para as famílias envolvidas, mas para o País. São rapazes e moças, com potencialidades, que poderiam crescer intelectual e profissionalmente e ajudar positivamente a sociedade.
Algo grave está acontecendo com as famílias. Por vivermos numa sociedade permissiva e consumista, perdeu-se o sentido da própria vida e os valores se inverteram: o ter triunfou sobre a bondade e a nobreza. Neste mundo de virtualidades, ser feliz é ter dinheiro, poder e, principalmente, ostentar. Ser inteligente é coisa de gente antiquada, como dizem: de cdf. O que importa é ser esperto. As crianças, desde tenra idade, são estimuladas a consumir e são criadas sem limites, impondo às suas famílias a sua tirania e vontades. E, assim, crescem cheias de si e arrogantes, transformando os pais em reféns de seus desejos de consumo e imposições. A pressão exercida pelos meios de comunicação agravam essa situação: impõem modas, comportamentos, a compra, a cerveja, o cigarro, a música de péssimo gosto, a sedução, a banalização de tudo. Esses estímulos são assimilados de forma acrítica, sem o questionamento e orientação dos familiares. A segunda situação é uma confirmação desse caos familiar e social em que vivemos: os jornais noticiaram esta semana a prisão de uma quadrilha de jovens de famílias ricas. Estavam envolvidos com o tráfico, distribuindo drogas em festas e universidades. Oito jovens com todas as possibilidades para construir uma vida plena de realizações, mas que fizeram a escolha errada. O secretário de segurança pública do Rio de Janeiro se diz “assustado com a juventude que a sociedade está produzindo”. Todos se perguntam: o que está acontecendo? Enquanto tantos jovens são impulsionados para o crime por falta de condições, outros trilham esse caminho pela falta de sentido e de razão para viver. Não foram ensinados a sonhar, ter esperança e, por isso, se desviaram. Um desafio se impõe aos cidadãos e homens de boa vontade: urge salvar nossos jovens.
*Escritor, membro da Academia Amazonense de LetrasMarcadores: Crônicas
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O Brasil e os sentidos
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Wilson Nogueira* Vi o tuxaua irado.
Ouvi os seus lamentos profundos. Senti que a floresta e os rios estremeceram de dor: a dor da morte. O índio matis que faz da sua lança a arma de guerra, um instrumento de apoio para se manter de pé, encarna o desespero dos povos do Vale do Javari diante da morte semeada pela redução da natureza amazônica a produtos disputados pelas sociedades modernas. O tuxaua, em sua língua, entoa uma cantiga triste, um lamento fúnebre. “Ele se refere à dor do seu povo sobre a morte dos velhos e das crianças”, informa um jovem índio tradutor. “Esse ritual é muito triste. Os índios do Javari estão muito tristes. Eles passam semanas, dia e noite, cantando esses lamentos”, afirma um funcionário da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Assisti a essa cena em agosto do ano passado, na cidade amazonense de Atalaia do Norte. A realidade dos povos do Vale Javari só não continua a mesma porque piorou. Nem o canto dos tuxauas nem a enxurrada de apelos dos mais jovens, principalmente por meio da Internet, sensibilizam o Poder Público e a sociedade. Esses clamores somem na burocracia dos governos e na indiferença (quase generalizada) aos dramas vividos pelos índios. O vaivém dos gângsteres de colarinho branco entre os cárceres da Polícia Federal e os hotéis de luxo de São Paulo, por sua vez, deixa o “estado democrático de direito” por um fio. Deputados, senadores, juízes, procuradores e ministros se engalfinham numa luta de retórica infernal. As instituições brasileiras balançam. A democracia, nesse qüiproquó, parece maionese em estúdio de TV. Os “Dantas da vida” não mataram ninguém, não são pessoas perigosas, por isso, não mereciam algemas, nem ser expostos ao espetáculo televisivo. Certo! Isso mesmo! Alternaram-se nesse argumento mixuruca senadores e deputados insuspeitos de alguma ligação com o roubo dos cofres do contribuinte. Para que não pairem quaisquer mal-entendidos sobre “eles”, “eles” mesmos esclarecem, sem que ninguém lhes pergunte, que estão ali para defender a “democracia” e mais nada. “Eles” fazem de conta que não compreendem que a subtração de dinheiro público causa mortes, pobreza e exclusão social. Desconheceriam, também, que esses fatores desestabilizam o Estado Democrático de Direito – de direitos e deveres iguais. Mas eles sabem, sim, que os “Dantas da vida” e seus protetores são perigosíssimos e que deveriam ser tratados como portadores dessa periculosidade. Pra que algemas de ouro para essa turma? Enquanto isso, a presença da morte por hepatite, malária e diarréia exige que os líderes Korubo, Maioruna, Matis, Canamaris, Marubo e Culina recorram aos limites de suas forças para enterrar seus mortos. Este é o Brasil! *Socólogo, jornalista e escritor Marcadores: Poesias
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A observadora
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Neuton Corrêa*
Jamais imaginei que todo mundo pudesse ter um defeito na perna. Mas tem! Obtive essa informação com uma mulher em uma parada de ônibus.
Estava em um transbordo com destino à faculdade. Havia acabado de conhecer esse caminho. Geralmente, esse trajeto encurtava a viagem em 45 minutos contra as duas horas que se gasta pela rota costumeira. Mas, por ali, é preciso pegar quatro linhas, e eu ainda estava me preparando para embarcar no segundo carro.
O dia começava; o sol batia forte no rosto daquela mulher que estava sentada em uma mureta do jardim de uma casa de conjunto: uma idosa, gorda, pele clara e cabelos brancos, um branco em tom de pluma de samaúma. Olhei-a atentamente, e, conclui que o sol lhe extraía muita água e gordura do corpo. Para mim era um bom sinal, sinal de que já fazia horas que ela permanecia ali e que, portanto, o ônibus não se demoraria a passar. Entretanto, foi mais um engano de passageiro.
O ônibus demorou e, então, resolvi também sentar na mureta. Assim que pus o corpo a descansar, fui abordado por ela: - O senhor já percebeu que todo mundo tem um defeito na perna? Imediatamente, minha imaginação procurou exemplos que pudessem constatar ou não essa informação bizarra. Porém, sugestionado pela certeza que ela ditava, minha memória só trouxe imagens de pessoas com deficiência na perna. Dois dos exemplos que me ocorreram chegaram como provocação, porque a primeira perna defeituosa de que lembrei foi a do “Blaycoco”, lábio leporino, bastante conhecido em Parintins, e a outra foi a do "Aranha", que viveu a infância e a adolescência em peraltices. Tão peralta que passou a puxar a perna depois que foi tirar uma brincadeira com um cavalo, que reagiu com uma patada que lhe tirou os movimentos da perna direita.
Esses dois exemplos me conduziram à inquietação: Deus castigou o Aranha porque ele foi molestar o animal, mas e o Blaycoco, que mal fizera para merecer essa deficiência?
Retomei a atenção para a mulher, quando ela dizia:
– Dê uma olhada na perna dessa moça?
Olhei e não vi nada de anormal. Mas ela logo apontou o defeito:
– Ela esfrega uma coxa na outra.
Ouvindo isso, conclui que a divagação que eu tivera feito era um exagero ao alcance do detalhe que a aquela senhora conseguia mirar.
Do outro lado da rua passou uma jovem e ela aplicou outro comentário:
– A perna dela parece um V. De fato, parecia um V mesmo de cabeça para baixo. As coxas se fechavam até o joelho e do joelho para baixo se abriam para imitar a letra.
Já estava com mais ou menos dez minutos à espera do 439, quando passa outra moça. Vi a jovem antes dela, talvez enquanto ela se detinha a observar outros andares. Aproximando-se cada vez mais da mureta, dava para notar que era uma linda perna. Foi chegando e eu já não tinha dúvida: era uma bela perna. Mas não ao olhar da mulher de cabelo de semente de samaúma, já que assim que a moça passou por nós, com trajes de academia, a mulher me cutucou:
– O senhor viu a perna dela?
E dei-lhe uma resposta simples.
- Sim! Isso com a cabeça balançando para cima e para baixo.
Envolvido pela mulher, já me sentia um observador de pernas, quando ela cortou o elogio que eu ia soltar e disse:
- A perna dela é grossa e seus pés parecem patas de búfala.
O 439 apontou na esquina, levantei-me para fazer a parada do ônibus, corri na direção da entrada dianteira, mas antes de embarcar resolvi olhar a perna da minha amiga ocasional. Caminhando para a porta traseira, ela arrastava a perna direita, mais fina e mais curta que a perna esquerda.
Ri e embarquei!
* Filósofo, estudante de Jornalismo e mestrando do Programa de Pós-Graduaçao Sociedade e Cultura na AmazôniaMarcadores: Crônicas
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