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"Nossos líderes mundiais vendem o conceito de sustentabilidade como se fosse lógico e fácil"
sábado, 16 de agosto de 2008
Yolanda Kakabadse (foto) já foi ministra do Meio Ambiente do Equador e presidente da União Internacional para Conservação da Natureza (UICN). Atualmente trabalha na ONG equatoriana Futuro Latinoamericano e continua a desempenhar uma militância estratégica no movimento ambientalista. Desde o último 31 de julho, ela é também vice-presidente do Conselho Consultivo do Centro Internacional Terramérica, uma instituição de pesquisa em meio ambiente e desenvolvimento fundada em Manaus durante o seminário internacional “Mudança climática, crise energética e alimentar: desafios ao desenvolvimento sustentável”.
No segundo e último dia do seminário (1º. de agosto), que aconteceu no auditório da Suframa, Yolanda participou da mesa redonda “Desenvolvimento e proteção ambiental: estratégias para a Amazônia”. Ironicamente, ao seu lado estava o gerente setorial de Segurança, Meio Ambiente e Saúde da Petrobrás, Nelson Cabral de Carvalho. No Equador, a empresa brasileira enfrenta uma campanha da sociedade civil, especialmente organizações ambientais, para que saia do Parque Nacional Yasuni (considerado a área mais rica em biodiversidade da Amazônia). A Petrobrás começou a atuar no Equador em 2002, quando comprou a empresa argentina Pérez Compac. Assim, recebeu a concessão de exploração dos Blocos 18 e 31, que pertencia à Pérez Compac desde 1996. O Bloco 31, além de estar no Parque Nacional Yasuni, ocupa parte do território indígena Huaorani. Esse povo, que vive em isolamento voluntário, tem 80% de suas terras sob concessão de petrolíferas (a Petrobrás é apenas uma delas). Não por acaso, os Huaroni têm sofrido com hepatite e desnutrição.
A imagem da Petrobrás no Equador foi um dos temas tratados por Yolanda Kakabadse na entrevista para o TEXTOBR, concedida aos jornalistas Wilson Nogueira e Thaís Brianezi, após o encerramento do seminário. Ela falou também sobre o desafio da gestão ambiental panamazônica e sobre as armadilhas da propaganda do desenvolvimento sustentável.
Thaís Brianezi: - Como é a imagem da Petrobrás no Equador? Yolanda Kakabadse: - Veja bem: faz quatro anos, talvez, quando a Petrobrás adquiriu um bloco de Petróleo de uma empresa argentina. Essa empresa argentina era muito ruim em concepção moderna de desenvolvimento sustentável, muito ruim em tecnologia e muito ruim em transparência. Ao fechar essa operação, a Petrobrás necessitou de tempo para vender uma nova imagem do Brasil. Porque a Petrobrás, dentro do Brasil, tem uma boa imagem: é uma empresa responsável. E no Equador, nós ativistas do Equador, exigimos muito fortemente que a imagem da empresa anterior fosse mudada para uma visão da verdadeira Petrobrás. Há sim um problema: o Bloco 31 está em uma área protegida. Então, há sempre conflito entre a conservação e a exploração petrolífera. Isso não é fácil de manejar, porque essa concessão foi dada pelo estado equatoriano, mas eu acho que isso foi um erro da nossa lei em dar concessões a empresas mineradoras e petroleiras em áreas protegidas. Creio que a Petrobras está diante de uma situação difícil, diante da falta de uma política clara do Equador e dos próprios interesses de explorar petróleo, não está claro para a Petrobrás.
TB: - E a falta de diálogo?
YK: - No Equador, o diálogo foi difícil para a Petrobrás, porque as primeiras reações das organizações indígenas, camponeses e ONGs era continuar uma ataque igual ao que se fez à empresa argentina antes. E foi difícil para essas organizações mudar de visão e ver que havia uma empresa diferente e mais responsável. Porém, é complicada a contradição legal do Equador de dar concessão a petroleiras em áreas protegidas. É muito complicado conciliar os interesses da conservação (ambiental) e a exploração de petróleo. Creio que a Petrobrás se tornou prisioneira de um conflito interno do Equador, que necessita ser discutido, primeiro, dentro do Equador.
Wilson Nogueira: - Mas o Equador mudou a sua constituição...
YK: - A nova constituição propõe que a exploração de petróleo em uma área protegida deve ser aprovada pelo Congresso. É um pouco mais difícil com esse novo texto da Constituição de agora, mas, novamente, seguimos uma trama, seguimos uma situação em que as áreas protegidas não estão cem por cento protegidas.
WN: - É possível haver diálogo de política pública entre os governos da Amazônia?
YK: - Eu creio que nos países amazônicos devemos trabalhar mais e termos marcos legais homogêneos, mas eles devem ser elaborados conjuntamente, têm que ser trabalhado com Estados e todos os atores: com a sociedade civil, com indígenas, camponeses, com empresas, com meios de comunicação. Porque, quando todos definem políticas públicas desde cima, e que não há conhecimento dos atores sobre como elas se construíram, busca-se uma maneira de não cumpri-las. Quando essas políticas públicas são elaboradas com a sociedade, todos se comprometem em cumpri-las. Aí há um empoderamento da sociedade para que todos cumpram uma política. E isso, ainda, nos custa muito na América Latina. Temos uma concepção de que se tu és governante, tu tens a verdade. Não é assim: o governante precisa trabalhar com o governado, para construir um país. E aí somos muito frágeis, ainda, na concepção de democracia.
TB: - A senhora destacou o desafio de fazer uma política pública amazônica que ultrapasse as fronteiras nacionais. Um grande obstáculo, pensando principalmente na relação do Brasil com seus vizinhos, seria o abismo cultural passa pelo idioma, pelo desconhecimento da história da América Latinha. Como é que a comunicação pode contribuir para superá-lo?
YK: - O presidente [Lula] apresentou uma proposta muito interessante quando assumiu o Governo há seis anos. Ele dizia que uma das suas prioridades era construir mais alianças na América do Sul. Ainda não há isso plenamente. Mas ele teve essa oportunidade, por ter havido várias propostas de construção de estruturas entre os países. Mas eu acho que devemos fazer mais esforços. Por exemplo: a OTCA [Organização dos Tratados de Cooperação Amazônica] deveria ter muito mais apoio político por parte do Brasil e de todos os países amazônicos, e não o tem. A OTCA se construiu para melhorar o TCA e não tem melhorado o suficiente. Se, em sendo um organismo politicamente manejado, que não tem força, não tem gente para realmente construir programas de integração. E esse é um dos objetivos mais importantes e não se tem levado esse poder a essa organização. Creio que o Brasil deveria tomar a liderança, assim como os outros países amazônicos. A OTCA merece ser uma instituição muito forte. WN: - A senhora acredita em desenvolvimento sustentável sem impacto ambiental? YK: - Não há desenvolvimento sustentável sem melhorar a qualidade ambiental. O tema ambiental é uma das pernas de uma mesa. E se uma mesa tem uma perna mais curta, as coisas caem: é ambiente, é econômico, é social e é político. Essas quatro pernas são igualmente fortes. E eu penso que nem sempre esses quatro elementos ganham igual ao mesmo tempo. Às vezes, há que se sacrificar um objetivo econômico, não eliminar um objetivo econômico, mas, sim, sacrificar um pouco mais. Às vezes, há que sacrificar o ambiente. Ponho um exemplo: se necessito comunicar Manaus com o resto do país, há de se construir uma rodovia, em algum momento. Isso significa um sacrifício para o tema ambiental. Mas, o que é mais importante? Como alcançaremos um desenvolvimento mais equilibrado para o Estado do Amazonas se não há via de comunicação? Então, em algum momento tem que sacrificar algo do ambiental, mas ao mesmo tempo tomar medidas para que o impacto não seja muito forte, que seja o menor possível.
TB: - Como esse discurso do consenso lida com a identificação dos conflitos e do reconhecimento desse sacrifício?
YK: - Como muitas coisas, ainda há grande distância entre papel, livro e a prática, na teoria e na prática. Desgraçadamente, nossos líderes mundiais, não somente na América Latina, “vendem” o conceito de sustentabilidade como se fosse lógico, normal e fácil. E eu acho que é importante dizer que é difícil, porque a gente só soluciona problemas quando enfrentamos a realidade e as necessidades que são obrigatórias. E se não explicitarmos que vai ser difícil, não preparamos as pessoas para que elas saibam que haverá conflito, que têm que negociar, que têm que desenvolver processos sociais de consulta. Tudo isso faz parte do desenvolvimento sustentável. É claro que todos os setores têm que participar dessa decisão. TB: Como a senhora o atual predomínio do tema mudanças climáticas em diversas esferas? É uma oportunidade, um risco ou o misto dos dois?
YK: - Eu acho que depende dos setores. Entretanto, quando mais informações tens, mais preocupações tens. O que acontece é que não estamos dando informação digerível. Estamos dando informação mágica, a qual não se entende nada. Por exemplo: o setor mais afetado é o setor industrial, o setor empresarial. E esse setor deveria ser o mais preocupado em invenções tecnológicas, em trabalhar grupos vulneráveis. E, por alguma razão, se dá uma informação mágica que não se entende e isso está demorando a tomada de decisão dos diferentes setores. Todos nós vamos ser afetados! Mas somente terão informações os que estão preocupados em buscar informação. Para os cidadãos, a informação ainda não chega e eles não sabem por que estamos preocupados com as mudanças climáticas.
WN: - A senhora concorda que nas pesquisas e debates sobre mudanças climáticas se tem ignorado os saberes e as vozes dos povos tradicionais?
YK: - Retomando o foco da comunicação, é preciso compreender que não dá para mobilizar através de textos científicos de 200 páginas. Se me derem um folheto de vinte páginas que resume uma experiência, fantástico! Mas um livro de 200 páginas, com tanta competência de informação que há neste momento no mundo! Devemos ser estratégico sobre como traduzir a informação, para que eu possa ter acesso. E parte dessa informação é de conhecimentos tradicionais, de conhecimentos produzidos pelas comunidades amazônicas, que manejam as organizações indígenas, a cooperação internacional, as ONGs, o Ministério da Cultura. Mas esses conhecimentos, essas informações deveriam estar no Ministério da Economia, no Ministério da Indústria, da Fazenda. Não estamos chegando ao público que devemos convencer. O conhecimento tradicional muitas vezes tem respostas para as mudanças climáticas, porque as mudanças climáticas sempre variaram. E em comunidades locais sempre houve muitas experiências de adaptações e não estamos utilizando essa informação, tampouco estamos utilizando informação de lições aprendidas em outros países. Uma experiência boa do Brasil pode servir ao Equador. Uma boa experiência da Argentina ou da Bolívia pode servir ao Brasil. Mas se apenas publicamos livros sobre experiências de 200 páginas, não tenho como aproveitá-los bem.
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A mais velhaca das bossas
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Gerson Severo Dantas*
Eu odeio bossa nova, esse gênero traidor da música brasileira, essa metáfora do nosso provincianismo. Aos 50 anos ela continua com suas velhacarias, consubstanciadas no seu velhaco-mor, o cantor - se é que assim podemos chamá-lo - João Gilberto.
Em show em São Paulo nessa quinta-feira, a platéia que pagou os olhos da cara para ouvir aquela “vozinha”, aquele sussurro desafinado, foi obrigada a calar-se para ouvir o que muitos chamam de mestre e eu chamo de oportunista. Não foi a primeira vez que a platéia pagou para ser humilhada por esse pândego.
Em algum momento do século passado ele obrigou que o ar-condicionado do Teatro Amazonas fosse desligado para ele cantar, se é que ele canta, seu repertório, cujo um dos clássicos é um pato estúpido que passeava alegremente fazendo “Guém, Guém, Guém” enquanto o País estava à beira do caos da ditadura. Pois bem, teve gente que pagou para suportar os 50 graus do TA e ainda gostou. Francamente!
Há muito que tento desvelar essa fraude representada por uma geração de péssimos cantores e medíocres compositores que tiveram a sorte – ou quem sabe a competência – de usar os incipientes meios de comunicação do século passado para conquistar alguma glória imerecida. Não basta dizer que minhas tentativas são vãs, pois há sempre mais gente disposta a tecer loas a Gilberto, Boscoli, Valle, Tom e, em algum momento Vinicius. Quem quiser ajudar nessa guerra, tem uma comunidade no orkut “Eu odeio bossa nova” e eu recomendo.
Mas porque não gosto desses caras – a exceção é Vinicius -? Eles são pretensiosos, provincianos. A bossa nova, para se dizer nova e enganar os ouvintes até hoje, recorreu a quem? Vamos lembrar! O marco do mais americanizado dos ritmos – se é que podemos chamá-lo de ritmo – brasileiros é o show de Tom no Carneggie Hall, em Nova York. Quem estava ao lado dele para dar respeitabilidade e credibilidade junto aos críticos? Frank Sinatra. Girl From Ipanema sem Sinatra não daria liga. Aliás, vocês sabem onde mora o brejeiro João Gilberto? Sim, em Nova York, bem longe da Terra Brasilis. Por quê? Para não estar na chuva, para não mostrar sua mediocridade na lida cotidiana dos verdadeiros cantores brasileiros. Ele é uma espécie de KLB, só que mora em Nova York e faz shows caríssimos para seus compatriotas. Joãozinho Trinta tinha razão: “o povo gosta de luxo”, sobretudo se vier de Nova York e tiver notinha no New York Times. Francamente!
Não gosto da velhaquete bossa nova também porque é um ritmo – ibid - marcado num espaço geográfico também mítico do Brasil, a zona Sul do Rio de Janeiro. Seus idealizadores estavam nos apartamentos da elite branca brasileira compondo para as garotas de Ipanema, para a turma de colégios caros, para o mar da zona Sul. Sequer olhavam para o morro Chapéu Mangueira atrás deles. Muito depois Tom foi pescar Cartola e a trupe do morro, que se impôs no chão da avenida do samba, esse sim o ritmo brasileiro. Esses garotinhos da zona Sul do Rio de Janeiro – ainda falarei desse espaço geográfico mítico em outro artigo - não serviam e não servem para o Brasil, pois nossa diversidade musical não merece ser afundada por um ritmo – ibid – americanizado. Tenho dito.
* Filósofo, jornalista, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.Marcadores: Artigo
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Benchimol e os judeus na Amazônia
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Tenório Telles*
A história da civilização tem sido a expressão da luta, do sacrifício e realizações de povos e, em especial, de seres humanos que, pela força do caráter e dos valores que cultivaram, fizeram a diferença na trajetória da humanidade. O povo judeu é um exemplo desse vigor, perseverança e capacidade de superação. Por isso foi capaz de sobreviver aos banimentos, violências e tragédias que marcaram-lhe o percurso.
O acontecimento mais expressivo da história desse povo no último século, que assegurou-lhe o direito à existência como pátria independente, foi a criação do Estado de Israel em 1948. Marco do retorno das legiões de deserdados para a terra-mãe, metáfora da luta de Moisés para chegar a Canaã. Um ano após a restauração do Estado de Israel, realizou-se em Manaus um evento comemorativo ao primeiro aniversário de Eretz Israel. O discurso de saudação coube a um jovem que, anos mais tarde, viria a ser um dos orgulhos de sua gente e um dos intelectuais mais importantes da Amazônia. Na condição de presidente do Grêmio Cultural e Recreativo Sion, Samuel Benchimol proferiu uma comovente oração celebrando seu povo.
As palavras proferidas naquele longínquo 15 de maio de 1949 já denunciavam o talento e a força intelectual de mestre Benchimol. Depreende-se da leitura do texto, a intensidade, a emoção e a clarividência expressas em cada frase. Demonstrava profundo conhecimento do significado histórico daquele momento: “É um Estado assim que renasceu para acolher homens, mulheres, velhos e crianças inocentes, vazios de estômago, mas cheios de fé, vazios de conforto, mas cheios de esperança, sem passaporte na mão, a não ser a velha Bíblia de Moisés. A velha Bíblia que os conservou unidos nestes dois milênios, que os fez afinal regressar à velha Sion...”
Sessenta anos se passaram. O professor Benchimol já não está entre nós, mas permanece vivo na memória de seus familiares, amigos e, especialmente, de seus alunos. Hoje, a comunidade judaica amazonense está em festa para celebrar seis décadas de restauração da pátria dos filhos de Abraão. Um dos acontecimentos que marcam esse evento é o lançamento da terceira edição do livro “Eretz Amazônia – os judeus na Amazônia”, uma das obras mais importantes do pensamento regional e um tributo de Benchimol à memória das famílias judaicas que se estabeleceram na pátria das águas. “Eretz Amazônia” é um livro profundamente humano, estruturado como um vitral evocativo da saga dos judeus que, depois de séculos de perseguições na península Ibérica e Marrocos, estabelecem-se na Amazônia, a nova Terra da Promissão.
Eretz Amazônia é um livro especial: feito de vida, sonhos, sofrimentos e esperança. Retrata a saga dos judeus nas terras amazônicas – a nova terra da promissão de milhares de homens e mulheres que vieram para a Amazônia, onde reconstruíram suas vidas e contribuíram com seus talentos para o desenvolvimento regional. Com essa obra, como ocorreu em 1949, o professor Samuel Benchimol está vivo nas comemorações aos 60 anos de restauração do Estado de Israel – pátria dos filhos de Abraão, renascida para acolher os expatriados, os desterrados e os sonhadores que lutaram para realizar em nosso tempo o sonho de Moisés – de uma terra acolhedora e livre. A Amazônia é a Eretz dos judeus que aqui se enraizaram e se fizeram caboclos.
* Escritor, membro da Academia Amazonense de LetrasMarcadores: Crônicas
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Paes Loureiro lança obra em Manaus
O escritor João de Jesus Paes Loureiro, um dos mais importantes poetas da literatura brasileira, chegou hoje a Manaus e lança, no sábado, às 10h, na editora Valer, sua mais recente obra, “Água da Fonte”, editado pela Escrituras. Nascido na cidade ribeirinha de Abaetetuba (PA), o livro reúne “poemas de cunho alegórico e metafísico que colocam o sentido do universal no local de infância do poeta”, disse o autor ao TEXTOBR. João de Jesus Paes Loureiro é também uma das referências no meio acadêmico e um dos interpretes da Amazônia. Conheça mais sobre ele.Marcadores: Notícia
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Esse Phelps, sei não!
Gerson Severo Dantas*
Esse Phelps, que ameaça se tornar o maior atleta olímpico da história, me lembra muito o Ben Johnson. Já repararam como ele pulveriza recordes mundiais e olímpicos com a mesma facilidade que o canadense na famosa corrida dos 100 metros na Olimpíada de Seul (1988).
Há muito que o esporte deixou de ser um santuário, como o evocado pelas suas origens gregas, para virar um negócio. E, como nos ensina a história do capitalismo, onde há negócio há tramóia. Ben Johnson que o diga.
Sendo assim, ninguém venha me dizer que o desempenho desse Phelps seja natural. Esse cara tá "anabolizado", senão por anabolizantes tradicionais, por uma bem planejada carreira que o levou a obter o biótipo ideal para fazer o que faz. Desconfio disso há muito tempo, desde que ele começou a bater seguidos recordes. São 24 até o momento em que escrevo essas mal traçadas linhas. Isso é bem possível de ser feito, basta que a tecnologia canalize certas forças que atuam naturalmente no corpo. Exemplo: é possível que Phelps tenha recebido algum tipo de “tratamento” para os braços, que possuem uma dimensão incomum, para não dizer inédita, que lhe garante uma envergadura maior do que a própria altura. Ou seja, a medida de uma ponta a outra das mãos é maior do que a medida entre os pés e o último fio de cabelo da cabeça. Mais braço significa mais velocidade para um nadador.
Além do biótipo preparado para tais proezas, desconfio demais dessa cara por causa da enorme diferença em relação aos competidores. Ele parece brincar com os adversários. Das três medalhas de ouro que ganhou até agora- exceto a do revezamento, que é corrido em equipe – Phelps nadou lado a lado dos principais adversários até o momento que quis, geralmente depois da última batida na borda oposta. Até esse momento ele parece um nadador comum, mas depois, ah, depois vira Phelps, abre meio corpo, um corpo, até dois corpos de vantagem sobre o adversário mais próximo. Isso no momento que quer! Foi assim na corrida de Ben Johnson em Seul, que avançou em direção a linha de chegada e a 15,10 metros dela notadamente desacelerou e foi comemorar com a galera, com o dedo pra cima e o rosto virado para a mídia. Mesmo desacelerando bateu o recorde mundial, que depois foi invalidado – Se tivesse valido, só teria sido batido no fim dos anos 90.
Tudo isso me leva a crer que Phelps é um Ben Johnson, só que conta com a tecnologia norte-americana, a mesma que forjou outra atleta polêmica por causa da suspeita – nunca comprovada em exames - de doping: Florence Griffith Joyner, morta antes dos 40 anos em condições suspeitíssimas.
* Filósofo, jornalista e mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam).Marcadores: Artigo
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Algemas
Wilson Nogueira*
Bastou a Polícia Federal prender Daniel Dantas, o banqueiro cuja cauda começa no Banco Oportunuty, mas ninguém sabe onde termina, para que a mudança nos procedimentos no uso de algemas se tornasse uma disputa entre o Judiciário e o Legislativo. Venceu o primeiro. Agora, conforme jurisprudência firmada em decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), só infratores de alta periculosidade serão algemados.
O Legislativo perdeu a porfia, mas tem pressa em aprontar leis que afastem quaisquer possibilidades de a Polícia voltar a desrespeitar a dignidade da pessoa humana. Os malfeitores de colarinho-branco estão rindo à toa. Vocês lembram, por acaso, do foragido Salvatore Cacciola, o ex-dono do Banco Marka, que retornou ao Brasil livre das algemas por força de decisão judicial? Cacciola era a felicidade em pessoa. Cumpriu até agenda de entrevista coletiva, para tentar convencer o mundo de que ele é inocente, um injustiçado. Coitadinho!’
Patético mesmo, nesse episódio, é ver e ouvir juízes e parlamentares acusarem a Polícia Federal por abuso de autoridade no uso indiscriminado das algemas. A idéia que se tem dessas falas estupefatas e horrorizadas é que as Polícias nunca haviam se utilizado desse equipamento para imobilizar pessoas, ou então que ele fora inventado às pressas e sob medidas para Dantas e Cacciola. Que maldade, hein! É possível acreditar no que se ouve e se vê?
Credite-se tudo isso à hipocrisia dos que exercem o poder para si, somente para si e para os seus. Eles, certamente, não desconhecem que as cadeias estão abarrotadas de ladrões-de-galinha, todos de punhos markados pelas argolas de aço, sem que tivessem, em sua imensa maioria, a oportunydade de defesa no âmbito do direito assegurado à pessoa humana. Infelizmente, são poucos os que exercem funções sociais estratégicas sem falsidade em suas ações.
Ainda que eles teçam engenhosos disfarces sobre a realidade, haverá sempre uma parte dela descoberta para denunciá-los como hipócritas. Afinal de contas, a luta cotidiana por bem-estar social é desigual, assim como é injusta a Justiça com as vítimas da falta de comida, de escola, de saúde e de lazer. O dinheiro roubado dos cofres públicos pelos Dantas-e-Cacciolas-da-vida falta, certamente, às iniciativas que priorizam a melhoria da qualidade de vida da população.
É por isso que, ainda que se justifiquem e se expliquem à exaustão, certos juízes e certos parlamentares terão sempre alguém para julgá-los mais próximos dos infratores de colarinho-branco que dos que queimam as orelhas sol a sol. Evidências de provas não faltarão.
*Sociólogo, jornalista e escritorMarcadores: Artigo
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O incesto
Neuton Corrêa*
Não esqueci mais as palavras daquela mulher: “O pai do filho dela é o irmão dela!”. Essa voz, não sei porque, perturbou-me nos últimos sete anos.
Naquele dia, um sábado, havia acordado com vontade de sair de casa. Inventei o pretexto de comprar peixe na feira. Era mais um motivo para ver o Encontro das Águas. Nem me importei em ter que enfrentar a linha 418: como sempre, superlotada, cheia de confusão, e sem hora prevista para partida e chegada, cruzando bairros em três zonas da cidade.
E foi assim:
O ônibus fez parada em um ponto do bairro São José, uma das maiores concentrações urbanas da Amazônia fornecedora de grande parte da mão-de-obra empregada no Pólo Industrial da Zona Franca de Manaus. Lá, desceram uns três passageiros e de dentro a gente já ouvia uma voz zangada, meio que gritando, meio que orientando: “vem por aqui, vai por ali, sobe aqui, sobe ali”.
Eis que sobe a passageira:
Era uma negra. De imediato, parecia ter uns quarenta anos, porém, mais de perto dava para ver que não teria mais do que trinta e cinco. Olhei e consegui caracterizá-la: um metro e cinqüenta e cinco de altura; barriguda, uns 70 quilos... Lembro-me ainda muito bem. Ela vestia uma saia preta-pálida, com a bainha esgarçada, e uma blusa vermelha, também surrada.
No braço direito, carregava um bebê de mais ou menos oito meses de vida. À sua frente, orientava outras duas crianças a sentar no chão do ônibus, ao mesmo tempo em que puxava outro menor de idade com a mão esquerda. Tão logo ficou na posição dos demais passageiros, olhou para trás na direção da catraca, preocupada com outros dois filhos: um casal pré-adolescente.
Perto do Distrito Industrial ela já havia conseguido organizar as seis crianças sob sua proteção, quando outra passageira que havia subido pouco antes, perguntou-lhe:
– São seus filhos? E a mulher aguçou a curiosidade da senhora: – E aqui só está a metade! E a bisbilhoteira, insistiu: – A senhora tem quantos anos?
Àquela altura, o ônibus era um silêncio só. Parecia até que a lata velha do 418 havia se ajustado. Todo mundo interrompeu as conversas paralelas, querendo saber da resposta.
E ela: – Trinta e dois anos. Ainda duvidando da sinceridade da parideira, a interlocutora retorna à pergunta: – Mas a senhora tem uma dúzia de filhos, mesmo? Orgulhosa, ela devolve a questão: – Sim, tenho doze filhos. E o diálogo, sob olhares e ouvidos atentos, continua: – Então a senhora começou a ter filho muito cedo? A negra retruca com mais orgulho ainda: – Eu não, mas a minha filha... – O que tem sua filha? E ela explica: – Quando eu fiquei prenha dela, eu estava com dezessete anos. E ela, com quatorze, já está grávida. A curiosa se assusta e se apressa em outra sentença: – E senhora fala assim, com tanta tranqüilidade? Ela, então, solta outra aberração aos ouvidos dos passageiros: – É porque a senhora não sabe quem é o pai da criança.
O silêncio ficou maior! Sentia nos ouvidos da alma que todo mundo, ali, perguntava-se dentro de si: “quem?” quem é o pai da criança?”. Por frações de segundos imaginei várias coisas, menos ouvir a resposta que ela estava prestes a soltar:
– O pai do filho dela é o irmão dela!
O ônibus parou, senti fedor que exalava da lixeira da feira da Ceasa... Tinha que descer. E desci.
*Filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam)Marcadores: Crônicas
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O espanto e a indignação
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Wilson Nogueira*
Otávio Ribeiro, o Pena Branca, legendário repórter policial, espantou-se com o tamanho dos rios amazônicos. Ele recordava-se do primeiro contato com um deles sempre entusiasmado: “Eu estava no meio do rio e gritei: isto aqui é a maior piscina do mundo!”. Não me lembro mais do nome do lugar que o impressionou na viagem que fez à Amazônia, na década de 1970, para realizar, juntamente com outros jornalistas, uma edição especial da extinta Revista Realidade.
Mas, certamente, não foi o Lago do Canaçari, localizado no entremeio dos municípios de Itacoatiara, Silves, São Sebastião do Uatumã e Itapiranga, no Médio Amazonas. Caso se deparasse com esse lago, assim de supetão, diria a plenos pulmões: “Isso aqui é o maio mar de águas negras do mundo!”. Seria compreensivo, também, mais esse estranhamento de Pena Branca, um carioca que não perdia a oportunidade de estar na Amazônia.
Em Manaus, ele viveu os últimos dias em atividade; daqui viajou, já desenganado de vida, para o Rio de Janeiro, onde morreu, vítima de enfisema pulmonar. Quando dei de cara com a imensidão do Lago do Canaçari, no amanhecer do domingo passado, lembrei-me do Pena Branca, para dizer-lhe: “Realmente você está certo, cara: isso aqui é uma pancada na alma!”. Não tenho aqui as dimensões exatas do lago, mas, a primeira impressão que se tem é a de que ele é do tamanho do mundo, do nosso mundo. Os olhos, inebriados pelos lampejos do sol que batem nas dobras das ondas, não conseguem enxergar a outra margem do lago.
A lancha ligeira engole a distância, mas, por vários minutos, os passageiros novatos têm a impressão de que a viagem de meia hora será a de um cruzeiro. Insistentemente, os pássaros cruzam os céus em busca de alimentos na floresta e nas margens dos lagos e rios. O sol nasce furioso. O domingo é de sol.
O Lago do Canaçari fica para trás e a lancha entra nas águas barrentas do rio Amazonas, que, visto por europeus, pela primeira vez, foi batizado com o nome de Mar Doce. E olha que Pinzon e seus marujos estavam acostumados com as dimensões dos mares.
Ninguém trafega pela natureza amazônica sem se espantar, sem se encantar, sem se impressionar e sem se indignar. Não poderia ser diferente: ela vive em metamorfose permanente e podemos assistir a esse fenômeno a olhos nus. Só é necessário que tenhamos a paciência do tempo e do espaço ecológicos, para vermos novamente as samaumeiras cheias de folhas verdejantes e o Lago do Canaçari transformado em um imenso deserto de terras úmidas, recortado por minúsculas lagoas, berçários da vida que explode em profusão de espécies.
Na mesma região, nos rios Uatumã e no Jatapu, a hidrelétrica de Balbina, a exploração de uma mina de calcário e a presença de especuladores de terras perturbam o meio ambiente e ameaçam as populações tradicionais: índios, ribeirinhos e caboclos. Uma moradora do Jatapu fez um apelo e uma previsão catastrófica a um grupo de políticos que esteve, no sábado, em São Sebastião do Uatumã: “Ou os senhores engrossam a nossa luta, ou tudo isso vai acabar em breve!”.
Tomara que não, né Pena Branca!
* Sociólogo, jornalista e escritor.Marcadores: Artigo
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O uruá e o carão
domingo, 10 de agosto de 2008
Wilson Nogueira*
Os ribeirinhos do Amazonas foram avisados de que a enchente deste ano (2008) será grande. Quem mora na beira do rio sabe que muitas dificuldades se avizinham. A abundância de água espalha os peixes, inviabiliza as plantações e a criação de animais domésticos, e favorece a proliferação de doenças. Comunidades inteiras migram para as cidades, onde a miséria e os conflitos sociais só se tornam mais agudos. Esse é o preço que os rios cobram para refertizar das terras de várzea.
Há milhares de anos os rios ditam o ritmo da vida nas terras alagadas. Bichos e humanos são cúmplices na observação dos ciclos da natureza. Criaram, nessa relação, hábitos recorrentes pelos quais se orientam. As tecnologias que monitoram os fenômenos meteorológicos sequer são conhecidas em muitos lugares da Amazônia.
Um canto de pássaro mais agudo, mais estabanado, fora do horário de costume, pode prenunciar uma tempestade, sol escaldante ou muita chuva. O carão, por exemplo, é um pássaro respeitadíssimo entre os caboclos por ser um excelente informante do tempo. Não é à-toa que essa ave é reverenciada nas festas populares amazônicas. Na Ciranda de Manacapuru, é figura típica de destaque. O uruá pequeno caracol, só deposita seus ovos no exato lugar que será atingido pelas águas no momento em que estiverem eclodindo.
Os sinais da natureza não costumam falhar, e eles são emitidos com certa antecedência. “A enchente deste ano vai ser braba”, atesta o professor Alciomir de Melo Carneiro, 51 anos, morador da cidade de Barreirinha (AM). Ele compõe um grupo que, há vários anos, locomove-se nos rios para lecionar aos ribeirinhos. A mulher dele, professora Maria Alzira de Monteiro, 62 anos, explica: “Quem mora na beira do rio sabe, pelo movimento das águas, quando a enchente vai ser pequena, média ou grande”.
Assim como os pássaros, das alturas os passageiros dos aviões que cruzam os céus amazônicos podem encher os olhos com tanta água. Palmas para Santos Dumont, que, também, concedeu à humanidade o privilégio do carão observador! Os rios, lagos, os igarapés e os furos se alargaram e em muitos trechos do Médio Amazonas emendaram-se uns aos outros e formaram uma imensidão líquida, entremeada de ilhotas verdejantes.
O cenário, para os que voam e singram os rios de passagem, é espetacular. Ninguém tem o direito de profaná-lo, subtraí-lo, e muito menos extingui-lo, mas, como tudo na vida, ele carrega as suas contradições. Milhares de ribeirinhos, hoje despossuídos das terras altas, migram para as cidades na condição de pedintes da caridade alheia e do Poder Público. O mais revoltante dessa situação é que, na maioria das vezes, tratam-se de flagelos anunciados.
E para quem não acredita no alerta do carão ou do uruá, o observador meteorológico dos humanos já enfiou o dedo no botão amarelo. Mesmo assim, não dá para duvidar que o socorro, para muitas áreas alagadas, só chegará aos flagelados no período da vazante.
Sinceramente, hein!
*Sociólogo, jornalista e escritor.Marcadores: Artigo
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