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As desculpas de Diego
sábado, 23 de agosto de 2008
Ana Célia Ossame*
Descontada a frenética propaganda dos meios de comunicação exaltando a “maravilhosa e espetacular” participação brasileira nas Olimpíadas da China, as medalhas continuarão minguadas principalmente nos esportes individuais por uma razão simples. Ao contrário dos EUA, Rússia, Alemanha, Japão e China, para citar alguns, o Brasil não investe na formação de atletas. Por isso, o pedido de desculpas do ginasta Diego Hypolito e do judoca João Gabriel deve ser desconsiderado. O Brasil é que deve desculpas não só a eles, mas à Daniela Hypólito, Daiane, Jade Barbosa, Ana Cláudia Silva, a Kettleyn Quadros, primeira mulher a trazer medalha no judô e a todos os demais atletas que, para ir às Olimpíadas da China quase precisaram vender a alma.
A medalha do nadador César Cielo não coloca o Brasil no pódio. Ele chegou lá por mérito próprio, com investimento da família que o mantém nos EUA chorando de saudades, mas certa de que só ali poderia transformar o talento dele em medalha do mais brilhante metal. Felizmente, deu certo. Enquanto isso, gastam-se fortunas com “fenômenos” e “super-craques” de futebol criados por obra e graça dos apresentadores de televisão pagos para vender produtos de qualidade duvidosa, haja vista o apático desempenho da seleção masculina não só nas Olimpíadas, mas em outras disputas. Já as meninas do futebol dão show de bola, embora muitas delas sem direito sequer a um salário decente. A prova disso é que a mãe de uma das melhores jogadoras em campo, Formiga, assistiu ao jogo da filha numa televisão emprestada pela vizinha.
Quando a Jade franze a testa antes de executar sua apresentação, demonstra a falta da segurança dela e de outros atletas brasileiros. As meninas da ginástica ainda formam um grupo que se apóia e o Diego, que sozinho, representa o Brasil no masculino. Como aceitar o pedido de desculpas dele? Ouvindo o canto da sereia dos “comentaristas” esportivos, eram certas as medalhas dos ginastas. Mas a falta de técnica apurada, obtida após muito treino sob acompanhamento de especialistas é vital. Os vôos deles desafiaram não só a força da gravidade, mas o País que só sabe aplaudi-las nas competições internacionais. Só lembra deles nesses momentos. A queda era previsível para mostrar ao Brasil que só aplauso e torcida não basta. É preciso investir.
Nós, enquanto Governo, empresas e instituições financeiras, principalmente os bancos que batem recordes de lucro, é que deveríamos a eles o pedido de desculpas por não encontrarmos recursos para investir no talento representado por esse grupo, que pela primeira vez na história levou o Brasil a disputar medalhas. Para não ir longe, no Amazonas, temos uma Vila Olímpica que já recebeu atletas olímpicos. Mas de lá o velocista amazonense Sandro Viana foi praticamente enxotado. Agora, com chances de ganhar medalha, poucos sabem que ele treina em São Paulo, sem apoio oficial. Mas se ganhar, certamente não faltarão "autoridades" para brindar a vitória pessoal do atleta com tapinhas nas costas. Ainda mais em época de campanha, quando todos os candidatos são amigos do povo. Será que algum deles sabe responder por que a Vila não rende frutos-atletas? Por que não vêm para cá os técnicos do porte dos que atendiam a atletas como Maurren Maggi, Joaquim Cruz, Zequinha Barbosa, Vicente Lenilson, Bruno Lis, Sandro Viana, Fabiana Mourer, o cubano Yoel Hernandez, Fábio Gomes Silva, Jessé Farias e Marilson Gomes aqui na Vila? Se faltam verbas para mantê-los, porque não pedi-las das empresas do Distrito Industrial detentoras de incentivos fiscais? Será que elas não iam gostar de ter o nome em destaque no uniforme desses atletas?
Antes de candidatar-se a sediar uma olimpíada, o Brasil tem que aprender a investir na formação de atletas. Tirar o foco do futebol criador de escândalos e estabelecer uma política para os esportes amadores. Não é à toa que no basquete, atletas que jogam no exterior recusaram a convocação e o time saiu mais cedo da disputa. Se o Brasil não faz nenhum esforço para tê-los aqui e prepará-los, por que só quando estão prontos teriam que servir à pátria? O amazonense Sandro Viana fechará o revezamento em Pequim, depois que o bastão, símbolo da corrida, passar por Vicente Lenilson, Rafael Ribeiro e Bruno Lins. Que ele o receba com vitória e dê ao Brasil mais do que um presente, uma lição. Para ganhar medalha olímpica ou competições internacionais, não basta só vontade e sonho. É preciso despertar e descobrir atletas, treiná-los técnica e psicologicamente para as disputas. Poupá-los o mínimo do esforço de mendigar patrocínio. Do contrário, caso ganhemos o direito de sediar a olimpíada de 2016, seremos apenas levantadores de bandejas com medalhas a serem entregues aos países que sabem fazer a tarefa de casa nessa área.
*JornalistaMarcadores: Artigo
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A Crítica repercute análise de Paes Loureiro
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
A entrevista do poeta e pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA) João de Jesus Paes Loureiro ao jornalista Wilson Nogueira, um dos fundadores deste blog, gerou reportagem em A Crítica, um dos principais matutinos de Manaus (AM).
O texto, assinado pelo repórter Thiago Hermido, está editado na página A3, do Caderno Bem Viver,com o título Em busca da identidade. O jornal entrevistou, também, o poeta e músico Celdo Braga, e o documentarista Marco Adolfs. Ambos defendem que as preocupações de Paes Loureiro são legitimas, porque elas decorrem a ausência de políticas públicas de valorização das culturas regionais.
Neuton Corrêa, um dos editores do Textobr, disse que a matéria de A Crítica confirma a importância do diálogo entre os diversos gêneros de mídia. “Esse diálogo permite que as informações circulem como um bem público”, disse Corrêa.
Este blog é administrado e alimentado por um grupo de jornalistas, escritores e profissionais liberais motivados pelo uso da Internet como um meio capaz de compartilhar informações e idéias. Marcadores: Notícia
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Poeta diz que até a academia discrimina o imaginário amazônico
quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O poeta e pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA) João de Jesus Paes Loureiro (foto) disse, em entrevista a Wilson Nogueira, que a academia ainda é preconceituosa na abordagem do imaginário regional, e que essa postura acentua o estigma sobre o modo de viver e de compreender o mundo das populações amazônicas. Os mitos e lendas amazônicos, para o pesquisador, possuem valor explicativo e estético idêntico aos da mitologia grega. A diferença entre ambos está no fato de que os valores do mundo grego impressionam a academia, enquanto as formas de pensar e agir das populações amazônicas, principalmente as dos índios, são rejeitadas ou tratadas de modo pitoresco por professores, pesquisadores e intelectuais. Paes Loureiro é professor de Estética, História da Arte e Cultura Amazônica, na UFPA, Mestre em Literatura e Semiótica, pela PUC/Unicamp, e Doutor em Sociologia da Cultura, pela Sorbonne, Paris, França. Confira a entrevista:
Em que sentido o imaginário regional pode contribuir para o reconhecimento de uma cultura amazônica?
Esse caráter tão presente na vida amazônica decorre de um sistema de vida em que a relação do homem com a natureza propiciou essa necessidade de criar, pelo seu imaginário, novos mundos e novas realidades. O imaginário povoa esses mundos de deuses, mitos e lendas, e, ao mesmo tempo, de entidades de uma significação tão rica em modos de compreender a realidade e de interpretar o mundo por meio de uma reflexão alegórica. Essa particularidade na relação do homem com a natureza, com a solidão, com as distâncias, com os rios das águas doces correntes, deu, para o acervo do imaginário que temos, uma condição exemplar de intermediação entre o real e o não-real, o que é preenchido pelo imaginário como uma outra forma de realidade. O que ocorre é que essa mitologia toda, essa simbologia que decorre da nossa cultura, não é de um caráter propriamente filosófico, de um caráter propriamente místico ou de um caráter normativo. O que eu percebo é que todas essas formulações do imaginário, esses seres fantásticos, essa realidade fantástica, são construídos por via da aparência, por via do que elas conseguiram como luminosidade, como forma. Ou seja, são exatamente qualidades que dotam os objetos de uma dimensão poética e estética. O Boto, a Iara, as Mães-d’agua, a Mãe do Vento, para citar alguns exemplos simples... em todos esses casos, o que se tem é uma configuração sensível de algo que impressiona pela beleza e não pelo caráter de religiosidade, de normatividade ou de dimensão reflexiva sobre a realidade. Então, o nosso imaginário se configura e estimula essa dimensão poética nos produtores e nos receptores, tanto que a Amazônia sempre é encarada por toda a sua história, predominantemente, como uma dimensão do imaginário e como uma força poética desse imaginário capaz de poetizar todos os discursos. Noto que essa riqueza do ethos da cultura amazônica – e essa riqueza de significações nos produtos desse imaginário – não tem tido a atenção reflexiva e interpretativa que ela merece e que a riqueza que ele contém propicia. Ultimamente, tenho imaginado que, talvez, isso seja mais um dos efeitos perverso desse preconceito, muitas vezes na academia, muitas vezes na cultura urbana, esse preconceito diante da cultura originária da região, da cultura que vem do ribeirinho, que vem do índio especialmente. Marcadores: Notícia
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“Há de se compreender a lenda do Boto com a riqueza que ela tem” (parte 2)
Qual seria então a origem da formação desse desprezo pelo imaginário amazônico? Considerando-se que é uma cultura que não tem uma dimensão alta porque vem de uma população que não é respeitada na sua dignidade e na sua humanidade, rebaixa-se tudo aquilo que vem dela. Então, o que ocorre? Ocorre que, assim, a tendência é destacar-se apenas o episódico e o pitoresco das manifestações dessa cultura e desse produto do imaginário, numa postura diferente daquela quando as pessoas se colocam diante do imaginário da Grécia, da Índia ou do Egito. Nesse imaginário as pessoas reconhecem uma dimensão de valor que não reconhecem, muitas vezes, no produto imaginal da cultura onde elas estão inseridas. Tenho imaginado que talvez seja o fato de que a cultura grega - vamos simbolizar nela essa minha comparação – chega até nós por meio dos grandes filósofos, dos grandes historiadores, dos grandes poetas, dos grandes artistas da Grécia e dos seus herdeiros. Já chegam, para nós, com a decupagem do seu significado, das suas múltiplas significações trabalhadas pela Filosofia, pela História, pela tradição literária, pela reflexão alegórica etc. Enquanto que o material do imaginário amazônico nós recebemos diretamente do caboclo ribeirinho ou do índio. Por isso mesmo, não o recebemos no mesmo patamar de valor e de possibilidade de significações. Penso que a nossa lacuna deriva do fato de termos empregado, para a interpretação desse mundo imaginal da cultura amazônica, a mesma força, a mesma riqueza, o mesmo respeito e a mesma dignidade que se tem usado para a interpretação ou para a aceitação de interpretação de outras culturas. Essa lacuna ainda precisa ser preenchida – e até pela literatura – porque também a literatura e as artes plásticas têm relegado a um plano secundário a riqueza constante da dimensão da nossa cultura.
Percebo que há um diálogo entre a sua compreensão, no livro Cultura Amazônica – uma poética do imaginário, e a tese da professora Neide Gondin, no livro a Invenção da Amazônia. A abordagem dela destoa da sua? Não. Não destoa. É que ela abrange uma área da formação dessa cultura e desse imaginário sustentada pelos cronistas, pela tradição da literatura de viagens, pela literatura já constituída, e por isso mesmo estabelecendo importante confronto entre o imaginário sobre a Amazônia e o imaginário sobre o mundo que nasce da Amazônia. Então esse choque de imaginários faz parte da nossa formação cultural. A minha tendência é trabalhar a questão do imaginário pela gênese da sua criação e da sua interpretação. Mas nós temos um diálogo (e você disse muito bem) porque acho o trabalho dela fundamental para se compreender da nossa realidade.
Mesmo abafado, o imaginário amazônico é um fenômeno perturbador e por isso se faz presente nas diversas manifestações culturais urbanas. Seria isso mesmo? Isso se dá sim, e vem crescendo um pouco no âmbito da música popular. E na medida em que se está valorizando muito a literatura oral, o que ocorre é que, no campo dessa valorização, não temos tido uma relação de diálogo entre aquilo que nasce da historia da produção cultural da Amazônia e a estrutura dos órgãos que têm que estudá-la e, por via do sistema de ensino, consolidar o seu valor. Veja bem: nós consideramos, todos, que não há quem negue o significado da importância do imaginário para a história da Amazônia e da sua cultura, mas não há nas universidades da Amazônia cursos com aprofundamento e valorização sobre o imaginário. Você não tem cursos, como o de literatura oral, com peso necessário à compreensão da cultura amazônica, que tem, na oralidade, um dos seus fios condutores. Os instrumentos de compreensão e de estudos da cultura amazônica não estão sistematizados, nem institucionalizados, nem organizados e nem aprofundados pelo sistema de ensino e pelos organismos que têm o compromisso do planejamento público da cultura. Isso quer dizer que há uma dissintonia, uma divergência, entre a efetiva produção cultural da Amazônia e os meios de legitimá-la.
Haveria então um preconceito da academia em relação ao imaginário regional? Acho que sim. Ainda que disfarçado muitas vezes, mas acho que sim. O preconceito aparece, dialogicamente, velado. Como eu disse há pouco, na medida em que não se concede aos estudos do imaginário o lugar de destaca nas universidades e nas instituições de ensino, isso se configura em forma preconceituosa de trabalhar. Na medida em que não se tem um sistema de ensino nas estruturas das universidades e no planejamento público da cultura, na media em que não há estudos nem documentação da oralidade histórica e literária da região, pratica-se a rejeição da cultura amazônica. Pode-se agir preconceituosamente condenando ou silenciando. Essa rejeição silenciosa é a mais cruel, porque muitas vezes as pessoas têm nas mãos as possibilidades de criar os meios de compreensão e de fortalecimento da dimensão da nossa cultura, mas são aquelas que, silenciando, acabam fortalecendo a marginalização desses temas, o que reforça a questão do preconceito.
O não reconhecimento do imaginário amazônico implica, também, na redução da cultura amazônica? Implica, porque o que é o imaginário senão a revelação de um modo de ser de uma sociedade. Tem-se uma lenda, por exemplo, como a do Boto... A lenda do boto é própria de uma sociedade ribeirinha, de uma fase inferior a nossa, é claro. Então, há de se compreender a lenda do Boto, com a riqueza que ela tem, integrada na sociedade que lhe deu origem. Como as pessoas não querem reconhecer o valor dessa origem, quando abordam esse tema na universidade, tratam-no de uma forma pitoresca e com uma leve tonalidade do ridículo. Ou seja, além de não ter o valor reconhecido, acentua-se o estigma como se fosse algo ingênuo diante do mundo. Evidente que é diante do mundo em que nós vivemos. Como também a lenda de Helena de Tróia e o mito de Sísífo são ingênuos diante da nossa realidade contemporânea, mas nós não os encaramos de uma forma ingênua, porque são de culturas que nós respeitamos e cuja origem nós consagramos. Mas os mitos de sociedades simples, como o do Boto, como o da boiúna, que surgiram da mesma forma, nós não reconhecemos o valor deles, e ainda os encaramos apenas pelo lado do pitoresco, pelas histórias engraçadas e ridículas que as circundam. Essa atitude é uma forma de estigmatizar e de acentuar o preconceito.
O senhor poderia dar um exemplo de como situações idênticas mudam de figura? O filho do Boto é fruto de um ser humano e de um encantado, que é o Boto. Na cultura grega, toda vez que ocorre o surgimento de um personagem desse tipo, os gregos o denominam de produto de uma híbris. A híbris é uma violentação da natureza, ou seja, é algo que não é normal acontecer. Muito bem. Então, o filho do Boto é primeiro o produto de uma híbris. Quando as pessoas se referem ao filho do Boto, elas falam apenas do lado pitoresco, que se refere a uma maneira de disfarçar o adultério, uma gravidez não legitimada pelo casamento ou coisa parecida, ou dizem respeito a histórias engraçadas que cercam o engravidamento pelo Boto através do olhar. Ele seria uma coisa puramente pitoresca. Mas vamos pensar de outra maneira: o filho do Boto é resultado de uma híbris, ou seja, filho de uma entidade sobrenatural com um ser humano. Por isso, ele tem traços antropológicos equivalentes aos do herói grego. O herói grego era produto de uma híbris. Era filho de um deus e de uma pessoa. Então se têm duas estruturas antropológicas equivalentes. Trata-se da mesma estrutura antropológica de Cristo. Cristo é filho de Deus e de uma pessoa, portanto, produto de uma híbris e, por isso, uma violentação da natureza. Então a estrutura antropológica de Cristo e do herói grego é a mesma da do Boto e da do filho do Boto. Os três violentam a natureza da seguinte maneira: o Boto só engravida quando a mulher está menstruada, exatamente porque, pela natureza, ela não pode engravidar. A mulher grega engravida numa relação carnal entre uma pessoa e uma divindade, uma relação de qualidades totalmente diferentes. Sobre Cristo, veja: a Virgem Maria engravidou sem nenhuma aproximação humana, que na Igreja se explica que ela concebeu à semelhança de um raio de sol que atravessa o vidro sem rompê-lo. A Virgem Maria ficou grávida, concebida sem o relacionamento sexual. Dá para notar que há uma equivalência de complexidade na estrutura antropológica desses mitos. A concepção do filho do Boto é semelhante a dessas outras entidades no plano da mitologia e no plano da religião, o qual nós celebramos e temos o maior respeito e convicção pela fé. Não tratamos essa explicação como ingenuidade, como perversão, como nada. As mesmas qualidades, muitas vezes, são atribuídas como negativamente ao filho do Boto. O filho do Boto re-arruma as relações sociais de uma localidade. Tanto que ele permite que você aceite aquela criatura de uma forma acolhedora normal. Diferentemente do produto de um adultério de outra natureza. Então eu estou querendo colocar, de modo rápido e esquemático, o olhar de interpretação ao produto do nosso imaginário, que não inventa coisa sobre ele, mas o dignifica, procura a grandeza e a complexidade que existem naquela criação. Agora repito: como recebemos os nossos mitos, o produto do nosso imaginário e da nossa literatura oral, do caboclo e do índio que nós não respeitamos culturalmente, enquanto que dos gregos recebemos dos filósofos que nos curvamos diante deles, então nós acabamos atribuindo um valor à mitologia grega excepcional e acabamos destituindo de valor a nossa mitologia, como se ela não tivesse nenhuma condição de significados importantes. Eu só estou dando um exemplo para mostrar como toda a Amazônia padece desse tipo de recusa de interpretação e recusa de reconhecimento de valor. É sintomático quando as pessoas levam essa questão para a sala de aula da academia pelo lado meramente superficial e pitoresco. Isso ocorre porque na hora que eu ridicularizo aquilo que o caboclo criou, as suas lendas, eu estou me distinguindo dele, eu estou me colocando numa posição que se distancia dele... Não! Não! Aquilo é ingenuidade dele, eu apenas estou reconhecendo essa ingenuidade, mas ela é muito engraçada!Marcadores: Notícia
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“O mais fácil é valorizar aquilo que já é obviamente reconhecido” (parte 3)

Quais os prejuízos causados por esse tipo de incompreensão para um diálogo de políticas públicas urgentes, como é o caso das que se formulam diante das prováveis conseqüências das mudanças climáticas? A Amazônia tem as suas particularidades, mas ela existe no mundo globalizado, ou seja, hoje esse é um mundo de relações simultâneas, e o agravamento de questões ligadas à ecologia, em qualquer lugar atinge hoje o mundo inteiro, porque hoje vivemos em situação de escala, escala em simultaneidade, as coisas ocorrem sempre em proporções gigantescas. Agora ocorre é que o não-reconhecimento dessas situações ligadas ao nosso imaginário, enfraquece também o nosso sentido de pertencimento à Terra, enfraquece o nosso sentido de valor da terra, enfraquece, também, o sentido da nossa identidade. Esse enfraquecimento é complicado do ponto de vista social, por que de onde é que saem os dirigentes, professores etc? Saem dessa sociedade. Se essa é uma sociedade que rejeita tudo isso, as pessoas vão levar com clareza ou não esse tipo de visão da sua realidade, ostensivamente, para o lugar que forem ocupar. Então, vê-se o seguinte: os nossos políticos passaram por sistemas de ensino, quando passaram, onde essas questões não foram focalizadas nem estudadas com dignidade e.com o valor que elas exigem. Há pessoas que têm uma atitude muito digna diante do seu trabalho, muito entusiasmada, mas não têm formação para compreender a realidade com a qual estão trabalhando. O mais fácil é valorizar aquilo que já é obviamente reconhecido no plano nacional e internacional. Aí você não erra, apenas legitima o valor que está constituído lá fora. Fortalecer o valor existente na terra é dar-lhe condições de ser projetado lá fora e universalizado, isso é mais difícil, mas é esse o papel e a obrigação dos sistemas de ensino e dos sistemas públicos de governo.
Qual a possibilidade de se formar uma literatura amazônica de reconhecimento da cultura regional? Há, na medida em que as pessoas que escreverem nessa linha tenham a mesma competência desses cronistas e viajantes. O grande problema da nossa literatura não está na criatividade, está na linguagem; e não só na linguagem e na compreensão do mundo, porque a literatura não é um mero relato de fantasia interessante de ser lido, literatura mesmo é uma compreensão do mundo através de uma história, de um poema, de um conto ou de uma novela. Então não é o fato de sermos da Amazônia e escrevermos um tema regional, que, obrigatoriamente, possamos fazer a uma obra capaz de competir nacional ou internacionalmente. É necessário termos atributos artísticos, qualidade de linguagem para ultrapassarmos os limites do local e alcançar a tão desejada universalidade. De modo que, também, há necessidade de que se ter um alicerce cultural nos vários níveis de significação que a obra apresenta. De maneira que muitas vezes as pessoas pensam que a literatura da terra quanto mais isolada, melhor. Isso não é verdade, porque quanto mais integrada, mais chance ela tem para crescer e se tornar melhor. Agora essa integração resulta em estar no nível de qualidade de linguagem, de visão de mundo, de interpretação da realidade e de recriação dela, no mesmo nível das pessoas que estão trabalhando nos grandes centros. É o tema que você usa e o modo de encarar esse tema é que é a particularidade, e que depende de uma vivência na terra, de pertencimento a terra e tudo mais. As técnicas você pode ensinar, mas o processo criativo não, porque ele é um processo vivido e, por isso, é intransferível. Muitas vezes as pessoas confundem muito esse processo com a temática apenas, e às vezes não apresentam a mesma preocupação com os aspectos de atualidade formal, de atualidade de linguagem, de atualidade estética nos seus trabalhos. Esse é o risco. Acredito que a literatura amazônica está sempre na vez porque ela é um tema que reside no imaginário do mundo, não é do Brasil apenas. O Novo Mundo foi descoberto e guiado pela bússola do imaginário de que a Amazônia estava no centro, de que essa região era o paraíso na Terra. O que nós precisamos é amar essa realidade e aplicar a originalidade dos seus temas à competência literária e artística que a gente tenha adquirido.
Quais são as suas atividades e preocupações acadêmicas atualmente? Hoje mantenho uma atividade de conferências, de pequenos ensaios relativos à aplicação de um conceito de estética no âmbito da semiologia que eu propus na minha tese de doutoramento – conversão semiótica – que é uma maneira de compreender a criação artística, a transformação dos campos simbólicos na arte e na cultura em qualquer lugar, e em qualquer época, permitindo que se possa perceber as mudança de significado dos objetos sem que a materialidade deles seja modificada Estou aprofundando esse tipo de estudo depois da Universidade Federal do Pará ter publicado uma edição em três línguas dessa minha proposta teórica. Agora estou, também, trabalhando num texto em que procuro ver aquilo que é exemplificativo da cultura amazônica. À parte a essas atividades de cunho ensaístico, dou as minhas aulas na universidade e trabalho muito em poesia, embora venha a aprofundar uma atividade no campo da prosa que sempre esteve presente, de uma forma incidental, na minha carreira como escritor, mas que agora dou um pouco mais de atenção para essa dimensão da prosa.
Qual a sua opinião a respeito da independência do intelectual? Acho fundamental. E dessa independência que surge a sua liberdade de criação, é dela que se alimenta a perene busca de que haja uma dimensão ética nas coisas, de reconhecimento de valores e de uma visão democrática da vida. Nada pior no movimento artístico, especialmente no movimento literário, que a castração que venha de qualquer tipo de privação da liberdade crítica, que faz parte do próprio processo da criação artística. Não há criação artística sem o questionamento da realidade, e esse questionamento tem quer ser livre e aberto. Marcadores: Notícia
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Pachecão, proxeneta e trocista, eis a imprensa esportiva brasileira
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Gerson Severo Dantas*
A imprensa esportiva brasileira em atuação na Olimpíada de Pequim é o modelo de anti-jornalismo mais acabado do mundo. “Pachequista” e cabotina, atua para desinformar o público brasileiro. Tem na rede Globo e no seu principal locutor esportivo, Galvão Bueno, o paradigma do que não se deve fazer no exercício do jornalismo esportivo.
Locutores, comentaristas e repórteres torcem, ficam tristes nas derrotas, menosprezam adversários, se empolgam com as poucas vitórias ou com derrotas honrosas e acabam criando ilusões sobre nossas reais capacidades olímpicas. Me digam aí: estávamos ou não estávamos achando que o Brasil era o país da cocada preta e das medalhas de ouro? Tudo porque nossos homens da mídia esportiva atuaram mais como proxenetas do esporte do que como verdadeiros profissionais da comunicação.
Ainda está na minha cabeça a quantidade de “favoritos” brasileiros a medalha de ouro que frustraram nossas expectativas: João Derly, Luciano Coutinho, Tiago Camilo, Tiago Pereira, o time de futebol inteiro, Jade, Diego Hipólito, Dayane, a turma do atletismo inteira. Na verdade, eles não eram favoritos coisa nenhuma. Bastava a mídia nos mostrar os retrospectos deles para sabermos disso e não alimentarmos falsas ilusões.
O melhor exemplo de como a mídia esportiva, Galvão Bueno e a Globo no comando, nos ilude é o futebol. Como o time “D” do Brasil, reunido há 20 dias, tendo feito dois amistosos (contra Vietnã e Cingapura, isso mesmo as poderosas seleções do Vietnã e Cingapura), poderia ser páreo para o time “A” da Argentina, onde Riquelme, Gago, Aguero, Messi e Mascherano são titulares absolutos? Só mesmo os mestres Houdinis da nossa imprensa esportiva poderiam ter escamoteado essa situação até a derrota final. A maior sacanagem (na sexta acepção do dicionário Aurélio: “indivíduo que masturba outro”) da mídia é depois descer o malho nos atletas, como fizeram com o Ronaldinho Gaúcho. Qualquer pessoa razoavelmente informada saberia que esse atleta, parado há quatro meses, sem jogar decentemente há mais de 1 ano, não renderia todo o seu potencial agora. No entanto os “Houdinis” continuaram a incensá-lo para ao final crucificá-lo. Dunga então, nem falar! Ronaldinho na Olimpíada só serviu ao Milan, que o liberou para jogar e ganhar ritmo de jogo. A propósito: quem era esse goleiro da seleção? Porque não levar Rogério Ceni – o melhor goleiro do País - para dar experiência aos garotos?
Agora vamos ao “nó górdio” dessa situação: os profissionais não fazem isso apenas porque torcem loucamente pelos brasileiros, há muito de negócio nessa postura pouco ou nada jornalística. O caso passa pela superestrutura das empresas, que temem perder audiência, e por conseguinte publicidade, caso a verdadeira situação dos atletas brasileiros seja devidamente revelada. Diga aí, você ficaria acordado a noite inteira para assistir a uma partida/luta/apresentação de um brasileiro que sabidamente não se daria bem? A maioria não ficaria. Eis aí a necessidade de “empolgar” o público. Um absurdo! Tenho dito!
* Filósofo, jornalista, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.Marcadores: Artigo
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Olimpíada eleitoral
Massilon de Medeiros Cursino*
Como toda olimpíada, a olimpíada eleitoral também requer um índice mínimo a ser atingido, ou seja, um processo seletivo e preliminar que é a convenção, onde os candidatos já começam a arregimentar suas equipes e a mostrar volume e peso político.
A modalidade esportiva seria o cargo a concorrer, também a sigla partidária a qual o candidato está filiado, e olha que não são poucas as siglas, algumas só diferem das outras pela inversão das letras, na matemática chamaríamos isso de anagrama.
Da mesma forma que os atletas, os candidatos precisam de patrocínio. Uns conseguem mais, outros, embora não consigam nada, não desistem e seguem lisos, porém resignados.
O que não falta é candidato fazendo ginástica, dando salto mortal, fazendo o maior malabarismo.
Alguns eleitores também se confundem com os atletas, com suas marchas e peregrinações em comitês e casas dos aspirantes aos cargos políticos. Fazem até revezamento, chegando a disputar mais de uma prova por dia.
Tem candidato triatleta, que precisa disputar três provas ao mesmo tempo. A primeira delas é a esgrima, aquela em que o eleitor enfia a espada de um lado e o candidato se esquiva como pode, e consegue ser rápido para se livrar tanto da espada quanto da faca. A segunda é o atletismo em provas rasas, de preferência a dos 100 metros, para ser rápido, tanto para fugir dos botes dos pedintes quanto para entregar os santinhos aos eleitores indecisos. Por fim, a natação, na qual o eleitor pede e o candidato nada.
São as olimpíadas de Pequim ou Beijing chegando ao seu final, enquanto que as olimpíadas eleitorais estão apenas começando.
Tem maratonista que só de pensar na distância que irá percorrer já pensa em jogar a toalha. Outros já estão com um palmo de língua pra fora, com o fôlego cada vez mais curto.
Tudo por um sonho, o sonho de subir no pódio, de ser um campeão. Um campeão olímpico que atravessa o mundo para defender sua pátria ou um campeão de votos que quer defender o seu povo...
Quem quer ser um vencedor faz de tudo, não importa o esforço ou a dificuldade que terá pela frente. Faz o que for necessário.
Outro dia, numa agência bancária, encontrei-me com um amigo que está candidato. Perguntei como estava a luta e ele me respondeu que se sentia como um verdadeiro atleta do vôlei, porque de tanto sacar, o banco logo bloquearia sua conta. Disse-me ainda que pelo andar da carruagem, em breve, iria ao panamericano. Perguntei se ele se referia aos jogos, o obtive um não. Meu amigo, apertado pelas dívidas de campanha, pensa num empréstimo consignado do Banco Panamericano.
Como já disse, esporte e eleição são coisas muito parecidas!
* O autor é Economista, Bacharel em Direito e pós-graduado em Gestão Pública.Marcadores: Crônicas
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Juventude abandonada
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Tenório Telles*
Meu Deus! A loucura e a maldade deitaram raízes no coração do homem e o tornaram indiferente e egoísta. Perdemos o sentido do bem e do justo, da fraternidade e da compaixão. Esquecemos que somos irmãos: que o sofrimento do próximo nos diz respeito, que fazemos parte da grande família humana e que todos merecemos a felicidade, e uma vida digna. O mundo, o grande mundo, é uma dádiva da providência – é a nossa casa, concebida como um jardim, com flores, plantas, bichos, água... passarinhos para nos alegrar. Tudo foi feito para que fôssemos felizes.
Vinicius de Moraes dizia que “é melhor ser alegre que ser triste”! Mas como ser alegre com tanto sofrimento e infortúnio, com a violência devorando tantas vidas. Por falar nisso, lembrei-me de uma experiência recente: senti saudade de um velho amigo e fui ao cemitério visitá-lo. Depois de conversar um pouco com ele, de lhe falar da falta que me faz e recordar tantas coisas boas que vivemos, decidi visitar outros túmulos: gosto de ler os epitáfios, as mensagens dos familiares, de observar o tempo em que viveram e a idade dos habitantes desse mundo chamado saudade.
Surpreendeu-me a quantidade de pessoas mortas na flor da idade: com quinze, dezesseis... até os vinte e dois anos. Inquieto, perguntei a um coveiro sobre a causa da morte de tantos jovens. Informou-me que aquela tragédia era fruto da violência: que a juventude estava sendo morta, vitimada por tiros, esfaqueamentos e acidentes. Disse-me, ainda, que aqueles jovens eram oriundos de famílias pobres e morriam em brigas de galera, assassinados por matadores de aluguel, envolvimento com o narcotráfico ou em confronto com a polícia. Voltei pra casa com uma tristeza muito grande: pensei tanto nesses meninos que não tiveram a chance de viver, amadurecer para o milagre da vida, chegar à maturidade e ser cidadãos.
O pior é que essa situação passa despercebida. Não desperta a comoção das pessoas, tampouco a reação da sociedade. Afinal, quem se preocupa com a destruição dessas vidas? É gente humilde, sem importância social e sem sobrenome. Os poderes públicos não se importam, vivem envolvidos com outras coisas mais significativas, com projetos de grande repercussão social e rentáveis politicamente. Não há tempo a perder com coisas periféricas, com gente sem voz, anônima e desimportante. Essa situação, amigo leitor, não me sai da cabeça. Pergunto-me: como um país pode tolerar tamanha brutalidade e desperdício de vidas?
O que esperar de uma sociedade que mata ou permite que seus jovens sejam mortos? Estamos nos tornando uma nação de velhos e, ainda assim, permitimos que a juventude seja destruída. Dos que escapam, muitos são vitimados pelas drogas, pelo alcoolismo, pela pobreza e falta de oportunidade. As ruas estão cheias de crianças e jovens tentando sobreviver: vendendo balas, frutas, fantasiadas de palhaço e limpando pára-brisas de carros por algum trocado. O gesto desses meninos é um pedido de socorro: querem uma chance de ter um futuro e uma vida decente. Infelizmente esbarram na indiferença social. Os agentes públicos estão cegos para as suas demandas. Os políticos estão envolvidos em discussões mais importantes, preocupados com seus salários, incompatíveis com o trabalho excessivo e a responsabilidade. Para agravar, a sociedade cala. Enquanto isso, nos cemitérios, os coveiros enterram nossos jovens.
* Escritor, membro da Academia Amazonense de LetrasMarcadores: Crônicas
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Dona Maria
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Neuton Corrêa*
Naquele dia, assim que eu entrei no ônibus e sentei, não sei por quanto tempo, mas quando retornei à realidade, ela estava sorrindo. Era a dona Maria!
Da janela do circular 015, a imaginei saindo da casa do vizinho com uma sacola na mão e, como sempre, cumprimentando todo mundo. Não falara comigo porque não olhara para o ônibus. Se tivesse, certamente, teria gritado: "Ei, mano, cadê a mana?". Eu também não a cumprimentaria.
Nesse dia, eu estava introspectivo, mesmo. Preferi pensar na vida dela. Nunca encontrei a dona Maria se queixando. E olha que a conheço há vinte anos. Criou, sozinha, com a ajuda de suas costuras, seus oito filhos: um homem e sete mulheres.
Quando chegou a Manaus, por volta de 1999, se abrigou em uma casa daquelas que o Governo distribui perto das eleições. Era uma casa com único vão, que servia ao mesmo tempo de sala, quarto e cozinha. Mas isso já era um avanço em relação ao alagado onde morava, em Parintins (AM). Num dia em que fui visitá-la, na nova casa, estavam morando ali as sete filhas, os quatro netos, uma parenta e um rapaz que namorava uma das moças.
Aquele cenário que eu havia remontado levava-me à conclusão de que a dona Maria, conseguiu, com toda a riqueza de simplicidade que o mundo lhe ofereceu, criar todos os seus filhos.
O filho mais velho, o Nilson, meu amigo e compadre, músico famoso, é um exemplo da criação que ofereceu ao menino e às meninas.
Foi justamente na hora que me lembrei do Nilson que me vi rindo.
Ri, porque, dias antes, ele havia contado mais uma das de dona Maria.
Foi assim:
- A mamãe não tem jeito, disse-me ele. E eu: - O que foi agora? - A dona Dilce (sogra do Nilson) está desenganada. Os médicos recomendaram a ela voltar para casa. Deram-lhe mais um mês de vida. E a mamãe estava doida para visitá-la, mas, como a gente já sabe como ela é, resolvemos evitar. Mas não houve jeito.
Nesse momento, ele mudou de voz e começou arremedar a dona Maria: “- Meu filho, deixa eu visitar a dona Dilce? E eu sabendo o que ela poderia fazer, dizia: - Não, mamãe, eu sei como a senhora é. A senhora fala muito. E o que ela está precisando é descansar. - Vai, meu filho, deixa eu visitar a dona Dilce! Não deixei! Mas, na semana passada, ela apareceu lá em casa. Chegou com um bolo nas mãos. E eu perguntei: - O que é isso, mamãe? E ela disse: - Eu fiz um bolo para a dona Dilce. Aí, eu falei: - Não, mamãe, a dona Dilce está com câncer no estômago, não come há dias por causa da doença e a senhora aparece com esse bolo? Não! Não dá, não! - Deixa, meu filho, deixa. Ela insistiu tanto, que não houve jeito. - Tá, mas deixa eu lhe falar: a dona Dilce está para morrer e o que ela precisa agora são de palavras de conforto, palavras para cima, para não aumentar a depressão. - Tá, meu filho, deixa comigo. Fui lá no quarto, abri a porta e anunciei a visitante: - Dona Dilce, tem visita para senhora. Entre mamãe! Quando ela entrou no quarto, que viu a dona Dilce, deu um grito: - Minha nossa, dona Dilce! A senhora está muito mal: está pele e osso. Botei a mão na cabeça e pensei: começou! E ela continuou: - O que o médico lhe disse? E a dona Dilce respondeu: - Ele já me desenganou, disse que eu só tenho um mês. Mas já estou com duas semanas e me sentindo bem! Compadre, mal a dona Dilce falou, a mamãe emendou: - Então, a senhora está com muita sorte, porque, para o meu primo, o médico deu um mês, mas ele não passou uma semana. E olha que o câncer dele era mais manso do que o seu!"
Coloquei a cabeça pela janela do 015, olhei para trás, e, vi que, na realidade, essa dona Maria não existe!
* Filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/UfamMarcadores: Crônicas
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Estômago
domingo, 17 de agosto de 2008

Yusseff Abrahim*
Tudo começa com uma cômica explicação sobre a origem do queijo gorgonzola pelo simpático personagem Raimundo Nonato (João Miguel), transbordando pureza em um sotaque nordestino arrastado, ele demonstra uma felicidade esfuziante ao transmitir aquele conhecimento.
Estômago (Brasil/Itália 2007) é uma obra que eleva a comida ao posto de Centro do Universo: princípio e fim. Da necessidade humana básica de se alimentar até o poder exercido sobre os outros por parte de quem domina a arte que transforma comida em fonte de prazer. É a refeição que une os personagens na trama costurada no realismo sem filtros, cruel, transforma vidas, influencia comportamentos rendendo ao espectador momentos temperados por gargalhadas ou profunda compaixão. Tudo graças à existência de duas coxinhas em um boteco, mal feitas, mas que servem de salvação ao esfomeado Raimundo, recém-chegado à capital paulista que, sem dinheiro, se endivida por conta dos R$ 3 reais do custo do salgado e acaba escravizado por Zulmiro (Zeca Cenovicz), o dono do muquifo.
Ao ser iniciado na cozinha pelo patrão sem jeito, Raimundo revela aptidão no manuseio dos ingredientes superando seu desajeitado mestre na preparação do dueto clássico de bar - coxinha X pastel de carne - criando uma fama nas proximidades que o conduz a reviravoltas e ao contato com novas e sofisticadas receitas.
Chama atenção a inteligente construção do roteiro contando o antes e o depois de uma mesma história conduzidos paralelamente. Para quem assiste, o suspense fica em torno do que aconteceu na saga deste tal Raimundo Nonato, personagem de uma inocência que chega a ser comovente, ao ponto de ser difícil imaginar que fato derradeiro o teria levado da cozinha à cadeia. O filme leva um molho abundante de humor sarcástico, sádico, repleto de diálogos escrachados das línguas ferinas dos personagens que só sossegam quando estão ocupadas em saborear as onipresentes iguarias.
De co-produção Brasil/Itália, Estômago, do diretor Marcos Jorge (O Encontro, 2002) é uma ode à gula e à luxúria como dois dos mais fortes ingredientes da vida, embalada por uma trilha sonora de indisfarçável inspiração nas obras do diretor e mito cult, Quentin Tarantino, com assobios recorrentes e um agradável abuso no som de metais entre o rockabilly e a surf music. Vá ao cinema, confira um final surpreendente e veja se você concorda: desde o filme Durval Discos (2002) o cinema nacional não produzia uma cena de tão bizarra inteligência. Estômago vale cada fotograma, mas não ouse assisti-lo com o SEU vazio.
Frases marcantes
“Cozinha simples é como uma pintura de Picasso: simples, mas intensa”. “Pense num queijo de macho, é o gorgonzola”. “Quero uma coisa boa mesmo de bacana. Sabe aquela coisa que tu come e quase goza?”. “Filé mignon é o melhor do boi, é como bunda de mulher”.
O filme estreou nesta sexta-feira (15) e fica em cartaz diariamente em sessão única no Cinemark, às 15h10. Ingresso: R$ 4 reais (inteira) / R$ 2 reais (meia). Duração: 100' Este texto também está disponível no http://espremedordecinema.blogspot.com/*O autor é jornalista Marcadores: cinema
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