Amazonas em sua poesia

sábado, 6 de setembro de 2008

Tenório Telles*


A literatura que se produz no Amazonas reflete os impasses e dilemas vividos pelo processo civilizatório regional, marcado pelo esmagamento e assimilação das culturas autóctones e pelo triunfo dos valores e formas culturais europeus. O poema heróico A muhraida (1785), escrito pelo soldado português Henrique João Wilkens, é o primeiro documento literário do Amazonas. A obra retrata o conflito entre o mundo civilizado e a cultura primitiva, representada pela nação muhra.

Já sob o domínio das concepções artísticas européias, a obra de Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha se constrói sob a influência da estética árcade. Nascido em Barcelos, foi o primeiro poeta amazonense. O período subseqüente terá como contexto o Ciclo da Borracha, que abrange as duas últimas décadas do século XIX e a primeira do século XX. A literatura produzida no Amazonas nesse período também traz as marcas do ambiente cultural artnovista. Entretanto, por conta da flutuação estilística de nossa literatura, o art noveau não correspondeu a um estilo predominante em nossas letras, mas a uma atmosfera. Estilisticamente, nossa belle époque foi um complexo estético que produziu desde obras tardo-românticas, como as de Torquato Tapajós (Nuvens medrosas) e Paulino de Brito (Cantos amazônicos); parnasianas, como as de Quintino Cunha (Pelo Solimões) e Xavier de Carvalho (Frutos selvagens), até exemplos clássicos do Simbolismo, como é o caso de Jonas da Silva, com o livro Czardas, Thaumaturgo Vaz, com Cantigas, e Maranhão Sobrinho, com o seu célebre Papéis velhos... roídos pela traça do Símbolo.

A produção poética de Pereira da Silva, com Poemas amazônicos, de 1927, e Violeta Branca (Ritmos de inquieta alegria) correspondeu a um momento de transição da atividade literária regional, que se estendeu dos anos 20 do século passado até 1954, com a fundação do Clube da Madrugada. Ao mesmo tempo em que apresentavam traços estéticos do passado, já evidenciavam em seus poemas características do novo – elementos estilísticos típicos do Modernismo. Tentaram escrever de maneira mais livre, numa linguagem despojada, aproveitando elementos e temas da realidade regional. Realizaram uma poesia com forte conteúdo telúrico.

Os anos 50 foram marcantes para a vida cultural do Amazonas. A década se inicia com a publicação, em 1951, de Silêncio e palavra, um dos livros mais significativos da vida literária do poeta Thiago de Mello. Três anos depois, uma nova geração de escritores surgiria sob os auspícios do Clube da Madrugada – movimento responsável pela atualização e renovação da literatura regional. Varanda de pássaros, livro de estréia de Jorge Tufic, de 1956, é também o marco inicial da produção poética da geração madrugada. Determinada pela efervescência literária e pelo contexto histórico do final da década de 50 e dos anos 60, a poesia dos autores ligados ao Clube da Madrugada se fraturou em diversas vertentes: a) espiritualista – L. Ruas, com Aparição do clown e Max Carphentier, com Orfeu do Nazareno; b) telúrica – Elson Farias, com Barro verde e Astrid Cabral, com Visgo da terra; c) existencial – Luiz Bacellar, com Frauta de barro, Ernesto Penafort, com Azul geral, Alencar e Silva, com Lunamarga, e Antísthenes Pinto, com Sombra e asfalto; d) experimental – Jorge Tufic, com Chão sem mácula; e) social – Farias de Carvalho, com Cartilha do bem amar com lições do bem sofrer.

Na contracorrente do movimento madrugada, surgiu, no final dos anos 60, uma nova linhagem de escritores que ficou conhecida como pós-madrugada. Foram protagonistas desse novo momento de nossas letras: Anibal Beça, com Filhos da várzea, Aldisio Filgueiras, com Malária e outras canções malignas, Simão Pessoa, com Porandubas, e Zemaria Pinto, com Fragmentos de silêncio. As duas décadas finais do século XX, apesar do refluxo na produção poética regional, testemunharam o surgimento de uma nova geração de poetas que, pela acuidade e consciência do labor poético, busca afirmação e reconhecimento dos leitores. Merecem destaque Cláudio Fonseca, Efraim Amazonas e Regina Melo.


* Escritor, membro da Academia Amazonense de Letras.

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A mídia manipula o debate sobre Raposa Serra do Sol, diz antropólogo

sexta-feira, 5 de setembro de 2008


O antropólogo João Pacheco de Oliveira Filho, uma das principais referências do Brasil em questão indígena, criticou a cobertura feita pela imprensa sobre o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), dos recurso dos arrozeiros de roraima que insistem em permanecer na Terra Indígena Raposa Serra Sol. Disse que há um excesso de filtragem no conteúdo, relata situação que viveu ao ser convidado para falar sobre o assunto, avalia que as leis brasileiras em relação aos indígenas são desumanas e sugere formação de redes independentes como fundamentais à divulgação de outros pontos de vista. Fala de discriminação e de estimulo ao uso das leis existentes para combater o racismo contra os índios. Em sua passagem esta semana por Manaus a convite do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas, ele concedeu entrevista aos repórteres Michele Portela, Wilson Nogueira e Neuton Corrêa, para o blog http://www.textobrasil.com/.

O senhor acredita que episódios como esse que envolve a Raposa Serra do Sol podem fomentar uma discussão com a sociedade sobre a formação do Brasil e a presença dos índios?
Olha, eu acho que nós não temos condições muito favoráveis para o exercício de uma democracia ou de uma manifestação plena de pontos de vista sobre os índios ou de certos setores da sociedade brasileira, também. A gente vê uma filtragem muito rígida em relação às manifestações. Por exemplo: todo debate em relação às manifestações feitas sobre o Comando Militar da Amazônia foram geralmente absorvidas por uma linha exclusivamente de apoio e coisas dessa natureza. Não houve questionamento nenhum. E o debate sempre se faz, geralmente, sobre vários pontos de vista. Era freqüente que os jornalistas também entrevistassem personagens importantes de governos, de políticos de períodos anteriores, às vezes, até bastante passado da vida brasileira. Voltou até uma série de personagens ligadas ao período militar. Voltaram a ser personagens do dia-a-dia. No entanto, você via poucas informações onde se passava o outro ponto de vista. Praticamente não se via isso. Eu mesmo, em algumas ocasiões, cheguei a ser convidado por determinado organismo de imprensa e no final já perguntava: você vai fazer entrevista ao vivo, não é? É, mas antes eu quero saber a opinião que o senhor tem: o senhor é contra ou a favor a demarcação? E eu dizia: olha, eu só digo isso ao vivo porque, senão, você não vai me convidar.

O senhor acha, então, falta espaço para o contraditório?
Eu acho que a realidade é essa. O espaço que se tem é muito pouco para essas manifestações. Há uma dose de preconceito muito grande em relação ao indígena. Há muito pouca informação sobre o que significam as terras indígenas no Brasil, sobre o que os índios querem quando eles reivindicam demarcação terra. Os índios não querem separação do Brasil. Os índios não querem expulsar os brancos que estão lá dentro. Eles querem desenvolver aquela região para poder usar aqueles recursos para poder melhor seu modo de vida. Não há qualquer colocação em risco da segurança nacional. A área de Roraima, como a área do Rio Negro, como alto Solimões, como vários outros, está pontuada pela presença de bases militares do Exército, que fazem bem sua função de assegurar os limites nacionais e garantir a soberania nacional. Isso não tem nada a ver com a presença de áreas indígenas.

Para o senhor, então, a que a grande mídia não tem ajudado nesse debate para a formação da sociedade sobre a questão indígena?
Eu acho que há informação extramente truncada. Nós precisamos, de certa maneira, sempre lutar contra dois inimigos: um inimigo é quem falou a coisa contra o índio e o outra é quem divulga. Porque, frequentemente, quem divulga já tem uma noção premontada em relação ao assunto extremamente carregada e, em todo momento, o entrevistador está combatendo com fatos, com pontos de vista que são colocados, de forma completamente negativa, em relação ao indígena. Então, eu não acredito que isso seja um debate positivo em relação à sociedade nacional.

Nesse sentido, o que o senhor sugere para que se combatam esses preconceitos?
Eu acho que é importante o Estado brasileiro, através de suas várias formas, propor às novas gerações e à população brasileira formas pelas quais os indígenas se apresentem de forma mais legítima, como portadores de uma tradição cultural, como partícipe da construção brasileira historicamente atual, como pessoas que reivindicam a cidadania brasileira. Os indígenas não são cidadãos internacionais. Todos eles se imaginam como imaginam como parte construção do Estado brasileiro. Eles reivindicam o direito dentro do território brasileiro. Então, é uma quantidade enorme de deformações e informação de ponto de vista, de argumentos que a gente vê de todo lado. E eu não sou muito otimista. É como daquelas coisas de sorteio em que você coloca 200, 500 mil bolinhas dentro de uma caixa, roda para ver qual você vai tirar. E é isso que a gente tem. Cada hora a gente combate uma daquelas bolinhas. Mas as duzentas, pode contar, elas são todas contra os índios. Algumas são mais agressivas. Algumas são menos. Mas eles sempre estão valando do ponto de vista suspeitoso em relação aos indígenas. O papel da mídia, principalmente, da grande mídia, da TV e dos grandes jornais é sempre muito negativo. E nesse sentido as iniciativas independentes de sites, da Internet, constituem redes fundamentais para abastecer, hoje, de alguma informação as pessoas. Sem elas seria um obscurantismo total.

O indígena sempre foi visto por numa posição de inferioridade. Na sua opinião, como eles podem ser protagonistas?
A primitividade dos indígenas. A idéia de que atrás do indígena, se o indígena tem alguma ação muito racional existe algum branco. O indígena não pode ter uma ação e reações racionais, equilibradas. Ele sempre objeto de alguma manipulação. Isso tudo é uma visão extraordinariamente preconceituosa. Em certos casos, agricultores se fazem passar por indígenas, mas, na realidade não são mais indígenas. É só o índio que manipula? A vida social é feita de manipulações, refregas e exercícios de tentativas de execução de seu direito. Eles têm que lutar por seus direitos. E eles estão no papel deles. Eles têm que lutar por seus direitos com as armas que têm.

Como é que a universidade, os intelectuais e a produção intelectual científica podem contribuir nesse debate?
Eu acho que na hora que você vai ver quando as pessoas recorrem a experiências mais simples, não são teorias. Não é Gobineau, marquês francês que fala sobre o racismo, da desigualdade das raças. Não precisa vir doutrinas intelectuais. Acho que as sensações primárias das pessoas são negativas em relação aos indígenas. Elas são também marcadas por essa crítica, por esse apartheid, por essa idéia de inferioridade dos indígenas. Neste sentido, no Brasil, se aplica pouco a legislação sobre racismo. Seria interessante evidenciar em alguns casos como essas manifestações beiram o racismo. E incriminar as pessoas que fazem isso. Os intelectuais negros fizeram muito o uso disso no passado. Foram situações ricas para levar a sociedade a ter consciência sobre seus próprios limites e seus próprios preconceitos. É preciso usas as leis.

O senhor fala do ponto de vista dos direitos adquiridos...
Do ponto de vista dos direitos adquiridos, não há nenhuma negociação, nenhuma divisão, não há meio-termo, vamos resolver metade para cá, metade para lá. Não é isso! As questões são de reconhecimento de direitos. São os processos administrativos que foram consolidados durante décadas. Os índios investiram durante cerca de 20 anos numa solução pacífica dada pelo Estado nacional. Quando terminou esse processo, sendo respeitado todo esse processo que o Governo criou, se anula o jogo e então uma instancia superior vai decidir se aquilo é ou não legítimo. Isso é de uma desumanidade e uma injustiça que isso aconteça. Se a leis permitem, mas as leis também são, nesse sentido desumanas em relação a esse grupo que apostou tanto no estado Brasileiro, nas regras do Estado Brasileiro, na atuação da Funai, na sistemática da atuação dos grupos de trabalho. Eu acho que não é de maneira nenhuma uma boa contribuição à paz social, à paz social em Roraima, a convivência pacífica entre brasileiros índios e não-índios. Quanto mais claro estiver o direito de cada um, e quanto mais se aplicar a lei, rigorosamente, no final você terá a conivência entre as pessoas.

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Índios misturam artes e sabores em Manaus

quinta-feira, 4 de setembro de 2008



Índios de sete etnias do Amazonas participam da feira Pukaa (mãe da mata em língua Sateré-Mawé), no Centro Social do Parque 10 de Novembro, bairro de Manaus (AM). Até domingo, os visitantes terão contato com o artesanato, com a culinária, com a música e com a dança indígenas. Os expositores e artistas fazem parte da população de 10 mil índios que moram em Manaus.

“Essa feira é importante porque divulga a cultura indígena”, reconhece Tina Neves, 29 anos, da etnia Ticuna, que vive em terras do Alto Solimões, na tríplice fronteira Brasil/Colômbia/Peru. Tina migrou do município de Santo Antônio do Içá para Manaus há quatro anos, para dar seqüencia aos estudos. Atualmente, Tina ajuda a mãe dela, Dalva, na confecção de colares, brincos e outras jóias de sementes, fibras e penas, e cursa o primeiro período de Administração de Empresas.

“...assim a gente não se afasta da nossa
origem”

Somam-se aos Ticuna os Bayaroã, os Sateré-Maué, os Waikaná, os Inhaã Beé, os Aicunã e os Merehú. “Aqui está uma significativa mostra da cultura indígena da Amazônia”, acentua o cacique Luiz Sateré, que representa os Sateré-Maué que moram no bairro da Redenção, na periferia da cidade. Luiz Sateré nasceu numa aldeia localizada na margem do rio Marau, no município de Maués, no Médio Amazonas, e está morando em Manaus há 10 anos.

Ele explicou que o artesanato é a principal fonte de renda dos índios. “Essa atividade é importante porque, assim, a gente não se afasta da nossa origem cultural”, afirmou o cacique. O grupo liderado por Luiz já foi, por exemplo, ameaçado de despejo da área onde mora. “Queremos viver bem e por isso precisamos de casa e de terra para morar e trabalhar”, enfatizou.

A feira, para o cacique, aproxima os índios dos demais moradores de Manaus por intermédio das trocas culturais. Nesses três dias os visitantes terão a oportunidade de degustar bebidas e comidas da tradição indígena, como o caxiri (fermentada) e peixe assado com banana grande cozida na brasa de carvão vegetal.

A feira indígena é organizada pela Prefeitura de Manaus.

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“Esse negócio de fazer 80 anos é muito chato”


Vôo cego
Para Luiz Maximino de Miranda Corrêa
“L’église – hangar de Dieu”
Paul Claudel

No meu skayrocker supersônico,
Meu vôo inicial
– inaugural e tateante –
através do Nevoeiro da Descrença
no rumo das estrelas infinitas
alcei
– rota incorpórea do meu ser.
perdi meu horizonte !!
Mas não perdi meu místico radar
agora que os aviões da Fé, todos tombaram
no Mar
no imenso Mar ...tão frio,
glauco e sombrio
da humana indiferença...

Luiz Bacellar (foto)

O poeta amazonense Luiz Bacellar completa hoje 80 anos de idade. Intelectuais e artistas prestaram-lhe homenagem ontem, no Centro Cultural da Livraria Valer, em Manaus (AM0), com poesia e música. Bacellar é citado por estudiosos da Literatura como um dos poetas mais importantes do País.

O escritor e pesquisador Roberto Mendonça, 62 anos, declamou o poema Vôo cego, publicado em maio de 1953, no Universal, semanário da Igreja Católica, que circulou em Manaus, no período de 1953 a 1958. “Encontrei esse tesouro quando pesquisava, nos arquivos da Igreja, sobre o poeta L. Ruas”, disse Mendonça.

Ao receber uma cópia do poema, Bacellar revelou: “Esse estava perdido”.

A homenagem a Bacellar foi organizada pelos escritores Tenório Telles, Elson Farias, Cláudio Fonseca, Frederico Krüger e Zemaria Pinto, por amigos e leitores.

Bacellar encarou em sua homenagem com a seguinte frase: “Graças a Deus está acabando (a homenagem). Esse negócio de fazer 80 anos é muito chato. Os cumprimentos não acabam nunca”.

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Scorpions em Manaus - O ciclo da paixão roqueira

quarta-feira, 3 de setembro de 2008


Yusseff Abrahim*


Dia 4 de setembro é a véspera do dia mais importante da história do Estado, quando é comemorada a Elevação do Amazonas à Categoria de Província. Traduzindo: é a independência do Amazonas, a conquista da autonomia administrativa no lugar da submissão ao Grão-Pará. Um novo tempo! Em 2008, quando for meia-noite do dia 5 (sexta-feira), uma multidão vestindo camisas pretas já estará em festa, aplaudindo, gritando e cantando em mais um inestimável culto ao ritmo eletrizante do rock, a reconstruir nos fãs da cidade uma outra sensação de independência: a dos altos custos de deslocamento para assistir a shows internacionais que vêm ao país. Os Scorpions estão de volta ao Brasil, e um ano depois, estão novamente em Manaus. Mais


*O autor é jornalista

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O apelo dos Andes

terça-feira, 2 de setembro de 2008


Wilson Nogueira*


Das entranhas dos Andes escorrem filetes de águas que se juntam nos intrincados percursos para ajudar na formação dos rios amazônicos. O habitante da planície distante demora a acostumar-se com esse cenário dominado pelo entrelaçado de rochas a rebater a luz que atravessa o nevoeiro da manhã. Do carro ou do avião, a idéia que se tem é a de que a natureza caprichou nas pinceladas nessa parte do Planeta.

Os povos andinos têm consciência de que os deuses lhes confiaram beleza e riqueza ímpares. Por isso, desde há muitos séculos, defendem sua morada com o próprio sangue. O valor das serras e vales está muito além da cotação do ouro, da prata, do cobre, do ferro ou do petróleo neles contidos. Não fosse assim, talvez nem existisse mais, tamanha a cobiça sobre essas riquezas.

Na Província de Zamora Chichipa, na Amazônica equatoriana, ouvi Jorge Timbicti, líder da etnia Shuar, reclamar dos ataques das companhias mineradoras ao território andino equatoriano: “Assim como nossos ancestrais, vivemos aqui sem nos preocuparmos sobre quanto vale (em dinheiro) uma montanha. Elas não estão à venda, elas fazem parte da alma do nosso povo”. A comunidade dos Shuar fica no município de Pangui, região farta em minérios e madeiras.

A espoliação dos Andes é secular. A história dá conta de que os colonizadores europeus, desde o final do século 15, escravizam e matam para se apropriar das suas riquezas. No rastro dessa pilhagem, perfilam-se os sobreviventes da exploração que muda na aparência, mas se mantêm fiel às origens. Hoje são as transnacionais da mineração que extraem e cobiçam as minas do Equador.
Os Shuar clamam proteção aos deuses contra os que lhes querem sacar-lhes até a alma. Carlota Wuachapá, que aparenta uns sessenta anos, entoa um lamento. As crianças que brincavam de construir estradas no chão batido, para caminhões representados por tijolos, correm para perto dela, e a assistem atentamente. Carlota encanta as crianças e a platéia de pesquisadores da Universidade Nacional de Loja (UNL) que se reúnem com os Shuar para assinar um acordo de cooperação voltado à pesquisa de plantas medicinais.

A iniciativa conta com o apoio da Associação das Universidades da Amazônia (Unamaz) e da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), instituição consignada pela Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.

A arte de dona Carlota celebra o encontro da ciência clássica com o saber milenar desse povo. Os Shuar esperam tirar o sustento de uma bem renovável, na tentativa desesperada de proteger suas montanhas e vales das brocas de aço das companhias mineradoras. Rosa Rondandi, mais jovem que Carlota, demonstra o poder das plantas por meio de um ritual de pajelança. A xamã espana os voluntários com um ramo de alho e completa a limpeza dos corpos e almas deles com baforadas de um líquido escuro feito de cascas e folhas silvestres conservadas em uma garrafa.

“Estou me sentido outra pessoa”, revela um cientista venezuelano benzido por Rosa.

Os Shuar estão certos de que a arte, a fé e a ciência, juntas, podem salvar as montanhas da voracidade das mineradoras, para que elas continuem jorrando águas límpidas para as planícies mais longínquas.

* Sociólogo, jornalista e escritor.

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As leis, as mulheres, as crianças, uma reflexão e o cachorro atrás do rabo

Gerson Severo Dantas*


O Brasil, como disse em post anterior, é o País das discussões estéreis, sem profundidade e realismo. Muito desse problema está na nossa confiança cega nas leis elaboradas nos mais diversos parlamentos.

Esse defeito acentuou-se nos últimos anos quando importamos dos Estados Unidos um movimento que lá denominou-se “Law & Order”. Quem tem canal a cabo conhece bem o estilo a partir das séries Law & Order e Law & Order (Special Victimis Unit). Trocando em graúdos – vez que não sou especialista em Direito – esse movimento prega que pela adoção de leis mais duras teremos nossos problemas resolvidos. Da mimesis brasileira saiu, por exemplo, a Lei Maria da Penha. Essa lei, em essência, proíbe que maridos cometam qualquer tipo de violência contra mulheres. Ou seja, um tapinha – ao contrário da tese Kellykeyana – dói e deve ser punido. Nada contra a nova lei, que aliás presta homenagem a uma grande mulher, mas o problema é que já existiam dúzias de leis que proibiam a mesma coisa, ou será que alguém pensa que bater no próximo tem qualquer tipo de amparo legal? Não! Bater, humilhar, assediar, espancar, caluniar, difamar, tudo isso já era considerado crime antes da Maria da Penha. Um exemplo mais próximo de nós vem da lavra do presidente da Câmara Municipal de Manaus, Leonel Feitoza. Lei aprovada por ele obriga que promessas de campanhas sejam cumpridas sob pena do candidato perder o mandato. Alguém tem dúvida de que prometer e não cumprir é imoral, ilegal e engorda?

Qual o problema do Law & Order brasileiro? Não temos estruturas – estatais e pessoais – para garantir a execução das leis mais rigorosas. Pegue-se novamente a Maria da Penha: se você mulher for agredida durante a semana terá à disposição um atendimento, digamos, mais especializado na Delegacia das Mulheres. Caso a agressão ocorra no fim de semana, a Delegacia das Mulheres estará fechada e o atendimento será feito numa Delegacia plantonista, onde..., bem, deixemos para lá.
O caso da Lei Feitoza contra políticos que não honram a palavra tem um problema espaço-temporal. Quanto tempo, por exemplo, a sociedade deverá esperar para o cumprimento da promessa? E se o político disser que vai cumprir a promessa no último mês do mandato? Ainda: Se pensarmos que a promessa só foi cumprida em um pequeno conjunto habitacional, ele quebrou ou não quebrou a promessa? Enfim...
Mas porque eu, um simples jornalista de cabelos curtos e idéias longas, envereda pelas lides tortuosas do Direito? É que nessa semana um casal deixou suas crianças com menos de 16 anos em casa quando foi trabalhar e, denunciado ao Conselho Tutelar, agora corre o risco de pegar até 12 anos de cadeia por negligência. É um típico caso do cachorro correndo atrás do rabo. Para não dizer que estou sozinho com essas preocupações, enquanto a reportagem passava na TV, aqui da redação, muitos colegas se entreolharam cúmplices de um crime semelhante. Isso mesmo: um crime. Quase todos nós, em algum momento, já deixou sua prole sozinha em casa e ficou sujeito as 12 anos supracitados.

Bem, não pensem que estou contra a garantia legal da proteção a criança, mas é que nessas horas fico a refletir sobre o tempo em que meus pais saiam para trabalhar e eu, o caçula de uma família pobre, ficava sob a proteção de minha irmã apenas 10 anos mais velha. Ou seja, uma criança cuidando da outra. Felizmente nada de grave aconteceu comigo ou com meus irmãos, mas talvez isso seja exceção.

Então proponho a seguinte questão: Quem deve ficar com as crianças quando o casal pobre precisar sair para trabalhar e ganhar dinheiro suficiente para alimentá-las, vesti-las, educá-las? - outras obrigações legais dos pais. A resposta é: O Estado, o criador das leis, mas este, só para pegar o exemplo local, só conseguiu construir uma (1) creche em Manaus nos últimos trezentos e cinqüenta anos. E isso foi na administração atual.


* Filósofo, jornalista, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.

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As injustiças da Lei Eleitoral

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Valmir Lima*


As normas estabelecidas pela Lei Eleitoral (Lei 9.504, de 30 de setembro de 1997) para a propaganda eleitoral têm o objetivo de dar igualdade aos desiguais. Para tanto, não permitem o uso de outdoor, por exemplo, os shows durante comícios, e limita a publicidade de candidato nos meios de comunicação impressos. O argumento é o de que aqueles que têm muito dinheiro teriam prioridade no uso desses meios de comunicação, enquanto os de menor poder econômico ficariam com a “mídia pequena”, em que se incluem os santinhos e cartazes.

O dia-a-dia das campanhas eleitorais nos últimos anos tem demonstrado que essas regras não conseguem evitar que o poder econômico interfira na escolha dos candidatos. Nas ruas de Manaus é visível a campanha milionária de um dos candidatos a prefeito, que ocupa praticamente todas as esquinas mais movimentadas da cidade, com placas móveis, faixas, cabos eleitorais empunhando bandeiras e distribuindo “santinhos”.

Por que os outros não estão nas ruas também? Falta dinheiro para bancar a produção e a veiculação dessa propaganda, que exige um “exército” de pessoas, com a exigência de direitos trabalhistas e recolhimento do benefício da previdência social.

Esse é só um aspecto das injustiças que a lei eleitoral não consegue corrigir. Outro, mais grave, diz respeito à campanha de parlamentares seja pela reeleição ou por um cargo majoritário. Os vereadores de Manaus e os deputados estaduais do Amazonas iniciaram, na semana passada, um período de “recesso branco” para poderem se dedicar à campanha eleitoral.

No caso de Manaus, entre os 794 candidatos aptos a disputar uma das 38 cadeiras da Câmara Municipal, 36 estão sendo pagos com dinheiro público para fazer campanha. Mais: eles têm a seu favor, todos os funcionários do gabinete, também pagos com o dinheiro do contribuinte, para trabalhar na campanha pela reeleição de seus “patrões”.

A Lei Eleitoral impede que um secretário municipal, por exemplo, dispute a eleição para vereador ou qualquer outro cargo sem se desincompatibilizar três meses antes do dia da eleição. O vereador que disputa a reeleição, que tem a vantagem de estar há quatro anos “representando” a população e, portanto, ganhando visibilidade política, não precisa deixar o cargo para concorrer novamente a uma vaga, e ainda por cima, o contribuinte para o seu salário e os de seus cabos eleitorais para fazerem campanha.

O mesmo ocorre com prefeitos, governadores e presidente da República. Não precisam deixar o cargo para disputar a reeleição. Ora, por que um secretário não pode disputar sem que deixe o cargo político, e o seu “chefe” pode? São questões que ninguém consegue explicar. A única explicação é a de que a lei não é feita para melhorar o sistema de escolha dos representantes do povo, mas para favorecer o grupo que está no poder. No caso dos parlamentares, como eles mesmos fazem a lei, nunca o fazem para prejudicá-los, por mais que isso desagrade seus representados.

Padre Roque, um ex-deputado federal do PT do Paraná (que deixou o PT em 2006) defendia a idéia de que cada parlamentar, como se diz representante do povo, só pudesse fazer essa representação uma vez na vida. Depois de quatro anos de mandato, não lhe seria mais permitido nem a reeleição nem outra eleição, mesmo que se afastasse da vida parlamentar por um tempo. Padre Roque teve a oportunidade de transformar a idéia em projeto de lei; não o fez, apesar de ter seguido o preceito de ter apenas um mandato. Se tivesse feito, certamente, tal projeto estaria dormindo nas gavetas da Câmara dos Deputados.

Mas não deixa de ser uma idéia interessante, pois, evitaria, pelo menos, que políticos se “profissionalizassem” como parlamentar. A Câmara Municipal de Manaus tem vereadores com atuação de 20 anos (cinco vezes eleito) e poucos ou nenhum projeto relevante. Na Assembléia Legislativa, a mesma coisa. O Amazonas também tem um deputado federal com cinco mandatos, sem que seus representados vejam a “cor” do seu trabalho em Brasília.


*Jornalista, professor universitário e mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia.

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Djalma Batista – um herói do nosso tempo

domingo, 31 de agosto de 2008

Tenório Telles*


A Amazônia, além de última fronteira da civilização e um dos últimos espaços naturais do planeta, conserva-se como um enigma a ser decifrado. É a grande esfinge do nosso tempo. Desde os primeiros viajantes, inúmeras explicações, teorias e visões foram construídas sobre esse universo verde, líquido e misterioso.

O poeta Pereira da Silva, fascinado com sua grandeza e pujança, concebia-a como a representação do paraíso. Outros, amedrontados e sem compreender sua natureza superlativa e enigmática, imaginavam-na como um mundo cheio de riscos, uma representação do caos originário. Algumas mentes sensatas e altivas assumiram o compromisso e o desafio de estudá-la e decifrá-la, como forma de protegê-la e usufruir de maneira responsável os seus bens.

Djalma Batista faz parte dessa linhagem de pesquisadores que ousou enfrentar a esfinge. Fruto desse gesto de coragem e compromisso com a Amazônia, produziu uma das reflexões mais consistentes e atuais sobre a complexidade da região: “A natureza amazônica não está suficientemente conhecida e estudada. Considero, por isso, em primeira prioridade, a necessidade de incentivar pesquisas científicas e tecnológicas, que venham a servir de orientação indispensável”. Aliás, o grande mérito de seu trabalho foi ter percebido o caráter diverso e integrado desse mundo em contínuo processo de vida e renovação. Problematizou muitas questões sustentadas por ilustres cientistas do nosso tempo: a natureza como um organismo vivo, a noção de equilíbrio dos ecossistemas naturais, o reconhecimento da biodiversidade como fator de desenvolvimento e formação de uma consciência ecológica.

Seu livro “O Complexo da Amazônia” é o resultado de uma existência dedicada à ciência e ao estudo sobre a realidade amazônica. Não é só um diagnóstico sobre a complexidade desse universo, o que explica o subtítulo da obra: “Análise do processo de desenvolvimento”. É uma declaração de compromisso e proposição de caminhos possíveis para engendrar possibilidades inovadoras em termos de desenvolvimento para a Amazônia, capazes de compatibilizar a produção de riqueza e seu usufruto pelas suas populações, sem negligenciar a preservação do meio ambiente. Por isso, advertia: “É urgente que se crie uma agrotécnica para os trópicos, até hoje desconhecida, e que permita o aproveitamento racional das terras amazônicas e a produção de alimentos”.

O que sobressai, além do estudioso, na personalidade de Djalma Batista é a figura humana. Construiu uma trajetória ímpar, fundada em compromissos éticos, políticos e num entendimento de que a ciência não é um fim, mas instrumento para melhorar a condição humana, os processos sociais e gerando qualidade de vida para a sociedade. Seus leitores terão muito a aprender com as reflexões e seus estudos, mas, sobretudo, com o seu exemplo como cientista, intelectual e pai de família. Foi um homem de sua época, que, como poucos, honrou seus valores e consagrou sua vida à sua maior causa – a Amazônia. Profeta de um mundo incompreendido e ameaçado, Djalma é um dos heróis do nosso tempo.


* Escritor, membro da Academia Amazonense de Letras.

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