A Cidade “Maravilhosa” é feia e fede

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Gerson Severo Dantas*

Dentre as grandes velhacarias produzidas pela chamada bossa nova, aquele agrupamento de compositores de voz medíocre e integrantes da elite da zona Sul carioca, a pior é o mito da Cidade Maravilhosa atribuído à pútrida e pestilenta cidade do Rio de Janeiro. Não há cidade mais feia no Brasil do que o Rio, mas como todos sabemos uma mentira repetida várias vezes, como ensinou Goebels, acaba virando “verdade”.

Essa mentira começou com marchinhas carnavalescas, ganhou asas nas músicas de Tom Jobim e Cia e foi turbinada pela Rede Globo, que da cidade de Estácio busca unificar o Brasil a partir da zona Sul, das praias e lugarejos bem demarcados dessa cidade fake.

Em verdade vos digo: saindo do aeroporto Tom Jobim, dobrando a direita, pegando a linha vermelha, o cidadão comum só encontra complexos de favelas e o cheiro desagradável que emana da Guanabara. Tentem passar de nariz aberto ao largo da Ilha do Fundão! Beleza mesmo, só uns três quilômetros quadrados da zona Sul. E isso se você não levantar a vista para Rocinha, Chapéu Mangueira ou outros do gênero. A beleza da Cidade “Maravilhosa” está circunscrita, tem um “locus” determinado, vai do Forte de Copacabana até onde a vista alcança, pouco depois do hotel Meridien. Desafio a rede Globo a mostrar, nas suas novelas, mais do que isso. O resto da cidade é um lixo!

Assim como acontece com a bossa nova, falar mal, digo falar a verdade, sobre o Rio de Janeiro atraí uma legião de adversários, quase todos têm casas na zona Sul ou ficam em hotéis ou casas de parentes nessa região. A maioria costuma dizer, de forma idílica, que “Deus fez o Rio e o homem fez Paris!” Querem com isso dizer que a beleza do Rio foi estuprada pela ação humana, sobretudo com as favelas da zona Sul, sempre ela. Não concordo! No meu modesto entendimento uma cidade é feita pela sua natureza peculiar e por seu povo. Não há beleza em um prédio desabitado projetado por Severiano Mário Porto.

Esses argumentos não convencem aqueles inebriados pelas velhacarias e as imagens globais, que saltam das tamancas para me perguntar qual cidade acho bonita e, via de regra, completam: “Manaus é bonita”?

Manaus é um caso a parte, sem um movimento musical de sucesso discutível para lhe dar suporte, a bossa nova, ou imagens belíssimas da Rede Globo (nunca foi locação de novelas), a minha cidade tem seu charme. Para começo de conversa não fede.

Beleza natural por beleza natural, fico com os Ipês roxos floridos que se abrem nessa época do ano nas duas margens da avenida do Turismo. É um espetáculo único e traz assinatura divina. Ver a lua cheia pratear o rio Negro, para emprestar uma “categoria” de José Aldemir de Oliveira, é algo digno dos aplausos que os cariocas maconheiros distribuem todas as tardes em certas praias da região do Leblon. Observar, da ponta das Lajes, ao nível dos rios, o encontro de Negro e Solimões é uma atração impagável que dá uma paz de espírito indescritível e mostra a nossa verdadeira dimensão na terra. Esses argumentos também não convencem meus adversários, que retrucam enaltecendo o savoir-vivre dos cariocas. Bem, aí não dá mais para discutir. Povo por povo, fico com o nosso caboclo. Tenho dito!

* Filósofo, jornalista, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.

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"Minha preocupação não é fazer coisas perfeitas"


Há seis anos, o artista plástico amazonense Arnaldo Garcez decidiu morar no Rio de Janeiro, para trocar experiências com outros artistas, aperfeiçoar suas técnicas e descobrir novos mercados. “Senti-me, num determinado momento, limitado”, disse, referindo-se às inquietações da época. As obras Garcez conquistaram cenários de diversas novelas da TV Globo e abriram novos caminhos para o estilo que ele denomina de expressionismo amazônico. Neste ano ele já expôs nos Estados Unidos e, em dezembro, retorna para apresentar seu trabalho no Museu das Américas, em Miami e, depois, em Nova York, integrando o Brazilian Group, no Salão de Arte New York Expo 2009, sob a curadoria de Sheyla Athayde. Em entrevista ao repórter Wilson Nogueira, Garcez fala da sua arte e do mundo das artes e da necessidade de vir a Manaus constantemente.


O senhor não mora mais em Manaus...
Saí de Manaus (AM) com a intenção de proteger a minha capacidade criativa. Senti-me, num determinado momento, limitado. A condição da cidade não oferecia uma leitura melhor para a minha relação de trabalho. Passei a trabalhar nesse tempo no Rio de Janeiro, e de lá parti para os Estados Unidos, onde hoje estou contratado por uma grande galeria, onde em realizei um trabalho em maio. Volto lá, no próximo ano, para a primeira (exposição) individual. A curadoria (da galeria) já tem me levado a vários lugares. Em dezembro, por exemplo, estarei expondo pela primeira vez em Miami, num museu, como o Brazilian Group. Esse é o resultado de um trabalho que comecei nesse ano, e eu acredito que ele dará muitos frutos.

E a sua relação com Manaus?

É muito forte. Eu não vou deixar nunca essa cidade fora dos meus planos. Pretendo fazer um grupo em Manaus e levá-lo para fora também. O que tem acontecido em Manaus, com essa avalanche cultural, é interessante para o ambiente macro, e ao mesmo tempo muito triste para os artistas locais. Quero dizer: se investe muito (em espetáculos produzidos em outros Estados e países), esse dinheiro vai embora e pouco se estimula os artistas locais. Vejo que, aqui, a cada momento das artes plásticas se torna muito deficitária. Isso ocorre porque não existe pesquisa nem troca de experiência entre os artistas, e por isso eles estão se repetindo. Os artistas locais não conseguem ver o que está acontecendo em sua volta. Há um grande movimento acontecendo, mas ele ainda não chegou a Manaus. Por isso, os artistas locais continuam se orientando por uma concepção antiga de arte, como a prática de traduzir a Amazônia como uma forma de souvenir. A pintura não se encerre na questão do traduzir... A Amazônia tem tantos fatores para a gente interpretar de forma inteligente, o que chama muito mais atenção do que traduzir a Amazônia como simples souvenir.


Essa nova linguagem, a qual o senhor se refere, ocorre a partir do diálogo com algum novo movimento das artes plásticas?

Tenho trinta anos de atividade. Talvez seja essa a marca mais consistente do meu trabalho. Nunca desviei a atenção do meu trabalho para fazer outra coisa a não ser dentro da pintura, da música e da literatura. Construí uma história, mas essa questão da linguagem depende de estudo. Não existe genialidade, existem pessoas com capacidade e sensibilidade mais agudas e essas pessoas podem criar uma estrutura e uma nova concepção de arte. Mas se o artista não estuda, se ele não tem conhecimento histórico, não pode desenvolver algo novo. E para fazermos algo novo temos que aprender o que está em torno de nós. Então essa é a grande dificuldade que eu vejo para o artista que não se atualiza. Esses artistas não acompanham o processo histórico e a evolução da arte.

Qual é a novidade, então?

A arte contemporânea está usando tecnologia (as instalações mostram isso), ela está trabalhando com um mundo que está em transformação, e as artes plásticas estão inseridas nesse contexto. Quando os artistas começam a utilizar esse novo material para compor linguagem plástica, eles se inserem nesse novo movimento. Estive agora, na exposição dos chineses (no Rio), onde a grande novidade é a utilização da máquina de reprodução de imagens. Essa mesma técnica eu adoto nos meus trabalhos para a televisão. Meus trabalhos na televisão são cópias, porque os originais não podem ser usados nos cenários. O Zeca Nazaré está trabalhando e divulgando essa técnica em Manaus, agora. É o primeiro cara a trazer essa linguagem para Manaus. Por isso, defendo a necessidade de trocar essas informações entre os artistas de vários lugares.


O senhor é filiado a algum movimento ou escola de arte?

Meus trabalhos se inspiram no expressionismo alemão. Eu estudei na Alemanha, e me adapto à filosofia desse movimento. Essa é a escola da qual deriva o modernismo. Ela vem desde 1910. Até hoje esse movimento é muito respeitado e a cada década ele se renova, inaugura uma nova concepção de arte. Atualmente, está muito forte o neo-expressionismo abstrato. Foi a partir desse momento que se deu a liberdade nas artes plásticas. Eu me baseio nessa escola, mas o meu trabalho se caracteriza pelo o que eu denomino expressionismo amazônico, pelo fato de eu ter uma relação com essa cidade (Manaus), pelo fato de eu trabalhar com o figurativo, que é outra escola que está muito forte, porque retrata a figura humana. Já passei por várias etapas: o concretismo, o abstrato, o abstrato geométrico... hoje, a figura humana, talvez pelo uso da tecnologia, está retornando como tema privilegiado nas artes plásticas...

Gostaria que o senhor abordasse mais o expressionismo amazônico...

O expressionismo, no sentido que abordo, é a minha linguagem e a forma com a qual eu trabalho. Por exemplo: eu pinto as mulheres amazônicas, mas não as retrato de forma esteriotipada, sem que, necessariamente, elas tenham que ser caracterizadas como figuras indígenas. Pinto seres humanos. A minha preocupação não é fazer coisas perfeitas, mas de criar pinceladas que vão sugerir a idéia de elementos da Amazônia. São cores justapostas, e essa é a característica básica da expressão. Não é uma arte que deriva de uma preocupação clássica. É um trabalho de muita técnica, onde as pinceladas sugerem essas figuras que refletem os olhos de alguém que pode estar triste. Essa técnica estimula um diálogo com o expectador.

Nesse caso, o senhor almeja criar a sua própria escola.

Os meus trabalhos têm uma característica gráfica que reflete a minha personalidade. O expectador já identifica as minhas obras pelas pinceladas. Tanto é que não assino as minhas telas na frente, assino-as atrás.

Como você analisa a relação da arte com o mercado global?

O mercado hoje é muito fechado, ele existe. No mercado lá fora, as pessoas consomem obras de arte no sentido original. Pagam um preço por isso, mas esse é um mercado que não está aberto a qualquer pessoa. Um quadro é um investimento. Às vezes, é igual ou até muito superior ao de um apartamento. Quando a obra de arte tem consistência, ela passa a ser um investimento de capital. A bolsa de arte é uma das que mais movimenta capital, porque, quando se pensa em arte, se pensa também nas trocas dos quadros entre os museus, no seguro, no transporte e em uma série de outras avaliações que envolvem dinheiro. O transporte de obras entre um museu e outro, por exemplo, movimenta milhões de dólares. Agora há um mercado direto de compra e venda.

E em Manaus?

Em Manaus, há um mercado, mas é importante ressaltar que existem galerias que trabalham com obras de artistas do Rio de janeiro, São Paulo, Curitiba e Brasília, e não expõem obras de artistas locais. Penso que falta uma divulgação dos artistas locais. Há, certamente, falta de profissionalismo na relação dos artistas locais com o mercado. Permanece ainda a cultura do artista que vai à luta. Assim, o artista não consolida clientela.


E as suas obras?

Não tenho, particularmente, do que me queixar, mas não tenho apoio cultural, por exemplo, para expor em Manaus. Pago as minhas passagens, o hotel e toda e logística para poder expor o meu trabalho e, com isso, contribuir com divulgação e estimulo à produção cultural amazonense.

Quais seriam as referências nas artes plásticas em Manaus?

Há artistas importantes. Lembro aqui do Moacir Andrade, Van Pereira, Manoel Borges, Hanneman Bacellar, Zeca Nazaré... Estão todos escondidos. Essa cidade precisa de um museu. Há uma pinacoteca, mas ela não é divulgada. Há apoio ao boi-bumbá, cinema, orquestras, mas não há para as artes plásticas.
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A eleição serve, também, para se pensar

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Wilson Nogueira*


A política, na sua versão eleitoral – mas não somente nela -, reproduz a competição da técnica desenfreada, e desse modo se distancia, em propósito e proposta, dos princípios da res pública, a república; etimologicamente negócio ou causa comum. O reino da técnica subtrai a cidadania em favor da contra-cidadania, que se expressa, nitidamente, na concorrência sufocante entre pessoas, empresas e nações. Essa lógica privilegia interesses particulares, cada qual na sua escala de grandeza, em detrimento do bem comum. Há, nesse jogo, uma ampliação do espaço da demagogia, do populismo e do assistencialismo.

Trata-se de um fenômeno de muitas faces e de longas datas e, também, de conseqüências recorrentes, cuja cauda atende pelo nome de globalização. A política – ressalto esse aspecto – é a parte mais importante desse sistema, porque os políticos são designados, pela democracia, para decidir em nome da sociedade. Mas, a busca da emancipação e da felicidade, por meio do provável governo de todos para todos, diante da articulação do tecnicismo, continua meta a ser perseguida de modo incansável.

Isso vale tanto para o mundo quanto para a aldeia.

Aqui, em Manaus, constata-se, por exemplo, por meio de sondagem de intenção de votos, que os candidatos mais bem posicionados são os que se beneficiam das estruturas de poder, sejam elas familiares, empresariais ou públicas. São pessoas que têm vínculos viscerais com grupos políticos e/ou econômicos. Todos, sem pestanejar, vangloriam-se de estar na e para a atividade democrática. O eleitor não deve se impressionar com o tamanho aparente desprendimento da finalidade individual. Haverá, sempre, enorme possibilidade de o fervor democrático camuflar um ato demagógico.

Tal desconfiança e cautela baseiam-se no fato de que a eleição é uma competição organizada nos patrões mecanicistas do mercado, com o propósito de gerar estímulos e obter reações favoráveis (para quem emite e para quem recebe a mensagem) ainda que elas sejam enganosas. O que interessa ao mundo competitivo, como bem frisam os marqueteiros, é o resultado imediato. Ou ainda: “A ética da campanha eleitoral é a vitória, não importa a maneira de como alcançá-la”. Os princípios republicanos que se lixem!

Tornam-se comuns, em razão da lógica imediatista, a compra de votos nas suas inúmeras modalidades, as promessas inverossímeis – desde a incompetência para realizá-las até as obras fantasmagóricas –, o abraço fingido e a conversa fiada. O debate e o compromisso em favor da coletividade passam ao largo da maioria dos candidatos. A pressa, o factual e a vida nua e crua são, para o tecnicismo, muito mais necessários que um planejamento que, também, considere a complexidade humana por meio da vida coletiva.

A democracia, nesse aspecto, precisa ser reconquistada como um processo de aperfeiçoamento da convivência humana, para que a eleição não sirva de instrumento legitimador de práticas nefastas. Por fim, é recomendável que a eleição não seja entendida apenas como um momento para se votar; ela serve, também, para se pensar.

* Sociólogo, jornalista e escritor.
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O Crepúsculo de Rob

terça-feira, 16 de setembro de 2008


O artista plástico amazonense Rob Barbosa em seu ateliê, em Parintins, mostra a tela Crepúsculo. Rob disse que elaborou essa obra inspirado no movimento constante da profusão das cores em pinceladas desordenadas aparentemente. “Essa técnica permite ao expectador realizar uma infinidade de percursos no mesmo quadro artístico”, explica Rob. Ele faz parte de uma geração de artistas parintinenses que experimenta expressões inovadoras, porém, sem desprender-se do fantástico e fabuloso universo amazônico. O Crepúsculo de Rob origina-se e sustenta-se como obra de arte reveladora de significados autóctones e universais nas cores do sol em permanente explosão em contraste com a profusão de tons da floresta e dos rios amazônicos.

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O olhar de Tizuka Yamazaki

domingo, 14 de setembro de 2008

Texto da luz Durante uma viagem de avião entre Manaus (AM) e Parintins (AM), em dezembrodo ano passado, a cineasta Tizuka Yamazaki revelou que, mesmo acostumada a viajar pela Amazônia, sentia-se impressionada com o ambiente que observava. As águas começavam a invadir as terras baixas e, assim, criavam novos contornos na paisagem em mutação. A cineasta proferiu palestra a universitários parintinenses sobre novas técnicas cinematográficas e, no caminho, fez várias fotografias. Aqui está uma delas.

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As histórias de dona Varlinda


Neuton Corrêa*

O ônibus ainda não estava lotado. Eram duas da tarde. O suor que caía do motorista, em segundos, transformava-se em vapor. Ao meu lado, uma passageira se abanava e as sobras de seu vento também me refrescavam. Estávamos na avenida Constantino Nery, um dos principais corredores viários de Manaus, na linha 416 (Canarana-T1).

Eu não tinha como não me compadecer dela. Eu a conhecia de Parintins, e ela certamente estava na capital em tratamento de saúde. Gemia muito quando entrou na viagem. Cruzava as mãos, presas aos dedos, contra o peito. Em passos curtos, deslocava-se com dificuldade, amparada por outra pessoa, uma mulher bem mais alta do que ela, muito paciente e zelosa.

Assim que ela embarcou, corri para ajudá-la. Ela talvez nem tenha feito idéia da razão de eu ter sacrificado a minha cadeira para deixá-la sentar. Dona Varlinda é uma daquelas pessoas que deveriam ser tombadas pelo patrimônio público. Em Parintins, sempre de manhã, cedo, cruzava a cidade carregando uma bacia com cheiro-verde para vender na feira.

Era um ritual: andava de cabeça baixa de quarteirão a quarteirão e sempre que chegava na esquina parava, colocava as mãos na cintura, olhava, fazia um movimento na boca como se estivesse mastigando alguma coisa. E seguia sua peregrinação.

Por falar em peregrinação, dona Varlinda era devota de Nossa Senhora do Carmo. Recordo-me dela quando eu era comentarista de missa. Ela sempre chegava atrasada na principal celebração do domingo, das 19h30, mas nunca ficava sem sua vaga no primeiro banco da igreja. Entrava com uma cesta pendurada no braço direito. Dirigia-se ao altar principal, ajoelhava-se, fazia o sinal da cruz e o encerra com um beijo na ponta dos dedos. E isso se repetia por várias vezes.

Para sentar em seu lugar cativo, recuava uns três metros e ia se acomodando. Um aperto aqui e outro ali e lá estava ela à vontade, enquanto o fiel do extremo lado do oposto do banco já estava fora.

Dona Varlinda foi personagem principal do velório mais animado que já vi na minha vida.

Aquele dia, para mim, começou com um telefonema. Um primo de minha mulher ligara para casa avisando que o pai de meu amigo, Juvêncio (José Miranda), havia morrido. Ou pior: havia sido assassinado e que seu corpo ainda estava no local do crime, jogado como indigente.

Pois bem: corri para avisar o Juvêncio da tragédia. O dia estava amanhecendo com uma chuva fina. Chegamos até o corpo. E era ele mesmo: o pai do meu amigo estava morto. O cadáver estava curvado, as mãos apoiavam o queixo, e as pernas estavam encolhidas, como quem tivesse procurado a melhor posição para morrer. A cabeça cobria-se de sangue coalhado, endurecido.

O corpo foi para o hospital e, depois, liberado para o velório. Sinceramente, para a tradição latina, havia pouco choro para o fim de uma vida humana. Dona Varlinda, conhecida na cidade por não perder um velório, não deixou de comparecer àquele acontecimento. Quando chegou lá, os irmãos do meu amigo avisaram: lá vem!

E ela chegou!
Colocou os pés no portão e foi perguntando:
- Cadê o corpo?
Alguém respondeu:
- Está ali.
E ela:
- Onde? Aqui ou ali? (eram dois casebres em um único terreno: em um deles, moravam os sete irmãos do Juvêncio e no outro, a avó dele, dona Vicoca, onde o falecido recebeu as últimas visitas).
Em coro, respondemos:
- Ali.
Ela entrou.
Antes, porém, foi se solidarizar com a viúva:
- Dona Terezinha, que coisa, não é?
Com indiferença, a viúva respondeu.
- É!
E dona Varlinda:
- Quanta perversidade nesse mundo, não é dona Terezinha?
- É!, respondeu ela.
- Me diga, dona Terezinha, como foi isso?
- Mataram ele.
- Ah!, assustou-se, puxando muito ar pela boca, tipo respiração de asmático.
E seguiu:
- Ainda ontem eu vi este homem por aqui. Ainda ontem falei com ele, quando ele estava varrendo o quintal!
Ninguém agüentou porque o pai do meu amigo, que era conhecido como Meiota, já havia deixado sua casa há mais de cinco anos e passou a viver com outros alcoólatras da lagoa da Francesa, onde o povo do interior abriga suas pequenas embarcações da fúria do rio Amazonas.
- E como foi, dona Terezinha?
- Cassetado! Mataram ele cassetado.
- Coitado! Pela Virgem, morreu como um porco!
Foi uma risada só. Nem parecia velório.

Não pude permanecer na viagem. Ela ficou com as mãos na posição que sempre as colocava quando estava na frente do altar da catedral. Já na rua, minhas lembranças insistiam em trazer outras histórias de dona Varlinda.


* Filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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