A chupeta mágica

sábado, 11 de outubro de 2008

Neuton corrêa*

Maio de 1999. Eu havia chegado a Manaus. Aluguei um quarto no bairro Petrópolis. Ficaria mais fácil ir para Universidade Federal do Amazonas (Ufam) sem pagar transporte. Nos primeiros dias de faculdade não conseguia ler uma linha sem estar perturbado com as lembranças de minha família. Descobri que me concentrava melhor na leitura quando estava no barulho do ônibus.

O 610 (Petrópolis-Centro) não demorou a passar. A viagem alcançava a primeira ladeira do bairro, quando entra um menino carregando dois banquinhos de madeira, de pouco acabamento. Ele era moreno e magrinho, e vestia uma camiseta clara e bem limpa. A bainha da sua calça, a da perna esquerda, já lhe batia na canela.

Tratava-se de um menino observador. Deixou os banquinhos no chão do ônibus, apoiou a mão esquerda em uma das cadeiras e com a direita fazia um movimento como se estivesse procurando algo. Em seguida, levantou os bancos e deu alguns passos em direção a uma mulher que se sentava à minha frente. Ela estava com o filho de mais ou menos seis anos de idade, talvez um ano mais novo do que o garoto vendedor.

Ao se aproximar da passageira, com a voz baixa, ele a abordou:
- Tia, a senhora compra um banquinho de mim?
E a mulher, quase em sussurros, perguntou-lhe:
- Quem faz esses bancos?
- É o meu avô.
Ele não quer dar muita explicação e insiste:
- Tia, a senhora compra?
A passageira olha, então, para o seu filho e diz:
- Meu filho, você quer um banquinho desses?
E ele respondeu:
- Não, mamãe, eu tenho um monte de brinquedo em casa.
A mulher dá sinal de que não iria aceitar a oferta e tenta despachar o pequeno vendedor:
- Não quero, não.
Triste, o menino apela:
- Vai, tia, compra logo. Tenho que chegar com dinheiro em casa para minha mãe comprar comida.
A estratégia funcionou. A passageira tirou uma bolsa que prendia entre pernas e iniciou a compra:
- Quanto é um?
- Cinco reais, disse ele.
- Eu só tenho de dez. Você tem troco?
- Tenho!, respondeu ele, agora com mais vibração.

O menino pegou o dinheiro, colocou-o no bolso direito da calça e, ao puxar a mão de volta, uma chupeta de bebê saiu de sua roupa e caiu no chão. Ao ver aquilo, a mulher pôs as mãos no rosto, cobrindo-lhe o olho e o indagou:
- De quem é essa chupeta?
A criança ficou sem graça ao ver o seu segredo revelado:
- É minha.
A passageira abriu um sorriso e brincou:
- Você ainda usa chupeta?
Na hora, lembrei das promessas que as crianças fazem aos pais para abandonar o pipo. “Só já essa vez”; “só pouquinho, mamãe!”. E fui lembrando das desculpas que o meu filho dava para a mãe dele quando se encontrava nessa situação.

Mas aquela criança não tinha uma desculpa. Tinha uma estratégia de sobrevivência para revelar.

- Olha, tia, quando eu estou com fome, eu paro e quando não tem ninguém por perto eu chupo minha chupeta. Aí a fome passa e eu vou embora.

* Filósofo, estudante de Comunicação e mestrando em Sociedade e Cultura/Ufam.

Marcadores:

1 Comentários



Navegação polui rios da Amazônia

sexta-feira, 10 de outubro de 2008


Wilson Nogueira *


O ronco dos motores é ensurdecedor.
- Esse barulho não deixa a gente dormir direito!
Seria mais uma reclamação ordinária, caso dona Nôzinha não fosse moradora da Costa do Pesqueiro, vilarejo da margem do rio Solimões, próximo à cidade de Manacapuru, no Estado do Amazonas, Brasil. Os ruídos que agridem os tímpanos dessa ribeirinha saem das máquinas das embarcações que sulcam os rios amazônicos carregadas de mercadorias e passageiros.

Dona Nôzinha morava em Manacapuru. Mudou-se para a área rural, assim que se aposentou do magistério, em busca de sossego.

Faz algum tempo que a vida ribeirinha não é mais sinônimo de quietude.
"Os barcos, navios e empurradores de comboios balsas fazem barulho dia e noite, afundam canoas e arrastam roupas e utensílios domésticos dos portos. Esse prejuízo ninguém paga", afirma dona Nôzinha. Os ribeirinhos culpam ainda as grandes embarcações pela aceleração da queda das terras usadas nas plantações de curto ciclo, como hortaliças, grãos e juta.

A Marinha do Brasil reconhece que é cada vez mais intenso e mais complexo o tráfego na Amazônia em razão do vaivém de barcos regionais, comboios de empurradores e de navios de cabotagem e de longo curso que carregam petróleo e gás, minérios, insumos industriais e grãos. Ao menos 74 mil embarcações usam os 26 mil quilômetros de rios navegáveis da Bacia Amazônica do Brasil, sete mil circulam clandestinamente.

A frota de embarcações tem, nos rios amazônicos, a mesma importância socioeconômica dos carros, trens e metrôs nos grandes centros urbanos. Mais de 35 milhões de passageiros transitam, anualmente, entre os portos dos lugarejos, das vilas, das cidades e das metrópoles instaladas nas margens dos rios, lagos e paranás.

O ensaísta Leandro Tocantins enfatiza que "os rios comandam a vida no anfiteatro amazônico". As impressões e análises de Tocantins sobre a vida amazônica ribeirinha estão registradas no livro O rio comanda a vida, de sua autoria, que apresenta os rios como caminhos naturais para o progresso. O custo social e ambiental desse apregoado desenvolvimento, no entanto, ainda está por ser dimensionado.

A queixa de dona Nôzinha, por exemplo, é apenas um dos sinais de alerta dos impactos do crescimento do transporte fluvial na Amazônia. Os problemas abrangem a segurança dos passageiros, a falta de sinalização adequada dos rios e a crescente poluição do meio ambiente, e precisam ser solucionados ou mitigados enquanto não se tornam intransponíveis.

Os 1026 acidentes ocorridos na navegação fluvial da Amazônia mataram, no período de 1999 a 2007, 472 pessoas e feriram 190. Um único naufrágio, já neste ano, na Costa do Pesqueiro, em Manacapuru, tirou a vida de 50 pessoas que retornavam de uma festa, na madrugada do dia 5 de maio. O barco Comandante Sales estava superlotado, infração costumeira em razão da precariedade da fiscalização para impor a obediência às normas da navegação fluvial. A Marinha conta com apenas 160 profissionais para regularizar e fiscalizar os barcos e navios que navegam nos rios amazônicos. Em 2007, foram apreendidos 901 barcos em situação irregular.

A falta de sinalização, os bancos de areia (aluviões) que mudam o curso dos rios e a fragilidade das embarcações de madeira constituem-se em outros fatores de perigo, segundo relatório da Marinha. O Governo Federal, por meio da abertura de crédito e financiamento de pesquisa, incentiva a troca dos barcos de madeira pelos fabricados em aço, mais seguros e mais duráveis. Essa medida favorece, também, a contenção da derrubada de árvores sob ameaça de extinção, mas esbarra, principalmente, na burocracia que impede o crédito aos que utilizam esse tipo de transporte como negócio ou como meio de transporte. A grande maioria dos barcos de passageiros transporta pessoas de baixíssima renda.

"Os bancos de areia e os troncos que descem os rios são uma ameaça à navegação, principalmente durante a noite", reconhece o comandante Walter Bentes de Lima, 43, prático do rio Purus. Ele viaja nesse rio há 20 anos, mas assegura que a repetição das viagens e do itinerário não significa navegar pelos mesmos lugares. "Os rios mudam de lugar", explica, referindo-se aos bancos de areia que se foram aleatoriamente ao longo dos rios ainda em formação, como é o caso do Amazonas, do Juruá e do Madeira.

Especialistas da Marinha alegam a formação dos bancos de areia exige uma manutenção de altíssimo custo da sinalização e uma revisão constante das cartas de navegação. Em determinados trechos, esse fenômeno torna as tecnologias de precisão em peças obsoletas. Os aluviões oferecem maior perigo durante a vazante dos rios. Os barcos sem equipamentos de navegação se orientam pela experiência dos comandantes e práticos regionais.

Para o comandante Jaime Silva, 39 anos, as balsas são as embarcações que mais negligenciam no tráfego fluvial. "As balsas fecham a passagem das pequenas embarcações, assim como fazem as carretas com os carros pequenos nas ruas e estradas", comparou Silva. Ele, que conduz um barco turismo, disse que se mantém sempre distante dos comboios de balsas, mesmo quando navega não mão correta. "Qualquer descuido por ser fatal. Os comboios são muito pesados e, por isso, um perigo ambulante", comentou.

Em fevereiro deste ano, o barco/motor Comandante Monteiro, com 110 passageiros a bordo, e a balsa Carlos Eduardo chocaram-se, nas proximidades da cidade de Itacoatiara (AM). Dezesseis pessoas morreram. O barco de passageiros viajava de Alenquer (PA) para Manaus (AM). O transporte fluvial fica mais vulnerável a acidentes nas épocas das grandes festas populares da Amazônia. O Círio de Nazaré, em Belém (PA), que atrai, anualmente, em outubro, mais de 2,3 milhões de pessoas, e o festival de bois-bumbás de Parintins (AM), evento que reúne mais de 100 mil pessoas, no último fim de semana de junho.

Ainda falta medir o impacto ambiental do transporte fluvial na Amazônia. A olho nu, no entanto, é possível verificar que os resíduos dos combustíveis e o lixo produzidos pelos seus 35 milhões de usuários são despejados nos rios. As orlas portuárias são uma amostra dessa agressão que se expande sem embaraço do Poder Público que sequer dá conta do saneamento básico das cidades. Os rios amazônicos se transformam, de forma acelerada, em imensos depósitos de lixo de toda ordem, cujas conseqüências aos seus ecossistemas são previsíveis.

A tendência do tráfego de embarcações de grande porte na Amazônia, na avaliação das autoridades da Marinha, é de crescimento substancial. Atualmente, as atividades que impulsionam o setor são o transporte de soja, de bauxita, de insumos industriais e produtos da Zona Franca de Manaus, do petróleo de Urucu e dos seus derivados. Prevê-se, para curto prazo, o transporte de gás natural, de bauxita da nova jazida de Juruti (PA), no rio Amazonas, e da produção da nova siderúrgica da Vale e da ampliação da usina da Cosipa, ambas localizadas no município de Marabá (PA).

Incomodada com a fustigação dos seus tímpanos dona Nôzinha sugere que o Poder Público ponha fim na poluição sonora nas máquinas marítimas. Mas ela sabe, também, que esse problema é apenas a parte mais visível de um desastre ecológico que se avizinha com o progresso que espezinha a natureza até matá-la ou deixá-la mutilada. O apelo dessa ribeirinha tem força de denúncia.


* O autor é jornalista, sociólogo e escritor

Marcadores:

0 Comentários



O anedotário do prefeito indígena!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Michele Portela*

As eleições municipais desse ano, assim como em todas as outras eleições, mobilizam a mídia para um anedotário de um evento multifacetado, misto de festa, acordo, combate e ritual. Curiosamente, não é de se estranhar como a vitória do prefeito eleito de São Gabriel da Cacheira, Pedro Garcia, foi tratada em tom de estranheza, da mesma forma que apresentamos nossos parentes calçados com sandálias havaianas ou aqueles calções listrados, como se a ascensão ao cargo fosse somente a legitimação da aculturação.

Nesse contexto, além de Tariano ou Baniwa, os indígenas ganham outras identidades: liberais ou capitalistas; em transição da posição onde está: à esquerda, à direita ou ao centro. Sabe-se que candidaturas reproduzem alguns arranjos conhecidos. Representantes "legítimos" de seu povo, indicados pela comunidade ou organizações indígenas, estariam ligados aos partidos tradicionalmente situados à esquerda política.

Já candidatos isolados, com projetos políticos próprios, estariam filiados a partidos clientelistas. Além desse processo de transição para a cultura ocidentalizada tão exacerbada na nossa sociedade, precisam superar a mecânica da estrutura partidária. Para vencer, o índio Tariano petista compôs aliança com cinco partidos: PV, PP, PSB, PPS e PDT, e contava com um índio de outra etnia na chapa vencedora, o vice André Baniwa (PV), formando a coligação "Administração para Todos".

A coligação liderada por Pedro conquistou 51,68% dos votos válidos, 6.366 votos recebidos de 23 grupos étnicos e de não-índios, em um município que, de acordo com o censo de 2000 do IBGE, tem a maior população indígena do Brasil, com 76,3% do total de habitantes. Supõe-se que, querendo ou não, fora militares, a maioria dos habitantes desse município localizado em região conhecida como Cabeça do cachorro, no Amazonas, na tríplice fronteira Brasil, Colômbia e Venezuela, tenha descendência indígena.

Considerando tudo isso, o mais importante é lembrar que os povos indígenas não estão estáticos em contemplação. Na verdade, têm pressa.Tarianos e Baniwas não estão sozinhos. Na ausência de dados recentes, recorro às eleições de 2000, quando foram mais de 350 índios pleiteando vagas nas eleições municipais - sendo 13 deles para prefeito - e 80 se elegeram.

No Amazonas, a Câmara Municipal de São Gabriel da Cachoeira, sequer citada nas reportagens, já é maioria indígena há tempos, composta por Tukano, Baniwa e Baré. Temos vereadores Tikunas em Santo Antonio do Içá, Benjamim Constant e Tabatinga; Mura, em Autazes; Marubo, em Atalaia do Norte; Sateré-Mawé, em Parintins; e Kambeba, em Alvarães. São muitos, como os respectivos povos que representam. Estes, aliás, muitas vezes esquecidos como eleitores que merecem os mesmos esclarecimentos que os demais. Aliás, que o digam as autoridades.

Em simulações de votação realizadas em Roraima, o presidente do TRE espantava-se com a velocidade do voto indígena na urna eletrônica: 22 segundos contra mais de um minuto de muito eleitor branco.Considerando esse novo aspecto, as propostas dos prefeitos índios de São Gabriel da Cachoeira se aproximam da dos brancos, por serem, antes de tudo, humanitárias. Apelos por saúde, educação, segurança, ações do Poder Público são conceitos que se aproximam muito da cultura dominante ou sociedade envolvente. Ninguém diz que, antes de tudo, esses homens e mulheres querem viver!

*A autora é jornalista
0 Comentários



Tratamento desumano

quarta-feira, 8 de outubro de 2008


Índios das etnias Ticuna e Cambeba abrigam-se, costumeiramente, em uma balsa de carga e descarga de mercadorias e passageiros, no porto da cidade Tonantins (AM), no alto Solimões. Eles dormem sobre o assoalho de aço da embarcação. Várias cidades do interior do Amazonas não têm casas de trânsito para os indígenas em busca de socorro médico. O flagrante é de agosto de 2007, mas o problema persiste até hoje.

Marcadores:

0 Comentários



O pânico e o óbvio

Wilson Nogueira*


O mercado financeiro está em pânico! Os meios de comunicação se dedicam a esse fenômeno como se ele fosse uma novidade e encharcam o mundo de medo. Afinal, os endinheirados que se divertem nesse cassino planetário são hábeis em socializar suas perdas. A imensa maioria dos contribuintes não joga, mas é, historicamente, convocada a pagar o rombo que os ricaços fazem nas entranhas do capitalismo. Esse é um assunto que pouco interessa aos analistas que endeusam o liberalismo em suas versões antigas e atuais. Mas todos eles sabem que o capitalismo é um modo de produção em crise contínua em razão da sua essência baseada na acumulação em favor de pouquíssimos.

Então, por que temos que pagar essa conta? Questionamento desse tipo passa longe da mídia de alcance popular. No Brasil, o estouro da crise coincidiu com o período eleitoral, mas os candidatos preferiram ignorá-lo. Não dá pra perder tempo com temas que não dão votos, né? Herbert Amazonas, do PSTU, que sempre concorria a cargos majoritários fez falta na TV e no rádio. Ele se tornou conhecido dos eleitores e eleitoras de Manaus por esbravejar, a cada eleição, palavras de ordem contra o neoliberalismo capitaneado pelos ianques. Nessa eleição ele candidatou-se a vereador, mas não conseguiu se eleger. Taí: esse tipo de conversa não dá voto.

A eleição, por sinal, faz jorrar dinheiro. Isso é fato, e não é de hoje. A crise passou longe de determinados candidatos. Antes mesmo da caça sistemática aos votos, a Polícia Federal havia apreendido R$ 7 milhões de supostos aliados do prefeito de Coari, Adail Pinheiro. Na véspera da eleição, Ribamar Beleza, hoje prefeito eleito de Barcelos, foi preso transportando R$ 130 mil. Vê-se, por esse ângulo, que os políticos também apostam alto no jogo eleitoral. Uma mixaria se comparada à dinheirama da banca financeira tradicional. Mas os apostadores se igualam na forma de reembolsar os valores que perderam ou deixaram de ganhar. Todos recorrem aos contribuintes.

Até aqui, por questão de coerência, é preciso e necessário dizer que só tratei de obviedades. Política e economia, afinal de contas, caminham juntas nos negócios do Estado e do mercado liberal. É só ver: a mão invisível do mercado resolve tudo, desde que o ambiente seja de bonança, mas se declara ineficiente ao menor sinal de instabilidade. O Estado, para o liberalismo, só teria função policial, para proteger o capitalismo, é claro. Ah!, sim, também cabe-lhe, nessa triste visão, a função de socorrer a banca estourada! E nunca será demasiado repetir que a conta da quebradeira é paga pelo contribuinte, e seus efeitos são os mais perversos possíveis às populações pobres de todo o mundo. Essa é a verdadeira face da globalização: a da socialização da pobreza.

Por fim, espero que a versão apocalíptica da crise sobre o Brasil não se confirme. Há muita gente torcendo pelo pior.

*O autor é jornalista, sociólogo e escritor

Marcadores:

0 Comentários



A vitória do parente Tariano!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Márcio Azevedo

De São Gabriel

"A esperança venceu o medo". A frase, largamente usada na vitória do primeiro presidente brasileiro saído do berço dos trabalhadores, se aplica à eleição no município de São Gabriel da Cachoeira (a 852 quilômetros a Noroeste de Manaus), onde venceu o índio Pedro Garcia (PT), 47, da etnia Tariano. É o primeiro prefeito indígena eleito no Estado do Amazonas, mesmo que no município com a maior população indígena do País.
A vitória de Pedro e de seu vice, o índio Baniwa André Fernando, 37, é exemplo de como a informatização do processo eleitoral e a conscientização pelo voto responsável possibilitaram uma eleição verdadeiramente democrática. "Foi feito justiça. Nosso município é formado por maioria índio e, nesse tempo todo, confiamos no branco que não fez nada pela gente. Agora nosso 'parente' venceu", comemorou a índia Tukana Mariana Borges Dias, 34.
Ela era uma das mais de três mil pessoas, segundo a Polícia Militar (PM), que ontem tomaram conta da estreita rua 'Projetada D', no bairro Padre Cícero, e invadiram a pequena casa de madeira do novo prefeito eleito de São Gabriel da Cachoeira.
Pedro Garcia e André Baniwa (PV) foram eleitos com pouco mais de seis mil votos válidos dos 21 mil eleitores do município, dois quais 18 mil, aproximadamente, são indígenas, de acordo com dados da Justiça Eleitoral.
Para o novo prefeito eleito, foi feito justiça para os mais de 36 mil índios que vivem no município. "Depois de tantos anos lutando e vermos os brancos, que são minoria em nosso município, ganhar as eleições, dessa vez o povo acreditou na mudança. Isso é um fato histórico. Foi a vitória da democracia", comemorou Garcia.
Agora, segundo Garcia, o próximo passo é tentar resolver os velhos problemas do município, principalmente de seus 'parentes' que vivem nas comunidades. "Vou me sentir como ele, quando ele entrar na prefeitura. É um orgulho ter um 'parente' como prefeito. Espero que agora ele faça algo pelos povos indígenas", disse o índio Dessano Eugênio Azevedo Pereira, 42.
Nas ruas de São Gabriel da Cachoeira, na noite de domingo, muita gente reclamava, mas a grande maioria festejava a vitória do primeiro prefeito brasileiro indígena eleito. Pena que os adversários não souberam usar o famoso espírito esportivo. Os cumprimentos e as felicitações pela vitória vieram apenas da massa de correligionários. Mas como em política tudo é mutável e inconstante, fica a frase de um taxista: "Agora vamos ver se ele vai mesmo fazer o que prometeu ou vai fazer como todos os outros", cobrou Lucio Mesquita, 38.
0 Comentários
   




ARTIGOS
CRÔNICAS
POESIAS
NOTÍCIAS
RESENHAS






  • A foto do mendigo



  • Sobre árvores e mulheres



  • O poder do embuste



  • A noiva da Cidade Nova



  • A farinha criava...



  • Ciência entra no século da religação dos saberes, ...



  • “O Marx vai sempre ser fundamental nas análises de...



  • “O intelectual precisa reformar o seu pensamento, ...



  • “O pensamento complexo tem implicações políticas b...



  • “O que aconteceu em Hiroshima é uma coisa que esca...











  • HOME | SOBRE O TEXTOBR | NÓS | FALE CONOSCO | ARQUIVO

    Copyright Texto BR 2007. Todos os direitos reservados.