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Manah Manaós
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Antônio Paulo* Maio/1991
Manah Manaós De longe te vejo Do alto da hiléia habitada Num fim de tarde de maio Na hora do rush citadino.
Teus arranha-céus em meio à floresta Tuas obras faraônicas. O verde se confunde com o granito Num céu cinzento de fumaça industrial.
Goles de cerveja te observam, vislumbram O paisagismo vesperal Sem pensar, sem refletir Sobre o caos que espelha em tua face.
Favelados, loucos mal tratados Operários escravos da zona Que nada tem de franca.
Manah, Manaós! Calcutá dos trópicos, Ecológica por excelência Governada por Boto Parido da corrupção e da mentira. Alguém de te viu e vê como tu és Mesmo que seja numa tarde de sol poente.
* Jornalista, correspondente do jornal A Crítica em Brasília (DF) Marcadores: Poesias
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Educação não é nada: uma idéia clara e distinta de Renato Janine Ribeiro
Gerson Severo Dantas*
O filósofo Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, é um cara de coragem e de idéias claras e distintas, como bem recomenda Descartes. Conheci o professor lá pelos idos de 90, quando era presidente do Centro Acadêmico de Filosofia (Cafca) da Universidade Federal do Amazonas – uma das piores experiências da minha vida – e desde lá acompanho suas idéias ao longe. Intelectualmente umas vezes me distancio, outras tantas me aproximo.
A intensidade desses movimentos, sobretudo os de aproximação, dá-se em conformidade com minha transição para as hostes conservadoras da sociedade. Dessa experiência gostaria de dividir com os leitores aqui do TEXTOBRASIL duas questões postas por Janine nos últimos tempos: a defesa da pena de morte para os bandidos que arrastaram e mataram no ano passado o menino João Hélio, de seis anos, no Rio de Janeiro, e a constatação de que Educação não é a solução para os males do Brasil, como tão insistentemente defendem pedagogos de amplas matizes.
A pena de morte, defendida em artigo publicado na Folha de São Paulo, era, nas palavras de Janine, uma reprovação da sociedade, não uma simples eliminação física dos criminosos. O filósofo reconheceu que a defesa de uma pena que fracassou em todos os lugares em que foi aplicada era mais uma manifestação, uma implosão da razão pura dele, uma reação à violência com a qual o crime foi praticado. Era a revolta do cara pago para pensar, para racionalizar as mais diferentes e extremas situações. Gostei dessa só pela coragem dele em se expor na contramão da razão e do “senso comum intelectualizado”. Faz mais de um ano que gostaria de escrever isso, mas... taí.
A constatação de que a Educação não é nada, não é tudo se não vier complementada por outras ações foi feita num programa da TV Câmara. O filósofo defendeu que a universalização da educação pura e simples causa apenas o barateamento da mão-de-obra, ou seja a socialização da miséria bem qualificada. É o caso de Cuba, onde todo mundo tem anel de doutor, mas ganha uma miséria de salário. O pulo do gato para escapar dessa situação é equilibrar o binômio universalização da educação x geração de emprego. Ou seja temos que dar uma martelada no cravo do social e outra na ferradura da economia. Original o filósofo, não? O que acharam?
Filósofo, jornalista, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.Marcadores: Artigo
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Lula, eleição, Eloá, Polícia e a Montanha dos Sete Abutres
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Gerson Severo Dantas*
O povo brasileiro, e o manauara em particular, tem umas coisas que só nós mesmos para agüentar e (não) entender. É capaz, por exemplo, de eleger duas vezes presidente um metalúrgico, garantir-lhe popularidade recorde – maior do que JK ou Getúlio Vargas jamais sonharam ter - e ao mesmo tempo ignorar solenemente seus candidatos aliados. Em Manaus, tende, se as pesquisas estiverem certas, a se reencontrar com o passado. O que será que isso significa?
Pois bem, esse intróito nariz de cera é para dar cores mais vivas à discussão que gostaria de trazer a baila nesse espaço: o que faz pessoas desconhecidas irem a velório de pessoas que não conhecem? Fulanizando: o que 40 mil pessoas foram fazer no enterro da Eloá? Mais um pouco: Por que será que hoje a Polícia Militar de São Paulo parece, nos meios de comunicação, mais culpada pelo desfecho trágico do seqüestro do que o assassino Lindemberg?
Vou meter a colher nesse assunto sem qualquer tese na cabeça, apenas remoendo o que vi e ouvi na televisão instalada numa parede às minhas costas na redação do jornal que trabalho. Dessa posição privilegiada, vi a multidão aplaudindo o cortejo fúnebre, vi gente, ainda no velório, carregando criancinhas para ver o corpo inerte de Eloá, vi gente tirando fotos do corpo, vi gente chorando a tragédia na hora da descida à sepultura. O que movia essas pessoas? O espetáculo midiático do seqüestro transmitido ao vivo e em cores, com entradas do seqüestrador ao vivo no Ana Maria Braga, na Sonia Abrão? Que coisas são essas, meu povo?
Fui recentemente ao enterro de um querido tio, Luis Severo – da segunda geração de Severo da minha família – e de lá sai com uma tristeza danada, pequenas lembranças de momentos felizes com ele e meus primos na cabeça, com uma preocupação danada com minha tia. Posso afiançar, um velório machuca a alma da gente. Encarar aquilo tudo fazia sentido, era um rito de passagem doloroso que eu e nossa família tínhamos de passar, mas no caso da Eloá... Que sentido fazia para aquelas pessoas sofrerem a dor que não era delas? Ou será que a dor era, sim, delas também? Se era, que dor era essa que deve ter feito alguém faltar o trabalho para ir a esse enterro? Que dor era essa que fez uma dona de casa pegar sua filha pequena, tomar um ônibus (o que em São Paulo imagino ser uma coisa mais complicada do que em Manaus) e disputar espaço com outras 39.998 mil pessoas e mais a pequena família da menina assassinada? “Tamo” precisando de um sociólogo para explicar essas situações, que, aliás, não se restringem a enterros.
Vocês se lembram da saída do casal Nardoni – acusado de matar a filha Isabela – para a penitenciária? Pois é, já naquela oportunidade me incomodei com a multidão que se aglomerou em frente ao prédio para assistir à polícia recolhê-los ao xilindró. Lembro bem de uma senhora, já entrando na terceira idade, dizendo que viajou quatro horas de ônibus para ver a cena, o castigo dos Nardoni. O que motivava essa senhora, meu Deus? Será que não tinha nada melhor a fazer? Será que isso era o melhor que tinha a fazer: condenar o casal previamente com sua raiva, sua crença na versão da polícia e da mídia?
Pois bem, essa era a deixa que vinha costurando para discutir, já de forma teórica, refletida e acadêmica, a atuação da mídia nesse caso. Para mim foi deplorável, condenável sob todos os aspectos, antes, durante e depois. Tratou-se, como costumamos dizer nas aulas da faculdade, de espetacularizar a notícia, colocar mais drama numa situação que já era em si dramática. Chego a concordar com os que apontam o dedo para certos apresentadores de televisão que entrevistaram o seqüestrador.
Meu Deus, para que dar voz a alguém que está cometendo um crime? Mesmo que não tivesse matado Eloá, Lindemberg já ferira uns seis ou sete artigos do Código Penal. Era um bandido – apesar das motivações - no exercício de seu metiê. Ganhou as luzes da ribalta, auto-proclamou se “príncipe do gueto”, “o cara”. Tinha razão, a mídia irresponsável – que se contrapõe à responsável – o transformou em astro relâmpago, quase como um Alemão (vencedor de um desses BBBs), deu-lhe os 15 minutos de fama previsto pelo artista plástico Andy Warhol e agora, por cúmplice dele, o poupa, preferindo buscar os erros da polícia.
Aliás, sobre espetacularização devemos todos relembrar as aulas de Tomzé, na Ufam, e assistir novamente à “A Montanha dos Sete Abutres”, com Kirk Douglas. Jornalista que assistiu ao filme e entendeu a aula do professor da Ufam não entrevistaria seqüestrador durante o seqüestro. Para tudo na vida há limite, até para a irresponsabilidade. Por fim, não tenho procuração ou motivação para defender a PM – de São Paulo ou mesmo a de Manaus -, mas seu papel deve ser reposto no caso. Cometeu equivoco? Sim, como qualquer instituição comete. Não é 100% infalível, sobretudo ao deixar a amiga Nayara voltar ao cativeiro. Poderia ter matado Lindemberg? Poderia, e aí todo mundo a condenaria por não negociar.
Vejo com especial atenção a busca pela opinião de especialistas em segurança e como eles falam besteiras. Foi dado, por exemplo, a um perito da Unicamp, uma fita gravada a um quarteirão e meio de distância do local para que ele atestasse ou não se a polícia entrou antes ou depois de tiros terem sido disparados. A fita é horrível, está a um quarteirão e meio de distância, o foco do cinegrafista era outro, depois da explosão da porta ele focou na origem do barulho. O perito diz na passagem (quando ele fala para as câmeras) que não houve tiro antes da explosão. Na nota pelada da apresentadora (quando ela encerra com citação dele), o perito diz que a conclusão é provisória. Isso é sacanagem!!!!
À noite, no programa da burra-mor, um cara disse que a polícia poderia usar uma máquina de scanner que dava para saber pelo calor dos corpos quem estava em qual quarto. Máquina de scanner???? Esse cara tá assistindo muito Law&Order, CSI, SWAT no canal TCM. Pelo amor de Deus, o culpado pela tragédia é o Lindemberg. A polícia não pode ser 100% eficiente. Pegue-se o histórico do tal grupo especial, é uma excelência na polícia brasileira, mas mesmo assim deve viver a míngua. Francamente!!!!
* Filósofo, jornalista e mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.Marcadores: Artigo
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Leitura para bebês

 A biblioteca do museu mantido pelo Banco da República da Colômbia, em Letícia, capital do Departamento do Amazonas, tem uma sala de leitura para bebês. “Aqui, acompanhados dos pais ou das babás, eles têm o primeiro contato com os livros”, conta a psicóloga e pedagoga Elizabeth Murilb, responsável pelo programa Leitura em família, que já completou dez anos. Ela explica que os resultados dos projetos são animadores: crianças que manuseiam os livros desde os seis meses conseguem ler aos três anos de idade, antes mesmo de freqüentar a escola. Por R$ 3 por ano, o programa conduz os futuros leitores entre a biblioteca e seus lares. Uma vez por semana, os livros são levados até aos bairros. Letícia faz fronteira com o Brasil e com o Peru, na região Amazônica. Confira a entrevista que Elizabeth concedeu ao repórter Wilson Nogueira: Há quanto tempo existe esse programa de leitura para bebês?Há dez anos trabalhamos nesse programa que se chama Leitura em Família, que promove a leitura de afeto desde os seis meses de idade. Qual é a metodologia empregada?A idéia é aproximar os bebês dos livros através da leitura e da relação direta que eles têm com os seus pais, com suas mamães, com uma figura paterna ou com uma babá quando eles não estiverem acompanhados de seus pais. Essa proximidade de afeto também aproxima os bebes dos livros e os põem em contato direto – e de maneira voluntária – com os livros. Qual o resultado desse trabalho?O resultado tem sido um envolvimento das crianças com os livros desde a tenra idade. Também tem resultado na formação de leitores desde os três anos de idade, sem que eles tenham ainda passado pela escola. Como os pais participam desse projeto?A biblioteca tem um programa que se chama Leitura em família, que se realiza todas as quartas-feiras, a partir das quatro horas da tarde, com atividades específicas e dirigidas. Porém, os papais e as mamães, que queiram trazer seus filhos à biblioteca, podem vir a qualquer momento. O importante é que eles ponham os seus filhos em contato com os livros. A biblioteca também pode levar os livros à casa deles. Nesse momento temos oitenta bebês inscritos nesse programa. São crianças entre seis meses e quatro anos de idade. As crianças com mais idade são muito mais. Queremos que os livros, para as crianças, sejam uma ferramenta lúdica, de aprendizagem e de utilização do tempo. Esse projeto ocorre apenas nessa biblioteca ou ele faz parte da política pública do governo colombiano?Essa é uma política pública de leitura que, neste momento, estamos trabalhando em muitas partes do país. É parte de uma política pública governamental, e eu sou gestora desse projeto e estou promovendo essa experiência em nível nacional. Temos alguma experiência de dez anos e estamos difundindo e demonstrando que os livros e as crianças, desde cedo, podem fazer uma boa parceria. Qual a participação indígena nesse projeto?Os indígenas têm uma forma de ser bastante diferente, tranqüila, que temos que respeitar. Com eles o processo de aprendizagem é mais lento por meio dos nossos livros, porque esses livros são pensados para cultura ocidental e não para a cultura indígena. Entretanto, nós também aprendemos por meio dos cantos, dos sinais, da tradição oral e das lendas. Os índios também têm seus cantos, suas festas e suas lendas, e por intermédio dessas atividades que ocorre o primeiro envolvimento das crianças com a palavra. Primeiro se consegue o contato direto da imagem com a palavra. E palavra é experiência. As mães são importantes nesse processo de aprendizagem, e assim atendemos a todos as crianças e seus pais sem distingui-los. Qual o nível de leitura dos colombianos hoje?Subiu um pouquinho, porque o Ministério da Cultura tem vários programas que incentivam a leitura. Um deles é o Valor da palavra. Em nível de banco (Banco da República) há várias atividades culturais, como as que ocorrem nos 32 museus que ele mantém. Cada vez há mais bibliotecas e mais programas de incentivo à leitura. Eu diria que estamos entre trinta por cento e quarenta por cento em nível de leitura, no conjunto da população, em relação há dez anos. Marcadores: Notícia
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As preocupações da cacique
Wilson Nogueira*
Olímpia Pereira Faria, 34 anos, (foto) mãe de cinco filhos, freqüentará as teses acadêmicas e os livros de história da Amazônia daqui a alguns anos. Há doze meses, ela assumiu o posto de cacique da aldeia ticuna Água Limpa, localizada na margem do rio Solimões, próximo à cidade de Tabatinga (AM). Desde então, age dentro e fora da comunidade em favor de 150 pessoas sob a liderança dela. A função de líder não é comum às mulheres, também, nas sociedades indígenas. A outra cacique em atividade, entre os ticunas, a segunda maior população indígena do Brasil, é Janete Ticuna, da aldeia Islândia.
Com uma filha no colo, Olímpia transita entre os participantes do seminário Realidade socioambiental na fronteira Brasil/Colômbia/Peru, na casa Frei Ciro, em Tabatinga. O evento, promovido pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), na semana passada, reuniu líderes indígenas dos três países amazônicos. “É duro ser cacique porque temos que dar conta da casa, dos filhos e ainda trabalhar para toda a comunidade”, explica. Sem cerimônia, revela que assumiu a direção da Água Limpa em razão da fraqueza do antecessor.
Os lagos e as florestas de Água Limpa estavam sob depredação desenfreada. Ninguém respeitava o cacique anterior. “Chamei a Polícia Federal e fiz a lei ser cumprida. Toda vez que nossa reserva é invadida eu chamo os agentes federais”, conta a nova cacique. Mas Olímpia atua em outras frentes. Na aldeia, ela retomou os tradicionais mutirões para realizar tarefas mais complexas. Na cidade, percorre os órgãos oficiais em busca de serviços e equipamentos públicos.
“Não tínhamos barcos. Reuni o pessoal, cortamos madeira e construímos o barco. Depois, solicitei o motor da Prefeitura de Tabatinga. Só depois de muita luta conseguimos o motor”, disse. Para a cacique, sua pior tarefa é convencer os gestores públicos de que os índios necessitam de serviços de saúde, de escolas, de transporte e de estradas para escoar produtos destinados ao mercado. “Nunca desisto de ir à Prefeitura atrás de um benefício para a minha aldeia. Insisto até consegui-lo”, ensina.
Nesse momento, Olímpia luta para impedir que o lixão de Tabatinga despeje chorume no igarapé Takana, que corta as terras ticunas nessa região. As águas do Takana deixaram de ser límpidas há muito tempo, e o igarapé corre risco de se tornar um esgoto a céu aberto. Aliás, esse é um problema que aflige comunidades urbanas e ribeirinhas amazônicas. O lixo e os dejetos domésticos são jogados diretamente nos mananciais.
A situação de quem mora na beira dos rios é a pior possível. Não bastasse a escassez de peixes, provocada pela pesca comercial, agora falta até água potável segura. “A gente bebe esse água porque é obrigada. Mas a gente sabe que ela está contaminada e que causa doenças”, afirma Olímpia. No plenário, o líder indígena Gilson Maioruna informava que caciques do rio Javari haviam decidido retornar à cabeceira dos rios, para fugir das doenças do branco. “Nas cabeceiras, as águas ainda estão limpas”, explicou.
Olímpia, com a criança no colo, ouve os parentes atentamente. “Tá vendo? A vida dos índios é dura. Se não agirmos agora, o futuro será pior”, comenta, enquanto acaricia o rosto da filhinha.
Ela já está na história
* Sociólogo, jornalista e escritorMarcadores: Artigo
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O amor nos tempos da cólera
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Ana Celia Ossame*
A humanidade precisa rever seu conceito de amor. Penso nisso depois do final trágico do seqüestro da adolescente Eloá, 15 anos, praticado de forma fria e calculista pelo ex-namorado dela Lindemberg Fernandes Alves, 22. Eloá foi mantida em cativeiro por mais de 100 horas até os disparos fatais. Dizer que isso foi uma demonstração de amor é atentar contra a mais frágil inteligência.
É preciso deixar claro, para não confundir a cabeça das crianças e de adolescentes, quais gestos podem ser classificados como de amor. Quem ama é incapaz de violência, a não ser para defender alguém querido de um mal, o que não era o caso. Quem ama não agride, não maltrata e não machuca. Para confirmar isso, basta ir ao dicionário da língua portuguesa. Qualquer desses livros explica que amor traduz afeição, compaixão, misericórdia, atração, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido etc.
É pouco? Vamos aos filósofos da Grécia antiga. Platão falava de um amor ideal, que seria a falta, a verdade essencial que a pessoa não possuía e buscava no ser amado, traduzido erroneamente, segundo os especialistas, como amor impossível, o famoso amor platônico. Em nenhuma hipótese Platão falava em agressão, intimidação, humilhação e covardia.
O amor está bem definido também na Bíblia. O apóstolo Paulo o examina com uma delicadeza e sabedoria que atravessam os séculos sem perder o vigor e a simbologia. Mostra que o amor é a força de Deus e daqueles que O seguem. Quem ama é paciente, não arde em ciúmes, não se ufana e nem se ensorbebece, escreveu o seguidor de Jesus, este o maior exemplo do que se pode ter de amor como fonte de inspiração para os éticos, os puros de coração, os humildes e os honestos. Tudo o que o Lindemberg ignorou.
Cabe perguntar: cadê os pais desse jovem, por que não foram chamados a intervir e tentar demovê-lo da fúria sanguinária? Certamente já o tinham abandonado há muito, contribuindo para fazer crescer nele essa personalidade doentia capaz de atitudes tão trágicas.
O título deste artigo empresta o do livro do escritor Gabriel Garcia Marques, “O amor nos tempos do cólera” , como uma provocação. Nele, Marques conta a história de um cidadão que soube amar e esperar. Na mocidade, o telegrafista Florentino apaixona-se perdidamente por uma jovem que, seguindo os conselhos do pai, rejeita o assédio, casando-se com um médico famoso da cidade. Isso fez Florentino esperar nada menos que 51 anos, 9 meses e 4 dias até a morte do rival para se reaproximar da amada. O final é memorável. Os dois juram amor eterno e ficam juntos. Quer mais amor que isso?
Lindemberg jamais experimentará essa sensação, por viver no tempo da cólera, da ira, da raiva cultivada silenciosamente nos seus 22 anos de existência. Com o fim do caso, a mídia vai se recolher e ele ficará só, sem a audiência que, quem sabe, pode tê-lo animado a permanecer com a arma em punho e não aceitar qualquer argumento. Ficará também sem Eloá que, queria por força nos convencer, seria sua amada ideal.
Ficam lições para nós, jornalistas, que precisam ser alvos de discussões e debates nos sindicatos e redações. Em que a imprensa contribuiu para esse desfecho trágico? É claro que o louco era o Lindemberg, mas será que sem essa exposição toda o caso poderia ter tido outro final? Ficam lições também para a sociedade capaz de construir pessoas tão doentes. Tentar saber onde tudo começou pode ser um bom começo para se refletir.
Para não engolirmos toda a amargura desse caso voltemos ao apóstolo Paulo. Ele disse que tudo desapareceria, as profecias, as línguas, até a ciência. Menos o amor, que permaneceria para sempre. Vamos espalhar esse sentimento. Vamos nos contaminar de amor para evitar que outras jovens como Eloá sejam vítimas de venenos tão fulminantes quanto o ódio produzido, em grande escala, em famílias onde não há tempo para o respeito, o diálogo, atenção ou simplesmente o amor.
* Jornalista, poeta, pós-graduada em Marketing pela FGV.Marcadores: Artigo
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O árabe como um parente distante!
Michelle Portela*
É difícil imaginar a literatura de Milton Hatoum (foto) sem a presença da cultura árabe. De todos os escritores amazonenses, esse é o que mais gosto. Não somente por sua poética, mas principalmente pela força humana que dá aos seus personagens. Esses, sem nunca tê-los imaginados, parece que sempre os conheci, que convivo com eles e pelos quais alimento um amor profundo.
Milton usa os recursos literários aos quais se dedicou a estudar antes de iniciar a carreira com destreza, quando ainda era professor universitário. Descendente de libaneses, a força humana talvez tenha sido um encontro em sua própria história. Assim, o escritor passou a fazer parte da tradição literária do País, a ponto de tornar-se matéria-prima para a compreensão da percepção que a sociedade faz sobre imigrantes de “um certo oriente”.
Apaixonado por literatura, o pesquisador Valter Luciano Gonçalves Villar percorreu um caminho teórico que trespassa autores de toda história brasileira para depois focar-se em duas obras para produzir o trabalho “A Presença Árabe na Literatura Brasileira: De Jorge Amado a Milton Hatoum”, como dissertação para o Mestrado em Literatura Brasileira da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Graduado em Letras pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Villar realizou sua pesquisa com apoio da Fundação de Amparo à pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e a orientação da professora Wilma Martins de Mendonça, coordenadora do grupo de pesquisa “O Brasil em sua Literatura: Memória e Identidade Cultural”, da UFPB.
Grandes nomes da literatura, como Machado de Assis, Castro Alves, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, se referiram, às vezes, assiduamente, como o escritor Jorge Amado, à presença do imigrante árabe em suas letras poéticas. Mais a fundo, encontrou insinuações da presença árabe desde as cartas inaugurais, como a do escrivão Caminha e a do Piloto Anônimo, passando pelo padre José de Anchieta, os colonizadores Gabriel Soares de Souza e Pero de Magalhães Gandavo, além do barroco Gregório de Matos.
Em Jorge Amado, o árabe está em vinte e quatro romances, dado que foi definitivo para o autor delimitar as obras que pretendia estudar. “Gabriela, cravo e canela” foi escolhida pelo fato de ser o primeiro romance nacional em que um personagem árabe, no caso o Nacib, nos é apresentado como protagonista. “Dois Irmãos”, a segunda escolha, pela força poética e humana que representa o personagem Halim. Posteriormente, constatou que havia muita ligação entre esses dois personagens.
Villar descobriu que nossos poetas, escritores nacionais, olham para o árabe como um brasileiro, como nosso irmão, como um parente que chegou de terras distantes. É uma empatia geral!
Par ele, esse discurso estereotipado é produto da mídia afiliada aos interesses europeus e estadunidenses, como se mostra, por exemplo, a Globo, a Veja, o Estadão, entre outros. Mesmo os estigmas mais comuns aos árabes, como a avidez no comércio, são retratados positivamente por esses dois autores.
Em Jorge Amado, o comércio dos árabes, a mascatearia, é comparado à magia, quando os mascates, para venderem, encantam as pessoas com sua atenção, seu respeito, seu interesse pelo outro, causando em seus fregueses espécies de deslumbramentos diante das fabulosas e encantadoras histórias que os árabes contam aos seus clientes. Em Milton Hatoum, o comércio é visto como uma oportunidade de se fazer relações de amizade, como várias vezes demonstra o personagem Halim.
O estudo mostra ainda que Jorge Amado foi o pioneiro, o antecipador dessas questões identitárias, especificamente árabe. Soube como ninguém, dizer o quanto o árabe é brasileiro e o quanto o brasileiro simpatiza com esses parentes distantes. Mostrou o modo amoroso dos árabes, sua psicologia, sua forma de lidar com a tristeza, com a alegria, sua religiosidade, como nos exemplifica o fabuloso Fadul, personagem de Tocaia Grande, e seus esforços em se aclimatar às terras brasileiras, suas profundas gratidões pelas terras de adoção, sua honestidade, sua brandura, enfim, todos os qualificativos positivos. Que digam os iraquianos, os libaneses, os afegãos, os palestinos, os iranianos, constantemente agredidos, caluniados e ameaçados por esses “colonistas midiáticos”, para usar uma expressão do jornalista Paulo Henrique Amorim.
Trilhando esse mesmo caminho, encontramos nos dias atuais o melhor de nossa tradição literária: o escritor Milton Hatoum. Respeitando a opção estética amadiana, Milton enriquece esse olhar sobre o árabe. Na sua prosa, observamos o quanto seu estilo, sua estética, fala a verdade, sem ter a pretensão de falar a verdade. Universaliza o regional de maneira tão esmerada que olhar, por exemplo, para o drama do árabe Halim, é olhar para o drama de qualquer cidadão do mundo. A plasticidade, a mistura de sentidos, o uso adequado de certas expressões regionais, enfim, um conjunto de elaborações formais que fazem dele um dos escritores mais respeitado no universo literário, não só no Brasil, como em todo o mundo, como atestam as variadas traduções de seus romances.
Ao viver o mundo literário de dois mestres, Villar foi posicionado e reposicionado no local e no universal. No decorrer do trabalho, não deixou de comover-se. Associou sua vida ao tema lembrando-se de conhecidos, vizinhos e amigos no município de Itacoatiara, onde viveu na juventude, especialmente, de alguém parecido com o personagem Halim, de Dois Irmãos, com quem diz estar em dívida de gratidão.
Em tempos de guerras étnicas e crises financeiras, o trabalho de Villar traz um novo, sensível e delicado aprofundamento teórico sobre a questão árabe, fundamental para a compreensão do papel da identidade, dos deslocamentos e comovente capacidade humana de recomeçar. Uma grata surpresa!
* A autora é jornalistaMarcadores: resenhas
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