Carta denuncia insegurança na tríplice fronteira

sábado, 1 de novembro de 2008


Representantes de indígenas, ribeirinhos e organizações da sociedade civil da tríplice fronteira Brasil, Colômbia e Peru denunciaram, em carta elaborada em simpósio realizado em Tabatinga (AM), nos dias 16 e 19 de outubro, ações de exploração indiscriminada dos recursos naturais, do narcotráfico, dos grupos armados legais e ilegais, de corrupção, descaso e abandono dos governos dos três países. O documento Carta da Tríplice Fronteira exige que os governos garantam a inviolabilidade e a integridade das populações tradicionais da fronteira e das terras que elas habitam há séculos.

A tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru sofre os impactos sociais do conflito armado entre guerrilheiros, forças paramilitares e forças regulares colombianas que, desde a década de 1980, concentraram-se na selva amazônica. Há ainda a ação dos narcotraficantes que se utilizam da floresta e dos rios para escoar as drogas produzidas e processadas, principalmente, na Colômbia e no Peru. O tímido apoio social dos três estados facilita o assédio desses grupos aos que vivem na fronteira. Não é menos perversa a atuação da empresas mineradoras, petroleiras e hidrelétricas, que degradam a qualidade de vida e os recursos naturais da região.

A Carta da tríplice fronteira será encaminhada aos governos dos três países e a instituições multilaterais.
Confira o documento:
Nós, indígenas, ribeirinhos e representantes de organizações da sociedade civil, participantes do Seminário Realidade Sócio-Ambiental na Tríplice Fronteira Peru - Colômbia - Brasil transcorrido na cidade de Tabatinga, Amazonas, Brasil, nos dias 16 a 19 de outubro de 2008, com o objetivo de buscar caminhos comuns diante dos desafios sócio-ambientais da região, nos manifestamos sobre a realidade enfrentada por nossos povos e comunidades.

Nossa Mãe-natureza nos brindou a Amazônia, provendo-nos com recursos naturais, com grande biodiversidade e riquezas culturais ancestrais, que sempre permaneceram identificadas com nossas formas de organização, nossos costumes e nossa existência.

Denunciamos todas as violações aos direitos dos povos indígenas e tradicionais estabelecidos e firmados nas Constituições de nossos países e na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), cometidos por ações de exploração indiscriminada dos recursos naturais, o narcotráfico, a violência de grupos armados legais e ilegais, a corrupção, o descaso e o abandono dos nossos governantes.

Chamamos a atenção dos governos do Peru, Colômbia e Brasil para a ameaça de extinção de povos indígenas em situação de isolamento. Que reconheçam a sua existência, garantam sua integridade e a inviolabilidade de seus territórios.

Encontramo-nos ameaçados pelos grandes projetos econômicos impostos pelos interesses transnacionais, provocando abusos cometidos por parte de governos que não adotam políticas diferenciadas de acordo com nossas realidades, sem levar em conta que nossos direitos ancestrais e tradicionais existem desde sempre e antes da criação dos Estados Nacionais.

Exigimos que se adotem políticas governamentais que se adaptem à nossa cosmovisão, levando em consideração nossas necessidades especificas e diferenciadas voltadas para a saúde, a educação, o meio ambiente e a justiça social, a fim de melhorar nossa qualidade de vida.

E por isso propomos:

1. O estabelecimento de políticas migratórias e de refúgio para as vítimas deslocadas por conflitos sociais, ambientais e políticos;

2. A igualdade de tratamento para os direitos tradicionais, levando em conta que entre os indígenas não pode haver fronteiras;
3. Que se assegure aos povos amazônicos a administração, a gestão e o controle de seus recursos em seus territoriais.

Por tudo isto, assumimos os compromissos:

● De criar uma equipe de coordenação trifronteiriça composta por representantes indígenas, camponeses e ribeirinhos de cada um dos três países;

● Criar espaços que favoreçam uma permanente formação social, política, ambiental e cultural a fim de fortalecer as capacidades de liderança indígena, camponesa e ribeirinha na luta para o estabelecimento de políticas de desenvolvimento sustentável, fazendo prevalecer nossos direitos;
● Criar fóruns fronteiriços de debate permanente.

Tabatinga, 19 de Outubro de 2008:

Participantes:

1. Povo Matsés,

2. Povo Mayoruna,

3. Povo Tikuna,

4. Povo Matis,

5. Povo Tukano,

6. Povo Marubo,

7. Povo Kokama,

8. Povo Kambeba,

9. Povo Kanamari,

10. Povo Aguajun

11. Povo Yagua

12. Organização Geral dos Professores Tikunas Bilíngües – OGTBBBC

13. Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira - Coiab

14. Conselho Indigenista Missionário - Cimi

15. Serviço de Ação, Reflexão e Educação Social - Sares

16. Pastoral do Migrante - Congregação dos Scalabrinianos

17. Pastoral Indígena da Diocese Alto Solimões - Pidas

18. Diocese do Alto Solimões.

19. Equipe Itinerante

20. Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia da Universidade Federal do Amazonas - PPGSCA

21. Centro de Trabalho Indigenista - CTI

22. Comissão Pastoral da Terra - CPT

23. Federação de órgãos Para Assistência Social e Educacional - Fase

24. Universidade Estadual do Amazonas - UEA

25. Fundação Nacional do Índio - Funai

26. União dos Povos Indígenas do Vale do Javari – Univaja

27. Instituto de Desenvolvimento e Assistência a Saúde e a Sociedade Indígena.

28. Organização do Povo Tikuna - Otam

29. Comunidade Ribeirinha Santa Terezina

30. Red Ambiental Loretana RAL

31. Programa de Conservación y uso sostenible de la región Loreto - Procrel

32. Reserva nacional del Pacaya Samiria;

33. Centro Para el Desarrollo del Indígena Amazónico - Cedia

34. Sociedad Para la Conservación da la Vida Silvestre - WCS

35. Comunidade São Pedro

36. Asociación de Cabildos Indígenas del Trapecio Amazônico - Acitam

37. Asociación Zonal de Autoridades Tradicionais - AZCAITA

38. Asociacion Ticuna, Cocam y e Yagua - Aricoya

39. Asociacion Indigena Tradicional de Tarapacá- Amazonas - ASOAINTAM

40. Asociacion Zonal Indigena de La Chorrera - AZICACH

41. Corporacion para la Defensa de la Biodiversidad Amazônico - Codeba

42. Corporacion Regional del SUR de la Amazonia Colombiana – Corpoamazonia

43. Parque Nacional Natural Amacayucu - PNNA

44. Instituto Científico de Investigacion Amazônico - SINCHI

45. OMACHA-Significa Bujeo o Delfin Rosado (fundacion ambientalista)

46. Pastoral Social: Letícia

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Que outro lado que nada...‏

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Gerson Severo Dantas*

Jornalismo é um tipo de atividade muito assemelhada ao futebol. Todo brasileiro acha que entende um bocado, todo mundo se acha no direito de criticar, todo mundo pensa que sabe tudo sobre essa atividade. Isso está pior nestes tempos em que a necessidade do diploma universitário está em risco. Claro que sou favorável à regulamentação prevista na lei. Pelo menos, com ela, certos indivíduos que se pretendem “sábios” da comunicação têm por obrigação passar pelas aulas do Tomzé, do Narciso, do Deco, enfim de toda a turma boa da Ufam, ou de outras turmas que não conheci nas particulares.

Esse papo furado todo inicial é para dizer que passei a semana ouvindo críticas, insinuações, ameaças por ter feito uma matéria sem ouvir o chamado “outro lado”. Todos pensam que essa é uma obrigação do jornalista, quando não é. Muito cedo na faculdade, com o livro “O que é Jornalismo”, de Clóvis Rossi, um dos principais jornalistas do País, aprendi que ouvir o outro lado é uma válvula de escape para nós, profissionais do texto. Ouvir o outro lado é, segundo Rossi, oferecer ao leitor ao menos uma mentira. Oferecer uma mentira para o leitor não é nossa missão, defende o renomado editorialista da Folha. Alinhar-me a um Clovis Rossi, de per si, já serviria para rebater parte das críticas, que reputo – na maioria - honestas, mas outros argumentos existem e gostaria de pô-los à discussão aqui neste TEXTOBR.

Tomemos a meritocracia como critério de bom jornalismo: a entrevista-bomba de Roberto Jefferson denunciando o governo do PT pelo pagamento de um “mensalão” de R$ 30 mil a parlamentares no Congresso foi dada a Renata Lo Prete, da Folha de São Paulo. O outro lado não foi ouvido e ao final daquele ano a entrevista deu a ela o Prêmio Esso de Jornalismo, o mais prestigiado da imprensa brasileira. É o nosso Pulitzer e tenho o orgulho de ser um dos 10 amazonenses a ter um deles, na categoria regional, pendurado na parede de casa.

Gostaria também de colocar nessa baila um argumento de mercado. A cada dia mais o leitor opta por consumir informações com fortes componentes opinativos. Esse é o caso da Veja. Há muito a revista deixou de ouvir o outro lado e taí o PT para comprovar o que digo. Mesmo assim, ela é a principal revista brasileira, vende mais de 1 milhão de exemplares a cada fim de semana e exerce forte influência na opinião pública brasileira.

Por fim, tomemos também o exemplo dos blogs. Eles não fazem, pela concepção clássica, jornalismo, mas algo parecido, talvez um parajornalismo. Blogueiros dificilmente ouvem o outro lado, no máximo oferecem a ele (o outro lado) o direito de comentar os “posts”.

Não digo que ouvir o outro lado seja ruim, na imensa maioria das vezes ouço, mas, quero deixar bem claro isso, não é uma obrigação absoluta. Há casos em que a apuração é tão clara e distinta que ouvir... só serve para, como diz Rossi, repassar uma mentira ao leitor. Isso sim é prejudicial. Tenho dito.

* Filósofo, jornalista e mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Festa para a literatura na Amazônia

Ao menos 200 mil participarão das atividades do 1º. Festival Literário da Floresta (Flifloresta), que será realizado no período de 17 a 22 de novembro, em Manaus, capital do Amazonas. A proposta do evento é promover o encontro dos leitores da Amazônia com 83 autores convidados. As atividades dirigidas à celebração do livro se concentrarão no Parque Municipal dos Bilhares, uma área de 60 mil metros quadrados, no bairro Chapada, onde serão erguidas tendas temáticas.
O
Flifloresta também abrigará os simpósio de Natureza e Cultura e Leitura e Formação de Leitores, que serão realizados no auditório da Reitoria da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Ambos terão como foco a Amazônia. Os debates envolverão pesquisadores, estudantes, professores e profissionais que atuam em instituições ambientalistas. O simpósio de Natureza e Cultura elaborará a Carta da Floresta, que será lida na Cachoeira da Onça, no município de Presidente Figueiredo (a 100 quilômetros de Manaus).

Seis convidados de fora do Brasil já conformaram presença: José Eduardo Agualusa (Angola), Ernesto Cardenal (Nicarágua), Artur Pestana “Pepetela” (Angola), Fernando Rendón (Colômbia), Arturo Corcuera (Peru) e Carlos Quiroga (Espanha). Dos demais Estados virão 27 convidados, entre eles João Gilberto Noll, Alex Bueno, Raimundo Carrero, Daniel Galera, Fabrício Carpinejar, João de Jesus Paes Loureiro e Vera Du Val. O Amazonas terá 47 participantes, entre eles Milton Hauton Thiago de Mello, Marcio Souza e Elson Farias.

O diálogo dos leitores com os autores ocorrerá no Café Literário, em uma das seis tendas do parque, com capacidade para 200 lugares. Haverá, também, sessão de autógrafos após cada palestra. Todo o ambiente do parque foi recriado para a festa em homenagem ao livro. “Autores e leitores se sentirão cúmplices dessa grande celebração”, disse Isaac Maciel , um dos coordenadores do Flifloresta.

O Flifloresta terá uma programação dirigida ao público infanto-juvenil, o Florestina, realizada em parceria com Serviço Social do Comércio (Sesc). Nesse espaço, crianças e adolescentes terão encontro com autores, sessões de cinema, teatro e música. O Sesc elaborou e vai gerenciar o Florestinha com uma equipe que tem experiência de mais de uma década com a realização de feira de livro dirigida ao público infanto-juvenil.

Mais informações no site: www.flifloresta.com.br

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A pregação

quinta-feira, 30 de outubro de 2008


Neuton Corrêa

Orai e vigiai, irmãos! A luta contra o demônio não acabou! Tive o coração tocado por essa verdade na última viagem que fiz a bordo do ônibus 219 (Augusto Montenegro-Centro). A pregadora que me fez pensar assim conseguiu isso com poucas palavras. Nem precisou colocar meu nome na caixinha de orações nem mergulhá-lo no óleo santo da Nação dos 318 da Igreja Universal.

Aquela mulher foi direta.

A pregação dela destruiu tudo o que eu já havia planejado para pôr em prática, caso algum dia resolvesse atender ao convite das minhas colegas de sala de aula Priscila e Ana Cleide.

Antes, já havia me imaginado em um púlpito da Assembléia de Deus, caso fosse persuadido pela Ana e pela Priscila: “Eu falaria para o público: ‘irmãos, Jesus vai voltar; irmãos, o julgamento final vai chegar.’ Em seguida, via-me indagado: ‘lá vem o senhor de novo com essa conversa!”.

E as divagações foram se sucedendo desde o dia em que comecei a ser convidado para tornar-me pastor. Desisti naquele encontro com a pregadora do 219.

De lá para cá, penso que deveria ser, sim, também um pregador. Mas um pregador agnóstico, que prega a destruição de Deus e que promove a construção do homem. Mas essa idéia está por demais cansada. O momento não é próprio para esse tipo de coisas de super-homem. A propósito, essa idéia de super-homem dizem que levou a Alemanha ao nazismo. O defensor original dessa história era um cara chamado Nietzsche (pronuncia-se: Nítche).

O momento agora é o de crença. O homem está em crise. E todas as vezes que isso acontece na história da humanidade as pessoas recorrem àquilo que está mais distante delas – ou quem sabe mais perto.

Aquela pregadora mostrou o momento atual: o de encarar a luta contra o demônio!

Ela subiu na viagem três paradas depois da minha, no bairro Alvorada. Debaixo do braço carregava uma Bíblia e vestia uma túnica cinzenta, de tecido remendado. A imagem dela lembra aquelas figuras de filmes da Semana Santa. Ela entrou apressada no carro e discutia com um grupo de rapazes que a zombavam na parada de ônibus.

Inquieta, não se sentou, embora houvesse um grande número de cadeiras vazias. Os rapazes da parada continuaram. Ela, então, furiosa, colocou a cabeça pela janela do ônibus e gritou:

- Vai dar tua bunda, filho da mãe, para ver se tu ganha um real!
Todo mundo se assustou. Ela pôs o corpo de volta e recomeçou sua pregação para os passageiros, agora, com um tom mais moderado:
- É, mano, com satanás é assim: a gente não pode dar mole!

Ela continuou a pregação até as proximidades do estádio Vivaldo Lima, onde eu e o meu filho desembarcamos.

* Filósofo, graduando em Jornalimso e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Novas fronteiras para a Amazônia

domingo, 26 de outubro de 2008

Wilson Nogueira
Do Blog

Os colombianos começaram a debater uma nova lei de fronteira. Não faltarão temas conflituosos e polêmicos, principalmente na redefinição do conceito de integração fronteiriça. “Só estamos começando a conhecer e a discutir essa lei”, avisa o diretor da Universidade Nacional da Colômbia em Letícia, doutor em Sociologia Carlos Zárate, que investigou, na sua tese de doutoramento, a formação das populações fronteiriças da tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru. Nessa região, segundo ele, formaram-se sociedades transnacionais, que precisariam ser reconhecidas, também, por meio de políticas públicas e cooperação econômica e cultural integradas dos três países. Os problemas sociais entre os três países, para o pesquisador colombiano, só serão resolvidos se o antigo entendimento a respeito da soberania de cada país deixar de ser pensado isoladamente. Confira a entrevista:

Como se deu a formação social da tríplice fronteira?
A minha tese de doutorado é sobre a formação de uma sociedade transnacional na Amazônia do Brasil, do Peru e da Colômbia na época da exploração da borracha, entre 1880 e 1930. Nessa época, a partir do comércio da borracha, deu-se o encontro entre pessoas de diferentes nacionalidades. No caso do Brasil, de nordestinos; no caso da Colômbia e do Peru, de gente de diferentes províncias dos Andes; no caso do Peru, de gente, também, de outras partes do país. Todas essas populações se encontram numa área de extração que chamamos hoje de fronteira amazônica desses três países. Desde essa época, formou-se, nessa região, uma fronteira e, também, um contato transnacional.

Qual a experiência tirada dessa singularidade?
A experiência que se obteve, conforme os estudos desse período, é que muitos dos marcos atuais das fronteiras surgiram nessa época, com os contatos entre indígenas e agentes estatais, assim como soldados, funcionários de aduanas e outros tipos de funcionários, e com seringueiros também; caucheiros do lado peruano e seringueiros do lado brasileiro, e deu-se na formação de uma mistura e formação de uma cultura de fronteira, uma cultura de contato entre as gentes desses países. Depois se constituiu uma amalgama muito mais forte que explica que hoje existam pessoas que moram em lugares como Letícia e Tabatinga, ou em Santa Rosa, do lado peruano, que foram miscigenados biologicamente, e que seus filhos são resultado de uma mistura de etnias e, também, de nacionalidades. Isso resultou na particularidade dessa gente da fronteira hoje: pais brasileiros e mães colombianas ou pais peruanos e mães colombianas, que geraram um tipo de pessoas diferentes das que temos no resto dos nossos países, que são as gentes de fronteiras.

Qual a implicação dessa composição histórica para os três países?
Uma das conclusões desse trabalho de pesquisa é que a formação das fronteiras é um acordo, é uma negociação, uma disputa entre diferentes países e nações. Só acho que essa noção de soberania que se tinha no século passado tem que ser reavaliada, porque o problema de soberania não é um assunto de cada país, separado; e, sim, uma relação entre os diferentes países. A Colômbia, por exemplo, não pode proclamar a sua soberania sem levar em conta o Peru, sem levar em conta o Brasil. A definição da fronteira, nesse caso, é o resultado de uma negociação às vezes conflituosa entre forças distintas. Mas não se explica que um país, sozinho, crie a sua fronteira sem levar em conta seu vizinho, Por isso, em termos geopolíticos, não podemos explicar a história de Letícia sem explicar a história de Tabatinga, no Brasil, sem explicar a história de Santa Rosa ou de Cavalo Cocho, no Peru. Essa é uma história comum.

Esses seriam os principais elementos de integração?
Em termos geopolíticos, isso significa que há elementos importantes para a integração dos nossos países aí nessas zonas. Apesar de se seguirem as decisões de tipos nacionais, que são importantes também, não se deveriam desconhecer todos os elementos de integração que existem não somente em nível dos países, mas, sobretudo, dos povos, porque encontramos políticas nacionais que, ao contrário, impedem uma verdadeira integração. Em termos geopolíticos vemos, por exemplo, que, em Tabatinga, temos um aeroporto internacional e em Letícia temos outro aeroporto internacional. Se não existe cooperação entre os dois aeroportos, não é possível que se usem ambos porque há aí uma legislação nacional que impede essa cooperação. Essa visão de geopolítica e de soberania, penso, deve ser superada. Isso deve ser superado para se garantir o melhor aproveitamento das vantagens que têm em cada país.

De modo prático, como essa cooperação se daria em benefício das populações que vivem nas fronteiras?
Os povos que vivem ali (na fronteira) sabem que existem populações indígenas da etnia Ticuna que vivem, lado a lado na fronteira, que utilizam os serviços dos três países, que aproveitam os seus laços de parentesco para desnacionalizar-se, para aproveitar-se de três sistemas nacionais distintos. Isso deveria ser feito não apenas pelos povos, mas, também, pelos Estados que estão nesses lugares. Há alguns elementos de cooperação entre o Exército brasileiro e o Exército colombiano, porém, para outros assuntos deveria haver mais cooperação e não somente em termos das forças militares. Em relação a essa soberania da qual estamos falando, poderia haver, também, mais entrosamento em termos de educação, de saúde e de outros serviços que os Estados deveriam ter mais entendimento e maior cooperação.

E a integração dos povos indígenas? Ela poderia ocorrer de forma mais consistente?
Se falarmos dos povos indígenas que vivem na fronteira, há uma dificuldade para que se realize, na verdade, uma integração entre eles, e é possível que essa dificuldade continue existindo no futuro. Estamos falando, por exemplo, de que existem diferentes políticas lingüísticas. Seria difícil o povo ticuna ter uma só língua, uma só escrita, porque eles estão mediados pelos sistemas nacionais, pelo português e o espanhol. Há também, na organização política, muita divisão entre o povo ticuna de cada país. No Brasil, por exemplo, há líderes que têm divisões internas que impedem uma melhor integração dentro do mesmo povo ticuna. As fronteiras ajudam a reforçar essas divisões, eles têm que ver como, no futuro, poderão se integrar melhor em termos políticos. Em termos culturais, eles estão mais integrados. É possível que a etnia ticuna esteja praticando e expressando, nos três países, a mesma cosmovisão e as mesmas tradições. Eles têm muitas tradições em comum, como a raspagem do cabelo das adolescentes verificada nos diferentes países, mesmo assim eles terão que romper com algumas barreiras fronteiriças que há entre eles. Então, sendo assim, eu penso que, eles seguirão tentando encontrar caminhos de melhor entendimento, mas as políticas nacionais não ajudam, acabam contribuindo para que haja um impedimento para a melhor integração entre o povo ticuna.

Qual é o nível dessa integração hoje?
Você sabe que os laços de parentesco entre os índios são muito fortes. Eles têm parentes no Brasil, têm irmãos na Colômbia ou no Peru. Você sabe que a política do Estado brasileiro de aposentar, de apoiar a população anciã indígena, faz com que muitos indígenas do Peru ou da Colômbia passem a viver no Brasil porque existe esse apoio do Estado. O povo ticuna tem muitos elementos de integração que vêem cotidianamente. Mas há, também, muitas diferenças em termos de religião. Sabemos que em muitas comunidades eles praticam ou tem uma visão religiosa diferente das outras. Estamos falando dos evangélicos, das igrejas cristãs ou da persistência dos movimentos messiânicos, como o cruzismo, que são elementos culturais que geram algumas diferenças entre as distintas comunidades. Então, todos esses elementos têm que ser levados em conta para o seu fortalecimento cultural e integração.

Qual é o impacto social do conflito armado colombiana na fronteira?
O conflito interno colombiano não tem produzido um grande efeito sobre a fronteira, no sentido de que não há uma migração em massa da Colômbia para o Brasil. O que existe é um fluxo migratório de baixa intensidade. Reconhecemos, entretanto, que há pessoas que, por causa do conflito interno na Amazônia se deslocaram para zona de fronteira, principalmente para Letícia. Conhecemos umas duzentas ou trezentas famílias que abandonaram suas localidades para fugir do conflito, e algumas passaram para Manaus. Existem famílias de refugiados, não tenho os números, que se assentaram em Manaus.

A Colômbia, neste momento, discute uma nova lei de fronteira. Quais os pontos polêmicos dela?
Agora estamos discutindo os pontos polêmicos de um projeto de lei que está apenas em fase de estudo. Estamos começando a discutir essa lei de fronteira. É um projeto muito recente. É uma lei que trata da integração fronteiriça. Ela divide o país em várias regiões fronteiriças, define uma série de mecanismos de integração da economia e da política. Só estamos começando a conhecer e a discutir essa lei. Esse processo, que está muito recente, ainda não se tem avançado muito nele.

Para o senhor, como deve ser essa lei?
O melhor seria uma lei de fronteira que avançasse, com muita imaginação, para o reconhecimento da região transfronteiriça como uma zona de integração social, econômica e política, da qual participassem as comunidades (rurais e urbanas), os indígenas e os demais setores da sociedade fronteiriça. Deveria ser uma lei muito boa para os três países, pelo menos nessa zona de fronteira com o Brasil e o Peru.

Não haveria, então, uma relativa integração entre os índios hoje?
Os povos indígenas estão integrados faz muito tempo aqui. Antes que existisse a fronteira elas já estavam nesse território compartilhando do que se tornaram, mais tarde, as zonas dos três países. Eles, nesse aspecto, estão integrados natural e socialmente.

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