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O trauma
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
 Neuton Corrêa*
Devo à personagem deste texto um livro. Tive a presunção de prometê-lo. Este episódio ocorreu durante uma viagem a bordo do 422 (Oswaldo/Américo/Centro).
Cláudia. Com esse nome ela se apresentou. Jovem, baixinha, magrinha, nariz pequeno e afilado; vestia uma saia azul-marinho e uma blusa branca com vários detalhes vermelhos. Ela embarcou na Djalma Batista, perto dos bancos. Eu havia subido na Getúlio Vargas. Não passei pela catraca para ficar nos bancos de trás. Quando ela entrou, só restava uma vaga, a do meu lado.
Foi ela quem puxou a conversa: - Finalmente, vou para casa sentada.
Concordei com a moça, porque, no 422, é como o Maracanã em dia de Fla-Flu: casa cheia sempre. Mas adverti: - É, mas, ali no shopping, você vai ver. Passou a fase de apresentação e perguntei-lhe: - Você vem de onde? - Do Vieiralves, respondeu-me.
Como sua blusa trazia a logomarca de uma loja de móveis, quis saber onde trabalhava e ela me falou com uma única palavra: - Trabalhava. Lamentei a demissão e estimulei que procurasse outro emprego: - Não vou conseguir. Ele vai acabar com a minha vida. Fiquei curioso e preocupado e a indaguei: - Ele quem? - Meu patrão. - O que tem ele? - Ele vai acabar comigo! Pedi que me explicasse melhor, mas ela não falou a razão e continuou fazendo mistério: - Ele vai acabar comigo! Depois de muita insistência, ela finalmente revelou: - Meu patrão queria me pegar. Deixou todo mundo sair da loja e quando estávamos a sós ele tentou me atacar. Falei um monte de coisas para ele e saí correndo, e ele disse para eu não voltar mais.
Olhei para a minha parceira de viagem e notei que estava muito calma para quem tivera acabado de ser atacada por um maníaco. Ela percebeu que eu não acreditei na história e puxou outro assunto:
- Meu pai me violentou pela primeira vez quando eu tinha seis anos. Eu agüentava calada. Contava para minha mãe, mas ela não acreditava. Só veio acreditar quando eu estava adolescente. Ela tinha ciúme dele comigo. Por causa de mim, eles se separaram.
Quando tocou nesse assunto, sua expressão se fechou e pedi que continuasse: - Isso aconteceu em Alenquer (PA). Eles se separaram assim que chegaram em Manaus. Eu tinha 14 anos. Ela arranjou um amante. Um cara que tinha conta para pagar à Justiça. A gente morava lá perto do presídio. Minha mãe me batia muito. Ela tinha ciúme dele também.
Fiquei compadecido do drama dela. As histórias que ela me contou, das surras que levava, eram verdadeiras torturas de prisioneiro de guerra. Talvez fosse mesmo uma guerra.
Pensava nisso, quando ela me relatou as circunstâncias de como engravidou pela primeira vez.
- Ele é treinador de futebol. Prometeu me colocar em uma agência de modelos. Nunca me levou para nada. Só ia me pegar em casa e daí me violentava.
O ônibus já havia passado do Parque das Laranjeiras e me preparava para descer. Digo-lhe que sua vida daria um livro e me despeço, e ela começa a contar mais uma história: - Você pode me arranjar R$ 50? É que o pai do meu segundo filho...
Não dava para continuar ouvindo. Já estava perto de casa. Sorri e lhe prometi: Na próxima viagem a gente conversa mais.
*Filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. (Ilustração: Myrria)Marcadores: Crônicas
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Os perigos da rodovia
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Wilson Nogueira*
Há uma ave morta ali, o avisa o condutor do carro. É um socó-boi.
O coitado morreu atropelado! O sangue fresco sobre o asfalto, observado de dentro do carro, denuncia que o bicho morrera havia poucos minutos.
O sol mal se pôs, mas já é necessário ligar o aparelho de ar condicionado do carro.
A cena do animal morto desfaz-se no espelho retrovisor, e o carro prossegue a viagem.
É rotineiro o atropelamento de animais e de pessoas nas rodovias do Brasil. Contabilizam-se mais as pessoas, raramente contam-se os animais.
Os índios waimiri-atroari, que têm suas terras cortadas em 125 quilômetros pela BR-174, que interliga Manaus (AM) e Boa Vista (RR), não compreendem o porquê de tanta indiferença de muitos dos não-índios com a vida dos animais.
Desde 1997 até agora já foram atropelados e mortos 4.442 animais. Um outodoor, com os números atualizados diariamente apela contra a matança, que seria bem menor se os carros trafegassem na velocidade e atenção recomendadas para esse trecho.
A terra indígena ficou para traz, mas as cenas e os cenários da visita às aldeias se agitam e fazem barulho: um menino espia atentamente os gestos do visitante ilustre; certo dia, quando eu ainda era uma criança, olhei, bem no fundo dos olhos dos brancos que estavam com o meu pai, para ver qual deles era o verdadeiro amigo, confessa um velho índio!
A gritaria e o vaivém das crianças na boca da noite expõem sorrisos fartos. Não há motivos para que fiquem tristes. Até recentemente, os waimiri-atroari, vítimas de massacres por causa da construção da rodovia, da retirada de cassiterita e da barragem da Hidrelétrica Balbina, freqüentaram a lista dos povos ameaçados de extinção: em 1986, eram apenas 374 pessoas; hoje são 1.287.
Todos da aldeia se reúnem para dançar e cantar, e para apelar aos seus ancestrais que lhes garantam o sossego pleno da noite: para eles e para os animais da floresta e dos rios. Os índios sabem que há muita gente agindo para liberar o tráfego noturno indiscriminado na BR-174. Para eles, a ganância da acumulação sempre conspira contra a paz.
O carro cruza a fronteira das terras dos waimiri-atroari na direção de Manaus.
O motorista faz o apelo dele: olha, se você for escrever mesmo sobre essa viagem, vê se não esquece pôr nessa história o tamanduá-bandeira que vimos atravessando, ligeiro, sobre asfalto ardente.
Pois, sim, taí!
* Sociólogo, jornalista e escritorMarcadores: Crônicas
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Waimiri-Atroari
terça-feira, 11 de novembro de 2008

O Visitantes (convidados) da terra indigena Waimiri-Atroari, no Amazonas, em passeio sobre lago de criação de peixes e quelônios Marcadores: TEXTO DA LUZ
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