A mulher da parada

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008


Neuton Corrêa*

Eu a chamei de "a mulher da parada". É onde sempre a vejo: na parada de ônibus. Grita, resmunga, ri, chora e conversa com ninguém. Quando ela chega, os outros partem, faça chuva ou sol. Parece até que todos sabem que ali é o mundo dela.

Há oito anos passei a observá-la, desde o tempo em que trabalhava no Centro e era obrigado a chegar às sete da madrugada na empresa. Isso me tirava o humor. Pois foi em um desses dias de ira, sob o olhar de Nossa Senhora da Conceição, na Praça Matriz, que encontrei a mulher da parada pela primeira vez.

Ela estava namorando. Caminhava, carinhosamente, com um morador da estação. Ele, tímido, andava de cabeça baixa e, de vez em quando, segurava o calção e se ajeitava contorcendo o quadril. Ela, à vontade, falava-lhe de amor ao mesmo tempo em que convidava o parceiro para ir para casa. A única coisa que cobria as intimidades dela era a flacidez da barriga que lhe descia até a coxa.

O namorico deles me fez lembrar um personagem muito conhecido de minha terra, Parintins. Bastava alguém gritar: "Lá vem o Adolfo!", e eu saía em disparada. Muito tempo depois, conheci algumas das histórias que se multiplicaram sobre os devaneios dele. A mais comum era a de que ele teria sido um excelente compositor. Agora, mais recente, de que ele foi um ser inquieto e apaixonado.

Adolfo, diferentemente do que a ciência propaga, achava que a Matemática é um saber imperfeito. Essa era sua única desconfiança em relação à perfeição de Deus. "De todas as ciências, a única que Deus não fez bem feita foi a Matemática. Como pode Ele dar muito para poucos e pouco para muitos?", relatou-me um de seus pensamentos uma parenta dele.

Adolfo não teve a mesma fortuna da mulher da parada. Ele era apaixonado por uma moça casada e se flagelou a amá-la no pensamento e com as mãos. Temente a Deus, buscava os lugares mais escondidos para satisfazer a sua imaginação erótica. Preferia as águas do rio Uaicurapá, onde ele jurava que o Céu não poderia atingi-lo.

Pois bem! Após tantos anos vendo-a de longe, finalmente, tive a sorte de tomar o mesmo ônibus com a mulher da parada. Embarquei na linha 352 (Campus/T4-T3), na saída da Ufam, por volta do meio-dia. Na Bola do Coroado, um grupo de crianças, com uniforme de escola pública, entrou. No ponto seguinte, ela sobe na viagem. Os alunos correm para as cadeiras de trás. À vontade, esparramou-se em um assento de dois lugares.

A viagem continua. Mais à frente, sobem uma moça e um rapaz. Os dois puxam conversa com o motorista. O rapaz, delicado, muito preocupado com os cabelos e observando os homens que passavam à sua frente, sentou-se de pernas cruzadas no capô do motor, de costas para o pára-brisa. Ela, loura, passa o braço esquerdo na cadeira do motorista, curvando o corpo de costas em minha direção.

Aquela conversa me incomodava. E incomoda ainda mais a mulher da parada, que começa a olhar o aviso pregado no carro: "Proibido falar com o motorista". Ela resmunga alguma coisa assim: "Tu é lesa, é?, Tu é lesa, é? Tu é lesa, é?"

Distraí-me por alguns instantes, quando fui surpreendido por uma freada brusca. A loura gritava com a minha parceira de viagem: "Tu é doida, é?". E ela continuava na mesma rima: "Tu é lesa, é?". O motorista desprende-se do cinto de segurança e a expulsa do carro. O rapaz de gestos delicados a agrediu com um chute no enorme traseiro.

Fiquei furioso com atitude dos três. Tive vontade de pôr para fora todos os xingamentos que fervilhavam em minha cabeça. Não falei nada. Fui covarde. E ainda tive a coragem de rir da situação da amante da Praça da Matriz.

Ri porque assim que desceu do ônibus ela tirou a roupa e saiu correndo em direção ao Clube do Trabalhador do Sesi.

* Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

(Ilustração: Heli)

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O natural é também cultural, na Amazônia

terça-feira, 2 de dezembro de 2008


Thaís Brianezi

“Diante da porta da casa construída sob a paisagem alpina, uma menina pequena de três anos de idade brinca [...]. Atrás da menina, a imperturbável fachada da casa [...] ainda brilha com a dispendiosa pintura ocre remanescente da época abundante da colheita de sete anos atrás. O avô construiu o galpão metálico à esquerda do corpo principal da propriedade, edificada no começo do século passado, sobre as ruínas de um antigo moinho construído no mesmo lugar onde antes havia um antigo mosteiro erguido sobre o mesmo terreno em que havia existido um templo — que não nos lembramos se era romano ou gaulês — diante de rochedos deslocados por uma perigosa e agitada torrente, cujo curso milenar se perde nas profundezas dos estratos jurássicos das montanhas cobertas por neves consideradas eternas [...].

A menininha deixa de balbuciar e agora já fala; a pintura data de épocas recentes, de clima ameno, e a nova construção de tempos anteriores aos anos quentes em que as neves começaram a recuar, o moinho é do século passado, o mosteiro da alta Idade Média, as velhas pedras de antes de Jesus Cristo, a cheia de mais de mil anos, a montanha do Terciário... Como em estágios sucessivos, distingo [...] a delicada criança que saltita [...] diante da porta aberta, o galpão [...] situado diante das pesadas pedras, a casa diante do rio e este diante do alto e milenar paredão negro, sob o brilho ofuscante do sol, estrela multimilenar.” (Michel Serres)

O trecho acima foi retirado do livro “O Incandescente”, escrito por Michel Seres. Foi com a projeção e leitura dele que Henyo Barreto, do Instituto Internacional de Estudos do Brasil (IIEB), abriu o seminário "Questões fundiárias relativas à presença humana em unidades de conservação: aspectos jurídicos, conceituais e metodológicos", realizado em Manaus nos dias 24 e 25 de novembro, pela Fundação Vitória Amazônica (FVA). A intenção era mostrar que, assim como a paisagem alpina descrita pelo filósofo francês, a floresta amazônica também é atravessada por diferentes escalas de tempo, marcadas pelo trabalho de homens e mulheres.

Até há pouco tempo, a imagem que se tinha da Amazônia era a de: planície monótona; floresta tropical amplamente uniforme; ambiente hostil à civilização e de ocupação relativamente recente; área esparsamente povoada, sociologicamente anestesiada e culturalmente dependente de regiões mais desenvolvidas; território preferencial de grupos isolados, pequenos e dispersos, tidos como autônomos.

“Foi assim que eu aprendi na escola. Hoje se sabe que essa visão é totalmente contrária à realidade. Descobertas recentes como os geoglifos próximos a Rio Branco [revelados por imagens aéreas de desmatamento] reforçam a convicção de que a paisagem amazônica que conhecemos hoje é fruto da intervenção humana, de sociedades bastante complexas”, afirmou Barreto.

Seguindo a lógica da desnaturalização da paisagem, Barreto passou a defender a percepção de que as leis também são frutos de fenômenos históricos e culturais, ou seja, elas consolidam conceitos e projetos ideológicos que estão em disputa. O objeto do seminário em questão eram os conflitos fundiários em áreas de proteção ambiental do Médio e Baixo Rio Negro.

Oficialmente conhecidas por unidades de conservação (UCs) de proteção integral, nelas a lei proíbe a existência de moradores. Na prática, porém, há comunidades tanto dentro do Parque Nacional do Jaú, quanto no Parque Estadual Rio Negro Setor Norte e no Parque Estadual Rio Negro Setor. “A gente tem que entender que as UCs de proteção integral seguem a lógica na natureza selvagem, sem gente, já ultrapassada”, lembrou o palestrante. “Temos de adotar aqui uma perspectiva diferente do ‘cumpra-se a lei’, da mesma maneira que somos tolerantes com o aborto ou o consumo da maconha, por exemplo”, completou. “Hoje já não se briga pela conservação com ou sem gente. A tendência é integrar”, concordou o secretário-executivo da FVA, Carlos Durigan.




Uma arena de conflitos

Lúcia da Costa Ferreira, do Núcleo de Pesquisas e Estudos Ambientais (Nepam) da Universidade de Campinas (Unicamp), também defende que a expulsão dos moradores de áreas protegidas, ainda que indenizada, não é o melhor caminho a ser adotado pelos gestores ambientais. “A gente vive hoje em uma arena ambiental conflituosa, constituída por arenas locais conflituosas. Esses embates não são negativos, desde que neles haja espaço de diálogo verdadeiro, no qual pessoas de relações de poder assimétricas sejam tratadas como iguais”, argumentou a pesquisadora.

Como exemplo de conflito no qual o diálogo levou a uma solução pacífica, ela citou o caso do Parque Nacional do Jaú, criado em 1980, 2,27 milhões de hectares, nos municípios de Barcelos e Novo Airão. Em 1992, a FVA iniciou um trabalho com as oito comunidades do rio Unini e duas comunidades do rio Jaú que vivem dentro da reserva. Como resultado, em 2002, a recém-criada Associação de Moradores do rio Unini (Amoru) formalizou junto ao Ibama o pedido de criação da Reserva Extrativista (Resex) do Rio Unini, efetivado quatro anos depois.

O objetivo é que as cerca de 270 famílias que ainda vivem dentro do Parque se mudem para a outra margem do rio, para dentro da Resex do Rio Unini. “Se as pessoas pudessem morar dentro do Parque, lá elas permaneceriam. Mas como tem essa situação, nós mesmos criamos uma área para o reassentamento”, contou Cesário Magalhães, da Amoru.

No próprio seminário, porém, a presença de dona Ivanilda mostrava que nas políticas ambientais na Amazônia, os exemplos positivos são frutos de uma história de muitas vítimas. Em 1994, Ivanilda e seus 10 filhos, que moravam ao longo do rio Jaú antes de o Parque ser criado, viram-se forçados a mudar para Novo Airão, onde passaram fome. “Os fiscais do IBDF [Instituto Brasileiro de Defesa Florestal, órgão anterior ao Ibama] paravam nosso barco, pisavam na nossa produção. A gente não estava acostumado a viver com essa pressão e resolvemos sair de lá”, contou.

Hoje ela e mais 64 famílias lutam na Justiça por indenização – já tiveram decisão favorável em primeira instância, mas o governo federal recorreu e, agora, aguardam novo julgamento.

A advogada Ludmila Caminha lembrou de outro mártir dessa verdadeira guerra socioambiental: Chico Mendes, cujo assassinato completa neste mês 20 anos. “As reservas extrativistas surgiram como um modelo de reforma agrária diferenciado, em 1990, como uma conquista do movimento seringueiro”, exaltou. “De lá para cá, infelizmente, no campo do direito, só tivemos retrocessos. Hoje, os decretos de criação das Resex não assumem o direito à terra como bandeira de luta”, lamentou a advogada.

Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental (ISA), também destacou em sua fala tópicos pendentes de regulamentação. Entre eles, os critérios e mecanismos para a gestão compartilhada das áreas protegidas. “A lei diz que para uma unidade de conservação ser criada é preciso haver consulta pública, mas não estabelece como ela deve acontecer. Assim, na prática, esse instrumento tem perdido efetividade, porque as pessoas nem sempre estão devidamente informadas sobre o que está em jogo e acabam sendo usadas para legitimar decisões pré-existentes”, exemplificou a ambientalista.

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Narrativa da contemporaneidade: o discurso e a prática de Cremilda Medina

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008


A jornalista e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) Cremilda Medina, ao longo de sua carreira profissional, criou uma série de propostas para o aperfeiçoamento do jornalismo brasileiro. Esse trabalho está registrado em treze livros de sua autoria e outras quarenta publicações que ela organizou ou produziu em parceria com outros autores. As obras mais conhecidas, “Entrevista, o diálogo possível” e “Notícia, um produto à venda”, trazem apenas parte do pensamento da autora, que está centrado na possibilidade de o jornalista fazer aquilo que imaginavam os teóricos do jornalismo moderno, inseridos nas escolas de jornalismo do final do Século 19 (nos Estados Unidos) e início do Século 20 (na antiga União Soviética), qual seja a produção da narrativa com responsabilidade social. Neste sentido, Cremilda Medina diz preferir usar o temo “narrativa da contemporaneidade” em substituição a “jornalismo”. Na recente passagem por Manaus, onde participou da Semana de Comunicação da Faculdade Boas Novas (24 a 27 de novembro), Cremilda teve o seguinte diálogo com o jornalista Valmir Lima:

A senhora está satisfeita com os meios de comunicação e com o jornalismo brasileiro?
Eu sempre fui uma pessoa otimista, no sentido de apostar nas novas gerações. Porque se estamos há tanto tempo investindo na formação dos jornalistas – os cursos de jornalismo surgiram na década de 40 do século passado... É claro que essas gerações todas que foram formadas têm trazido mudanças e aperfeiçoamentos. Depois também foram criados os cursos de pós-graduação – eu trabalho já há bastante tempo com essas turmas que buscam o aperfeiçoamento, às vezes, profissionais bem experimentados – e eu vejo que há um movimento de aperfeiçoamento, baseado naquilo que deu origem aos cursos de jornalismo no final do Século 19, nos Estados Unidos, e no início do Século 20, na antiga União Soviética, que é o reconhecimento da responsabilidade social do jornalista. Ora, uma profissão que tem essa responsabilidade, exige estudos, aperfeiçoamento, constante preocupação para que a pessoa que faz esse papel tão importante para a sociedade, de mediação das informações geradas na atualidade, consiga trazer para o discurso jornalístico e para os meios de comunicação uma informação com certa legitimidade e, sobretudo, com certa sutileza, com pluralidade de opiniões. Esse autor de informação jornalística tem sido sempre o meu projeto seja como jornalista ou como educadora. Eu vejo que os meios de comunicação hoje estão oferecendo bons autores.

Esses autores são os jornalistas que escrevem nos jornais?
Autores eu digo no sentido desse profissional responsável e criativo. Não especificamente de jornal impresso. Acho que hoje temos uma variedade de mídias, temos o espaço internáutico, o jornalismo online, as mídias digitais, e cada vez mais a gente precisa de um indivíduo autor, capaz de escrever, no sentido lato, em qualquer mídia, as narrativas da sociedade contemporânea. Então eu hoje prefiro chamar não propriamente jornalismo, mas narrativa da contemporaneidade. É isso que nós produzimos na comunicação social.

Para fazer esse trabalho de narrativa da contemporaneidade, a senhora defende a exigência do diploma de jornalismo?
Eu sou da geração que lutou por isso. Eu entrei na faculdade no início dos anos 60 do século passado, e a primeira regulamentação saiu ainda quando eu estava na faculdade, no governo Jânio Quadros. Depois vieram os militares, que engavetaram a regulamentação que foi conseguida naquele início dos anos 60. Foi um movimento dos profissionais e dos estudantes de jornalismo que fez com que a regulamentação voltasse ao Brasil no final dos anos 60. Não é verdade que foram os militares que regulamentaram a profissão. Isso é uma falácia, um equívoco que não corresponde à História. Eu acho que não há como fugir do estudo, não apenas de graduação e pós-graduação; estudo que deve perdurar a vida inteira.

Eu perguntei sobre a exigência do diploma por ser uma discussão atual que, inclusive, está prestes a ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal...
Olha, eu tive a oportunidade de escrever um livro – que é um dos 13 livros que publiquei – a pedido do Ciespal (Centro Internacional de Estudos Superiores para a América Latina), o “Profissão Jornalista: Responsabilidade Social”. O livro saiu primeiro em espanhol com o título “El rol del periodista” (O papel do jornalista). Ele foi publicado em Quito, depois em Cuba e depois no Brasil, numa versão em português. É um livro dos anos 70 do século passado, no qual eu faço um histórico da regulamentação, com esse argumento de que ela não é uma medida corporativa do jornalista, não é uma idiossincrasia, mas um movimento histórico internacional, inclusive. De dar qualificação ao jornalista como um profissional que tem que ter uma competência do ponto de vista técnico, ético e estético. Ele tem que ser um autor criativo, que é solidariamente ético com a sociedade e tecnicamente competente para produzir uma linguagem de comunicação social.

Seria, então, um profissional qualificado.
Ora, esse profissional não pode ser gerado em outras profissões, porque o dentista é quem se especializa na sua área, o médico na sua, o físico na sua, o matemático na sua e o jornalista na sua área. Então qual é a outra forma de qualificar o jornalista? Qualificar democraticamente, porque não é qualificar assim: o sujeito nasceu com um talento, tem um pistolão qualquer ou a proteção de um empresário e entra no jornal. Ou então, o sujeito é advogado e escreve até de graça para o jornal porque quer aparecer. Não é assim que se faz jornalismo. Então, democraticamente, para que se abra oportunidade de socialmente generalizada a quem quer ser jornalista, é através de um curso de jornalismo.

Como se poderia quebrar as engrenagens do contra-movimento que os grandes veículos de comunicação fazem para acabar com a regulamentação da profissão de jornalista?
Sempre foi assim. Como já assisti a essa história desde os anos 60 do século passado, quando se lutava pela regulamentação, e depois, nos anos 70, contra a ditadura, para voltar a regulamentação, a gente percebe que em todas as épocas é sempre a mesma coisa. Agora, parece que neste momento há uma pressão muito organizada contra a qualificação do jornalista. Eu acho isso uma contradição, um absurdo, porque a sociedade brasileira investiu em cursos de graduação nas universidades públicas, depois disso veio um investimento muito pesado em pós-graduação, e como é que se vai jogar isso tudo pela janela. Não vai. Se quiserem acabar com a regulamentação, o mercado vai ter que admitir pela própria prática de contratação, que vai contratar gente formada em jornalismo, porque é muito mais econômico para a empresa do que pegar uma pessoa para treinar. Um advogado, um médico, um sociólogo não vai fazer reportagem, não vai para a rua. O médico pode ser um ótimo comentarista de saúde, e ele tem o seu espaço no jornal, mas não vai fazer reportagem sobre o que pensam os outros médicos. É uma discussão que a mim cansou. Hoje já me recuso a entrar nessa discussão porque ela é tão repetitiva na minha vida profissional que considero um verdadeiro absurdo.

A senhora ainda mantém a tese da notícia como um produto à venda?
Eu acho que o título desse livro deu uma idéia... se criou um dogma sobre o livro a partir do título. Porque se você for lá dentro, o que eu trabalho nesse livro é que a notícia não é um produto como um sabonete; que há especificidade na criação da notícia, porque essa criação é mental e não material, não é um produto industrial material. É um produto simbólico que é feito pela nossa inteligência, ou seja, a representação do que está acontecendo, numa notícia. E para que essa representação seja narrada através das médias, ela passa por contradições. Não é exclusivamente a voz econômica ou o poder econômico que determina a notícia. Há um conflito de forças, que inclui aquilo que a sociedade quer, não apenas o que o empresário ou o poder econômico que está ligado à empresa jornalística quer. A sociedade democrática também tem a sua demanda. E ainda há uma terceira força que talvez seja a mais invisível, mas a mais poderosa, que são aqueles símbolos universais. Por exemplo, uma criança é assassinada, essa notícia tem um valor impositivo porque todos nós nos emocionamos com esse fato. Então, essa notícia é esmagadora, terá que ter espaço de qualquer maneira porque representa um arquétipo de humanidade, que é matar a vida, uma criança que é o nascedouro da vida. Essas três forças em conflito é que fazem o produto notícia e não apenas o peso da força econômica.

A Gisela Ortriwano (1948-2003), no livro “A informação no rádio: os grupos de poder e a determinação dos conteúdos”, diz que as forças econômicas e políticas são quem determinam os conteúdos da mídia.
Essa interpretação de notícia parte de quem não vive o processo. Eu, como sempre trabalhei dentre de empresas jornalísticas e estive envolvida com o fazer jornalismo, a gente sabe que há um grande conflito, uma grande negociação quando se está trabalhando. É claro que há gradações entre empresas que admitem mais o conflito e empresas ainda num estágio muito dependente dos poderes econômicos, seja da própria empresa, seja dos anunciantes, seja das estruturas econômicas externas. Mas quando a empresa adquire um pouco mais de força empresarial, fatalmente vai se defrontar com esses conflitos, e nem tudo está com cartas marcadas. Se tudo for um jogo de cartas marcadas, você tromba com a demanda social. Eu sempre cito o exemplo das Diretas Já, quando havia uma proposta de poder da Rede Globo de que os comícios não podiam ser cobertos, no entanto, os profissionais da Globo na rua foram apedrejados, porque a demanda social exigia que a TV cobrisse os comícios em São Paulo, por exemplo. Esses profissionais foram para dentro da empresa e levaram a pressão das ruas. E mudou radicalmente; a cobertura teve que atender a uma pressão, a uma exigência da demanda social. Portanto, um profissional que tem uma formação de autor eticamente responsável, é nessa negociação que vai ter um papel importante.

O livro, na discussão da notícia como produto, chama a atenção para a qualidade, inclusive comparando com um produto eletroeletrônico, que tem que estar com todas as peças estrategicamente montadas para que tudo funcione adequadamente. Qual é a qualidade do produto jornalístico?
Pois é o que eu digo: a qualidade do produto jornalístico tem avançado muito, tem se aperfeiçoado. É claro que hoje ainda estou insatisfeita, como estava décadas atrás, mas isso é natural, a gente não pode estar satisfeita senão pára de se aperfeiçoar. Mas eu penso que a proposta que eu tinha na década de 70, que era fazer reportagens que tivessem mais o contexto da notícia, tivessem mais o englobável das coisas que estão acontecendo e não apenas o factual, aquela coisinha que está acontecendo na esquina, mas que se levasse para um contexto, acho que isso melhorou muito. Hoje nós temos a necessidade de contextualizar a notícia. Acho que não avançamos muito na questão das raízes histórico-culturais, que era também uma proposta do meu primeiro livro: “A arte de tecer o presente”.

A senhora pode ilustrar isso?
Por exemplo, um jornalista do Sul, do Sudeste ou do Centro-Oeste tem muita dificuldade de reconhecer as raízes histórico-culturais da Amazônia, do Amazonas e da região Norte. É muito freqüente você ler um texto, como eu li neste final de semana, de um jornalista lá do sul, sobre a reunião que houve nos Estados Unidos sobre a Amazônia e falar do Estado do Amazonas com uma completa distância e desconhecimento. Eu própria me sinto ignorante quando chego aqui. Eu teria que estudar muito para compreender a realidade local. Por isso, eu penso que o jornalista ainda não identifica essa necessidade de ser um estudioso permanente das realidades locais, daquilo que eu chamo de o saber local. Nesse campo ainda não conseguimos grandes avanços. É uma batalha que temos que levar para dentro das escolas de jornalismo e de pós-graduação, que é a questão dos estudos culturais.

Esse desconhecimento da região de parte dos jornalistas do sul e sudeste é visível nos textos dos veículos de comunicação, mas também os jornalistas daqui não oferecem um produto jornalístico que seja capaz de inserir a realidade local.
Acho que todas as regiões devem levantar sua voz. Eu tenho circulado bastante não aqui no Norte, infelizmente, mas no nordeste, no centro-oeste, no sul e sudeste e vejo que em Salvador, em Fortaleza os jornalistas não estão muito dependentes do jornalismo do eixo São Paulo-Rio de Janeiro. Eles têm uma personalidade, a gente ver um apego em mostrar para o resto do mundo e do Brasil que eles têm o que dizer a partir de lá e não simplesmente repercutir o que se diz em São Paulo e Rio de Janeiro. Há alguns movimentos muito interessantes de valorização da cultura local. Um equívoco enorme, que precisa ser desfeito, é não considerar a Amazônia urbanizada. O que a gente tem ouvido dizer, inclusive por jornalistas (o que é um pecado mortal) é que a Amazônia são os povos da floresta, alguma coisa em transição. Manaus é urbanidade total. Nós estamos em um centro urbano. E o movimento de urbanização, que é irreversível em todo o Planeta, está aqui na Amazônia há séculos.

Atualmente está em discussão o futuro do jornalismo impresso, diante do surgimento da internet. Como a senhora está percebendo essa questão?
Felizmente eu tenho uma orientanda no doutorado, que é diretora do Portal da USP, a Márcia Blasques, que estuda esse tema. Ela acabou de fazer a qualificação e vai para defesa da tese. Na qualificação, em que reunimos especialistas desse assunto, o tema foi discutido e o que nós temos, inclusive na perspectiva externa ou internacional é que não desaparecerá a mídia impressa. As mídias digitais ainda estão em busca de uma linguagem, é um momento muito fértil de criação, que certamente vai dar resultados, mas ainda não está cristalizada ou consagrada uma linguagem. Os problemas mais sérios são os de legitimidade da informação e da dispersão, fragmentação da informação. É uma informação que foge pelos links, sai pelas bordas. Então, há um consenso que está se formando entre os estudiosos e mais uma vez vai ser necessária a participação de um articulador de significados. E esse articulador, no fundo, é esse autor de que eu falo. A internet não vai excluir a mídia localizada, impressa, a mídia comunitária, até muito específica.

Mas a tendência é essa, de a mídia impressa ficar mais específica, mais comunitária? Por que hoje a gente já folheia (literalmente) as páginas do jornal na internet.
Não. Eu acho que falta agora esse movimento, não só na internet, de amarração dos assuntos. A capacidade de um autor que não deixa as coisas todas estraçalhadas, fragmentadas, mas que faça diagnósticos mais complexos e abrangentes. Veja agora a questão da crise (financeira): a gente sai à cata de capacidade jornalística de fazer uma amarração internacional do problema da globalização, do problema do capitalismo... O que temos é tudo espalhado. Então, estamos precisando de autores capazes de juntar as coisas e fazerem narrativas mais completas. Ora, isso tanto pode ser na internet quanto na mídia impressa – no jornal ou na revista semanal. Isso também já está sendo feito em alguns programas de televisão. Os jornalistas e os analistas costumavam dizer que a televisão não era capaz de aprofundar. Só o jornal impresso. Não é verdade. A televisão avançou para programas mais abrangentes, como a Globo News tem feito. O Willian Waack, que foi meu aluno na década de 70, e que eu considero um jornalista-autor, vai para um programa, reúne uma série de vozes e tenta amarrar a discussão de um tema na televisão durante meia hora. O Jornal Nacional, que há décadas atrás era todo picadinho, de vez em quando nos contempla com reportagens mais abrangentes. Isso é um aperfeiçoamento da narrativa, que pode estar em qualquer mídia, não é privilégio da mídia impressa. Claro que na mídia impressa, pela tradição histórica, ainda tem mais legitimidade esse tipo de autoria, mas isso não significa que a internet não possa chegar lá.

Mas é exatamente isso que preocupa, porque tudo o que se faz hoje na televisão, no rádio, no jornal pode ir para a internet. Eu posso criar ambientes na internet para acomodar todo o conteúdo das mídias em geral.
Mas mais ainda, porque nesse cenário há a possibilidade de uma dialogia interativa maior ainda. Enfim, a enciclopédia internet possibilita experiências que podem levar a que essa narrativa seja mais abrangente e mais plural. Mas todos os meios são provocados para isso, e eles dialogam entre si. Essa história de que um exclui o outro, um fica atrasado e o outro adiantado, é uma ideologia que temos na cabeça, porque de fato, uma sociedade democrática, onde a cidadania está amplamente desenvolvida, ela se vale de todas as mídias possíveis.

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Peixes, muito peixe!


Cardume de peixe matrinxã criado em cativeiro do sítio do agricultor Aguinaldo Barros, no assentamento Vila Amazônia, no município de Parintins (AM).

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Acadêmicos assumem compromisso com a sociedade

domingo, 30 de novembro de 2008


Os quinze sócios-fundadores da Academia Parintinense de Letras (APL) assumiram o compromisso de agir em favor da promoção da literatura e do estimulo à formação de novos leitores e escritores. A instalação da APL foi realizada na Câmara Municipal de Parintins, em solenidade presidida pelo escritor e historiador Antônio Loureiro, membro da Academia Amazonense de Letras (AAL).

Loureiro fez uma abordagem histórica das academias, desde Platão, fundador da primeira academia, até Machado de Assis, fundador da Academia Brasileira de Letras. A função histórica das academias sempre foi, segundo Loureiro, o desenvolvimento do conhecimento. Ele explicou que a academia parintinense faz parte de um projeto da AAL de interiorização da organização dos intelectuais no interior do Amazonas.

O presidente da APL, Narciso Picanco, explicou que o primeiro desafio dos sócios-funcadores será conquistar o apoio da sociedade por meio de projetos que mostrem a importância da literatura e demais manifestações artísticas na melhoria da qualidade de vida dos cidadãos e cidadãs parintinenses. “Vamos trabalhar para ter uma academia que ofereça benefícios à sociedade”, disse.
São sócios-fundadores da APL: Narciso Picanço, Gláucio Gonçalves, Tadeu de Souza, Sócio Peccela, Basílio Tenório, Heliomar Conceição, João Maria Ribeiro, Francisco Ferreira da Silva (Chico da Silva), Carlos Paulain, Felicíssimo Barbosa, Massilon Cursino, Odinéia Andrade, Floriano Lins, Neuton Corrêa e Wilson Nogueira. Tadeu Garcia, Fátima Guedes e Wanderley Holanda estavam fora da cidade e tomarão posse em outra oportunidade.

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