Imortais da ilha*

sábado, 13 de dezembro de 2008

Lane Lima

Estimular a produção literária amazonense na divulgação das obras de autores locais, formar novos escritores e sobretudo, desenvolver conhecimento. Este é o compromisso da Academia Parintinense de Letras, fundada no dia 29 de novembro deste ano.

A instituição faz parte de um projeto da Academia Amazonense de Letras de interiorização da organização dos intelectuais no Amazonas. Segundo Narciso Picanço, presidente da APL, Parintins foi escolhida em função de ser um centro cultural de repercussão nacional. “A fundação da academia em Parintins foi o feito de maior importância cultural para cidade. Não estou desmerecendo os outros institutos, mas uma academia traz o que há de melhor para um povo desenvolver trabalhos literários e culturais”, disse.

Desafio
Quinze personalidades foram convidadas a se tornarem imortais membros e sócio-fundadores da APL. Narciso informou que o primeiro desafio dos sócios é mostrar a importância da literatura na melhoria da qualidade de vida dos parintinenses, por meio de projetos que incentivem a prática da leitura e a produção de obras literárias.

Para o jornalista Wilson Nogueira, a instituição pode e deve atuar de forma intensa e sistemática na formação e divulgação da produção literária amazonense. “Eu acredito que a leitura é fundamental para a compreensão do funcionamento da sociedade. A minha posição dentro da academia, vai ser trabalhar com a promoção da leitura”, disse.

O maior envolvimento de Wilson com a academia é em função de um compromisso com a sociedade. A atuação do jornalista será com a produção de atividades como palestras que contemplem as feiras de livros e o estímulo para outras artes, entre elas o teatro e o cinema. “Sempre estudei em escola pública, então, quero devolver à sociedade aquilo que a ela me deu, a oportunidade de estudar, me graduar e até me tornar mestre em instituições públicas”, conta.

Planejamento
No próximo dia 18, os membros da APL terão a primeira reunião ordinária com a finalidade de planejar as atividades para 2009. Narciso informou que um dos projetos é a produção da obra que irá contar a história de Parintins em períodos e em fascículos. Outro projeto idealizado é a história do Boi Bumbá, contada pela população da cidade. Em relação à influência que a tradição do festival terá na APL, o presidente adianta que a instituição terá a cultura do Boi Bumbá, mas sem as cores. A APL irá abrir inscrições para os interessados em se credenciar.

Blog - Neuton Corrêa
Filósofo, cronista e membro da APL
“Fazer parte da Academia Parintinense de Letras para mim significa uma cobrança de Parintins em relação ao meu trabalho. Na verdade eu estou começando a fazer ensaios de literatura agora. Escrevo há vinte anos, mas para jornal. Fico pensando como estimular novos leitores e como será nosso produção a partir de agora, já não bastam mais os textos jornalísticos. É um sentimento de cobrança.”

*Matéria publicada na edição de hoje do Jornal A Crítica.

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Pacto com o diabo


Neuton Corrêa*

As abelhas pousam na fatia de queijo coalho. Ele as agride com um trapo gorduroso. Apressado, o cliente pára e lhe pede um pouco de fogo para acender o cigarro. Ele nega; depois, resmunga. Tudo incomoda seu Antônio. Sinto até falta das frases prontas que costuma soltar nas horas certas.

Seu Antônio é o bombonzeiro da parada onde costumo tomar cafezinho à espera do ônibus. Imaginei que ele tivesse descoberto que sua namorada anda saracoteando pela noite. Vi a moça numa madrugada de sexta-feira, na Ladeira do Forró, aqui ao lado do jornal. Dançava de tudo e de todo jeito: ia e voltava para frente e para trás segura pelas mãos do parceiro; rodopiava feito pião; e depois de mais uma sessão de ida e vinda saltava-se na cintura do rapaz, abraçando-o com as pernas para em seguida girarem no mesmo eixo. Eu deixei a festa, e ela ficou molhada de suor.

Mas não era isso que perturbava seu Antônio. Aliás, aprendi com meu amigo Camilo, criador de gado que hoje beira os 80 anos, que velho não sente ciúme. “Prefiro dividir um docinho a ter que comer sozinho uma lata de estrume”. O bombonzeiro já passou dos 70 e a namorada dele está perto dos 20.

Senti-me tão incomodado com a mudança de comportamento do meu amigo que o instiguei:

- O que aconteceu, seu Antônio?
- Nada, por quê?, retrucou.
- O senhor está brigando até com as abelhas.
Ele abriu um sorriso, depois baixou a cabeça e disse:
- O bispo pediu para a gente não comprar mais nada da Xuxa. Nem assistir ao programa dela.
- Mas por que, seu Antônio?
- Ela vendeu a alma para o diabo, por isso é que ficou rica. Tu já imaginou?

E eu, pensei comigo: sim, já havia imaginado. Essas histórias escutam-se em todos os lugares. No livro “Os pactos”, li a história da família Picasso, em uma cidade chamada Santa Rosa. Eram lavradores. Da noite para o dia, tornaram-se donos de tudo. Mas havia um problema: a cada salto que davam na fortuna, um filho morria. Foram-se três. Todos de maneira trágica. O último, por exemplo, debaixo de um contêiner, que despencou de um guindaste no cais do porto de Santa Rosa.

Outra história do livro contava a sorte de um pobre mecânico de aviação. Vivia se queixando da vida. Passava horas em sua oficina, falando sozinho. Ficou rico ao se encontrar com o cramunhão, durante um acidente aéreo. Dizem que quando o avião começou a apresentar problema, todo mundo se pegou com Deus. Só ele com o dito cujo. Depois da tragédia, comprou a empresa para a qual prestava serviço e tudo o que desejava possuir.

Seu Antônio tinha a história dele também:
- Na minha terra tinha um coronel muito rico. Perdeu tudo depois da Segunda Guerra. Ficou igual a gente. Mas, da noite para dia, começou a comprar navios, comércio... Dizem que vendeu a alma para o diabo. Assim como subiu, caiu. Morreu só em um pau-de-arara. Adiantou?

Concordei com o meu amigo. E lhe disse:
- Seu Antônio, sei que a Xuxa vendeu outra coisa. Não a alma. O primeiro trabalho dela foi para uma revista de mulher pelada.
Ele, porém, insistiu:
- Não, o bispo disse que ela vendeu a alma por cem milhões de dólares!
- Cem milhões de dólares é muito dinheiro, respondo, em defesa da apresentadora.

Notei que eu não teria êxito em demovê-lo da idéia. Desisto, mas ele recomeça:
- Olha, vou te dizer uma coisa, morro vendendo bombons, mas não entrego minha alma por preço nenhum. Essa é a única coisa que não se vende.
Concordei com ele e tentei dar minha opinião sobre esse assunto, mas o 600 (T4-Centro) passava com alguns lugares vazios e corri para embarcar.

* Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
(Ilustração: Myrria)

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Solidariedade para sempre

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008


Wilson Nogueira*

A tragédia que afeta Santa Catarina aguça a solidariedade dos brasileiros. Milhares de pessoas e instituições governamentais e não-governamentais se mobilizam para reduzir o sofrimento e o trauma dos flagelados das enchentes causadas por chuva atípica.

Os brasileiros têm um coração generoso! É o que se ouve nos últimos dias.

Isso é pura verdade. É só assistir à TV, ler os jornais e ouvir o rádio para comprovar. Ninguém fica indiferente a tantas mortes e aos estragos ecológicos imensuráveis. De repente, o Brasil acordou envolto por um sentimento magnânimo. Que bom!

Melhor que isso seria transformar essa sinergia em atitude permanente contra a irresponsabilidade do Poder Público e da própria sociedade que, no dia-a-dia, pouco ou quase nada fazem pela saúde do Planeta. Os impactos do desastre ecológico de Santa Catarina poderiam ser evitados ou ao menos minimizados se houvesse coerência na ocupação e uso do solo. Aliás, essa observação serve para qualquer lugar do mundo.

O que ocorreu em Santa Catarina foi uma dessas tragédias anunciadas com décadas de antecedência.

Lá por volta de 1985, participei, em São Paulo, de uma conferência jornalística sobre os prováveis temas recorrentes do século 21. As enchentes se sobressaíram nos debates. Hoje, todos nós sabemos que Rio e São Paulo agüentam poucas horas de chuva torrencial. Afinal, os seres urbanos fecham, sem um pingo de remorso, os poros do chão. Com a mesma indiferença entopem a atmosfera de gás causadores do efeito de estufa e endoidecem o clima.

O Poder Público, que deveria agir para prevenir as catástrofes, assiste ao prenúncio delas passivamente, por meio do desmatamento, da ocupação de morros, das margens de rios e igarapés, e da negligência nos serviços de infra-estrutura urbana. Pelo desleixo paga-se muito caro: com dinheiro e com vidas. Santa Catarina é o exemplo da vez, mais próximo de nós e também mais visível.

Mas que tal pensarmos, seriamente, numa forma de se evitar destruição da Amazônia pelo extrativismo de terra arrasada? Que tal pensarmos nos estragos que os combustíveis dos carros fazem à atmosfera? Que tal pensarmos na possibilidade de uma solidariedade permanente em prol da qualidade de vida da Terra?

Faço esses questionamentos sob a comoção causada pela tragédia em Santa Catarina. Mas se agirmos, haveremos de um dia celebrar a vida. Por sinal, a vida que não se encerra nos seres humanos. A imagem da flor vermelha que minha câmera fotográfica capturou, momentos antes de escrever essas linhas, exibe a pujança dos efeitos de um dia chuvoso na floresta Amazônica

*Jornalista, sociólogo e escritor

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Abuso de poder

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Ivânia Vieira*

O governador Eduardo Braga e seu staff ignoraram solenemente o Artigo 37, da Constituição Federal, no ato de entrega de 252 unidades residenciais do Parque Residencial Manaus, na sexta-feira (5), à noite. A ‘festa’ alterou a grade de programação de duas emissoras de televisão e exorbitou nos flashes em outras emissoras.

Às vésperas do aniversário do governador, o Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim) alimentou e embalou a comemoração perigosamente misturada entre o público e o privado. Tanto que o apresentador da ‘festa’ chamou Eduardo Braga de ‘futuro senador’, antecipando, na TV, a campanha eleitoral de 2010.

Cenas como as assistidas na última sexta-feira foram apresentadas como ‘naturais’ na história recente do País. O desrespeito à lei e o abuso de autoridade faziam shows sucessivos no Brasil do passado. O aprimoramento do Estado de Direito e a observância às regras constitucionais, conquistas caras à sociedade, são partes de uma base e de um esforço fundamental para implantar uma outra cultura político-administrativa e varrer de vez esse tipo de comportamento.

O governador do Amazonas fez pouco caso dos preceitos constitucionais os quais jurou, como chefe do executivo estadual, honrar. A ‘festa’ virou uma manifestação exacerbada de poder e lamentável. Para relembrar, o artigo 37 da Constituição Federal, diz: “a administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”.

A não-observância dessa fronteira afronta os contribuintes e a população. Serve para atrasar o processo de evolução dos atos públicos no Amazonas. O governador tem um alto índice de popularidade, mostram os institutos de pesquisa. Poderia seguir sua caminhada, inclusive como pré-candidato ao Senado, colocando-se como agente público zeloso, respeitando as regras legais, a mostra feita revela o contrário e torna o processo eleitoral desigual e arbitrário.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Dekassegui

Massilon de Medeiros Cursino*

A viagem é longa, dura em média 24 horas, no entanto, pode-se considerá-la curta quando comparada à de seus antepassados, que atravessaram o mundo em encanecidos navios. Hoje a velocidade e a tecnologia reduzem em muito o tempo, embora ainda seja enfadonho suportar intermináveis horas.

São horas e momentos de reflexões, pensamentos, expectativas e idealismos. A ansiedade é de chegar e enfrentar um mundo tão diferente, de idioma e cultura dessemelhantes.

À lembrança, vem a saga daqueles que há décadas fizeram o caminho inverso, e encontraram imensas dificuldades em razão das diferenças. Aportaram, entretanto, em solo brasileiro com o espírito embevecido de proporcional esperança.

São em momentos que antecedem ao sono - e em viagens longas - que se chega às cogitações e às fantasias mais exuberantes. Por isso, em uma cadeira confortável de avião não poderia ser diferente: flutuam aos olhos as mais belas recordações e as mais distantes perspectivas.

Em solo nipônico, tudo se faz estranho aos sentidos!

Se se chegou à terra do sol nascente, pensa-se ter vindo do país do crepúsculo, dada a distância percorrida à velocidade supersônica de uma aeronave moderna.

A grande extensão cursada e as novas nuanças vivenciadas não conseguem desprender a ligação quase que como umbilical com seu torrão nativo.

Busca-se qualquer informação atualizada de seu povo e de sua gente. Ainda bem que hoje existe um aliado que seus ascendentes no pretérito não tiveram quando da chegada ao Brasil, a Internet, que interliga as pessoas por meio das máquinas, por mais remotas que estejam.

No fundo, quase todos ainda alimentam o sonho de um dia voltar a viver a sua mais intensa felicidade em meio aos seus, usufruindo um patrimônio que lhe custou, além do sacrifício de mourejar, a sôfrega saudade que tanto corrói.

Refiro-me aos Dekasseguis, nossos conterrâneos brasileiros, estrangeiros no Japão, pessoas dotadas de uma coragem sobre-humana que se aventuram ganhar a vida na longínqua pátria de seus pais e avós.

* Economista, Bacharel em Direito e Especialista em Gestão Pública

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Utopia

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008


Wilson Nogueira*

Há sessenta anos, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovava e publicava a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). O preâmbulo e os trinta artigos do documento exprimem o desejo por uma sociedade mundial justa e fraterna. Três anos antes, o mundo havia superando uma guerra em escala global.

O sentimento de uma nova ética está explicito desde o artigo 1.º: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de solidariedade". O cumprimento deste item seria suficiente para mudar, de forma radical, a história da humanidade.

Não dá para ignorar as mudanças. Afinal, agiu-se, nessas seis décadas, em tempo hábil contra um novo conflito bélico generalizado. Disposição beligerante não faltou, principalmente no decorrer da Guerra Fria, quando os Estados Unidos e a ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) disputavam a hegemonia política, econômica e militar do pós-guerra.

A queda do muro de Berlim, em 1989, aliviou essa tensão, mas os conflitos regionais, que nunca cessaram, aguçaram-se ferozmente. O certo é que o mundo não passou um dia sem conflito armado. A própria ONU, autora desse magnífico apelo à paz universal duradoura, autorizou intervenção militar em vários países. Os casos mais recentes e mais estrondosos são os do Iraque e do Afganistão. Todos condenados pela opinião pública mundial.

Uma vergonha! Mas vergonha mesmo é saber que a ONU decide sob pressão dos países ricos que continuam brigando entre si pelo controle do mundo. Os Estados Unidos, por exemplo, estão longe de aceitar outra experiência político-social senão a do velho-novo liberalismo econômico. Cuba que se dane. Fora do mercado não há solução! Logo, para o Tio Sam, o longo embargo comercial contra Cuba ainda é pouco.

Ative-se às guerras até agora porque a DUDH foi redigida ainda sob o impacto da degradação da dignidade humana. Mas, certamente, faltará espaço para falar sobre os demais anseios que, também, não saíram do papel. A tortura; a fome; o trabalho escravo; o trabalho infantil; a exploração sexual; o tráfico de pessoas, a justiça dependente, a prisão e a condenação arbitrárias; e a discriminação de gênero, cor e raça também não pararam. Ou seja: a humanidade ainda está longe consolidar os direitos humanos universais que estabeleceu para si mesma em momento de reflexão sobre a capacidade de se autodestruir.

Por isso, o conteúdo da DUDH é uma utopia. Então, a luta continua!

PS. Minha homenagem a todos os homens e mulheres que se dedicam a defesa dos direitos humanos.

*Jornalista, sociólogo e escritor

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Cenário amazônico


Porto de canoas em Vila Amazônia, que se localiza nas margens do rio Amazonas e do Paraná do Ramos, no município de Parintins (AM).

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