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Chico Mendes vive!(?)
sábado, 20 de dezembro de 2008
Michelle Portela*
Poucos dias antes de morrer, o líder seringueiro mais famoso do mundo escreveu uma carta. Endereçada aos “jovens do futuro”, pedia esperança e fé, pois em cem anos, o socialismo teria triunfado e os homens viveriam em harmonia. Utopia típica de um sonhador como Chico Mendes. Porém, na mesma carta, encerrava dizendo: “Desculpem, eu estava sonhando”.
No dia 22 de dezembro de 1989, após meses sob proteção policial, Chico levantava-se da mesa da cozinha, na qual jogava dominó com dois policiais militares que faziam sua escolta, para tomar banho. O banheiro, como é de costume nas casas interioranas, ficava do lado de fora da casa. Ao abrir a porta ‘de trás’ para sair, foi atingido por um tiro de espingarda bem no peito e anunciou: “Me acertaram!”.
Os policiais fugiram pela janela, presumindo uma matança. Chico se arrastou até a porta de um dos dois quartos de sua humilde morada, encontrou sua filha Elenira, deitou-se em seu colo e deu seus últimos suspiros. Seus filhos e esposa sobreviveram e batalham por um legado.
As marcas do tiro e do sangue de Chico ainda estão naquela porta, na casa tombada pela Fundação Chico Mendes, com sede em Xapuri, cidade natal do seringueiro, onde viveu e lutou por toda a vida. As mesmas marcas ainda não cicatrizaram no movimento social do Acre e no ambientalista, categoria pela qual é mais lembrado.
Em 2008, são 20 anos da morte do seringueiro, quando proliferam as camisetas emblemáticas “Chico Mendes vive!”. Assim como Che, Fidel, bandas de rock e outros produtos midiatizados, a mercantilização da imagem de Chico talvez seja mais contraditória do que coerente com o ‘movimento’. Contradição, aliás, esta que nos traz o benefício da dúvida!
Antes de tudo, porém, é importante reconhecer que Chico assumiu um papel fundamental na luta pelo direito de estar vivo no Acre dos anos 1970, com o aparelho burocrático funcionando para extorquir, reprimir, violentar e matar, típico aos regimes ditatoriais.
“Chico vive” porque sua trajetória ratifica o laconismo. Ainda jovem trabalhador dos seringais, entendeu que os seringueiros precisavam monetarizar o debate e apresentar modelos de sobrevivência com base no extrativismo lucrativo frente à expansão da pecuária e exploração madeireira. Pensou que poderia fazer isso nos modelos tradicionais. Com apoio dos seus, candidatou-se a vereador pelo MDB e assumiu uma cadeira na Câmara Municipal de Xapuri.
Durante sua pesquisa de doutorado, a antropóloga Mary Allegretti, amiga de Chico e peça-chave na articulação do movimento seringueiro, conseguiu copiar todas as atas das sessões realizadas na Câmara, menos a da sessão secreta que decidia pela cassação do mandato do “vereador seringueiro” caso não renunciasse à presidência da Casa. As demais atas, no entanto, relatam os fatos:
“No dia 17 de setembro de 1979 Chico Mendes, já presidente da Câmara dos Vereadores, organizou, no plenário da Câmara, uma reunião de seringueiros ligados ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais para discutir os problemas que estavam enfrentando em relação aos conflitos fundiários.
No dia 23 de novembro, o vereador João Simão dos Santos, vice-líder do MDB, apresentou ao presidente da Comissão de Justiça, uma denúncia formal contra o Presidente da Câmara Municipal de Xapuri, sob a alegação de que a reunião realizada com os seringueiros no plenário da Casa contrariava os estatutos e convocou, em seguida, os membros da comissão para uma reunião na qual deveriam resolver os devidos processos. A posição foi endossada pela maioria dos demais vereadores, que acrescentaram críticas à atuação do STR de Xapuri.
Na última sessão ordinária do ano, realizada em 30 de novembro, Chico Mendes já havia renunciado ao cargo de Presidente da Câmara dos Vereadores de Xapuri. A sessão esteve sob a presidência em exercício do vereador Amadeu Dantas e foi secretariada em exercício pelo vereador Eurico Gomes Fonseca Filho. Foi registrada a entrega, para a Mesa Diretora, de um envelope lacrado com documentos e uma fita de uma SESSÃO SECRETA realizada dia 29/11/79 na Casa do Povo, que foi verificada pelo Presidente da Comissão de Justiça na qual teria sido decidida a cassação de Chico Mendes. Para não perder o mandato, ele renunciou da presidência.”
Diante de tamanha violência, aquilo que se tentou esconder tornou-se mais evidente. A partir daí, Chico organizou a Aliança dos Povos da Floresta e os sindicatos de trabalhadores se tornaram forças, reuniu em torno de si um grupo de intelectuais e artistas que faziam frente o governo militar vigente e ampliou o debate além das fronteiras. Ganhou prêmios na ONU e se tornou um dos militantes mais reconhecidos em sua causa. Caso inédito, em se tratando de um homem que vivia em ‘lugar isolado’, como insistem em nos posicionar. O conflito por terras e poder na Amazônia estava novamente no mapa mundi!
As reservas extrativistas foram criadas como modelo de desenvolvimento, terras indígenas foram reconhecidas, o movimento se organizou politicamente e construiu um “Governo da Floresta” – bom ou ruim, é um marco na história política do País -, ocupando as principais prefeituras, o Governo do Estado e cargos na Câmara Federal e no Senado, inclusive nos ministérios. A eleição de Lula à Presidência foi o ápice!
São estes mesmo elementos que levam à nova pontuação na expressão título deste artigo: “Chico Mendes vive?”. As reservas extrativistas viraram grandes pastos e nesse momento, posseiros estão sendo expulsos dessas áreas. O ‘meio ambiente’ padece e as licenças ambientais são aparelhos de negociação política. ‘Sempre saco uma licença na hora da negociação’, disse o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, à Veja desta semana. Ele substituiu a senadora pelo Acre, Marina Silva, a “inegociável”.
Fato novo, só a anistia post-mortem do “do líder sindical e ecologista Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes”, pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, no último dia 10 de dezembro. A viúva Ilzamar Mendes protocolizou o pedido de anistia há três anos e, a partir de agora, a família do seringueiro terá direito a receber indenização retroativa no valor de R$ 337 mil, mais R$ 3 mil mensalmente, pelo fato de ele ter sido perseguido pela ditadura militar.
Chico Mendes foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional (LSN), em 1980, juntamente com os sindicalistas Lula, Jacó Bittar, João Maia e José Francisco, por incitação à desordem e ao crime. Foram acusados de envolvimento na morte do capataz Nilo Sérgio. “Nilão”, como era conhecido, foi emboscado por trabalhadores e assassinado a tiros de espingarda, após o assassinato de Wilson Pinheiro, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, dentro da sede da entidade.
Chico Mendes e seus companheiros participaram, em Brasiléia, de um ato de protesto contra o assassinato de Wilson Pinheiro. Na ocasião, diante de centenas de trabalhadores rurais, Lula usou durante o discurso a expressão “está na hora da onça beber água”, o que teria, na avaliação da ditadura, sido o sinal para que os seringueiros assassinassem “Nilão” como vingança.
Não sei. Na verdade, quem sabe. A vida de Chico Mendes talvez tenha sido uma crônica da realidade!
*Jornalista, mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Marcadores: Artigo
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Livros em promoção
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A Livraria Valer (rua Ramos Ferreira, 1195, Centro, em Manaus) colocou em promoção, desde hoje até sábado, o seu acervo de 30 mil livros. Os descontos se estendem dos 40% a 90%. Milhares aproveitaram a promoção no primeiro dia.
O dono da empresa, Isaac Maciel, disse que a Valer fará a reposição dos estoques todos os dias, para manter as gôndolas sempre com novidades. Ele explicou que a promoção é um presente para os clientes que, ao longo de 18 anos, têm prestigiado a livraria e seus eventos culturais.
"Essa promoção faz parte do esforço da Valer para democratizar o acesso aos livros", disse o professor de Literatura e membro da Academia Amazonense de Letras Tenório Telles, coordenador editorial do grupo.
Para o pedagogo e membro do Clube Literário do Amazonas, José Farias, nos primeiros anos escolares e até a universidade, e depois por toda a vida, o "Cinzas do Norte", livro é sempre um instrumento de trabalho. Ele afirma que a promoção amplia o acesso à leitura. Marcadores: Notícia
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Bomba midiática
Wilson Nogueira*
O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, mostrou-se ágil ao se desviar dos sapatos atirados pelo jornalista Muntadar Al-Zaidi, durante uma entrevista coletiva, no Iraque. Muntadar, por sua vez, não deixou dúvidas quanto a sua pontaria. Todo mundo notou que os sapatos acertariam a cara do Presidente. "Foi uma bizarrice", teria desdenhado G.W.B, na sua arrogância impecável. Explicações devem os serviços de inteligência dos Estados Unidos e do Iraque.
De todas as bizarrices do episódio, a maior é a da imprensa encaixada nos interesses de G.W.B e seus aliados, que tenta, também, desqualificar o protesto de Muntadar. "Ainda não está claro se ele recebeu dinheiro para fazer o que fez ou se estava alcoolizado ou sob efeito de drogas no momento do ocorrido", especula uma agência européia. É brincadeira! Querem agora convencer o mundo de que a resistência iraquiana, palestina ou afegã é coisa de gente vendida, bêbada e drogada.
Muntadar não se transformou em herói por acaso. Manifestações de rua, na a Palestina e no Iraque, pedem a imediata libertação dele. Não é difícil compreender que os sapatos voadores transportaram a indignação dos oprimidos pela guerra motivada, principalmente, pelo controle das maiores reservas petrolíferas do Oriente Médio. Aliás, trata-se de um ato pacífico se comparado às bombas humanas que explodem em mesquitas, feiras e mercados das principais cidades iraquianas.
Independentemente das razões culturais, a atitude Muntadar pode ser entendida como uma bomba midiática. Não existiria situação mais melancólica para o homem mais poderoso do Planeta como a de terminar o mandato atingido no rosto por sapatos atirados durante uma coletiva de imprensa. Não se trata, a essa altura, da figura de G.W.B, ridicularizada e enxovalhada dentro do próprio Estados Unidos por sua política econômica e militar extravagantes, mas do Estado norte-americano vulnerável. Ainda que G.W.B seja um Pato Manco, alvejá-lo com sapatos e ovos sempre será estimulante aos sentimentos anti-americanos. Resta saber se a polícia que se gaba ser a inspetora do mundo sabe disso.
As interpretações que chegam até nós dão conta de que imensos setores muçulmanos estariam satisfeitos com Muntadar. As sapatadas, mais especificamente as que atingem o rosto do alvejado, para os que professam o Islã, são o pior dos insultos, e o insultante o mais magnânimo dos heróis. Por isso, o jornalista, que também é atirador de sapatos, mereceria a fervorosa comemoração em países de maioria muçulmana.
O incidente estende-se, de imediato, à postura do jornalista no exercício da profissão. Muntadar teria profanado o jornalismo e sua suposta imparcialidade. Essa discussão é longa e apaixonante, mas, antes de iniciá-la, é necessário frisar que o Iraque é um país invadido e ocupado por um grupo de potências econômicas e militares que apostam suas fichas no controle permanente do mundo. Não aprovo a violência, mas dá para entender os porquês de tanto regozijo a mais um dos inúmeros ataques bizarros ao presidente Bush.
A guerra é o limite humano. A razão não age nesse ambiente trevoso onde reina o ódio e a insensatez. Melhor mesmo seria evitá-la.
Jornalista, sociólogo e escritor.Marcadores: Artigo
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Para Maria Eunice
Ivânia Vieira*
A edição de A CRÍTICA, de 28 de agosto último, mostrou uma cena insólita: juízes nas ruas de Manaus panfletando em defesa do voto ético. Fotógrafos registraram essa atitude, rara na história da Justiça Eleitoral local. Ari Moutinho, presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), e Maria Eunice Torres do Nascimento, presidente do pleito eleitoral deste ano, abordando pedestres e motoristas sobre a importância de votar eticamente. Da mobilização também participaram Carlos Queiroz e Gildo Carvalho, juízes da propaganda eleitoral.
Para os habitantes de Manaus, a notícia parecia indicar um novo e bom momento. A retomada da reconciliação da Justiça com ela mesma na versão maiúscula. Não se vai à rua pedir a eleitores ética no voto impunemente. Tem troco e tem cobrança. Principalmente quando os atores do convite público são magistrados.
A Justiça Eleitoral do Amazonas está sendo cobrada. Sua conduta é avaliada pelos juízes da rua, do meio do povo. As manifestações de apoio às ações da juíza Maria Eunice Torres são parte de um ensaio maior. A maioria das pessoas participantes desse movimento tem história de luta em defesa da liberdade, da democracia e do aprimoramento desta. Não é ‘filha da ficha trocada por favores pessoais’. São mulheres e homens dignos, portadores de esperança e da determinação de construir boas mudanças.
O embate ora travado no TRE-AM é outro ato do exercício para vencer a anomalia. Pior é quando se faz silêncio entre os homens e as mulheres da Justiça; pior é a harmonia das falas desse Poder. Nessa perspectiva, é um cancro, mina o organismo e mata.
As decisões de ontem do Pleno do TRE expõem contradições espetaculares. Elas vão ganhar as ruas e produzir questionamentos à Justiça, independente da vontade desse ou daquele juiz. Mesmo com a dança da vitória passageira, a sentença avança além da condenação de eleitos, para cobrar publicamente os que vestem a toga.
Jornalista, professora da Ufam.Marcadores: Artigo
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