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O auto e o baixo do boi-bumbá
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
*Massilon de Medeiros Cursino Igualmente às apresentações folclóricas de nossos folguedos juninos, Garantido e Caprichoso dividirei este artigo em atos, para melhor exposição de minha concepção acerca do momento vivido pelos dois bumbás.
O primeiro ato consiste no auto do boi, ou seja, na composição dramática com argumento alegórico engendrador do evento festivo que hoje tomou proporção mundial, graças, principalmente ao maior apanágio dos caboclos parintinenses, a criatividade.
O auto do boi conta a estória da negra Catirina que, grávida desejou comer a língua do boi mais estimado pelo dono da fazenda. A fim de atender o desejo de sua amada, Pai Francisco, esposo de mãe Catirina, mata o melhor animal de seu patrão e, em seguida, foge. Sob perseguição, Pai Francisco pede ajuda ao padre que sai em seu auxilio e faz ressuscitar o boi, para alegria e comemoração de todos na fazenda.
Como tudo é dinâmico, o auto do boi já manifesta suas inovações, como a substituição da figura do padre pela do pajé, o líder espiritual e curandeiro tribal que, depois de inalar o alucinógeno paricá e rebolar as cadeiras, faz a sua pajelança capaz de ressuscitar não só um boi de pano, como toda uma galera que ansiosa assiste à apresentação de um belo espetáculo.
O segundo ato deste artigo versa sobre o baixo do boi, referindo-se aos contratempos e às coisas negativas que maculam a imagem da maravilhosa festa, coisas que, sinceramente, não gostaria de fazer alusão, no entanto, não poderia ficar alheio, porquanto assim estaria ajudando empurrar esse lixo imundo para baixo do tapete.
São contas que não se conhece o tamanho real, estando cerradas numa caixa preta que alterna os valores em fração de segundos, um milhão, três milhões, cinco milhões, como se milhões fossem valores irrisórios. Decerto é que, no momento da prestação de contas, elas se fecham, como nas partidas dobradas, em que para cada débito um crédito de igual valor.
Algumas vezes chegam a apresentar, inexplicavelmente, saldos favoráveis de unidades de reais e até centavos, sendo aprovadas sem um mínimo gesto ou esforço de seus associados, que para isso precisam tão somente permanecer sentados. Aos que ousam contestá-las, o frívolo ensaio de apupos é o suficiente para arrefecê-los.
O baixo do boi também envolve leilões, praças, dívidas trabalhistas, revelias e até trancamento de vias públicas (com sucatas de alegorias). O baixo do boi é o retrato do descaso e da leviandade.
Se no auto do boi pode-se apelar ao padre ou ao pajé, para ressuscitar a rês predileta do patrão, no baixo do boi já não se sabe mais a quem recorrer. O que se sabe é que milagres acontecem na assembléia de aprovação das contas, após a qual se começa outro momento de comemoração, regado a muitas latinhas de cerveja!
* Economista, bacharel em Direito e membro da APL.
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A flauta de Noel
Antônio Paulo*
Nesses dias que antecedem ao Natal, envolvido física, simbólica e financeiramente com essa festa milenar cristã – na compra de presentes, cartões, enfeites de pinheiros e cartas de minha filhinha endereçadas ao Papai Noel – vêm-me à memória lembranças e histórias da infância e juventude que marcaram minha vida natalina.
A começar pela primeira vez que comi carneiro com sobremesa de maçã. O estômago fraco e pobre de nutrientes não reconheceu as iguarias da ceia. Baixei ao hospital e lá fiquei internado por vários dias. Da pequena enfermaria, vi os fogos do Ano Novo.
Idem esquecer a ousadia de montar, na década de 1980, juntamente com grupo de jovens coarienses, um auto de Natal cuja história, ainda que tivesse o menino Jesus como personagem principal, seus parentes, pastores e até os reis dos presentes, era contada por ciganos. Imaginem a reação da Igreja (católica), a qual a “trupe” pertencia.
No entanto, a lembrança mais significativa dessa época tem a ver com presentes e o “bom velhinho”. Era primeira vez que ia a Manaus, acho que tinha apenas sete anos. Minha mãe me levou em uma grande loja – não posso afirmar com certeza, mas acho que era nos tempos áureos da TV Lar – foi quando vi um Papai Noel gigante, mexendo-se (ainda não falava), balançando a cabeça e anotando os pedidos da petizada. Claro, que já ouvira falar nele, pois, mesmo sendo um menino pobre do interior, sempre ganhava presentes modestos na noite de Natal. Meus irmãos, que moravam na capital, trabalhando na nascente Zona Franca, mandavam as “lembranças” ou meu pai os comprava na taberna que lhe vendia fiado.
O que me deixou encantado foi vê-lo ali tão perto e atento aos pedidos. Perguntei à minha mãe o que significava? O que ele estava fazendo? Ela respondeu: O Papai Noel anota os presentes que as crianças querem ganhar na noite de Natal. Veio-me à cabeça pedir uma bicicleta daquelas que meus colegas de escola (mais endinheirados) possuíam. Ou um carrinho de controle remoto que meu vizinho ganhara no dezembro anterior. Mas, sabendo, quase adivinhando os meus pensamentos, mamãe atalhou: Só não pode pedir brinquedos caros porque ele tem pedidos de milhares de crianças pelo mundo todo. O que eu peço, então? Perguntei obediente. Aquela flautinha que você me pediu um dia desses, cochichou ela no meu ouvido. Lá fui eu. De pé, diante daquele gigante vermelho, o coração batendo de tanta alegria e encantamento fiz o pedido tão desejado: Querido Papai Noel, quero ganhar uma flauta neste Natal!
Acho que naquele mesmo dia retornamos a Coari. De barco, que ainda levavam três dias para chegar. Em casa, não falava de outra coisa. Contava a Deus e ao mundo, à minha irmã menor, aos primos e colegas da rua que tinha visto o Papai Noel de pertinho e que ele mesmo havia anotado o meu presente. Só não falava o que era com medo de ele esquecer, trocar o pedido e eu passar por mentiroso. Tinha uns primos que nunca acreditaram em Papai Noel. E diziam: Deixa de ser besta, rapaz! É a tua mãe que compra os presentes e deixa debaixo do mosqueteiro. Eu mesmo já vi a minha fazer isso! Para mim, aquilo era uma ofensa. Corria, chorando e enredava lá em casa. Minha mãe punha-me no colo, limpava minhas lágrimas de criança inocente e me acalentava: Não liga, não, meu filho. Esses meninos não sabem o que dizem. O Papai Noel vem e vai trazer o que você pediu.
E chegou o grande dia! Nem consegui comer direito, jogar bolinha de gude ou mesmo fazer uns gols no campinho de futebol improvisado no terreno baldio lá nos fundos de casa. Caiu a noite e minha aflição aumentou. Meus pais e os demais adultos foram à Missa do Galo na Catedral de Nossa Senhora Sant’Ana e São Sebastião. E vocês têm que dormir cedo, se não o Papai Noel não vem. Sentenciou minha mãe. Quem disse que eu conseguia pregar o olho? Queria ver o “bom velhinho” de perto, trazendo em seu saco vermelho o presente que tinha pedido naquelas lonjuras que era Manaus. Queria provar aos meus parentes incrédulos que ele existia e que não havia mentido sobre tê-lo visto tão de perto. A ansiedade da espera me fez adormecer. Era manhã de Natal. Dei um pulo da rede para me encontrar com o meu sonho. E lá estava ela. Dentro do meu sapato, embrulhada em um papel de presente vermelho, a minha flauta, de plástico, azul, com o bico branco e tocava uma canção infantil. Eu era só sorrisos. Papai Noel havia cumprido sua promessa. Corri, deu um beijo em minha mãe, que olhava carinhosa, e saí de casa a fora pra contar e mostrar a novidade.
* Jornalista
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A apertadinha
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Neuton Corrêa*
O Sol e ela sempre chegavam juntos. Ele pela janela; ela pela porta. O Sol não deixou de brilhar, foi ela quem perdeu o brilho. Hoje, a luz chega; ela, não. Não como antes! As manhãs tornaram-se mais cinzentas. Entre os passageiros-expectadores já não há admiração. Há tristeza, frustração!
Agora ela embarca como uma passageira comum. Se tiver lugar vazio, senta; senão, segue a viagem em pé; às vezes, pede para alguém segurar seus cadernos; às vezes, recebe oferta de ajuda, não mais com a mesma intensidade de antes. Antes, todos queriam lhe ajudar. E quem não queria estar ao seu lado?
Seu olhar assanhado cedeu ao olhar perdido, daqueles que se olha e nada se vê. É o olhar da flor que acabou de passar e deixar seu perfume. A piscadela já lhe faz falta para molhar a pupila, que agora mira a rua para acertar a imaginação. O que se passa em sua cabeça é impossível saber. Apenas seus gestos traduzem a mudança.
Há um ano, quase todos os dias, tomamos o ônibus juntos. Eu com um bloco de anotações e um gravador no bolso. Ela, de cadernos com fotos de artistas na capa e livros carimbados: "Biblioteca Central da Ufam".
Assídua! Pontual! Ajudou-me da forma que nem faz idéia: só por sua causa passei a chegar antes dos professores. Valia a pena! Era um colírio, a melhor forma de começar o dia. Não só para mim, mas também para o Paulo Henrique, com quem discutia os detalhes da fantasia que ela levava para o 125 (Campus/T1/Centro).
Para não pagar duas passagens, tomávamos o ônibus no Terminal da Avenida Constantino Nery. Eu e o Paulo posicionávamos no banco de trás para vê-la embarcar. Era de onde se tinha a melhor visão do espetáculo, a começar pelo esforço em tentar colocar os pés na escada. Ali, já era possível ver os contornos de suas pernas e a exuberância de seus peitos.
Era impossível não chamar a atenção da viagem só para si. Sempre apertava o corpo contra a justeza da saia jeans. Tão acochada que era obrigada a andar de passos curtos. A blusa também fazia sua barriga se contrair e ressaltar as mamas.
Quando não conseguia lugar e era obrigada a ficar pendurada, passava a viagem toda se contorcendo e baixando a microssaia. Lembro-me da ocasião em que descobri que eu e o Paulo não éramos os únicos a ver aquilo como um show. Certa vez, quando a saia subiu demais, fui advertido por meu colega de viagem: eram cabeças inclinadas em direção ao corredor do ônibus, olhando em sua direção.
Foi em um desses dias que as manhãs perderam o brilho.
Ela embarcou no local de sempre. Chamava a atenção de todos, como sempre. O incomum foi a tragédia: o motorista, apressado, acelerou o carro no Boulevard; a platéia a olhava, ela sorria. Não quis que ninguém segurasse seus livros. Apoiou-se com a mão esquerda e com a direita prendia os papéis no peito.
A viagem segue; o motorista freia, todos se desequilibram, o público se exalta; o motora força o arranque, ela perde o apoio; alguém assobia. Ela ri.
Foi o último sorriso!
O motorista acelera ainda mais. Na mesma marcha, faz uma curva fechada. Ela desprende-se do apoio. Sua saia não suporta a pressão da barriga: o zíper e o jeans se rompem; a roupa se abre; ela usa os cadernos para esconder a minúscula calcinha. O peito, porém, aparece. Ela já não sabe o que fazer, desespera-se e pede para descer.
Em frente ao cemitério, onde ela desembarcou, muitos riram, alguns lamentaram. Ali, ela enterrou as roupas apertadas. Agora desfila saias longas, blusas grandes, rosto sem maquiagem e calçados sem saltos.
Que pena!
*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam (Ilustração: Myrria) Marcadores: Crônicas
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