Sarney, a crise e nós

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Ivânia Vieira*

O presidente do Senado, José Sarney, usou, ontem, 33 minutos, segundo agências de notícia, para livrar-se, perante a opinião pública, de responsabilidades. Devolveu ao Senado a crise vivida na/pela Casa, tentando descolar-se dela, como se isso fosse possível. Sarney tem raízes profundas no Senado, está encrustrado nas paredes e é um dos articuladores da cultura ali vigente. Não pode negar a sua história.

Acerta ao chamar os seus pares a partilhar a crise de agora, afinal os atos por ele patrocinados são parte de um poder realizado mediante um pacto maior envolvendo parcela expressiva dos 81 senadores e com braços longos no Executivo. Nessa partilha da crise conseguiu ter respostas mansas, inclusive da oposição. Mas, erra quando sua fala tem um reduzido enunciado.

Para quem falou Sarney? Qual é o efeito dessa fala? Esperávamos decisões firmes. Até por sobrevivência, a Casa deveria nessa terça-feira ter mudado o seu script tradicional, assumindo compromissos, datados, com a sociedade. Não o fez. Preferiu o caminho do passado, cheio de vícios, de alianças indigestas e com um alto custo para o bolso do brasileiro.

O Senado se distancia da condição de alto conselho e faz a opção em ser pequeno. A sucessão de escândalos, provocada pelos próprios senadores, não pode ser esquecida ou minimizada com a admissão pública de que a “crise é do Senado”. Todos já sabemos disso. Falta saber quantos senadores estão, de fato, determinados a mexer em interesses de grupos e traçar um plano de valorização da instituição.

Ontem era um dia bom para aplicar a primeira dose do remédio. O que se viu, ao contrário, foi uma encenação sem reação maior. Nesse ritmo, logo a crise ética da Casa será de responsabilidade exclusiva dos eleitores. Os senadores serão vítimas e a sociedade algoz.

*Jornalista, professora de Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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