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A última
sábado, 17 de janeiro de 2009

Neuton Corrêa* Não o reconheceria se ele não tivesse falado comigo. “E aí, cara, não fala mais com os pobres?” Em princípio, fiquei assustado. Minha mulher já me puxava pelo braço, mas ele insistia: “Ficou orgulhoso, né?”. Senti-me importunado e respondi-lhe sem abrir a boca: “Com pobres eu falo, eu só não falo é com bêbado”. Antes, porém, que eu reagisse, ele falou: “Sou o Barroso, cara!”
Era ele mesmo! Mas não era mais aquele Barroso da beira do rio Amazonas. Não era mais o Barroso que desafiava as histórias da dona Valdiza, que amedrontava a molecada com histórias da cobra grande, da pirara e da piraíba, esses bichos aquáticos que engolem gente e endoidecessem as pessoas que pulam n’água o dia todo. Ele não era mais o Barroso que se enfiava nas bolas de capim trazidas pelas correntezas e só as abandonava rio abaixo. Não! Não era mais ele.
Aliás, Barroso era o único a embarcar nas bolotas de capim. Ninguém ousava segui-lo. Quem se cria na beira do rio sabe que os pedaços de barrancos são os barcos que as cobras-grandes utilizam para viajar na Amazônia. Era assim que eu e meus primos imaginávamos o que poderia existir no meio daquelas canaranas.
Mas era exagero de minha parte esperar que o tempo tivesse parado. Afinal, a última vez que eu vi o Barroso foi por volta de 1988. Eu estava com 17 anos. Ele também. Eu começava dar os primeiros passos como repórter. Ele acabava de ingressar no Bar da Tia. Era o mais jovem daquela turma. Aliás, daquele grupo, é o único que ainda continua vivo.
O Barroso que encontrei na estação do 120 (Ponta Negra/Centro), perto do Tropical Hotel, numa madrugada de segunda-feira, após um show do Fagner, no Arraial da Cidade, era outro. Sujo, fedido e chato. Mas um detalhe ainda lembrava nele as aventuras do rio Amazonas. Ele estava molhado. Parecia que tinha acabado de dar um mergulho nas águas do rio Negro. Naquele detalhe vi o Barroso da infância. Em plena madrugada, enfrentava a escuridão da noite e do Negro.
Aquilo tudo era o cenário perfeito para ilustrar a famosa frase que eu havia conhecido poucos anos antes e com a qual me encantei nas aulas de Filosofia: “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”. Era isso que acontecia naquele momento: Nem ele nem o rio eram mais os mesmos.
O 120 estava prestes a sair e ele começou a chorar:
– Eu não consigo parar de beber. Eu tento. Já perdi minha mulher e não sei por onde anda meu filho. Aproveitei o ato de contrição de meu amigo e o incentivei: – Você vai conseguir. Ele sorriu e respondeu: – Toda manhã, quando acordo, penso que aquele será o último dia com a bebida. Mas o dia passa e quando a noite chega, começa meu arrependimento até a outra manhã. Às vezes, a noite demora a passar. Achei que aquele choro era um avanço. Ele estava incomodado com a depressão. Quando tomei iniciativa para embarcar no 120, ele apelou: – Arranja aí um dinheiro para eu comprar um churrasquinho de gato? Olhei para ele e brinquei: – Se for para comprar comida, eu não tenho. Se for para beber... Ele começou a sorrir, depois falou postado. - Essa é a última. Puxado pela minha mulher, embarquei.
*Filósofo, estudante de jornalista e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Ilustraçao (Carlos Augusto Myrria) Marcadores: Crônicas
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Crise e pressão
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
*Wilson Nogueira
As indústrias incentivadas do Distrito Industrial de Manaus (PIM) fecharam 2008 com um faturamento de U$$ 28,5 bilhões, 20,1% a mais que o do ano passado. Mas, mesmo assim, com argumento dos prováveis efeitos da crise mundial na ponta da língua e projeções catastróficas no pen drive, os empresários apelam por mais benesses ao Estado. Não lhes bastaram os R$ 400 milhões em renúncia fiscal do pacote anticrise estadual nem os resultados das demais medidas da União que cobrem todo o setor produtivo nacional.
O mais engraçado dessa história, que sempre se repete como farsa, é que, de uma hora para outra, o empresariado dota o Estado, por meio da retórica, de eficiência imprescindível na arrumação dos negócios arruinados pela mão invisível. Que se diga, entretanto, que a eficiência do Estado, para os capitalistas, só dura enquanto ele jorra dinheiro no buraco deixado pela eficiência de fabricar lucros irreais das companhias globais.
O argumento do analista econômico camaleônico chega a ser cansativo: "Olhem só: o Estado deve agir, comprar e vender moedas ou emprestar dinheiro barato aos borbotões para o setor privado até reequilibrar o mercado, e dele deve sair imediatamente". Na economia sã, para esse tipo de analista, o Estado é ineficiente, preguiçoso e prejudicial. Esse fingimento nutre o velho e o novo liberalismo econômico. Fora dele não haveria solução. Novas experiências? Nem pensar!
O fantasma da crise - fruto dos efeitos reais das incertezas do mercado mundial e dos filhotes destas gerados pela mídia - é usado para emparedar governos e sociedades em escala mundial. Quem não tem medo de perder o emprego? Qual governante não se assusta com a possibilidade de instabilidade social? São questões preocupantes. Não seria prudente desdenhar da realidade. De igual modo, não se deveria tê-la como imutável, sem solução ou sem saída senão as das leis de mercado.
A crise não deve se transformar em arma de pressão do empresariado insaciável. Ela precisa, sim, ser discutida por toda sociedade, para que seus impactos sejam amortecidos em todos os setores, principalmente nos das populações mais pobres. Os balanços das indústrias incentivadas de Manaus mostram, por exemplo, que elas têm mais gorduras para queimar que os trabalhadores. Deveriam subtrair algumas gordurinhas. Afinal, o capital se reproduz em função do trabalho humano. A contrapartida social, antes de uma obrigação legal, deveria ser compreendida como um inarredável compromisso ético.
Suscitei esse tema para demonstrar que a proposta de corte no repasse, pela indústria incentivada, para o fundo que mantém a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) soa como pilhéria, caso não se trate de equívoco daqueles que formulam tamanho absurdo. Comprometer os avanços da educação superior (ensino, pesquisa e extensão) no Amazonas já seria um ato insano; recuar nessa conquista será crime imperdoável. Os governantes e a sociedade devem agir., rápido e energicamente, contra essa tentativa reacionária de barrar as conquistas do ensino público democratizado.
*Jornalista, sociólogo e escritorMarcadores: Artigo
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No sorriso de Alice
Ivânia Vieira*
O artigo de hoje deveria abordar as manifestações esquisitas feitas na cidade, nesses primeiros dias de 2009, em defesa de causas tão pequenas. Elas são como lamento de uma Manaus em dificuldades para superar determinados estigmas e andar rumo ao futuro. Mas, nas primeiras horas da manhã de ontem uma notícia mudou a motivação inicial e provocou uma embolada de sentimentos. Comentar as manifestações atrofiadas pareceu pequeno demais diante do adeus de Alice. Passei horas pensando se Alice cabia como questão privada e deveria ser guardada e sentida somente por aquelas pessoas do universo dessa mulher.
Talvez, devêssemos nos recolhermos para pensar melhor nessa história. Então, veio à mente o sorriso de Alice. Nossa! Esse é um bem público. Não é justo ficar entre nós. Alice esteve em tantas batalhas, encheu de significado as lutas de tantas minorias, saiu muito marcada delas. Alegria, tristeza e emoção esparramada diante de pequenos gestos. Ela emocionou tanta gente, com seu jeito determinado e sedento de liberdade. Não é possível tratar no campo restrito uma pessoa conjugada no plural, forjada no embate público e generosa como uma espécie de grande abrigo.
Nesse momento de despedidas, não combinadas, é esse sorriso de Alice a imagem a passear em nossas vidas. Quem sabe a insistência dele em permanecer vivo e farto seja um presente dela para Manaus. Afinal, estamos desaprendendo a sorrir de verdade diante do avanço do exercício da farsa. E nele está a tradução de uma necessidade local: invadir a alma humana com um sorriso. Olhe a cidade, a cara dela. Alice fez isso a vida toda. Invadia nossas almas e, depois dessa invasão, valia a pena sorrir, seguir adiante.
"Ela é uma pessoa de luz", resumiu Adriano ao falar da sua passagem. Olhei para alguns anos atrás, desde os primeiros momentos em que a vi, jovenzinha, em festa, depois, adulta, carregando sempre a sua marca - irradiar a vida. Eis uma grande causa para ir às ruas. Aprenderíamos a sorrir daquele jeito, feito fonte.
*Jornalista e professora da Ufam da Universidade Federal do Amazonas/Ufam.Marcadores: Artigo
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O Cão Presidencial

Massilon de Medeiros Cursino*
Em meio à crise mundial, da quebradeira e da recessão, os títulos imobiliários e os clientes “subprime” são os bodes expiatórios. Os sacrificados são os trabalhadores que voltam para casa e têm que se adaptar a uma realidade dura, de desempregado.
O governo anuncia medidas de intervenção na economia e não espera mais que a “mão invisível” ajuste o mercado. Em muito, a crise se parece com a grande depressão econômica de 1929, até mesmo na sua origem, justamente no país que se declara como o mais desenvolvido e estável do planeta.
Enquanto a crise, igualmente a uma pandemia, avança para o resto do mundo, os americanos estadusunidenses encontram outra preocupação: qual será o novo cão presidencial?
O novo presidente escolhido depois de uma longa campanha que inicia antes até mesmo que as prévias, já está se acomodando no quarto presidencial e atendendo na ante sala do salão oval. Resta saber agora quem vai ocupar o canil da Casa Branca.
As bolsas de apostas estão divididas entre um cão “labradoodle”, resultante do cruzamento de um labrador co um poodle, e um cão de água português. Os especialistas explicam aos apostadores e curiosos as qualidades de cada raça do animal. O labradoodle é tranqüilo e sem agressividade, enquanto o cão de água português é companheiro de crianças e de idosos.
O próprio Barack Obama manifestou a dificuldade em definir o cão presidencial, afirmando que a escolha é mais difícil que encontrar um Secretário do Comércio.
Os Estados Unidos vivem o dilema da escolha do cão presidencial ao mesmo tempo em que Israel continua avançar em sua ofensiva na faixa de Gaza, o Iraque e o Afeganistão mantêm-se ocupados e o mundo está estado de tensão e insegurança.
É preciso ter a tranqüilidade de um labradoodle e o companheirismo de um cão de água português para assistir a tudo impassivo! Como não sou cão...
* Economista, bacharel em Direito e membro da Academia Parintinense de Letras (APL).
Marcadores: Artigo
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