Pelo direito de andar

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ivânia Vieira*

Manaus está sob a 'Lei da Desordem'. Ande nela, na área central ou na periferia, o cenário é o mesmo: A ausência dos parâmetros de uma cidade. Não é crise provocada pela falta de recursos financeiros. Afinal, este não é um dos lugares mais pobres do País, ao contrário aparece bem situado em vários indicadores, inclusive como um dos melhores destinos brasileiros para investimentos.

A crise é de outra ordem. Atinge as instituições, estimula a retomada de um antigo processo de ocupação dos espaços públicos por quem grita mais alto, pela truculência dos apadrinhados do poder constituído e pelo entendimento de que as leis estão temporariamente arquivadas.

Pedestre não tem espaço para andar. As sobras das minguadas calçadas existentes foram tomadas e transformadas em áreas de negócios - os mais variados. É uma grande feira a céu aberto. Motoristas vivem a esquizofrenia de uma cidade asfixiada pelo excesso de carros. Então, as calçadas também foram transformadas em lugar de carros e as pessoas são, violentamente, empurradas para a pista de corrida, obrigadas a um malabarismo de alto risco, tornando-se parte de um ciclo diário de violência, reproduzido em casa.

O caos de Manaus favorece a um grupo sem compromisso com a cidade, com o seu presente e o seu futuro. Quer apenas fazer negócios, saqueá-la e, depois, com os bolsos cheios, olhar de longe o nosso lugar referindo-se a ele como lixo. É um grupo com ramificações nos vários espaços de poder, 'legalizando' o ilegal e tentando tornar atos imorais em atitudes de moralidade.

Esse tipo de gente faz mal a todos nós. Suas ações tem longa duração. São alimentadas por migalhas cotidianas, negando direitos e tenta impedir a população de avançar no aprendizado sobre dignidade.

A cidade, candidata a sediar grandes eventos nacionais e internacionais, a ser roteiro turístico, está sendo massacrada pela balburdia.

* Jornalista e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Marcadores:

2 Comentários



Miguinho

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Neuton Corrêa*

Estava a bordo do 112 (BR-174). Algumas paradas depois, decidi: teria que desembarcar o mais depressa possível. A imagem que eu via era perturbadora. Não poderia ficar ali nem mais um minuto. Pensei em descer pela porta traseira sem pagar passagem, mas controlei o impulso. Planejei, então, passar pela porta da frente, rogando para não ser visto por meu amigo de infância que acabava de embarcar.

Na verdade, graças a Deus, ainda não o tinha visto, mas já tinha a certeza que era ele. A voz e as brincadeiras eram as mesmas. Deficiente da perna, com passe-livre, aplicou uma carteirada. Antes de subir havia cumprimentado o motorista: “E aí, come gente, como vai?”. Subiu e falou com outra pessoa: “E aí, vascaíno, até segunda!”.

Depois de alguns minutos resolvi encará-lo. O tempo havia lhe dado bastante pêlos brancos na barbicha e nos cabelos. Também ganhou mais peso, um esforço a mais para arrastar a Poderosa. O rosto trazia uma nova cicatriz perto do canto da boca.

O encontro acionou o filme sobre a vida dele em meus pensamentos. José Nildo Prestes das Neves, o aluno mais famoso do “primário”. No colégio, era chamado de Nildo; entre os seus amigos era tratado como “Miguinho”; e, por fim, a alcunha de “Oruco”. O agrado é uma curruptela de urucubaca. Sempre riu das próprias desgraças, sobre as quais dava um jeito de fazer piada.

Poderosa, por exemplo, foi nome que ele mesmo deu para a perna que atrofiou do toco da coxa até a ponta dos dedos. O trauma aconteceu durante uma escapada das aulas de Educação Física do Professor Treme para o lago do Ropoca, no derredor de Parintins.

A garotada se organizava para pular n'água de um lugar estratégico. Oruco quis furar a fila, mas foi barrado. Ao realizar o salto, porém, voltou com o calcanhar sangrando. Passou meses em tratamento, mas não houve jeito: ganhou a Poderosa.

Certa vez, aventurou-se em um passeio para a praia do Uaicurapá. Durante a viagem, porém, na tolda do barco, apronta. Dança, canta e baixa a roupa na frente das meninas... Um vexame! Com dupla ressaca, Oruco acorda, lembra-se da noite anterior e resolve atirar-se n'água. Corre sobre a tolda para o salto, mas ao lançar-se ao rio dois botes de alumínio o aguardavam embaixo. Foi o fim do passeio.

Oruco deixa Parintins e, em Manaus, ajuda criar uma das primeiras bandas de boi-bumbá do Estado. Após as festas, no entanto, era preciso deixá-lo em casa e só sair de lá depois que estivesse dormindo.

Pois em um desses dias, Oruco enganou a todos. Fingiu que dormia. No outro dia, no começo na noite, a notícia: o Nildo havia sido esfaqueado. Seus parceiros o procuram no Pronto-Socorro 28 Agosto. A recepcionista confirma: “É verdade, um rapaz esfaqueado na Praça 14 deu entrada, sim. Mas ele acabou de morrer”.

Os tocadores de toada se emocionam. No hospital, até quem não tinha nada a ver com a história se comove. Lá mesmo, no pronto-socorro, começa o velório. Minutos mais tarde, porém, um dos colegas resolve levantar o plástico e ri; cobre o morto, depois suspende novamente a lona e diz: “Não é ele!”. Voltam para a recepcionista e um dos rapazes protesta:
- Aquele não é nosso amigo.
A funcionária responde:
- Mas esse é o único esfaqueado da Praça 14. Tem outro, mas foi esfaqueado no Centro. Esse está bem! Saiu da cirurgia e vai para a UTI.

Um dos artistas insiste que quer vê-lo. A recepção permite. O violonista, hoje vocalista, consegue a autorização. Mas ao ver o parceiro mexendo o olho, caiu na risada, repetindo várias vezes: “Minguinho! Minguinho! Minguinho!” Oruco, também riu. Riu tanto que alguns pontos de sua cirurgia se romperam.

Depois de lembrar a saga de meu amigo, afastei a carga negativa de sua história e tentei descer antes que alguma coisa acontecesse na viagem, mas ao passar por ele, Oruco me parou e disse:
- E aí, come gente, já vai descer?
Respondi que sim e lhe disse:
- E você vai para onde?
E ele falou baixo em meu ouvido:
- Agora estou no semi-aberto.

Desci, corri para a mesinha de jogo do bicho da parada e bati nela três vezes; não sei se a viagem do Miguinho chegou ao fim.

*Filósofo, estudante de jornalista e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração (Carlos Augusto Myrria)

Marcadores:

0 Comentários
   




ARTIGOS
CRÔNICAS
POESIAS
NOTÍCIAS
RESENHAS






  • A foto do mendigo



  • Sobre árvores e mulheres



  • O poder do embuste



  • A noiva da Cidade Nova



  • A farinha criava...



  • Ciência entra no século da religação dos saberes, ...



  • “O Marx vai sempre ser fundamental nas análises de...



  • “O intelectual precisa reformar o seu pensamento, ...



  • “O pensamento complexo tem implicações políticas b...



  • “O que aconteceu em Hiroshima é uma coisa que esca...











  • HOME | SOBRE O TEXTOBR | NÓS | FALE CONOSCO | ARQUIVO

    Copyright Texto BR 2007. Todos os direitos reservados.