Pequenas Igrejas, Grandes Negócios

sábado, 31 de janeiro de 2009

Massilon Medeiros Cursino*

No novo testamento há várias passagens em que Cristo enaltece a pobreza e condena a riqueza e a luxúria. O Senhor espera de seu povo um coração desprendido de coisas terrenas e perecíveis.

A começar pelo seu nascimento numa estrebaria, entre animais. Passando pela explicação, em Mateus, de que seria mais fácil passar um camelo por uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus. Ou em Lucas, contando a parábola do mau rico e do pobre Lázaro.

A Igreja que condena a riqueza é a mesma que adorna com ouro seus altares. Na idade média capitalizava recursos com a venda de indulgência. Infelizmente, essa prática ainda não foi abolida por completa e continua a contrariar ao novo Testamento, onde mostra um Jesus que expulsa os comerciantes e mercenários da porta do Templo.

Nem a exegese bíblica é inexorável. Para cada versículo da Bíblia, há uma interpretação diferente. Assim, alguns espertalhões aproveitam para explicar da forma mais conveniente financeiramente e utilizam-se dos ensinamentos do livro sagrado e da doutrina cristã tornando-a essencialmente lucrativa, aproveitando-se das atribulações e instabilidades que o mundo capitalista produz na sociedade, assim como das fraquezas espirituais que acometem as pessoas.

Atualmente, para cada dez canais de televisão, em média, três são de propriedade das igrejas ou de seus representantes eclesiásticos. Os canais mais sensacionalistas expõem cenas de exorcismos, pregam a riqueza e a felicidade como respostas ao bom mantenedor ou dizimista. Há igrejas que utilizam de débito automático, aceitam cartão de crédito e têm até tabela de preços por bênção. Um mercado voraz em que por trás da palavra e do nome de Cristo está dissimulado o interesse financeiro e ambicioso de um pequeno grupo que se locupleta.

Os escândalos vêm à tona constantemente, porém a capacidade de domínio da mente dos fiéis, a lavagem cerebral, é tamanha que as vítimas embaidas se negam a acreditar que muitos de seus líderes não passam de espertalhões e farsantes.

Como cristão, prefiro ter o cristianismo como a mais bela das doutrinas religiosas, que somente prega o amor, a caridade, a bondade e a paz entre os Homens. Essa história de pagar para ir pro céu não passa de uma forma de comercialização da fé.

Eis uma triste realidade: criar igreja virou uma atividade econômica altamente atrativa nos dias atuais, instrumento para amealhar altas cifras com o benefício de imunidade tributária das suas receitas e propriedades.

Como dizem as antigas carolas: “Isso é sinal dos tempos!”.

* Economista, bacharel em Direito e membro da Academia Parintinense de Letras (APL).

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A dúvida

Neuton Corrêa*

No ano das bodas de prata de seu casamento, ele encontra três cartas. Eram correspondências esquecidas que mudariam seu casamento e abalariam sua confiança na igreja e sua fé em Deus.

Foi o que pude concluir da conversa com um daqueles parceiros ocasionais de viagem. Aguardávamos o ônibus na parada do Colégio Dom Bosco, no Centro. Eu estava em pé. Ele, sentado, agitava as pernas aceleradamente. As mãos não sossegavam. O pescoço se contorcia de um lado para o outro à espera do carro.

O ônibus chegou. Subi e fiquei nos bancos de trás. Ele tomou a mesma linha e se sentou ao meu lado. Assim que o carro seguiu viagem, voltou a agitar as pernas ao mesmo tempo em que fechava o rosto, franzia a testa e murmurava alguma coisa.

Não dava para traduzir o ruído. Mas era possível notar que trocava um intenso diálogo consigo mesmo. Conversava com uma pasta de documentos que abria e fechava o tempo todo. Às vezes, mexia no elástico e quando parecia que abriria a pasta, fechava-a e fingia não olhar.

Passei horas observando aquele ser impaciente, mas ao me distrair, fui abordado por ele:
- Como as coisas acontecem com a gente, não é?
Concordei apenas com a cabeça e ele continuou.
- Estou casado há 25 anos e olha o que encontrei. Foi escrito há dez anos!

Ele insistiu para eu ver os papéis, recusei, mas acabei passando o olho no material. Eram três manuscritos em folha de papel e um cartão-postal escrito “Fortaleza-CE”. Devolvi as cartas imaginando as fantasias de quem as escreveu.

Enquanto pensava nisso, ele retoma:
- Leia para eu ter certeza. Eu não acredito no que estou vendo.

Diante do olhar dos outros passageiros, senti-me constrangido, mas atendi. Um dos textos começava assim: “Meu amor, seja lá onde estiver, saiba que nunca esquecerei você. Nenhum inverno apagará o calor de minha paixão: nem o meu nem o seu impedimento”.

O cartão-postal trazia a imagem de uma praia com barquinhos ancorados nas proximidades e um filete de vegetação separando o mar de um conjunto de prédios da orla. No verso, um poema que não memorizei e, no rodapé, a frase: “Gostaria que você estivesse aqui e que o nosso desejo se realizasse”. No fim, a assinatura “Pe. com amor”.

Naquele momento, pensei em perguntar, mas não foi preciso. Ele mesmo explicou:
- Esta carta é da minha mulher. Foi escrita quando estávamos com 15 anos de casamento. Encontrei essas coisas esta semana quando resolvi reformar a casa para a festa dos nossos 25 anos. Nunca me passou pela cabeça que ela pudesse fazer isso comigo. Para mim, ela sempre foi uma grande esposa: carinhosa, boa mãe, responsável. Você acha que ela me traiu?

Não tive dúvida na resposta:
- Claro que não! Está escrito na carta. Tanto ele quanto ela, pelo que está escrito, ficaram apenas no desejo.
Ele interrompeu e falou:
- E se ela consumou o desejo com outro?
- Bem, neste caso você tem que conversar com ela.
- Desde que peguei esses papéis, passei a observá-la todos os dias. Não consigo ver nenhuma diferença da menina que conheci na infância para a mulher de hoje. Nos últimos dias, ocupo o tempo pensando no que vou lhe dizer, mas na hora não tenho coragem. Tenho medo de mim.

Dois passageiros ao meu lado começaram a me olhar e a fazer gestos com as mãos por trás da cabeça erguendo os dedos mínimo e indicador. Parecia a forma de um “V”. Ri e tentei encerrar a conversa:
- Esquece, rapaz. Entrega isso a Deus.
Nesse momento, ele se levantou, mordeu os dentes, fechou a mão e começou a xingar. Eu me tremi. E ele falou:
- Foi nessa história de Deus, de ela ir para igreja todo dia e de querer ajudar o padre que fiquei perturbado até hoje.

Evitei ouvir o resto da história. Fui para frente do ônibus, mas ainda o vi puxar conversa com outra pessoa.

* Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Carlos Myrria.

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Michael Löwy critica ONGs e defende o ecossocialismo

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009


O cientista social Michael Löwy, 70, disse em Manaus que as redes ambientalistas não propõem alternativas eficazes aos problemas ambientais. Segundo ele, ONGs como Greenpeace têm papel positivo, mas atacam apenas os sintomas da questão. Michael Löwy, que mora na França, está na Amazônia pela primeira vez. Na semana passada, proferiu palestras no auditório da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e esta semana está em Belém, onde participa do Fórum Social Mundial. Löwy nasceu em São Paulo, formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, em 1960. É um dos mais destacados estudioso do marxismo, com pesquisas sobre as obras de Karl Marx, Leon Trótski, Rosa Luxemburgo, Georg Lukács, Lucien Goldmann e Walter Benjamin. Ele concedeu entrevista ao jornal A CRÍTICA, no dia 21 de janeiro. O material, editado, foi publicado no domingo passado. Com autorização do jornal, o TEXTOBR publica a íntegra da entrevista que ele concedeu à jornalista Elaíze Farias.

Como o ecossocialismo articula-se com o pensamento marxista?
Ele parte da idéia de que uma ecologia que não seja socialista não enfrenta os desafios que estão colocados para a humanidade do século 21. Inversamente o socialismo que não seja ecológico está atrasado em relação aos problemas de nossa época. O ecossocialismo é o início de um processo de luta e de conscientização das pessoas. Surgiu em vários lugares ao mesmo tempo na Europa, nos Estados Unidos, no Brasil. No Brasil existe uma rede brasileira bastante ativa. Ano passado foi fundada em Paris uma rede internacional. Agora vamos publicar o manifesto, que se chamará o Manifesto de Belém, no Fórum Social Mundial. Depois vamos fazer o segundo encontro ecossocialista internacional.

Quais as ações apresentadas pelo ecossocialismo?
O objetivo é reunir e associar uma espécie de osmose de difusão química entre a critica marxista do capitalismo e a análise da destruição do meio ambiente. Mostrar que as duas coisas estão relacionadas. Aquilo que Marx explica sobre a natureza do capitalismo, um sistema que só pode existir da produção ilimitada de mercadorias.

Qual o grande papel do capitalismo na destruição do planeta?
Exploração e destruição ilimitada dos recursos naturais é inerente do capitalismo. Faz parte do seu código genético. Não depende da boa e má vontade do empresário ou do banqueiro ou governante. É a lógica do sistema.

O ecossocialismo parte de qual análise sobre a nossa realidade?
Partimos da análise de que o processo de destruição do meio ambiente que está se acelerando com uma rapidez catastrófica resulta não apenas da ação humana. Porque a humanidade vive neste planeta há milhares de anos. Tem a ver com a nossa civilização industrial, capitalista, ocidental. O que está colocado na ordem do dia é uma mudança muito profunda no paradigma de civilização. Não é só mexer com as relações de propriedade, com a maneira de administrar a economia. Precisamos de um novo modelo de civilização. Uma nova maneira de produzir, de consumir, de se transportar.

O ecossocialista é uma forma de atualizar o pensamento socialista clássico?
Para nós o ecossocialismo é uma aposta. É uma possibilidade que corresponde a uma necessidade real. O Marx teve algumas intuições, mas obviamente na época dele a questão não estava colocada desta maneira. A gente parte de uma visão bastante crítica do que foi a experiência do chamado socialismo real, na União Soviética, na China, que desprezou completamente a questão ambiental. Por dois aspectos. Um é que faltou democracia. Outro é que faltou ecologia. Então, não dá para pensar o socialismo que não seja democrático.

Qual a resposta do ecossocialismo para lógica do capitalismo?
A unidade dos povos da floresta para defender a floresta contra os latifundiários, o agronegócio, as multinacionais, é um combate que vai no sentido da idéia do ecossocialista. Talvez estes movimentos não saibam disso. Mas para nós é importante mostrar que essa luta dos povos da floresta interessa ao movimento.

O senhor faz alguma crítica às atuações de redes ambientalistas?
Por um lado, devemos reconhecer a utilidade dos movimentos ecológicos. Mesmo ongs como Greenpeace tem papel positivo. Mas atacam os sintomas do problema, não vão à raiz. As alternativas que eles propõem são ineficazes. Apelam à boa vontade do indivíduo para não jogar plástico na rua. Não somos contra isso. Mas não está à altura do desafio. Sobretudo agora que está se colocando o problema do aquecimento global, que é de todos os desastres ecológicos o mais grave que está se apresentando.

Qual a relação entre os movimentos sociais e o ecossocialismo?
Nosso objetivo é conscientizar os movimentos sociais, movimentos de esquerda e movimento ecológico. Juntar a crítica do capitalismo com a questão ecológica. Não somos nós que vamos resolver o problema. Estamos simplesmente a serviço dos movimentos, tentando trazer uma proposta. É uma utopia, mas não só uma idéia. É algo que se traduz em prática. Uma reivindicação que a gente levanta é desenvolver grandes redes de transportes públicos gratuito. Isso reduz o transporte de carros, responsáveis pelo efeito estufa. A gente está a fim de coisas concretas.

Quais os movimentos sociais do Brasil com os quais o ecossocialismo mais se identifica?
Os movimentos mais próximos no Brasil e na América Latina com quem já há um diálogo são os camponeses e indígenas. Faz parte da experiência deles lutar contra a expansão do latifúndio. Mas não é só ter um projeto de uma outra sociedade, de um outra civilização. Precisamos agir e agora. Não dá para esperar. Precisamos de ações para defender um pedaço da floresta, criar uma rede de cooperativas de agricultura biológica, de impor o transporte público no lugar de transporte de cidades.

O que o senhor acha de atitudes individuais, aparentemente banais, como sempre fechar torneira? O senhor as considera ingênuas?
Acho importante a pessoa fechar a torneira. Mas é preciso tomar consciência que isso não basta. Porque enquanto isso uma empresa de produção está desperdiçando água em quantidade astronômica. Não basta fechar a torneira. É preciso enfrentar a questão global do sistema. As pessoas devem fechar as torneiras, mas tomar consciência de que é um problema político. Não depende da boa vontade de uns e outros, mas de uma mudança estrutural no funcionamento da sociedade.

Qual a informação ou tem contato com os movimentos sociais da Amazônia?
Vim aqui para aprender. É a primeira vez que venho para a Amazônia. Os paulistas não dão atenção para a Amazônia. O Fórum Social Mundial vai ser um grande momento de escutar. Estou muito interessado sobre o que os movimentos indígenas vão mostrar. Os indígenas têm um relacionamento com natureza diferente da civilização capitalista moderna.

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Diversidade cultural


O
Acampamento do FSM, em Belém, expressa a luta dos povos por um outro mundo possível por meio da divesidade social.

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Vereador - Ter ou Ser

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Ivânia Vieira*

Está em pleno andamento a operação para aumentar o número de vereadores no Brasil. Argumentos em defesa dessa proposta aparecem numa sucessão infindável, como uma espécie de rolo compressor. O objetivo é impedir outros questionamentos e, assim, criar um ambiente favorável ao aumento do número de cadeiras nas câmaras municipais. Mas o País realmente precisa ter mais vereadores?

Hoje o segmento é formado por 51.748 parlamentares. Poderá chegar a 59.791, se a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 333/04, já aprovada em dezembro, com alterações, no Senado, vier a ser promulgada pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados (até agora contrária mais por conta das mexidas feitas pelos senadores).

À população, uma das mais interessadas no assunto o embate no âmbito do Parlamento vale pouco. Afinal, não nasceu da sociedade organizada a reivindicação por mais representantes nas câmaras municipais. Esse de fato não é um pleito popular, ao contrário, é impopular. Talvez porque o vínculo entre representantes e representados esteja bastante fragilizado, quase irreconhecível.

Pelo que lutam os vereadores? Eleitores e as pessoas em geral se vêem contempladas na ação do legislador municipal? Indicadores da organização não-governamental (ONG) Transparência Brasil (vale a pena conhecer: www.transparência.org.br) estabelecem em R$ 4,50 o custo médio do voto no Brasil, tendo como parâmetro os dados oficiais das eleições municipais de 2004. Em São Paulo, o custo médio à época ficou em R$ 4,75.

Nas eleições do ano passado, um candidato a vereador em Belém (PA) aparece como detentor do voto mais salgado do Brasil - R$, 138,00. Ter acesso aos dados sobre quem financia a campanha é um aprendizado fundamental à comunidade. Ela poderá acompanhar o vereador e saber quais setores o mandato dele está beneficiando.

Enfim, esta é uma pauta para as organizações populares se apoderarem dela. A sociedade está diante do ter mais ou ser mais vereador. Esse sim anda em falta.

*Jornalista e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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Maturana

Neuton Corrêa*

Maturana previu a própria desgraça. Poderia ter evitado-a, mas, mesmo desconfiando que o fim da noite lhe seria trágico, entregou-se aos prazeres da noite e da carne.

Juan Carlos Maturana se diz um dos sobreviventes dos massacres cometidos no Peru pelos guerrilheiros do Sendero Luminoso, na década de 1980. Jura ter testemunhado o assassinato de oito jornalistas na comunidade de Uchuraccay. “Isso aconteceu dia 26 de janeiro de 1983”, diz ele, com precisão para se mostrar verdadeiro.

Maturana lembra também do ataque que naquele mesmo ano deixou 69 mortos, entre eles 20 crianças, em Santiago de Lucanamarca, na região de Ayacucho. Ao contar a tragédia travou a voz e molhou os olhos para depois falar de sua decisão de se refugiar no Brasil.

Do grupo de jovens que o acompanhou, a maioria familiares, foi um dos poucos que não quis nada com o comércio ambulante. Preferiu a estiva e a vida da zona portuária. Do sotaque espanhol, pouco lhe resta.

Fui levado a conhecê-lo, no início desta semana, por um grupo de amigos dele. Leram a história de sábado, a do Miguinho, lembram? Aquele que atrofiou a perna, atirou-se da tolda do barco em cima de dois botes de alumínio, foi esfaqueado, resistiu a tudo isso e hoje está preso.

Os colegas de Maturana acharam que ele tinha história semelhante a do Miguinho. Mas não tinha nada a ver. O Miguinho era atraído pela sorte. Maturana, não. Maturana prevê o que vai acontecer.

A vida dele lembra figuras da história das civilizações. O personagem Prometeu, por exemplo, sabia que seria punido por Zeus e mesmo assim roubou o fogo dos deuses para dar ao homem. Teve de cumprir pena de 30 mil anos de prisão em um rochedo, vendo uma águia beliscar seu fígado.

Adão também sabia que se aceitasse a maçã de Eva seria expulso do paraíso.

Maturana é assim: se ele lhe disser não faça isso, não insista.

Certa vez, estava na Praça do Relógio. Nesse dia, não bebeu nada, porque, logo cedo, teve o pressentimento de que alguma coisa lhe aconteceria naquela data. O dia passou. A noite avançava, quando foi abordado por uma mulher. Receoso, olhou para o relógio, e concluiu intimamente: “hoje não acontecerá mais nada”.

Maturana e a companheira beberam e antes que o último ônibus deixasse a estação da Matriz ela o convidou a ir para a sua casa. Ele hesita. A mulher insiste. Maturana volta a consultar seus guias e pensa: “isso não vai dar certo”. Recusa o convite, mas acaba sendo seduzido a morder a maçã.

Já no quarto da parceira, uma estância no bairro Coroado, entrega-se às volúpias da madrugada. Uma noite inesquecível! Como nada tinha lhe acontecido, achou que seus oráculos haviam cometido erro. E seguiu rindo com as paredes.

A madrugada, porém, não havia terminado. O ex-marido da mulher reaparece, perde o controle, agride o casal a cassetadas e para marcar a punição joga-o no buraco de uma fossa em construção e vigia os dois por algum tempo.

Ao perceber que o agressor não estava mais no local, Maturana literalmente sai da fossa. Furta um par de roupa da vila e espera o sol e o primeiro coletivo aparecerem. Não demora e o ônibus passa. Maturana embarca, encontra a melhor posição para cochilar, mas quando o sono chega, o carro freia bruscamente. O peruano se assusta, olha pela janela, estica a cabeça para ver o que havia acontecido e não viu nada!

Nesse momento, porém, o motorista desprende-se do cinto de segurança e caminha no corredor do articulado. Maturana ensaia uma pergunta e quando começa a falar recebe um soco na cara.

Ele se apruma para revidar, mas antes de desferir o golpe, pergunta:
- O que é isso, rapaz?
E o motorista responde:
- É para você nunca mais mexer com a mulher dos outros.

*Filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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