Welcome to the jungle!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009


Michelle Portela*

Beatles, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Iron Maiden, Pink Floyd, Rolling Stones, Queen, Black Sabbath... todas essas bandas surgiram no Reino Unido, terra do Rock e do Metal. Tudo começou na década de 60, com os Beatles. Depois, vieram os Rolling Stones para dar conceito ao Rock n' Roll. Apareceu o Jimi Hendrix com a sua guitarra “incendiária” e finalmente, surgiu a famosa máxima Sex, Drugs & Rock n' Roll. Até aqui, pelo menos três grandes nomes, todos adorados, glorificados. Até que, na década seguinte, surgem outras estrelas do Rock. Led Zeppelin, Black Sabbath, Queen e Pink Floyd meteram a sola nas páginas da história da música.

Um novo gênero surgia e na cola, seus subgêneros. O Black Sabbath e seu Ozzy Osbourne inventaram o Metal. O psicodélico foi outro que veio, embora não tenha sido para ficar, trazido pelos Pink Floyd. O Queen arrebentava e se tornou uma das bandas mais prestigiadas de sempre, até quando toca sem Fred Mercury. Quando tudo parecia já ter alcançado seu máximo, em plena década de oitenta, eis que surge a maior banda de Heavy Metal do mundo! Seis homens bravos, com nítida influência dos Sabbath, resolveram criar o Iron Maiden. “Heavyy na veia”!

Nos EUA, é preciso reconhecer, também surgiram grandes nomes. Bandas como The Dorrs, Metallica, Red Hot Chili Peppers (argh!), Nirvana, Soundgarden e muito etc... Os bons velhos tempos... Gosto de pensar nesses tempos como a época em que as mulheres tinham todas cabelo curto e os homens é que tinham brinco e cabelo comprido, e fama de metaleiros, camisas-preta e...

Toda essa viagem foi a trajetória para encontrar a música ideal para o nascimento da filha de um amigo meu. Quando perguntei por que era tão importante escolher a música certa, logo entre aquelas vindas da Inglaterra, ele se apressou em responder: “Pense bem, o que seria de nós, fãs de Rock e de Metal, se estas bandas não existissem? E se a Inglaterra não tivesse existido?”

Fiquei impressionada com o laconismo. Como não poderia perder a piada, sugeri “Welcome to the jungle” (Bem vindo à selva), do Gun´s Rose, que tinha esquecido até então, mesmo sabendo que a banda é norte-americana. Ele também sabia. Pensei que poderia ajudar mais ainda, afinal, como viver uma vida sem música?

Não me surpreendeu encontrar dezenas de fóruns, comunidades, chats e outras ferramentas virtuais onde se discutiam a experiência do nascimento. Afunilando, sobre rock era mais complicado. Quer dizer, sobre o rock em si ou sobre a identificação familiar da criança com o gênero, algo como “Meu filho gosta de rock” soando mais como orgulho do que como susto, foi tranqüilo. Heavy foi encontrar algo mais específico.

Por fim, decidiu-se tocar Beatles na hora do parto. Morri de rir. A imaginação correu solta. Como me chamaram para fotografar (e eu nunca mais vou fazer isso pelo simples fato de querer ter filhos), acompanhei os momentos decisivos. Minha amiga estava no delírio absoluto do parto normal quando a Lucy nasceu. Meu amigo chorava diamantes nas nuvens. Eu, vivi o sonho absurdo de “Lucy in the Sky with diamonds”. Foi lindo! Até cantei. Fiquei pensando se, em caso de menino, se chamaria “Elvis”... Rá!

Nome escolhido, voltei-me a pensar que desde aquele primeiro momento de relacionamento físico do meu amigo com a filhinha dele, estava estabelecido um forte laço de identificação cultural naquela família. O nome a acompanharia para sempre. A música estará sempre presente em sua vida. O repertório dos pais é o que mais influencia e, se for variado, o da criança também será. De modo abrangente, conhecer de tudo vai ajudá-la a formar seu gosto musical e sua opinião. E aí, quem sabe, acontece aquilo que o educador e poeta Rubem Alves diz: "Ensina-se música sem perceber".

*Jornalista, mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Em nome das meninas

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Ivânia Vieira*

Encerrou em janeiro o prazo dado pelo Talebã para retirar das escolas públicas do Paquistão todas as meninas. Escolas particulares daquele país também estão sob ameaça de destruição se desobedecerem às ordens do grupo. Informações mais recentes são de vários estabelecimentos de ensino depredados.

No ano passado, 130 escolas públicas foram queimadas na região do vale do Swat porque meninas freqüentavam as aulas. A BBC estima em 70 mil o número de estudantes sem lugar de estudo por conta desses atos. A ordem é impedir o acesso de mulheres à educação. E para fazer valer a regra qualquer ação está autorizada, até matar. Mulheres, de todas as faixas etárias, são vítimas desse estado de violência e de massacres contínuos.

Mulheres nas escolas são vistas como desestruturadoras do sistema e responsáveis pela subversão do poder no Paquistão. Parece estranho, em 2009 do século 21, nos defrontarmos com situações como essa. Elas estão ai e não são exclusividade de um único país, diversificam em suas abordagens de violência e silenciamento.

Em junho de 2008, uma instância de poder - o conselho de notáveis (ou Yirga) - da província de Baluquistão, decidiu resolver um conflito entre clãs, entregando 15 meninas virgens a um dos clãs. As crianças tinham entre três e 10 anos, informou o jornal El País citando o motivo do conflito em nome do qual muitas pessoas têm morrido: um cachorro de um grupo mordeu um burro pertencente a outro grupo. O animal atacado morreu. A matéria abordava a noção de valor de mulheres e de animais no Paquistão. A história das mulheres naquela região é de tamanho sofrimento e negação absoluta dos direitos que soa como uma terrível ficção. Mas é realidade cruel.

Somos todas e todos, no mundo inteiro, convocados a conhecer a luta das mulheres paquistanesas, das afegãs... e nos tornarmos, a partir da solidariedade, operárias e operários na construção de uma outra cultura e no reforço, extremamente necessário, de fazer a denúncia acontecer além fronteira. Estamos diante da exigência de pressionar as instâncias nacionais e internacionais para impedir a continuidade dessa prática e desnaturalizar o massacre imposto às mulheres.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Cego é aquele que não cheira

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Neuton Corrêa*


Há muito ouço falar que quando se perde uma sensibilidade se aguça outra. É a chamada lei natural da compensação. Se não existe, passará a existir agora. É aplicada desde a coisa mais fútil à mais complexa.

A melancieira, por exemplo, em média, vive cem dias. Em compensação, produz um fruto grande e gostoso. O taperebazeiro, ao contrário, dá um fruto pequeno e azedo. Mas vive décadas.

“Viagens” à parte, prova da existência desta regra tive na véspera do último Natal. Precisava de uma toalha para cobrir a mesa improvisada da ceia. Fui à Esplanada a contragosto, em compensação conheci a dita lei.

Foi na linha 014. Embarquei no núcleo 3 da Cidade Nova, em frente ao mercadinho Akitem. Eu e minha mulher. Na parada seguinte, perto da escola Dom João, embarca o cidadão que colocaria em prática tal regra.

Antes de subir, ele pôs a ponta da bengala no primeiro degrau da escada do ônibus, tateou o bastão de um lado para o outro, colocou a guia no degrau superior, repetiu o procedimento, depois resolveu embarcar.

Ele se apoiou na porta do coletivo, dirigiu o olhar para o motorista e esticou a perna. O passo foi mais alto do que o necessário, tanto que perdeu o equilíbrio assim que o carro partiu. Alguém lhe ofereceu ajuda. Ele, porém, recusou e em seguida, encolheu a bengala do tamanho que lhe coube no bolso da calça.

Até aquele momento, imaginava que seus olhos ainda captavam alguma coisa. Mas só pude perceber o grau de sua deficiência visual quando virou a cabeça em minha direção: olho pequeno e totalmente branco que abria e fechava aceleradamente.

Era um cidadão de envergadura incomum. Sua cabeça quase roçava o teto do ônibus. O suor lustrava sua pele negra. Não aceitava ajuda de ninguém.

A expressão dele só mudou quando uma encantadora mulher entrou na viagem. Aliás, assim que ela embarcou esqueci dele. Era uma moça também alta, cabelos da cor da noite sem luar: volumoso, negro e misterioso.

Ela vestia um conjunto de roupa preta: um vestidinho de malha colado até a barriga e solto da cintura para baixo, formando uma saia. Por baixo, usava uma meia preta transparente, que moldava as coxas e as pernas até as extremidades das batatas, bordadas com renda marrom que acentuavam ainda mais sua sensualidade.

Confesso que tive vontade de continuar olhando para ela, mas eu estava ao lado de minha esposa, mais sério do que cachorro na proa da canoa.

A moça só não escapou da percepção do passageiro de olhos brancos. Assim que ela passou por trás dele, notei que virou o pescoço em sua direção. Depois, como se estivesse farejando algo, seguiu seu rastro e ficou atrás dela. Aquilo me chamou atenção, mas quando achei que ele havia ousado demais o vi esfregando o joelho nas costas da mulher.

A jovem fecha a expressão, ameaça reagir, mas o ô nibus já estava no terminal. Ela entra na fila para o desembarque, mas ele não desiste. Como um cão farejador à caça de sua presa, continua cheirando a moça até a porta do ônibus.

Minha mulher, que a esta altura já acompanhava o assédio, olhou para mim e fez um gesto com o olho e a boca em sinal de surpresa e eu comentei: “Você viu? Cego é aquele que não cheira.”

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Carlos Myrria.

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