O encanto da cobra*

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009


Cate vê-se no meio do lago do Limão. Estranhamente, ele descobre-se um homem feito: vigoroso da cabeça aos pés. Uma brisa embala a canarana das margens, enquanto o espelho d’água se arrepia. O vento leve maltrata-lhe o corpo. Um frio traiçoeiro corre-lhe toda a espinha dorsal. Isso não é bom sinal. O Velho Duca havia-lhe advertido: “A alma humana sente o perigo a distância!”.

Cate, confuso, descansa o remo sobre as pernas e volta-se para o centro da canoa: ali estão o arpão, uma zagaia e uma espingarda novinha em folha. Ele não titubeou: pegou a arma de fogo, engatilhou-a num gesto mecânico e, atônito, apontou-a a esmo, como se a ameaça viesse ao mesmo tempo do rio, da vegetação das margens ou do céu límpido.

Aliás, Cate não sabe mais se é noite ou se é dia. Sua mente tilinta com fervor superior ao do coaxar que vem do charco; e os vaga-lumes lhe parecem uma constelação errante.

De repente, o rio fica turvo no entorno da canoa. Bolhas monstruosas brotam das profundezas, e delas exala um fedor insuportável de pitiú e de mato apodrecido. Esse ar incômodo deixa Cate ainda mais inebriado. “O perigo está próximo”, pensou.

Ele tenta apertar o gatilho da espingarda, mas faltam-lhe força e pontaria. Fez então um esforço sobre-humano para detonar o cartucho, mas, em vez disso, a espingarda se desfaz e esvai-se, na forma líquida, entre os dedos das mãos. Cate contempla as mãos de pele grossa e, mansamente, verga-se para fora da canoa.

Do meio das bolhas fedorentas emerge uma enorme sucuri, que aplica nele um severo bote, puxando-o, logo, para o fundo.

Estranho! Muito estranho!

A cobra não faz nenhum mal a Cate. Ela simplesmente o fez repousar sobre uma areia finíssima no leito do rio, e ele sentiu-se como se estivesse no útero materno, pronto para nascer de novo.

O menino acordou com o roncar dos motores dos ônibus. “Meu Deus, que sonho estranho!”. E assim, cheio de indagações em torno dessa intrigante fantasia, tomou banho e se preparou para as aulas na Cidade da Ciência, com a professora Maristela.


*Episódio incluído na segunda edição do livro Órfãos das águas (Editora Valer, 2008), de Wilson Nogueira.
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