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A Torre de Babel
sábado, 7 de março de 2009
Neuton Corrêa*
A confusão tomou conta da viagem. Por alguns minutos senti que o 651 era a própria Faixa de Gaza. Um acusava outro. As provocações se sucediam. Alguns sussurrando, outros mais exaltados: “vocês adoram barro”; “vocês não têm fé”, “vocês são enganados”, “vocês isso, vocês aquilo”.
Os ânimos se exaltaram quando um passageiro idoso embarcou. Sei lá o que deu nele. Só sei que chamou a atenção da viagem quando passou a esbravejar: “Eu não acredito nisso. Isso aqui é uma enganação. Onde já se viu? Pior é que tem gente que acredita”. Ao seu lado, em pé, outra pessoa balançou a cabeça discordando.
O idoso não pára e faz outro comentário, desta vez em voz alta: “Eu vou dizer uma coisa para vocês: ‘Tudo isso que está acontecendo aqui está escrito na Palavra: os falsos profetas aparecerão’”, disse, apontando o dedo para um cartaz fixado no vidro da cabine do motorista. Perto de mim, uma senhora resmunga: “esse velho é muito chato”.
Quem o viu subindo no ônibus jamais poderia imaginar o poder de suas provocações. Embarcou com uma carteira de identidade na mão, pela porta da frente. Na mesma mão, segurava uma sacola com vinho de açaí. Um lado de seu olho tinha a pálpebra arriada, que mostrava uma forte mancha de sangue. Calçava uma sandália franciscana, vestia uma calça marrom e uma camisa amarela com a imagem de uma santa carregando uma criança. Contornando essa imagem, havia uma frase: “Festa de Nossa Senhora do Carmo”.
À medida que olhava para o cartaz e insistia nos protestos, os comentários sobre o mesmo assunto tomavam conta da viagem. Uma passageira, porém, se aproxima dele e tenta fazê-lo mudar de assunto: - O senhor vem de onde? E ele responde, cantando: - “Eu venho do sul e do norte, do oeste e do leste, de todo lugar”.
Bastou ele cantar esse pedacinho de música e lá estava eu lembrando do catecismo e completando a canção: “Estradas da vida eu percorro, levando socorro a quem precisar”. Outro passageiro, pouco mais atrás de mim, continuava: “No peito eu levo uma cruz, no meu coração o que disse Jesus...”. A mulher continua a conversa: - Quantos anos o senhor tem?
E ele encheu a boca: - Minha filha, tenho 82 anos de idade. Estou casado há 60 anos com a mesma mulher. Não sou desse tempo que casa hoje e larga amanhã.
A essa altura, eu até havia esquecido das provocações que o velho vinha fazendo, mas novamente ele retomou a conversa: - Vocês não se incomodam com isso, disse apontando o dedo novamente para o cartaz.
Eu não agüentei a curiosidade. Peguei meu caderno de nota e me apressei para ler o cartaz. Estava ali a ira do idoso e o motivo da guerra santa na viagem do 651. O anúncio dizia assim: “Incrível! Ele faz tudo: faz paralítico andar, faz mudo falar e todo tipo de milagre. Milagres sem limite! Neste domingo, no Centro Cultural Povos da Amazônia, às 13h, com o missionário David Miranda”.
Enquanto eu lia o cartaz, percebi que o clima se fechou. Um jovem, mais exaltado, ameaça o velho. Outro o defende. Começa então a troca de ofensas. Ele percebe que o tempo se fecha para o seu lado, faz sinal para o desembarque e desce, de fininho.
*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Ilustração: Carlos Myrria.Marcadores: Crônicas
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Face ignorada da crise
quarta-feira, 4 de março de 2009

Ivânia Vieira*
As mulheres são, na maioria das regiões do mundo, as mais afetadas pela exploração descontrolada dos recursos da natureza, a especulação e a financeirização da economia. As atuais crises econômica e ambiental têm sido objeto de discussão e da ação das autoridades mundiais diante do desastre da ciranda irresponsável por elas alimentada. Grandes volumes em dinheiro vêm sendo aplicados por governos para salvar bancos e determinados setores empresariais.
Não se discute, com a mesma disposição, o efeito desse colapso lá na base, onde uma multidão de mulheres, nos países do Norte e do Sul, responde cada vez pela manutenção das famílias, a assistência médica, a educação, enfim, por garantia de vida a crianças e a idosos que, sem essas mulheres, estariam mortos.
Não é preciso ir longe. Basta olhar no entorno desta cidade. Elas estarão por lá, em grande quantidade. Driblam a crise da qual são vítimas ignoradas há muito tempo. Multiplicam os grãos de arroz, do feijão e da farinha, recriam o peixe e a carne de frango, como milagre diário, para assegurar o alimento aqueles que delas dependem. Têm a carga de trabalho duramente afetada pela escassez e falta de água e, consequentemente, a sua saúde, na expressão mais larga do significado ser saudável.
As mulheres são, nesse momento, a testemunha maior do mal produzido à humanidade pelo sistema que tenta ser reformado e, assim, manter a escala de exploração e precarização. O que está efetivamente sendo feito para proteger o trabalho e o direto à renda digna das mulheres? Quantos dirigentes mundiais patrocinaram ações para alcançar essas mulheres?
A lógica, reforçada pela mídia feito lavagem cerebral, é falar do nervosismo do mercado, das ações despencando nas bolsas. Fortunas têm sido feitas e usadas para sustentar um modelo só possível na expropriação até o minuto final das pessoas, da terra, da água, do ar.
Contra isso, reafirmamos: “Nas ruas e em nossas casas, nas florestas e nos campos, no prosseguir de nossas lutas e no cotidiano de nossas vidas, manteremos nossa rebeldia e mobilização” - trecho da Declaração da Assembleia de Mulheres no FSM 2009.
* Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam. Marcadores: Artigo
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O vaivém das águas

Wilson Nogueira* O sol nem pusera a cara para espiar o rio Amazonas. Azar dele. Quando as águas refletirem o brilho causado pela briga dos feixes de luz através do emaranhado do igapó da beira do riozão, a bajara de Chicão já estará a meio caminho do lago do Xibuí, perto da cidade de Parintins (AM). A embarcação, impulsionada por um motor rabeta, também leva Maria, a mulher de Chicão, eu e o antropólogo Anibal Garcia, pesquisador de tecnologias tradicionais.
“Essa viagem, a remo, durava metade de um dia. Agora, quando o sol estiver em cima das nossas cabeças já estaremos em Parintins, de volta”, explica. O ofício de pescador impõe a Chicão o contato constante com a água. “Criei sete filhos com dinheiro da pescaria. Um está na universidade”, enfatiza, orgulhoso de si.
Naquela segunda-feira de Carnaval não haveria pescaria. O pescador e sua mulher, mais os caronas, foram resgatar as galinhas que, com mais uma semana, ficariam sem chão e se tornariam comida de jacarés e sucuris. O vaivém anual das águas impõe o ritmo da vida nas várzeas amazônicas. As águas sobem, engolem as terras, as plantações, espalham os peixes e carregam os insetos e outros bichos para os “terreiros” e para dentro das casas. A vida fica mais difícil e mais perigosa sobre as águas nessa época. Atualmente, são poucas as famílias que permanecem o ano inteiro nas várzeas, principalmente naquelas perto das cidades.
Na vazante, quando essas terras se espraiam para a agricultura de curto ciclo e para as pastagens das criações de gado e de pequenos animais, a vida do ribeirinho também se renova. “A vida na várzea, no verão, é uma beleza: há mais fartura de comida do que na terra firme”, compara Chicão.
Encolhidas, as águas formam lagos e lagoas para favorecer a reprodução de diversas espécies. Mas os peixes não são tão abundantes quanto antes. A pesca predatória, realizada com imensos arrastões, não permite a seleção adequada dos peixes à comercialização. Os ribeirinhos são os primeiros que sofrem o impacto imediato da escassez do pescado. Em determinadas localidades, como no Xibuí, o peixe é a principal fonte de alimento e de renda. As idas e vindas das populações entre terras altas, terras baixas e as cidades decorre da busca incessante por vida digna.
Assim como a família de Chicão, parte dos moradores das terras baixas transfere suas criações para a terra firme, que, irrigada pelas chuvas, passa a abrigar pastagens e plantações que se enfraquecem nos longos períodos de sol.
As galinhas da família Mota Ribeiro passarão o verão nas terras altas banhadas pelo rio Mamuru, mas, antes, permanecerão alguns dias em Parintins, em um terreiro acanhado próximo ao curral tradicional do boi-bumbá Garantido, na Baixa de São José.
O Poder Público bem que poderia compreender melhor a dinâmica da vida comandada pelo ciclo dos rios. Há milhares de anos esse fenômeno se repete. As mudanças que hoje flagelam os ribeirinhos a cada enchente ou a cada estiagem mais intensas decorrem, principalmente, da redução brusca dos estoques de alimentos na várzea e na terra firme. Em suma: a mercantilização da natureza a encolhe, e, assim, a vida fica mais difícil.
Ainda há tempo.
*Sociólogo, jornalista e escritor.
Marcadores: Artigo
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Fugindo da morte
segunda-feira, 2 de março de 2009
Neuton Corrêa*
Jamais poderia imaginar que ele fosse capaz de brincar com a morte do próprio pai. Foi além! Brincou com a dor da mãe que acabava de perder o companheiro de 40 anos de casamento. Mas se não fizesse piada disso não seria ele. Para se ter idéia, ele só chamava o pai de “fêmea”. Aliás, fêmea também era como tratava seus doze irmãos.
Encontrei ele a bordo do 453. Quando notou minha presença na viagem, gritou: “Fala, corninho?”. E eu: “Fala, cornão?”. Alcidiney Santos é o nome desse meu amigo. Fazia alguns anos que não o via. Parecia mais peludo, talvez por causa da barba que deixou crescer.
Bulba, com também é conhecido, é daquelas figuras que não se deixa abalar com nada. Após trabalhar como pintor e vendedor de picolé do Brasa, conseguiu emprego no Bradesco. Começou como office boy. Pouco tempo depois virou caixa do banco. Nesse período, conheceu a esposa com quem teve três filhos: dois meninos e uma menina, que nasceu dez anos depois do segundo.
No auge de seu emprego, porém, as coisas mudariam. Lembro-me que nessa época ele já admitia a possibilidade de ser alçado ao cargo de gerente. Tudo caminhava bem, até quando foi persuadido por um amigo a cobrir um cheque sem fundos. Foi descoberto. Menos de uma semana depois, foi demitido sem direito a nada.
Sem nenhuma poupança, tentou de tudo. Até vender bala de mangarataia. Era distribuidor. A fábrica funcionava nos fundos da casa de um de seus irmãos. Naquele tempo, a mangarataia vendia bem e ele já dominava o mercado. Mas a concorrência fez o faturamento do negócio cair e Bulba procurou outra coisa melhor.
Tentou a venda de banana na estação de ônibus do Centro, em frente à Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Foi lá que o encontrei desde o tempo em que ele morava perto de casa, quando trabalhava no banco. Ele comprava banana na Manaus Moderna. Escolhia os melhores cachos. Levava para a estância onde morava no igarapé de Manaus e saía para a venda, empurrando um carrinho de mão.
Desde esse dia passei a admirá-lo. Só não gostava do modo como falava: gritando: “Fala, corninho”.
No dia em que o encontrei no 453, tentei, sem sucesso, fazê-lo falar baixo. Impossível. Forcei lembrá-lo da família e perguntei: - Cadê a fêmea? E ele respondeu: - Hum! A fêmea morreu, mano. Fiz uma cara de triste, lamentei e tentei confortá-lo: - Faz tempo? - Nada, morreu ano passado, disse ele sem nenhuma cerimônia.
Em seguida continuou: - Deixa eu te falar uma coisa: “Depois que o papai morreu, eu ia todo dia em casa para tentar animar a mamãe. Mas não tinha jeito. Eu chegava lá e encontrava ela assim, sentada, na mesa da cozinha. (Ele imitava a mãe, colocando o cotovelo direito sobre a mão esquerda aberta e o rosto repousando sobre ela, como se estivesse dormindo. Para completar a imitação, ainda abria a boca como se estivesse mastigando e bocejando).
Aí, eu procurava café, não tinha; procurava comida, não tinha; procurava alguma coisa para mastigar, não tinha. Para não chorar com ela, eu dava um cheiro na mamãe e ia embora.
Um dia resolvi acabar com isso. Cheguei na casa da mamãe, revirei tudo e disse: - Mamãe, não tem nada aqui nessa casa? Aí ela respondeu: - Ah, meu filho, desde que teu pai morreu, a única coisa que eu espero todo dia aqui é a morte. Corninho, disse-me ele, ela acabou de falar, peguei meu capacete e me despedi. Quando dei, ela falou: - Meu filho, mal tu chegou e tu já vai? A aí eu falei: - Já, mamãe, já vou! Vou embora antes que essa morte chegue, erre a senhora e me acerte”. Ri dele e o convidei para visitar a minha casa. Ah, hoje Alcidiney atua no ramo de diversão. É dono de uma casa noturna.
* Filósofo, estudante de Jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Carlos Myrria. Marcadores: Crônicas
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