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A morte de dona Bundinha
sábado, 14 de março de 2009
Neuton Corrêa*
Por descuido, saí do trabalho com o crachá no peito. Não passava por mim que o vacilo me faria viajar no tempo. Nem que aquela identificação tocaria no maior constrangimento de quem escreve em jornal: a descoberta do erro. A propósito, evitar o erro é uma luta diária de quem trabalha nesta profissão. Tenta-se de tudo, mas sempre eles passam pelo crivo.
Agora, minha preocupação com isso aumentou. Aumentou porque nesse dia que saí do jornal com o crachá fui abordado por um cidadão, durante um deslocamento no Interbairros 002. Era um senhor alto, forte e claro. Parecia que havia acabado de sair de um compromisso importante. Usava calça e paletó preto e uma camisa verde por baixo. Calculei que tivesse mais ou menos 75 anos idade.
Quando embarquei, esse cidadão já estava na viagem. Assim que sentei, estranhamente, ele passou a me olhar. No primeiro momento, disfarcei. Virei o rosto para o outro lado, fingindo olhar para a rua, mas, na verdade, observava-o pelo reflexo do vidro da janela do ônibus.
Ele estava querendo ler o meu crachá. Tanto que se levantou, saiu de seu lugar e se curvou em direção ao meu peito. Quando percebi o interesse dele, virei a identificação. E ele sorriu e disse: “O senhor trabalha no Manaus Hoje?” Respondi que sim e continuou:
- Eu fui amigo do seo Calderaro. Um dos jornais que trabalhei foi no jornal A CRÍTICA. A conversa me interessou e perguntei: - Quando? E ele: - Faz muito tempo. Eu trabalhei em vários jornais. Hoje, estou aposentado. A única coisa que faço com jornal é ler. Leio todo dia.
Notei um saudosismo em suas palavras e procurei aproveitar melhor aquele encontro, perguntando: - Em quantos jornais o senhor trabalhou? - Eu sou do tempo em que o Jornal do Commercio era feito pelo seo Vicente Reis. Você sabe quem foi ele?
Respondi que não e ele continuou: - Foi o pai do governador Arthur Cézar Ferreira Reis, o primeiro governador do Amazonas após o golpe militar de 1964. Você não deve lembrar. Nem eu quero lembrar, disse fechando o olho e suspirando, profundamente.
Alegre com o assunto, exibi um pouco do meu conhecimento sobre o assunto: - O governador Arthur Cézar é considerado até hoje o mais intelectual de todos os governadores que passaram pelo Estado. Dizem que escreveu mais de 200 obras. Eu só não sabia que Vicente Reis era pai dele.
- Vicente Reis era muito zeloso pelo jornal dele. Ele ajudava pegar matéria, escrevia, ajudava a imprimir e ainda ia para o balcão vender jornal, porque naquela época não tinha distribuição. Foi aí que ele lembrou a história do erro do jornal: - Vou te contar uma história daquele tempo:
“Morreu uma mulher famosa na cidade. O nome dela era Raimunda, mas era conhecida como ‘Mundinha’. O jornal anunciou a morte, convidando o povo para o enterro. Mas, ao invés de escrever “Mundinha”, por um erro na composição do jornal - que aquela época era feito no linotipo - escreveu “Bundinha”. Quando o jornal circulou, foi uma correria. O pessoal ia comprar de dois, de três, de cinco jornais. O seo Vicente ficou desconfiado do movimento, descobriu o erro, corrigiu e fez outra rodada. Depois disso, apareceu um menino e pediu dez jornais. O garoto saiu de lá e não demorou muito voltou e disse: ‘Não, Seo Vicente, não é esse o jornal que o papai quer: ele quer o jornal da imoralidade mesmo, o da dona Bundinha.”
Não contive o riso e dei gargalhadas, imaginando o título: “Morre dona Bundinha”.
*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Ilustração: Myrria.Marcadores: Crônicas
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Católica e excomungada
quarta-feira, 11 de março de 2009
Ivânia Vieira*
A Igreja Católica conseguiu demonstrar como uma instituição pode ser mais cruel do que a crueldade. Foi o que fez, por meio do arcebispo de Olinda e de Recife, d. José Cardoso Sobrinho, na semana passada, ao excomungar as pessoas envolvidas na interrupção da gravidez de uma menina, de 9 anos, estuprada pelo padrasto e sob risco de morte.
O arcebispo lançou uma sentença terrível sobre uma mulher desprotegida, extremamente carente e vítima de uma das piores situações de violência. A garota e a mãe precisavam de proteção e de misericórdia. Foram amaldiçoadas e estão duplamente marcadas para sempre. Qual é o crime delas? É angustiante ouvir, em 2009, um arcebispo minimizar o crime de estupro diante uma gravidez interrompida.
Ignorar todos os indicadores dessa situação e criminalizar a vítima, como definiu o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. A atitude de d. José Cardoso Sobrinho nega Jesus Cristo - Aquele que deu a vida por amor à humanidade, que é abrigo aos desabrigados, acalanto aos aflitos, a justiça para os injustiçados.
O caso da menina pernambucana não é isolado. Expõe uma condição de desigualdade usada por setores da Igreja Católica e de outras religiões quando se posicionam em relação a mulher. O doído é constatar a voracidade com que tais setores se lançaram contra pessoas tão fragilizadas, sem chance sequer de compreender a razão de tanta fúria, de Pernambuco ao Vaticano.
Como mulheres católicas, fomos também atingidas e nos sentimos excomungadas como aquela mãe e, por consequência, a filha dela. Não aceitamos, igualmente, a guerra ora reforçada entre as religiões, por meio de seus conglomerados de comunicação, para arrebanhar mais fiéis. Não há dignidade nem presença de Deus nesses episódios. Há uma perigosa deformação Dele – ao passar como trator sobre as pessoas mais vulneráveis. Que Deus tenha piedade desses homens.
* Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam.Marcadores: Artigo
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Hanneman e o traço do esquecimento
terça-feira, 10 de março de 2009
Gerson André Albuquerque Ferreira*
Os traços de Hanneman Bacelar podem desestabilizar e causar uma crise aguda pela sensação de estranhamento frente às figuras do suposto imaginário e cultura amazônica, pois despreza os critérios adotados e institucionalizados. Em sua genialidade ele compõe uma leitura diferenciada da verdade histórica construída e preservada através dos recursos e estratégias conciliatórias.
Ele despreza esta verdade e exige assim uma nova postura, uma outra sensibilidade, sugerida em seus quadros em suas combinações arrojadas de subjetividade e movimento, como se quisesse induzir a uma comunicação profunda não somente da sua angústia pessoal, mas, sobretudo, de uma angústia coletiva realçada no rosto, no corpo e nos movimentos daqueles que foram (sub) traídos tanto da representação artística como da marcação histórica, seja em sua luta, sua contribuição ou seu sofrimento.
Marcio Souza diz encontrar nos quadros desse artista uma forma do desejo através da unida textura do óleo, e do envolvimento constante do autor e da obra, como se fossem gestos de carícia e de delírio. Seus quadros reúnem ainda em seus traços, costumes amazônicos retratados no recato e na ingenuidade das moças do interior, como também na sexualidade desmedida superpostos nos movimentos das mulheres que transitam na Rua Frei José dos Inocentes (que não era tão inocente assim) tratados no dizer de Marcio Souza com ironia e ternura.
Hanneman retrata como nenhum outro artista, a constituição pictória da experiência urbana, instituindo uma relação ambígua entre a modernidade e a tradição, pois soube compor como ninguém a tragédia e a agonia das populações amazônicas, não somente na alienação do homem do interior, como também na composição do massacre das populações indígenas.
Este artista rompe definitivamente com a passividade quase absoluta da arte amazonense indicando outra via de acesso, uma via que escapa da colonização do sentido, imposta no decorrer do tempo histórico, por isso é um aceno perigoso e desmemoriado. Pois, quem tem acesso às obras desse artista?
No dia 22 de fevereiro foi o dia em que Hannenam cravou uma tesoura no seu peito. Um artista dotado de vontade e imaginação, filho negro de uma zeladora que parece não ter levado em conta as mediações de uma sociedade e cultura e que faz questão de preservar-se nas suas combinações estruturais.
Tateando o sentimento daqueles que tiveram a felicidade de acompanhar o momento produtivo desse artista em sua imaginação desmedida posso somente reafirmar o protesto destes em relação ao esquecimento do artista que soube como nenhum outro combinar agonia e beleza.
* O autor é sociólogoMarcadores: Artigo
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“Meu filho era lindo”
Neuton Corrêa*
Existe dor que não passa e ferida que não cicatriza. O tempo, remédio para tudo, é nada. E quando o tempo não passa, ele não é tempo: é eternidade, pensava assim Santo Agostinho, o mais sábio de todos os santos.
Não por acaso lembrei-me de Agostinho. Mas por causa do acidente que vivi a bordo de um ônibus, cuja linha não revelarei. Calo não por cumplicidade, mas por compreender o motivo que fez o motorista jogar o carro sobre uma calçada do núcleo 16 da Cidade Nova.
Comigo, nada aconteceu. Nem com a meia dúzia de passageiros que estava na viagem. Além do susto, só protesto das pessoas que xingaram o condutor.
Depois da batida passei horas pensando no poder da memória. É como algo mágico, inexplicável. Mais inexplicável ainda é quando a memória se abre sem que se queira e dela se tire aquilo que se tenta esquecer: a eternidade da dor.
Aquele dia seria mais apenas um dia se o acidente não alterasse a rotina. Pegava essa linha no núcleo 3 para desembargar no 16 e de lá fazer integração no 439, que me deixaria na frente do jornal.
O hábito me fez conhecer a tripulação inteira da rota, principalmente aquele motorista que bateu o ônibus. Tratava-se de um cidadão que faz questão de cumprimentar seus passageiros, seja para dar um bom dia ou para desejar bom trabalho ou mesmo para um bate papo.
Essa rotina se repetia. Aliás, nesse dia, ele não puxou conversa com ninguém. Para mim, deu um sinal de positivo com o polegar e depois sorriu, contraindo a boca fortemente. Corria mais do que o normal e deixava o barulho da sucata que dirigia ainda pior.
A viagem, porém, mudou quando um passageiro chamou o carro perto da escola Engenheiro Arthur Soares de Amorim. O cidadão tentou entrar por trás, mas o motorista não abriu a porta e fez com que ele subisse pela frente.
Quando ele embarcou, que olhou para o motorista, gritou: - Puuuuta que p.... Olha quem está por aqui! A conversa chamou a atenção de todo mundo. E ele continuou: - Cara, quanto tempo? Porra, por onde tu andava?
Notei que o motorista tentou parar o carro, dava sinal que iria retirar o cinto de segurança, mas hesitou. E continuou acelerando, mas o trecho que poderia ter sido feito em dois minutos se alongou por muito mais.
Nesse tempo, em marcha lenta atualizaram a conversa: - Como vai a fulana?, perguntou o amigo. E ele respondeu: - Ela casou, tem filhos. Está muito bem! - Com aquele da fábrica? - Sim, com ele mesmo. - E o fulano? - Saiu de lá. Esse está lascado, também está puxando carro, disse ele, rindo.
O ônibus parou novamente, mais um passageiro embarcou e ele voltou ao papo: - Cadê a nossa amiga?, disse, levantando as sobrancelhas. - Ali, não tem jeito: está no terceiro marido.
Tentei captar o tempo que os dois não se viam, mas não consegui. Depois de falarem da ex-colega namoradeira, olharam-se e riram um do outro, até que uma fração de silêncio entrou na conversa para ser quebrada por uma pergunta do passageiro:
- E o teu filho, como está?
A pergunta ficaria sem resposta. O motorista tentou, mas não conseguiu. Seu rosto perdeu o sangue. Suas mãos começaram a tremer e ao tentar fazer uma curva o carro subiu na calçada. Após o impacto, ele se debruçou sobre a direção e ao voltar-se para o amigo, estava com os olhos vermelhos e o rosto molhado. Até que, finalmente, com voz trêmula, conseguiu falar: - Pô, cara, meu filho era lindo!
*Filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Ilustração: Heli. Marcadores: Crônicas
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