Meu pequeno vizinho

sábado, 4 de abril de 2009


Neuton Corrêa*

Marcus Victor domina, como poucos, os códigos do mundo das drogas. Diferencia a pasta do pó; a fumaça de tabaco da fumaça de maconha. Conhece quem fornece, quem distribui e quem usa. Sabe até o que a Polícia faz quando entra em sua casa. Marcus Victor tem cinco anos de idade. E já é um adulto.

Depois que os passarinhos deixam os jambeiros da rua e o sol ainda se espreguiça vermelho na copa da floresta do Parque Samaúma, ele aparece. Quando levanto para pegar o jornal, ele já está ali me esperando pronto para repetir a pergunta que ouço todos os dias: “Tio, cadê o menino (menino é o meu filho)”.

Mãe é uma palavra que Victor pouco usa. Ela o deixou na casa da tia, quando ele estava com três anos. Sei disso porque, quando aparecia tagarelando por perto de casa e lhe perguntavam a idade, ele prendia o indicador e o polegar e levantava os outros dedos para dar a resposta.

O pai dele era “sócio” da TV a Cabo Vivax e da Manaus Energia. Ganhava a vida fazendo gatos. Logo que a Vivax chegou pelas bandas de casa, o pai do Victor andava de madrugada para cima e para baixo com uma escada no ombro para escalar os postes. Há dois anos ele sumiu. Dizem que está ajustando as contas com a Justiça.

Conheci o Marcus Victor num sábado. Ele brincava com alguns colegas de subir e descer uma rampazinha de sua casa. Puxava o arranque do meio da rua para se atirar até o topo da ladeira. Nessa brincadeira, não foram duas nem três vezes que fez os carros frearem perto de seu minúsculo corpinho.

Naquele dia, passei a manhã arrancando capim do meio da grama que cerca meu quintal. Por volta de 11h, o Victor voltou a aparecer na rua. Vestia um calção-balão que roçava o asfalto, ao mesmo tempo em que o segurava pelo cós para não cair. Nos pés, arrastava uma sandália onde cabiam três pezinhos dele.

Ele caminhou desconfiado de casa em casa. Bateu na primeira porta, ninguém lhe atendeu. Foi para a segunda e gritou: "Vizinha, vizinha, venha aqui comigo". Mas a vizinha não apareceu. Depois disso, encostou o rostinho no ombro e veio em minha direção e falou alto: “Tio, eu estou com fome, o senhor me dá um prato de comida?”.

Nesse dia, senti uma profunda dor n’alma e pensei comigo: “O Victor já sabe viver”. Mas só tive a certeza disso quando a polícia bateu em sua casa, num fim de tarde. Assim que a viatura apareceu, o Victor correu para vizinhança. Meu vizinho “Pam-Pam” brincou com ele:

- Olha, Victor, a Polícia vai prender tua tia.
E ele respondeu em sua inocência:
- Não, tio, ela não tem dinheiro hoje.

Ontem, ao tomar ônibus para vir para o trabalho, encontrei o Victor. Ele embarcou na mesma linha. O tio dele, que não possui uma das pernas, entrou pela porta da frente. Ele foi por trás. Assim que entrou, atirou-se rastejando por baixo da catraca. Depois, exigiu um lugar para se sentar na janela, onde ficou brincando com dois bonecos que levava consigo.

Afinal, Victor é apenas uma criança.

* Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

Marcadores:

0 Comentários



Charge do Myrria


Marcadores:

0 Comentários



Segredos na cidade

sexta-feira, 3 de abril de 2009

De: Arilúcio Bastos Lobato

Noite de solidão
As luzes invadem o pára-brisa
A cidade está deserta
Mas existe um mundo
Neste minúsculo espaço
Que pulsa para te encontrar

Cadê você? Por onde andas?
Por que simplesmente não invades a minha vida?
Destila toda a tua ferida e deixa eu te curar

Cala a tua boca, mas fala tudo aquilo que preciso ouvir
Enche meus ouvidos com os teus desesperos
Deslizando as mãos pelos meus cabelos
Talvez eu possa te ajudar

Tenho certeza de que posso derramar na tua mesa
Palavras que aliviarão a minha alma
Que me trarão a calma
Por precisares de mim

Prefiro acreditar que o desespero é teu
Prefiro aceitar que as minhas coisas são tuas
Prefiro dizer que me amas
Pra te levar pra cama e curar a minha dor

Chega! Quebrei as minhas regras
Ultrapassei os meus limites
Já te dei vários palpites
Reconhece o meu valor

Acabei de te ver
Então, entra e senta
Olha nos meus olhos e comenta
Pois a música é pra te agradar

Agora é que percebi
A cidade é pequena
E já nem é tão deserta assim
Ainda existe aquele mundo de emoções

É minha linda
Só entrei nesta rua
Para reconhecer minha fraqueza
Debruçar na tua mesa
E dizer que te amo.

Marcadores:

0 Comentários



O historiador

Massilon de Medeiros Cursino*

Em uma festa de fundo de quintal, a convite de um amigo, sentei em sua mesa. O amigo estava a confabular e beber com seus colegas acadêmicos do curso de História da Universidade do Estado do Amazonas.

Estudantes universitários, naturalmente, já conversam assuntos da academia, fazem citações e outras formas de mostrar seu recrudescimento intelectual. Amparado por uma empolgante cervejinha, o assunto vai mais longe, a filosofia chega ao estágio de divagação.

Foi exatamente assim que encontrei o ambiente ao qual fui convidado a participar. O assunto em pauta era Jean-Jacques Rousseau e sua obra “O Contrato Social”, um dos mais importantes trabalhos da filosofia política, que trata da livre associação de pessoas inteligentes, que deliberadamente resolvem formar um certo tipo de sociedade, à qual passam a prestar obediência mediante o respeito à vontade geral.

Havia entre os que preenchiam a mesa, alguém mais retraído, que quase não fazia intervenções, porém estava sempre atento à conversa. Alguém que era mais observador que interpelador, que não me era estranho, mas não conseguia determinar de onde o conhecia.

Falou-se também em ascensão por meio da educação, como o caminho mais seguro e correto para ser próspero e mudar sua condição social. Lembrei então da filosofia social de Rousseau, o estudioso iluminista que também desenvolveu trabalho sobre o conflito entre as sociedades modernas e a natureza humana, ressaltando o paradoxo da superioridade do estado selvagem, que proclamava a volta ao estado natural.

Foi em meio a essas confabulações que descobri quem era aquele taciturno confrade de mesa; ele me fez lembrar que era o vendedor de bombons que trabalha em frente ao colégio onde meus filhos estudam.

Esse é um exemplo da ação da universidade como plataforma de acesso à mudança social, capaz de fomentar a integração e o desenvolvimento intelectual do Homem.

Confesso meu contentamento e minha exultação em saber que o bombonzeiro da escola, como meus filhos o chamam, em breve será um historiador.

* Economista, bacharel em Direito e membro da Academia Parintinense de Letras (APL).

Marcadores:

0 Comentários



A sabedoria da velhice

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Tony Medeiros*

Confesso, com todas as letras, que por mais que tenha passado dos quarenta anos jamais havia pensado na minha velhice. Talvez porque poucas vezes eu tenha me despertado para ela. Vou tentar justificar: não conheci nenhum dos avós paternos, também não conheci a minha avó materna, e eu ainda era criança quando o meu avô morreu.

As lembranças são vagas. Para completar, meu pai faleceu com sessenta anos, quando somente alguns fios de cabelos brancos começavam a dourar-lhe a terceira idade. Graças a Deus, como presente divino, tenho minha mãe, hoje com 71 anos. Portanto, única da minha família a viver e conviver conosco essa fase da vida.

Procurado por companheiros que fazem parte do Conselho do Idoso, para fazer um cordel sobre a velhice, fui despertado a me interessar um pouco mais pelo assunto. Comecei pelo Estatuto do Idoso. Fiz pesquisa na Internet e em outras fontes, até me deparar com Cícero, em sua obra "A velhice saudável", escrito antes de Cristo, o que me fez envolvido e apaixonado pelo assunto

Todo jovem espera viver longos anos, e longos anos significam velhice. Velhice implica a falência do vigor físico, que provém muito mais dos vícios da juventude do que da própria velhice; e a morte, embora pareça bem perto do idoso, é um risco compartilhado em qualquer fase da vida. Portanto, a morte é algo comum a qualquer idade.

Talvez por preconceito, muitos afirmam que os idosos são morosos, ansiosos, irascíveis, rabugentos e avarentos, como se não existissem jovens e crianças com as mesmas qualidades, até porque esses defeitos são influências sociais e não apenas desculpas dos preconceitos da velhice. Analogicamente, assim como nem todo vinho vira vinagre nem todo individuo azeda na velhice.

Cientificamente, já está provado que o poder da memória só decresce se ela não for cultivada. Exemplos de idosos com memórias ricas não faltam, e para muitos povos indígenas o velho é a sabedoria. Quanto ao vigor físico, ele decresce, mas em compensação seu vigor ético-moral reforça-se, já que "a velhice amadurecida em sabedoria, torna-se pólo de atração para a juventude ávida de aprendizagem". Resumindo: o corpo e a mente se aliviam quando exercitados.

Todos somos velhos. O que foi concebido é velho se comparado ao que ainda não nasceu. O jovem é velho para a criança e, sem perceber, comumente usamos o termo "mais velho". Assim, a busca de algo novo encanta a vida e essa abertura receptiva faz da velhice um magistério simpático para a juventude, ainda mais quando percebe que também o velho está aprendendo.

As questões sexuais são mais expressivas nos jovens do que nos velhos. Nem por isso todos adolescentes só pensam em sexo. Assim, também, acontece com os idosos: a alternância no comportamento sexual não provém, necessariamente, da idade, mas pode, também, decorrer de problemas psíquicos.

O ensinamento de Cícero, a respeito da velhice continua atual, pois assim como antes de Cristo "a velhice é honrada na medida em que se defende a si mesmo, não abre mão dos seus direitos, não se submete a outrem e, até o último suspiro, não perde o senhorio sobre os familiares".

Por isso, é belo um jovem com a sabedoria de um idoso, assim também como um idoso com um espírito atual e jovem.

* Tony Medeiros é artista, cantor e compositor, graduado em Educação Artístico e pós-graduado em Tecnologia Educacional pela Ufam.

Na foto, Kaku Yamanaka, a mulher mais velha do Japão, que morreu no ano passado aos 113 anos de idade.

Marcadores:

1 Comentários



O porto incômodo e a autoridade

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Wilson Nogueira*

A provável construção de um porto no Encontro das Águas deslegitima a pretensão de referência ecológica do Amazonas em escala mundial. Quem será capaz de acreditar que o estado que menos derruba árvores e paga bolsa floresta a caboclos é o mesmo que permite a descaracterização do cartão postal da Amazônia? A geógrafa Bertha Becker, que vislumbra Manaus como o status de capital mundial em razão do ativo ambiental que possui, também se indignará com a conivência de autoridades locais e nacionais com o capitalismo de terra arrasada.

É de se estranhar que o governador Eduardo Braga, que arrecada dinheiro com marketing verde, tenha tapado os ouvidos ao apelo da sociedade civil em favor do bom senso. A imagem de garoto verde do governador, disseminada na imprensa nacional e internacional, derrete-se diante da indiferença dele nesse episódio. Ao menos até agora. O titubeio lhe causa constrangimento público e prejuízos incalculáveis a pessoas e à natureza.

Ninguém é contra a construção desse e de outros portos que amplie a logística do setor produtivo. Ninguém rasga dinheiro nem dispensa empregos! Os manauenses querem quantos portos vierem, desde que eles sejam construídos em lugares adequados, com menor impacto ambiental possível. Aliás, o chamado capitalismo moderno se orienta pelo conceito de sustentabilidade, que atende a interesses econômicos, sociais e ambientais. Então, a pergunta que não quer calar é essa: que tipo de capitalismo é esse que quer danificar o Encontro das Águas, um lugar que une beleza natural, valor histórico e sentimental, diversidade biológica e enigmas ainda por serem decifrados pela ciência?

O movimento de defesa do Encontro das Águas, felizmente, amplia-se a cada dia. É mais um José, um João, uma Maria, uma Joana, uma Joaquina, uma Socorro, que se juntam ao Márcio, ao Tenório, ao Ademir, ao Dori, à Ivânia, à Elisa e daí por diante. Esticou-se de tal forma que chegou o Congresso Nacional por meio dos senadores João Pedro, Artur Neto e Jefferson Praia e do deputado Francisco Praciano; já alcançou os ministérios da Cultura e do Meio Ambiente. E pode até invadir os escritórios dos banqueiros e empresários que financiam "projetos verdes" no Amazonas. Essa gente, de uns dias para cá, tem evitado grudar a imagem de suas empresas e negócios a pessoas, eventos e/ou atitudes antiecológicas.

Fica claro que o Encontro das Águas é um símbolo que une em torno de si pessoas dos mais variados segmentos sociais e profissionais. Primeiro, porque tem o reconhecimento de que é um singular patrimônio natural e turístico; segundo, pelo sentimento de pertencimento que ele transmite aos amazonenses e amazônidas. Esse pedaço é nosso! Ele pertence a todos nós. E que assim seja, para que a luta das águas dos dois gigantes amazônicos encha os olhos dos turistas e inspire os poetas eternamente.

Mexa-se governador! Não deixe que a sua autoridade esverdeada lhe escape entre os dedos das mãos.

* Sociólogo, jornalista e escritor.

Marcadores:

0 Comentários



Quem prostitui

Ivânia Vieira*

Corruptores contumazes, homens que usaram a condição de servidor público para usurpar direitos da população receberam títulos de honra nas casas legislativas do Amazonas e de Manaus. Para eles, foram estendidos tapetes vermelhos e grandes festas preparadas às custas do dinheiro público.

Parlamentares habituados à subserviência apressaram-se a oferecer comendas para figuras alheias à história e às lutas travadas pelos povos deste Estado. Distantes também estavam das causas mais sensíveis do povo brasileiro. Apenas utilizaram o lugar de autoridade temporária para promover seus negócios privados usando o espaço público.

Não vimos vereadores honrar seus mandatos questionando o comportamento do Poder Legislativo. Silenciaram e muitos até se colocaram na primeira fila para falar da emoção que sentiam ao fazer parte do ato solene de entrega da honraria. Não vimos vereadores evocarem o respeito à família amazonense e lutar com veemência contra tais titulações hoje apresentadas como nódoas da história do Legislativo.

É pequeno, atrasado e farsante o ritual do grupo de vereadores que vetou, ontem, o título de utilidade pública à Associação das Prostitutas do Amazonas (As Amazonas). Acima de tudo é perigoso e deve servir de alerta a eleitores e à sociedade quanto à manipulação grosseira tecida em torno dessa proposta.

Em 2006, a então vereadora Lúcia Antony (PCdoB) propôs a criação do Parque dos Orixás. Chegou a ser hostilizada e o projeto arquivado em nome de um zelo esquisito.
Há na postura de parcela dos legisladores municipais uma manifestação de discriminação, preconceito e engodo no trato de questões que já deveriam ter sido superadas.

A ameaça à integridade das famílias e o atentado à moral não residem nas Amazonas ou em um título de utilidade pública a essa organização. Outras, documentadas, se apropriaram do dinheiro público para garantir mandatos. São hoje objeto de denúncia oferecida pelo Ministério Público. Isso sim é um atentado, é lesivo à comunidade e uma afronta.

* Jornalista, professora do Curso de Comunicação da Ufam.

Marcadores:

1 Comentários



A praça e a saudade

segunda-feira, 30 de março de 2009

Ana Celia Ossame*

Não pensei que a ida, no último sábado, 28, à recém-reinaugurada Praça Heliodoro Balbi, fosse me fazer viajar a um passado não tão remoto, mas de um sabor muito especial capaz de acender meus olhos para o tempo em que, estudante do então Colégio Estadual do Amazonas, experimentei do orgulho que significava ser aluna daquela escola, que sempre teve aquela praça como vizinha perigosa e ao mesmo tempo deliciosa para os alunos que "matavam" aula.

Era final da década de 70 e eu me submeti a fazer o então segundo grau em saúde, curso oferecido no Estadual, só por querer estudar ali, já que não tinha qualquer inclinação para essa área. Não lembro se, nessa época, com menos de 20 anos, já queria ser jornalista. O que sabia mesmo era que queria estudar no Estadual, onde, nos dias de falta de professor ou devido a qualquer outro problema e éramos liberados da sala, não fazíamos questão de voltar logo para casa, pois tínhamos a praça para jogar boas e agradáveis conversas ao vento.

Meu pai era bedel à noite daquela escola bela e grandiosa onde conheci professores homéricos. A principal e inesquecível Nely Braga, chamada ironicamente de "jararaca" por não ter pena de aluno e reprovar sem dó grande parte das turmas. Ela nos obrigava a ler Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, entre outros. Com isso ajudou aos interessados, a conhecer e amar literatura e a buscar escrever corretamente. Tínhamos medo dela e odiávamos isso.

Mas foi bom ter passado pela sua rigorosa caneta e cara de brava. Tive oportunidade de dizer isso a ela em uma entrevista que fiz publicada no Jornal A Crítica, quando a ouvi criticar a falta de interesse dos estudantes para o aprendizado da língua e da leitura. Nely já morreu, mas as lições dadas por ela não. Sou grata ter lido os clássicos da literatura brasileira. E ter sido aprovada por ela.

Era tanta exigência que acabávamos decorando o início dos livros. Nunca esqueço e acho que os colegas da época também, do início do romance de Iracema, quando José Alencar descrevia a "virgem dos lábios de mel e os olhos mais negros que a asa da graúna" ou Machado de Assis, em Dom Casmurro, quando ele se referia a um rapaz que "conhecia de vista e de chapéu..."

Lembro também da bonita e elegante professora Ana Maria Botinelly Cunha e Silva, que nos dava aulas de Moral e Cívica, olhem só! Naquela época, a Ditadura Militar nos fazia estudar as leis do civismo e da pátria e gostar disso. Nunca mais soube dela, marcante no seu jeito de ser.

Com um espaço interessante à disposição, sempre encontrávamos tempo para ir à Praça da Polícia, nome popular daquele local. Lembro também de quando conseguíamos uns trocados íamos ao Cine Guarany e ao Veneza para assistirmos aos filmes da moda. Na verdade, no Guarany só costumava passar filme pornográfico e, como ainda não tínhamos 18 anos, era mais difícil entrar. Mas nunca esqueço ter assistido ao filme chocante daquela época, Império dos Sentidos, exibido no Veneza, onde só entramos porque um colega conhecia o porteiro.

Estudei no Colégio Estadual de 1976 a 1980. Durante aquele tempo aquela praça foi dos estudantes. Não fumávamos nada de droga e nem mesmo cigarro comum. Nem pensávamos nisso. Nosso tempo era gasto falando mal dos professores, que é a melhor coisa que aluno pode fazer, além de estudar, claro. E ponto. Era um lugar seguro, tranquilo, agradável, mas deixou de ser isso durante longos anos, ocupada por cheira-colas, hippies e mendigos, completamente abandonada pelo poder público.

Mas desde a semana passada voltou a ser um espaço da coletividade a partir da reinauguração promovida pelo Governo do Estado, sob a batuta do secretário de Cultura, Robério Braga. Não sei o que vai acontecer com os hippies que costumavam abrigar-se ali. Espero que somem. E que não sumam.
Fico feliz em saber que a praça voltou a ser um espaço para o encantamento, acrescida de beleza e a simplicidade do cuidado que permite as lembranças e, quem sabe, como antigamente, inspirar os poetas do Clube da Madrugada e os outros.
Viajar no tempo, nesses tempos em que tudo é imediato e breve, é significativo. Ver a praça voltar a ser do povo é mais significativo ainda. Só faço um reparo: Se não faltou gente com queixo caído diante da dança das águas dos chafarizes, faltou quem combinasse o horário de fechamento do Palácio Provincial, onde funciona o museu. Muita gente bateu com a cara na porta. No sábado e domingo, o horário de visita não pode ser estendido após às 19h?

É importante dizer que a obra é bela e está à altura do hoje Colégio Amazonense do Pedro 2º, nome que substituiu o do Estadual. E está ao alcance do público, que parece ter reaprendido o caminho, pois compareceu em massa.

Uma praça serve para isso. Para os passarinhos fazerem seus cantos e seus caminhos e para o povo, em pleno uso da cidadania, sonhar e gastar minutos do seu tempo tão precioso para ver a dança das águas. Isso, como diz a propaganda de um certo cartão de crédito, não tem preço. E não pode ter mesmo.

* Jornalista e pós-graduada em Marketing pela FGV.

Marcadores:

4 Comentários
   




ARTIGOS
CRÔNICAS
POESIAS
NOTÍCIAS
RESENHAS






  • A foto do mendigo



  • Sobre árvores e mulheres



  • O poder do embuste



  • A noiva da Cidade Nova



  • A farinha criava...



  • Ciência entra no século da religação dos saberes, ...



  • “O Marx vai sempre ser fundamental nas análises de...



  • “O intelectual precisa reformar o seu pensamento, ...



  • “O pensamento complexo tem implicações políticas b...



  • “O que aconteceu em Hiroshima é uma coisa que esca...











  • HOME | SOBRE O TEXTOBR | NÓS | FALE CONOSCO | ARQUIVO

    Copyright Texto BR 2007. Todos os direitos reservados.