Deílson no Tropical

sábado, 11 de abril de 2009

Neuton Corrêa*

Por um triz esta coluna não perdeu um de seus maiores colaboradores, meu colega de busão Deilson Trindade. De uma só vez, contraiu dengue, malária, febre tifóide e uma doença provocada por um fungo, que ainda está sendo investigado pelo Hospital Tropical. Passou 20 dias internado, dos quais não lembra os primeiros.

Deilson é o mentor das crônicas “A apertadinha”, aquela que trata da moça que teve a microssaia rasgada durante uma viagem do 125, e “A pregação”, que conta a história da fanática religiosa no 219 que ao ser interrompida em seu evangelho por um grupo de rapazes, mando-os “tomar na bunda” e depois retoma a pregação, explicando: “É, mano, com satanás é assim: a gente não pode dar mole!”.

No dia que voltou de Parintins quase para morrer, cheguei a preparar uma crônica de homenagem póstuma, mas ele resistiu. Apareceu em casa domingo. Só a cabeça. Estava louco para contar os dias que passou no leito. Gravei o relato e compartilho com vocês, amados leitores, os dias do Deilson no Tropical (hospital):

“Conheci seo João, o homem que tinha mioma. Aparecia uns caroços no corpo dele e quando entrou no hospital não tinha idéia do que era. Depois que uma parenta lhe visitou, passou a dizer para todo mundo que tinha mioma.
Um dia resolvi lhe explicar:
- Seo João, mioma não é doença de homem. É doença de mulher.
Aí, ele me respondeu:
- Quer saber mais do que os médicos?
Depois dessa, fiquei calado.

Na verdade, os caroços não eram a pior doença dele. O maior problema era uns peidos que ele dava à noite. Insuportável. Passava à noite se contorcendo e peidando. Aí, os enfermeiros chegavam de manhã e perguntavam:

- Como foi a noite, seo João? E ele respondia:
- Tô muito bem. Passei a noite muito bem.
Foram cinco dias assim. Um dia não consegui ficar na enfermaria. Dormi no corredor. Quando foi de manhã, uma enfermeira foi lá com ele:
- Tudo bem, seo João?
Quando ele começou a falar, eu disse:
- Não tá, não. Ele passou a noite toda poluindo a enfermaria. Ninguém agüenta mais ele aqui. Foi aí que os médicos mudaram o tratamento e ele resolveu as dores noturnas”.

Meu parceiro de busão não parou por aí. Puxou outra história, ainda mais trágica:

“Fui dado como morto.

Eu estava tremendo de frio e me cobri com um lençol dos pés à cabeça. Minha mulher, ao lado, chorava. Os médicos já tinham descoberto a dengue, a malária e febre tifóide. Faltava o tal fungo, que se alojou no meu fígado. De repente, apareceu uma enfermeira com um papel amarelo e disse para a minha mulher:

- A senhora que era acompanhante do Deilson? Assine aqui.
Quando ouvi o “era”, tremi ainda mais. E a enfermeira continuou:
- A gente ia fazer mais um exame, mas ele não agüentou.
Minha mulher começou a chorar. Depois, suspendeu o lençol e falou:
- Mas eu acabei de falar com ele?
E a enfermeira insistiu:
- É, minha senhora, eu sei como é isso!
Aí eu resolvi entrar na conversa:
- Como eu estou morto? E a enfermeira explicou:
- Ah! Desculpa, não ele é mesmo. Estou fazendo confusão. É que o nome dele é muito parecido com o do outro!
Minha mulher se enfureceu:
- E como é o nome do outro?
Sem dizer nada, a enfermeira saiu de fininho e eu pedi que minha mulher fosse ver quem era esse outro Deilson. Depois ela voltou e riu:
- Nada a ver, o nome do outro morto era Mapiniê”.

O Deilson está bem. Até voltou a andar de ônibus.

* Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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sexta-feira, 10 de abril de 2009

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Charge do Myrria

quinta-feira, 9 de abril de 2009

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Garantido: associação ou instituto?

Massilon de Medeiros Cursino*

Com o coração vermelho partido, movido pela emoção, mas também pela razão, há alguns meses atrás afirmei que infelizmente o boi bumbá de minha preferência era uma “massa falida”.

Fui tachado até de “arauto da desgraça”. Engoli seco. No entanto, o tempo, os fatos e a conjuntura me dão oportunidade de justificar a afirmativa que fiz.

É sabido que houve uma manobra para transformar a Associação Folclórica Boi Bumbá Garantido em um Instituto. Então, vamos aos conceitos desses tipos de personalidades jurídicas:

Por associação, com base no Código Civil Brasileiro, entende-se a pessoa jurídica sem fins econômicos, podendo ser beneficente, recreativa, cultural e literária. Quanto a instituto, entende-se ser a coisa constituída, regulamentada, uma corporação.

Com base nos conceitos jurídicos definidos, pode-se afirmar que toda associação é um instituto, porém nem todo instituto é uma associação.

Moral da historia, dizer que está se transformando uma associação em um instituto, equivale dizer que está se convertendo água em água mesmo. Uma manobra dissimulada para adquirir outro cadastro de pessoa jurídica (CNPJ), quiçá para ludibriar os credores.

A cabeça ficou cheia de questionamentos:

E como ficam os associados de uma associação transformada em outro instituto? O estatuto da Associação terá validade para reger novo Instituto? Houve assembléia para encerrar as atividades da Associação?

Seria, deveras, mais prudente ter a humildade em admitir que eu tinha razão quando com muita tristeza asseverei que nosso boi era um “passivo a descoberto”, uma “massa falida”, produzida pela irresponsabilidade de administradores que confiam na impunidade e na aprovação das contas graciosas em assembléias igualmente graciosas.

Juro que gostaria de ser o “arauto do sucesso”, ainda mais quando tenho que fazer ilações referentes ao boi que domina o coração de uma massa de torcedores apaixonados por um folguedo chamado Boi Garantido!

*Economista, Bacharel em Direito, Pós Graduado em Gestão Pública, membro da Academia Parintinense de Letras.

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Oficina de poesia em Parintins

quarta-feira, 8 de abril de 2009













O escritor Tenório Telles e o ator e poeta Dori Carvalho ministrarão, em Parintins, nos dias 10, 11 e 12, no auditório da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a oficina literária “Poesia – Linguagem e Memória”, promovida pelo Instituto Memorial de Parintins (Impin). Estão disponíveis, gratuitamente, 35 vagas. A proposta do instituto é estimular e capacitar pessoas para o registro do patrimônio material e imaterial da cidade por meio dos mais diversos gêneros literários e audiovisuais.

A oficina terá dois momentos: o da sala de aula, com aulas teóricas e práticas, ministradas por Tenório Telles, com apoio de Dori Carvalho na recitação de poemas; e o extraclasse, um sarau com os participantes, sob a coordenação de Dori Carvalho, sábado à tarde, no Centro do Idoso, no bairro Itaúna. O sarau é aberto ao público. “Parintins precisa dar visibilidade à sua diversidade cultural”, afirma o presidente do Impin, jornalista Wilson Nogueira.

Essa é a primeira de uma série de atividades que o Inpim, em parceria com o Poder Público Municipal, setor privado e ongs, planejou para realizar neste ano. As próximas estão vinculadas à fotografia, cinema e vídeo. Outras duas oficinas literárias foram realizadas em 2007 e 2008.

Nogueira explica que o Impin quer, primeiramente, sensibilizar o público para a importância da conservação, exposição e registro do patrimônio cultural do município. “Sem articulação com as comunidades não há o compartilhamento de experiências nem protagonismo social”, acentua Nogueira.

Para Tenório Telles, o Impin é uma experiência exemplar de cidadania. “Colaboro com esse projeto porque sei que as pessoas que dele participam não se envergonham de ser um pingo d’água no oceano. É do esforço de cada voluntário que a grande obra vai se erguendo. Aqui eu falo da imensa catedral da cultura, esse monumento que haverá de mudar o mundo”, afirma Tenório.

Dori Carvalho disse que Parintins “é referência de arte para o Brasil” que aceitou participar do projeto do Impin porque conta, de antemão, com “essa sinergia que pulsante na cultura parintinense”. Dori compôs o staff dos recitais do 1.º do Festival Literário Internacional da Floresta (Flifloresta), realizado em Manaus, em novembro, com a participação de poetas, escritores e atores de Angola, Brasil, Brasil, Cuba,Uruguai e Venezuela.

A Oficina de Poesia – Interpretação e Memória tem o apoio da Ufam, da Coordenadoria de Cultura da Prefeitura de Parintins, da Editora Valer, da Câmara Amazonense do Livro e Leitores (CALL), do senador João Pedro (PT/AM) e da Academia Parintinense de Letras.

Perfis

Tenório Telles

Professor de Literatura Brasileira, membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), presidente da Câmara Amazonense do Livro e Leitores (CALL) e editor-coordenador da Editora Valer. Publicou os livros: – Primeiros Fragmentos (poesia) – 1988 (edição independente); – Estudos de Literatura Brasileira e Amazonense (ensaio) – 1995; – Leituras Críticas (ensaio) – 1996; – O Amazonas em Sua Literatura (CD-ROM) – 1996; – Antologia do conto do Amazonas (em parceria com o professor Marcos Frederico Krüger) – 2003; – Poesia e poetas do Amazonas Amazonas (em parceria com o professor Marcos Frederico Krüger) – 2003; – O Anjo cético e o sentimento do mundo – 2003; – Introdução à literatura brasileira – 2003; – Textos que edificam (Antologia); – Estudos de literatura do Amazonas – 2004; – A Derrota do Mito – 2003. Montagem Teatral: – A Derrota do Mito – Montagem: Jiquitaia Produções. Direção Théo Corrêa. Em cartaz de 1997 a 1999 – No Centro de Artes da Universidade do Amazonas.

Dori Carvalho
Poeta e ator. Atuou nas peças “Elogio da preguiça”, de Márcio Souza, e “Aquela outra face da tribo”, de Aurélio Michiles. Nos anos de 1980, desempenhou importante trabalho de divulgação do livro, à frente da Livraria Maíra. É autor dos livros: Desencontro das águas – 1986; Paixão e fúria – 2004.

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Sobre formigas e anjos


Wilson Nogueira*

Há algum tempo tento escrever sobre uma formiga, mas sempre tem alguma coisa mais importante na ordem do dia. A pobre formiguinha vai ficando. Hoje mesmo ela poderia desaparecer no terremoto que arrasou a Itália, ou na tsunami de frases dos líderes do G-20, em Londres. Destaque para Lula e para Barack Obama, afinal eles são os caras. Ainda tem a gafe de Silvio Berlusconi na (quase) recepção que lhe faria Angela Merkel, com tapete vermelho e tudo. E a formiguinha (coitada!) sobra.

É justo não entupir mais o leitor de repetecos. Não sobra para ninguém: a TV brasileira, principalmente, é competente na cobertura de memoráveis futilidades. É sempre assim: sobram as futilidade, faltam as informações sobre como os maiorais pensam resolver a crise financeira, não para eles, mas para os milhares de desempregados vítimas da jogatina global. "Isso é coisa para entendidos", diriam os especialistas em economês.

Mas é o seguinte: todo mundo sabe, agora, que o mundo mudou. Mudou porque Barack Obama disse isso, e daí todos passaram a repetir que todos nós, ricos e pobres, passamos a viver em um novo planeta. Explica-se: a palavra crise, etimologicamente, também denota oportunidade. Logo, todos terão a tal oportunidade para se dar bem com a crise. A conversa dos ricos e agregados é envolvente, e é até capaz de iludir alguns dias de fome.

Pois bem: a minha formiguinha não dá ouvido para esse tipo de conversa. Digo minha, porque ela passou a ocupar um lugarzinho no meu cérebro. Aqui e acolá ela se move: "Oha, cara, tô aqui". E assim a vejo caminhando, sozinha, sobre o meio-fio, carregando uma imensa folha. Na rua, os carros, apressados, rangem os pneus. O cheiro de borracha queimada mistura-se ao de cerveja que homens e mulheres bebem a tonéis. A balbúrdia dos humanos não atrapalha o inseto que se agigante a cada centímetro vencido. Logo ela desceu do meio-fio e desapareceu da minha vista.

Fiquei ali, por alguns minutos, à espera da fileira de formigas: todas com suas folinhas. Elas não apareceram. Enchi-me de indagações: o que terá acontecido no reino das formigas para que uma delas tenha se desgarrado? O que terá acontecido com a formiguinha solitária? Aliás, com a minha formiguinha? Poucos humanos perdem tempo com esse tipo de inquietação. Mal sabem que só os detalhes revelam os segredos.

Li, anteontem, que um físico Giampaolo Giuliani, técnico do Laboratório Nacional de Física e Astrofísica Gran Sasso (Itália), alertou as autoridades locais, baseado em minúcias emitidas pelas entranhas da terra, sobre as possibilidades de um terremoto desastroso em Abruzzo. O governo, em vez de tomara providências para proteger a população, puniu Giuliani por "brincar com assunto sério". Lembro, ainda, que a menina inglesa Tilly Smith, 10 anos, salvou centenas de pessoas da fúria da tsunami que arrasou o litoral da Indonésia, em 2006, porque identificou sinais do fenômeno que havia estudado, em aula de Geografia, antes de viajar de férias coma família. Tilly, o Anjo da Praia, foi condecorada como heroína pelo Governo do Reino Unido.
Agora, vejo a minha formiguinha em viagem de retorno, ziguezagueando, pelo meio-fio... Talvez em busca de uma folinha.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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O risco de ser

Ivânia Vieira*

Esse é um momento muito difícil para os jornalistas, os do Brasil e de outros lugares do mundo. O duro processo de desregulamentação da profissão, em andamento no território nacional, impõe uma profunda reestruturação no exercício profissional cujos efeitos mais imediatos apontam para uma acelerada perda de valores intrínsecos ao jornalismo.

Sem esses valores o coração da categoria é atingido e está sob ameaça de morte. A lógica do mercado jogou com eficiência e elaborou em torno dela argumentos quase inabaláveis. Uma delas - com grande audiência entre profissionais e estudantes de Jornalismo - é que jornalistas não mais precisam perder tempo em conhecer, compreender e defender os compromissos da atividade. Ela ensina descartá-los, empurrá-los para o terreno do obsoleto, da posição atrasada e/ou romântica incompatíveis com as exigências do mundo atual.

As estratégias em ação buscam idiotizar os que reagem a essa asfixia. Determinam o abandono imediato das condições humanas norteadoras da atividade. Impõem a incorporação de outras, incompatíveis com a essência jornalística. A morte desenha-se na voracidade do marketing redefinindo o jornalismo. A inquietação para garantir a grande matéria fica encolhida e conformar-se para não correr riscos virou lei. Juntos, tais elementos cumprem a tarefa de desconfigurar o jornalismo até ser qualquer coisa.

No ano passado, 64 jornalistas foram assassinados em diferentes regiões do mundo. No dia-a-dia, lentamente a morte nos espreita, tenta eliminar o espírito de repórter e selar um pacto pela posição de conformidade. Nossa maior batalha tem um pé fincado na nossa história e no que faremos com ela, na cotação de preço que permitiremos ser fixada e se ousaremos enfrentar riscos.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Lago das vitórias

terça-feira, 7 de abril de 2009


Pescador abre caminho em lago endêmico de vitórias-régias, na comunidade Xibuí, município de Parintins (AM), no Médio Amazonas. Entre os ribeirinhos essa planta é conhecida como forno-de-de jacaré. Foto: Wilson Nogueira.

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O miseravão

segunda-feira, 6 de abril de 2009


O gosto da irreverência na orla de São Gabriel da Cachoeira (AM), cidade localizada na margem do rio Negro, na fronteira com a Colombia e a Venezuela. Mais de 90% da população do muncípio são dos 23 povos indígenas da região conhecida como Alto Rio Negro.

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Os perigos do turismo às culturas locais


O sociólogo Claudino Ferreira, pesquisador da Universidade de Coimbra, enfatiza o papel da universidade e das ONGs na mediação entre o trade turístico internacional com as comunidades que se interessam pela atividade turística como geradora de renda e de inclusão social. Claudino esteve em Manaus, em outubro do ano passado, para participar do 2.º Seminário cultura popular, patrimônio imaterial e cidades, promovido pelo Departamento de Antropologia da Universidade do Amazonas (Ufam). Claudino dedica-se ao estudo das transformações das cidades, causadas pela invasão das culturas contemporâneas.

No momento, ele realiza estudos comparativos entre cidades européias e brasileiras, por meio de uma rede de pesquisadores de várias universidades. O sociólogo deixou suas impressões sobre Manaus (AM), sobre a Amazônia e expôs as suas preocupações com a condição econômica subalterna imposta às comunidades que não dominam os negócios do capitalismo global. “Se você sujeita isso [a expressão cultural] apenas a interesses econômicos, as comunidades deixam de ter, verdadeiramente, um objeto para se exprimir livremente”, disse Claudino. Confira a entrevista ao repórter Wilson Nogueira:

Qual a idéia que senhor tem de Manaus?
É uma idéia ainda muito precária. A primeira impressão ainda é muito frágil. Estive um dia na cidade, como você sabe. Como turista, achei uma cidade muito bonita, porque foi um pouco nessa perspectiva que eu a vi. Fiquei curioso em conhecer a cidade no lado mais social. Do ponto de vista da arquitetura a gente consegue reconhecer os traços da história dela, da historia colonial, da história mais recente também. É uma cidade bem diversa, mas preciso de um pouco mais de tempo. Tem, com certeza, um lado escondido dessa cidade que eu não consegui ver ainda. Não dá para entender se é uma cidade onde as pessoas vivem bem ou mal. Se tem gente mais pobre ou gente mais rica. Imagino que, como grande parte das cidades brasileiras, seja uma cidade bem desigual, com uma distribuição de renda muito desigual.

O que eu mais conheço de Manaus é da história da literatura, e, por isso, a minha visão da cidade fica um pouco limitada por essa nação de que é de uma cidade que foi colonial, mas que hoje é bem diferente, com certeza. Fiquei muito impressionado com o teatro [Teatro Amazonas]. O teatro parece quase um monumento anacrônico na cidade. Uma coisa de outro tempo que sobreviveu e que atualiza esse imaginário colonial que é estranho no Brasil de hoje.

Como o senhor analisa essa relação dos negócios da cultura com as culturais locais?
Acho que Manaus, desse ponto de vista, é um caso muito interessante. O turismo é uma coisa que funciona hoje em escala global. Tem muito lugar no Brasil que tem condições de entrar nesse circuito global de turismo. O turismo traz coisas boas, mas traz coisas más, como todo mundo sabe. Traz renda, é claro. Traz turista que consome, que deixa rendimentos, mas traz, também, transformações que nem sempre o povo que vive no lugar controla.

Acho que, para uma cidade como Manaus, e para toda a Amazônia, a questão fundamental é saber quem domina, quem controla o fluxo turístico? Quem tira proveito disso? Quem trata da apresentação daquilo que o turista vem ver? É uma responsabilidade grande que cabe às autoridades, ao poder público, mas cabe também à população em geral não deixar que sejam os grandes comitês da indústria, os grandes intermediários do turismo global que venham a fazer a venda turística do lugar. Portanto, que seja a própria população a tomar conta e a vender a sua imagem, porque é do vender que se trata um pouco

Não há que ter ilusão de que é um negócio que está em causa. Agora você tem que saber como vender. Você quer vender o seu lado da coisa, aquilo que é mais favorável ao seu interesse? A grande questão política é essa: encontrar uma forma de beneficiar mais o local, porque o turismo tem um risco enorme, sobretudo o turismo internacional. Todo turismo internacional se faz por fluxos e os fluxos hoje param aqui, e amanhã, pararam num lugar qualquer. Explora o que você tem que dar aqui e depois sai cruelmente, sem querer saber o que ficou com o povo do lado de cá.

Então, primeiro: acho importante não ser demasiado ambicioso, não querer ganhar tudo de uma vez. Pensar que pouco turismo pode ser melhor do que muito turismo. Muito turismo destrói. Segundo: é fundamental que a comunidade local saiba tomar conta do seu próprio espaço, da sua própria apresentação e não deixe transforma-se num folclore, que é criar coisas sem qualquer respeito à cultura local. Mas isso todo mundo acha. O difícil é fazer, não?

Quais os mecanismos de inclusão das populações nesse processo?
As experiências que há no mundo, pelo menos as que eu conheço, não são muito favoráveis. Não são muito de alimentar otimismo. Sempre o mercado tem força maior que as comunidades locais. Agora há muita experiência – um pouco por todo lado – de pessoas e comunidades que conseguiram fazer as coisas de acordo com os seus próprios interesses. Acho que a questão fundamental aí é a dos mediadores: as instituições, as universidades, antropólogos, organizações civis, associações, ONGs, que podem fazer esse trabalho de intermediação entre as pequenas comunidades que estão na floresta amazônica e o mercado turístico. Só não pode é deixar que seja o próprio mercador a chegar, invadir, montar hotel e instalar circuitos que você não controla. É preciso ter formas de organização.

As populações locais são, em geral, frágeis porque não conhecem o processo: não conhecem a burocracia, não têm acesso aos canais dos recursos globais, às mídias, aos fóruns de discussão; então, elas precisam de mediadores. Acho que a universidade, por exemplo, pode ter uma grande responsabilidade nisso, as mídias locais podem ter uma grande responsabilidade nisso. Por isso é importante criar as associações, as ONGs, para que elas façam essa intermediação, sobretudo para dar às comunidades locais a capacidade de entrar nesse mercado com os seus próprios meios, e não fazer o contrário, que é chamar os investidores e deixar todo o turismo livre para os investidores. Então, tem um problema de organização. Agora eu não sou muito otimista com isso.

Por quê?
Porque os mediadores sempre têm agenda própria. Por muito bem intencionados que sejam, têm sempre agenda própria, tem um plano de agenda própria, têm interesses próprios; e esses interesses se diferem na maneira de como fazem a ligação entre as comunidades e o mercado. Portanto, o ideal não é muito ideal. O ideal seria que as próprias comunidades tivessem capacidade de entender como funcionam esses mercados, e de não precisarem de mediadores para entrar neles.

Na sua opinião, a Internet facilita ou dificulta esse processo?
Olha, eu sou otimista em relação à Internet. Li muita coisa sobre Internet. Há análises muito otimistas e análises muito pessimistas. Acho que a Internet é só um meio como outro qualquer. Depois que você domina o instrumento, não tem nada de extraordinário. Dá uma possibilidade enorme de comunicar em escala planetária. Você pode se comunicar com qualquer pessoa do outro lado do mundo. Você pode chamar turista de outro lado do mundo. Pode conectar com organizações semelhantes a tua do outro lado do mundo. Há uma partilha enorme a se fazer por aí. Para isso, você precisa ter acesso ao instrumento e saber como utilizá-lo. Eu sou otimista. Uma vez mais tem a ver com os mediadores.

A Internet dá muita autonomia às pessoas. Mas é preciso saber dominá-la e saber por onde você entra para chegar aonde quer chegar. Por outro lado, a Internet cria muito a ilusão de que o mundo está aos seus pés, que você pode chegar onde quiser. É verdade, mas nem todos nós conseguimos circular na Internet com essa facilidade. Agora eu acho que é um canal importante e que a responsabilidade daqueles que tem mais facilidade de acessar é muito grande em ajudar aqueles que não puderam ainda ganhar acesso.

Como é que a Amazônia é vista na Europa, exatamente hoje?
Você tem todo esse imaginário do exótico. A Amazônia hoje é bem pouco conhecida. Eu próprio estou pela primeira vez aqui, não conheço nada. Conheci Manaus ontem, e tenho uma série de estereótipos na cabeça que tem a ver com o imaginário exótico, selvagem, de vida natural, de vida natural mesmo, que a gente sabe que não existe, porque natureza para nós é sempre natureza transformada pelas atividades humanas. A Europa, de onde eu venho, tem muito desse imaginário da Amazônia. É um imaginário que é muito positivo de um lado, que foi muito transmitido na nossa vida cotidiana, esse imaginário de natureza pura.

Há outro imaginário, bem mais pessimista, do pensamento de esquerda, que olha para a Amazônia com muita preocupação sobre o modo de como o capitalismo global está também a invadir e a destruir a floresta amazônica. Daí que eu acho, finalmente, que a Amazônia é de quem vive na Amazônia. Aquilo que gente como eu faz é aprender um pouco com a experiência de quem aqui vive, para ultrapassar esse estereótipo. Eu não conheço a Amazônia.

O senhor já conhecia o Brasil?
Conheci o Brasil há 15 anos. Eu tinha uma idéia muito errada do Brasil. Estereótipos. Carnaval! Futebol! Gente um pouco superficial! Todo o imaginário que se passa na Europa a cerca do Brasil. Depois da primeira vez que eu vim ao Brasil, mudei completamente a minha visão de Brasil. Basta você falar com cinco ou seis pessoas e você entende que a idéia que você tinha na cabeça estava errada. Não errada por ser errada, mas errada por conta de uma visão com pouca experiência da vida. Então, em relação à Amazônia eu tenho a mesma idéia. Tenho muitos estereótipos na cabeça. Mas nada melhor do que vir aqui e falar com você, com os meus amigos e com as pessoas que moram aqui, para eu contatar, e poder tirar todo esse imaginário que está na minha cabeça.

Como será a cultura no pós-crise? Ou melhor: a cultura pode ser um componente de combate à crise?
Há toda uma ilusão de como a cultura pode ser um novo motor da economia. Em cidades em crise, sobretudo, há a idéia de que há um novo setor a investir que é o setor da cultura. Bom. Tem toda uma discussão sobre quê cultura é essa? Você pode entender como um novo setor de investimento econômico, de movimento econômico. Eu acho que já não é bem a cultura que nós estamos a falar. É outra cultura, muito mercantilizada, sobretudo, onde a expressão cultural identitária esteja muito popular. Tem muito mais economia do que cultura na verdade. Isso não é problema nenhum. A relação entre cultura e economia já leva muito tempo. Não há como fugir do mercado. Agora depende da maneira de como você encara o papel da cultura no mundo contemporâneo.

Eu não acho que a cultura seja a salvação para a economia pós-crise, de maneira alguma. A cultura tem o papel a desempenhar e pode ajudar no crescimento da economia, mas não podemos atribuir muito um papel de responsabilidade econômica à cultura, senão estaremos a desvirtuar o papel da cultura. Se se faz uma festa, como essa aqui do boi-bumbá [festival folclórico de Parintins (AM)], pensando que vem do objetivo dessa festa conseguir rendimento para ajudar a resolver a crise da cidade, ora, isso é muito bom para a expressão cultural, vai ser bom para as pessoas que participam, porque elas se sentem valorizadas no mundo intelectual e material mais do que outra coisa qualquer.

Pô, mas depois você pensa: o que isso significa para aquele evento, para aquela manifestação popular? O objetivo já não é o mesmo, foi completamente pervertido. Aí, você perde o lado mais rico: o lado da expressão individual, da festa, da identificação com a comunidade. Tudo isso se perde em nome de um objetivo aparentemente maior, que é o de gerar investimento próprio.

Então, acho que é preciso um grande equilíbrio e muita cautela, para a cultura continuar a ser cultura. Cultura é basicamente é o modo como as comunidades se expressam. Comunidades maiores, com mais problemas, com intenções, com diferenças, mas é a maneira como o povo pode se exprimir. Se você sujeita isso, apenas interesses econômicos, as comunidades deixam de ter verdadeiramente um objeto para se exprimir livremente.

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domingo, 5 de abril de 2009


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