Repórter de sorte

sábado, 25 de abril de 2009

Neuton Corrêa*

Ao desembarcar do 422, na estação da Matriz, fui recebido com uma afirmação que me deixou pávulo pelo resto do dia: “Ah repórter de sorte!”. Era o Louro. Começamos juntos no rádio. Éramos adversários na disputa por uma vaga na rádio Clube de Parintins, em outubro de 1988. Ele continua locutor. E eu, passageiro-repórter.

Naquele dia, havia ido ao Porto de Manaus pegar farinha a bordo do Aliança. Estava mal humorado por ter passado mais de trinta minutos esperando o ônibus. Mas o encontro com o Louro apagaria o sofrimento dominical de minha cabeça. Afinal, acabara de ouvir que sou perseguido pela sorte.

Empavulecido com aquilo, passei a examinar minha história de repórter. Em duas décadas de trabalho, consegui lembrar apenas dois episódios que poderiam confirmar a questão do Louro. Pouco para quem já passou horas olhando para o céu para ver se algum avião estava caindo.

Pensei que ele tivesse lembrado do assalto à agência do Banco do Brasil de Parintins. Foi no dia 20 de maio de 1994, às 12h45, pelo relógio do banco. Os bandidos renderam os funcionários, pegaram R$ 230 mil do cofre. Quando começavam a tomar o dinheiro dos clientes, um policial militar aparece na porta e estraga a gravação que eu estava fazendo na fila dos reféns com um gravador no bolso.

O tiroteio começa e saio em disparada para a rádio Alvorada para dar a notícia do primeiro assalto de Parintins. Um grande acontecimento! O maior de todos os fatos da crônica policial da Ilha.

Mas não era disso que o Louro estava falando, não. Continuei imaginando: será que ele está sabendo do naufrágio do Comandante Sales, aquele que matou mais de 50 pessoas em Manacapuru, no ano passado?

Não, leitores, eu não estava naquela viagem. Porém, não estava tão longe de lá. Por acaso, na madrugada do dia 4 de maio de 2008, dormi com a família e um grupo de amigos na beira do Solimões, a pouco mais de três quilômetros da tragédia.

Acordei por volta das 6h à procura de água, mas, assim que deixo a barraca, a rádio Palmeiras FM dava a primeira notícia: “Um barco acaba de naufragar em frente à cidade de Manacapuru. Mais de cem pessoas estavam a bordo”. A vontade de curar a sede e a dor de cabeça passou. Estava ali também na frente de Manacupuru. Na mesma hora acionei o jornal.

Essa sorte, senhores, nunca mais a quero ter. Não só pela quantidade de jovens que vi, um a um, sendo retirada do fundo. Mas pelo fato de o primeiro corpo resgatado ter sido de um rapaz que no dia anterior havíamos acabado de conhecer.

O Louro sequer saberia desses detalhes. Como poderia julgar-me como um repórter de sorte?

Naquele dia, assim que o vi agitado na estação tentei evitá-lo. Já ia na direção do porto quando gritou novamente:
- Ah repórter de sorte!
Olhei para o lado fingindo agir por reflexo e o vi, remando com a mão:
- Vem cá! Vem cá!

Voltei e ao me aproximar do amigo, ele aponta para a praça e diz:
- Tu tem muita sorte, cara. Olha lá! Acabaram de matar um ali. Vai lá que ele ainda está se mexendo.

Fui lá e ainda vi o homem agonizando com uma faca cravada em seu pescoço.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Sexo, livros e jornalismo

sexta-feira, 24 de abril de 2009


Gerson Severo Dantas*

Certa vez li uma crônica de Carlos Heitor Cony (foto) sobre um amigo dele que defendia a esdrúxula tese de que havia 10 ou 11 coisas melhores que sexo. Assunto instigante e conduzido com maestria pelo inefável e sempiterno escritor de Pessach e Tijolo de Segurança, além de grande jornalista.

Opondo-se, Carlos Heitor Cony foi eliminando as possíveis coisas melhores que sexo apostas pelo interlocutor amigo. Dinheiro, por exemplo, dá muito prazer, mas todos o buscam para comprar coisas que facilitem a conquista e o sexo com as maiores e melhores parceiras. Comer, também é bom, mas muitos são pegos pela barriga para depois fazer sexo. Ao fim e ao cabo, dizia o cronista, era impossível para ele pensar em algo melhor ou que não tenha como fim último comer – agora no sentido sexista – alguém por vias não-orais.

No entanto, para arrematar, pondera que se há algo melhor do que sexo, esse algo é a “possibilidade de fazer sexo”. É uma deferência àquele momento que antecede o beijo, o segundo anterior a penetração ou a tirada de roupa, enfim coisas desse tipo.

Trato desse assunto aqui a propósito de um tema que a cada dia mais me parece coisa do passado: Ler. Pouca coisa, apenas sexo e uma picanha selada feita pelo Grill Designer, me dão mais prazer que ler um bom livro. De preferência, fazendo uma analogia invertida a conclusão de Cony na crônica em tela, reler um livro para redescobrir significados, redefinir posições, abrir nova vereda de entendimento, enfim curtir e recurtir uma história. É de tal forma assim que já condenei, absolvi e voltei a condenar Capitu pelo adultério perpetrado contra Bentinho, no clássico “Dom Casmurro” de Machado de Assis.

Livro algum, contudo, me deu tantas e tamanhas significações diferentes quanto “Quase Memória”, do supracitado Carlos Heitor Cony. É, como define Jânio de Freitas na orelha, “um livro delicioso”, mas que nos deixa na dúvida se é, na realidade, “a quase-biografia de Cony-Pai ou a quase-autobiografia de Cony-Filho”. No que me diz respeito, a releitura de Quase Memória me oferece novos significados à medida em que avanço no tempo e na profissão de jornalista.

Ambos os Cony são jornalistas e misturam nas tramas do livro o mister deles, vividos desde os anos 30 até meados dos anos 90, quando o romance fez a reestréia de Cony-Filho no gênero, com as relações paterno-infantis, quando em choque estão, de alguma forma, pai e filho. Sobretudo para quem tem filho, a relação de ambos é inspiradora, até já pensei em adotar com meu próprio filho as técnicas usadas por Cony-Pai.

Do ponto de vista profissional, há várias lições em jogo e a principal delas é saber que o momento de ir embora chegará e quem melhor fará a “Pessach” será aquele que tiver planos B, C e D. Quem se aferra por demais nas centenas de paixões geradas pelo tempo sempre quente do jornalismo diário certamente terá problemas, como o enfrentado por um amigo dos Conys e cuja história final, no penúltimo capítulo, leva qualquer um às lágrimas.

Reli Quase Memória ontem à noite e ao final me lembrei de outro ícone das letras brasileiras: João Cabral de Melo Neto. Lá pelos anos finais de sua vida severina, o poeta pernambucano, já acometido de uma cegueira “borgiana”, concedeu uma entrevista na qual ao ser perguntado o que havia lido ultimamente respondeu de chofre: “Os clássicos”. Argumentava o poeta que a vista falhava e restava-lhe pouco tempo de vida, daí que não poderia perder tempo lendo livros que não conhecia e que poderiam render-lhe decepções, usurpando, com isso, o prazer de uma boa releitura de um clássico.
Estou quase concordando com todos, sobretudo porque ler é a melhor coisa da vida.

Ops!!! Depois de sexo e picanha.

*Filósofo e jornalista.

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Nosso time em campo

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Ivânia Vieira*

É uma delícia, em forma e conteúdo, acompanhar as rodadas do campeonato amazonense de futebol. Primeiro porque ficamos tanto tempo afastadas e afastados desse acontecimento ao ponto de ser algo estrangeiro, muito distante de nós. Fomos domesticadas e domesticados para saber mais sobre os estrangeiros (do Rio, de São Paulo, do Rio Grande do Sul... e dos estrangeiros mesmo). Aceitamos, com enorme facilidade, o discurso da não existência do futebol no Estado, mesmo depois das lembranças atualizadas do espetáculo de paixão de um 'Rio-Nal', das peripécias de um São Raimundo no 'Brasileiro'.

Estamos tendo a chance de aprender de novo, ficar diante da tela ou ir ao estádio ou ao campo mais esburacado, não importa, para acompanhar o time do coração, da nossa cidade e brigar com o técnico como se um fôssemos. De alguma forma estamos nos descobrindo, engrossando agora as torcidas daqui além das de lá.

Bom demais ver a equipe de comentaristas com o nosso jeito, embora, é preciso reconhecer, o padrão siga o roteiro do nacional, avaliando os nossos jogadores, os técnicos e de olho nas manifestações da torcida, nas características do lugar onde o jogo é jogado. O parintinense Nelson Brilhante e o paulista Carlos Souza, na tela da TV A Crítica, nos proporcionam momentos culturais igualmente saborosos e dão uma ajuda e tanto para subvertemos o padrão, criando escapes a nossa identidade.

Outro dia, Brilhante traduziu a performance de um jogador como um sujeito "atirado" e, Souza, na última semana, mostrou que futebol e laranja (do Rio Preto da Eva, é claro) tem tudo a ver. O suco dessa mistura pode gerar uma porção mágica saudável ao povo do Amazonas. Basta superar vícios e enxergar a profissionalização com responsabilidade, contaminar todo esse interiorzão, essa juventude com a formação de times e ser muito "atirado", não como trunfo político-eleitoral, mas porque o esporte, e futebol em particular, têm um lugar especial na vida das cidades, de um Estado, de um País. Participar é um direito por nós abandonados. Talvez, por isso o silêncio tenha sido tão prolongado.

Eduardo Monteiro de Paula, o Dudu, faz a sua profissão de fé e arrebanha aliados na sua antiga peleja. Kitó até virou notícia nacional, não dessa que constrange, e sim do tipo de estufar o peito e nos fazer gritar: valeu, caboco atirado!

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.
Na foto cedida pelo jornal A CRÍTICA, à esquerda, o narrador Carlos Eduardo Souza ao lado do comentarista Antonio Piola.

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Charge do Myrria

domingo, 19 de abril de 2009

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