A Família Grande

sábado, 2 de maio de 2009

Neuton Corrêa*

Encontrei a senhora Grandona numa viagem do 351. Embarcou na Praça 14 de Janeiro, um pouco depois da Igreja de São José Operário. Tive impulso de falar com ela, mas hesitei. Ela subiu no ônibus rindo à toa. Ao se sentar, continuou rindo só e ao mesmo tempo balançando a cabeça negativamente.

Dona Grandona é a Antonieta. Passei a chamá-la pelo adjetivo aumentativo por causa de seu marido, Gilmar, o Grandão. Gilmar é professor e contador de causos. Tudo para ele vira piada, até a desgraça dos outros. Muda a voz, entorta a boca, verga o corpo. Nem acaba a história e já tem gente rindo.

Em uma dessas performances, acabou ganhando o apelido de Grandão. Foi quando contou a história de seu vizinho, o verdadeiro Grandão. Este Grandão só conheceu a mãe depois que estava adulto. Cresceu com o pai, o João, alcoólatra que freqüentava a mercearia do pai do Gilmar. O menino seguiu a carreira do pai: carregador e pé-inchado.

O verdadeiro Grandão teve a oportunidade de mudar seu destino. Quase 20 anos depois, a mãe dele se arrepende e já bem de vida resgata o rapaz. De uma só vez, tenta dar ao garoto aquilo que o privou por duas décadas. João sente a falta do parceiro e aprofunda seu contato com a mercearia do Gilmar.

Após alguns meses, o Grandão deixa a mãe e volta para a casa do pai. Festa para o João. O reencontro dos dois, o Gilmar me contou assim:
“O João me encontrou ali e disse:
- Gilmaaar, o Grandão chegooou.
Curioso, eu perguntei:
- Como ele está, João?
E ele respondeu:
- Cordão no pescoooço, relógio no puunnnho, óculos na faaaace...
Eu fique curioso e perguntei:
- E cadê o Grandão?
- Está aliii, atrás do quiosque, caííído. Não estava mais acostumaaado”.

Desde esse dia passei a chamar o Gilmar de Grandão, dona Antonieta de Grandona e a filha, a Mara, de Grandinha. Mas não imaginava que o Gilmar também viraria piada. Pois naquele dia que encontrei dona Antonieta ela me contou o vexame que passou por causa do marido:

- Tu sabes que a minha filha está aqui em Manaus há muito tempo?
Concordei, e ela continuou:
- Ela veio prá cá adolescente. Trabalhou, estudou e agora tem a vida dela e o Gilmar ainda não entendeu isso.

Fiquei em silêncio e ela prosseguiu:

“Ontem, o Gilmar chegou de Parintins e, à noite, o namorado da Grandinha apareceu no apartamento. Quando foi às dez horas, o Grandão começou: ‘Olha, são dez horas. Tu não vai pegar o ônibus?’ Aí, o rapaz só fazia dizer: ‘Ah! Tá!’. Onze horas o ‘leso’ foi lá, de novo: “Olha o ônibus!”. Na terceira vez eu chamei atenção dele:

- Ficou doido, Gilmar! Tu já não percebeu que é tu é que está sobrando? Já não percebeu que ele dorme aqui e que o único ônibus que ele pega é ela? Aí, ele disse:

- Éh? Mas hoje ele não vai dormir com ela. Hoje, nós é que vamos dormir com a Mara, né, meu amor?
Sem jeito, eu respondi:

- É, vamos dormir com a Mara. E dormimos. Mas quando foi agora de manhã, assim que eu saí do quarto para fazer café e que o Gilmar foi escovar o dente, o sujeito foi para o quarto da Mara. Quando o Grandão voltou, os dois já estavam trancados. A aí eu disse para ele:

- Bem feito, eu não te disse!”.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Myrria.

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A grande cheia

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Massilon de Medeiros Cursino*

Treze de junho é o dia em que se comemora Santo Antônio, o santo casamenteiro, e que, no Amazonas, segundo a observação do caboclo, marca o repiquete das águas que se cansaram de crescer e alagar o solo de baixo platô amazônico.

O que se imaginar de um 13 de junho de 1953, o ano da grande cheia? O limite histórico das águas que ainda está vivo na memória daqueles que assistiram ao transbordamento da bacia amazônica.

No mesmo ano, o Nordeste vivia uma de suas mais causticantes secas. Retirantes, em busca de uma vida menos sacrificada rumavam para vários cantos do país. E no dia de Santo Antônio daquele ano da década de 50, o navio “Santos”, procedente do Nordeste, desembarcava na pequena Parintins, a primeira cidade no extremo leste amazonense.

A bordo, famílias de aventureiros que buscavam a sua Canaã, entre as quais os meus ascendentes, procedentes de uma Paraíba castigada pela estiagem.

A jovem Geny Medeiros, então com 15 anos, junto com seu pai e irmãos pisavam em solo amazonense, carregando o corpo inerte de sua genitora, que há pouco havia ido a óbito, em frente à Serra da Valéria.

Começava ali a saga de um povo que trocou o árido sertão por um úmido e esverdeado Amazonas. A partir daquele momento, adotavam como sua, a terra de grandes rios, sobre a qual Deus chorou abundantemente, tornando-a cobiçada por todos.

Ao apreciar um momento que se repete depois de 56 anos, de dentro de uma voadeira, Dona Geny com seus atuais 71 anos, se emociona, ao ver o rio e a mata, testemunhas fiéis de uma aventura acendida em sua memória. Ao ver o brilho de seus olhos se nota que a esperanças se renovam.

As lágrimas que começam a escorrer por sua face, aparecem como consequência da exibição de um filme que somente ela consegue visualizar!

*Economista, Bacharel em Direito, Pós Graduado em Gestão Pública, membro da Academia Parintinense de Letras.

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Elos da impunidade

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Wilson Nogueira*

A impunidade é um tema batido, mas é necessário que se escreva sobre ele todos os dias. Não dá para acreditar que se trata de um mal incorporado, definitivamente, na rotina da coletividade. Por isso, cidadãos e cidadãs até se sentem esperançosos com o indiciamento, pela Polícia Federal, do banqueiro Daniel Dantas, acusado de praticar crimes financeiros, ou com a prisão (ainda que por algumas horas) de Raphael Souza, suposto matador e traficante de drogas, membro de uma família de políticos amazonenses.

A sensação da certeza da impunidade leva tanto o banqueiro quanto o filho do político, em grande medida, a agirem contra os interesses da sociedade. O mais escabroso dessa situação é que o estímulo ao crime, via não-punição exemplar dos delinqüentes, conta com a permissividade senão das estruturas de poder, mas de parte delas.

Daniel Dantas, preso pela Operação Santiagraha, por exemplo, arrancou, sintomaticamente, a indignação de membros do Judiciário e do Legislativo. "Não, ele não pode ser algemado! Não se trataria de um homem perigoso!", justificaram. O "inofensivo" é suspeita de formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, empréstimo vedado (não autorizado pela autoridade monetária) e lavagem de dinheiro. Tais crimes não poderiam ser executados por alguém que não fosse de alta periculosidade, que não oferecesse perigo à sociedade ou que não se relacionasse tão bem com o mundo dos negócios legais e ilegais.

A prisão de Raphael não ficou por menos. Muitos tentaram impedir que ele fosse algemado e encarcerado, inclusive os que detêm mandatos eletivos. Produziram-se, nesse episódio, cenas típicas do "mundo cão" televisivo. Assim como Dantas, Raphael aguarda em liberdade a investigação dos crimes que teria cometido por "não oferecer perigo à sociedade". Essa justificativa só seria razoável se as armas e a munição apreendidas no quarto dele fossem mera ficção policial. Na mesma trama, estaria envolvido o deputado estadual Wallace Souza, pai de Raphael, acusado por um ex-policial PM de mandar executar pessoas ligadas ao tráfico de entorpecentes.

De imediato, a impressão que se tem é a de que casos como esses cairão, em breve, na vala comum da impunidade; e é isso mesmo o que acontece, na maioria das vezes. Acostumada a ver os de "colarinho branco" sem castigo, a população chega a se sentir satisfeita com as prisões-relâmpago de banqueiros e "filinhos de papai". Essa atitude, por sinal, é que incentiva os malfeitores e seus cúmplices. Logo, a sociedade em vez de esmorecer diante dos momentos de injustiça, deve agir, sistematicamente, por mudanças nas estruturas de poder necrosadas.

Não são somente os ladrões de bugigangas que tiram o sono da sociedade. As cadeias estão abarrotadas de delinqüentes desse tipo, sem que a violência tenha encolhido. Enquanto isso, larápios do dinheiro público e quadrilhas do submundo do mercado ilegal agem com certa desenvoltura contra o interesse de todos, e estão sempre certos de que terão tratamento diferenciado perante a lei. Por isso, a sociedade não pode dar trégua à impunidade enquanto não quebrar todos os elos que a fortalecem.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Decisão corajosa

Ivânia Vieira*

Acertada e corajosa a decisão da ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, em informar publicamente sobre o câncer do qual foi acometida.

A história recente no Brasil e no mundo envolvendo o estado de saúde de personalidades públicas expõe engendramentos para evitar que a sociedade tome conhecimento sobre figuras públicas acometidas de doenças graves. Tancredo Neves, eleito presidente do Brasil, pelo Colégio Eleitoral, é parte desse enredo. Até o comunicado oficial da sua morte, em 21 de abril de 1985, uma população aflita tentava obter informações enquanto os ‘muros de proteção’ em torno de Tancredo produziam mais desespero e incertezas entre os brasileiros.

Outro caso emblemático é o do Papa João Paulo II. Até a sua morte, em 2 de abril de 2005, o mundo, principalmente o católico, viu se arrastarem os esforços oficiais para apresentar o Papa em condições de conduzir o seu rebanho. Ele já não conseguia fazê-lo, vítima de várias doenças. Suas aparições silenciosas, em diferentes momentos, gritavam a agonia pessoal de João Paulo. Em outros tantos casos prevaleceu a lógica de interesses mais particulares ignorando a dimensão pública dessas pessoas.

Neste 2009, Dilma, pré-candidata à presidência da República, é surpreendida com um câncer. A decisão sobre qual atitude tomar envolve vários aspectos. Ao final da batalha, prevaleceu o bom senso: informar, sem alarde, e com respaldo científico, o seu problema.

No dia seguinte após anúncio, feito pela ministra, de que retirara um tumor maligno, alguns comentários: “Dilma, candidata, já era”; “acabou a candidatura Dilma”... É cedo para tais posições definitivas, mas é o momento de ver o saldo positivo nesse caso: um maior número de pessoas tem, hoje, mais informações sobre linfoma e recebeu reforço de alerta para a importância dos exames rotineiros. Essa conduta possibilitou à ministra saber sobre o gânglio e extirpá-lo em seu estágio inicial. Não menos diferente tem sido a postura do vice-presidente da República, José Alencar na briga contra o câncer, sem espetacularização.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Água no teto

domingo, 26 de abril de 2009



A enchente atípica do rio Amazonas está perto de ultrpassar a cobertura das casas de apoio à criação de gado, perto da cidade de Parintins (AM). As pastagens foram tomadas pelas águas e as manadas foram transferidas às terras mais altas. Fotos: Wilson Nogueira.

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Palavras do cacique

Wilson Nogueira*

Zapeando, vi-me diante de um cacique xinguano ensinando que os fazendeiros que lhes roubavam as terras deveriam pensar nas gerações futuras (nos netos deles, por exemplo, antes de degradá-las pelo desmatamento). A câmera lhe pôs em ângulo que ressaltava um trecho sinuoso de rio contornado por mata virgem. A cena, exposta em segundos, legitima a fala do cacique.

E os fazendeiros, aprenderam a lição? Não. Claro que não! Pelo contrário, calaram e tentam calar os que lhes contrapõem no discurso e na prática, sejam eles índios, brancos, amarelos ou azuis. E poderia ser diferente? Não. Claro que não! Os fazendeiros também são banqueiros, especuladores, políticos, governantes, juízes e legisladores. ELES são da elite que manda e desmanda no País. O cacique, o grande cacique, prega para essa multidão (sociedade do consumo) que procura oportunidades de ganhar dinheiro para consumir, seja na Terra, na Lua ou em Marte.

Zapeando, clicando e navegando – fico nos hábitos mais comuns do cotidiano do usuário midiático – constata-se que a Amazônia, na qual o Xingu é um pontinho no mapa-mundi capitalista, perde suas florestas, terras e rios de forma avassaladora. Enquanto componho esse texto, milhares de árvores se vergam sob motosseras ou são arrancadas por tratores. Amanhã lerei os estragos nos jornais, na Internet e TV, e posso até ver, se assim eu preferir, o alargamento do deserto em tempo real, via satélite.

O cacique denuncia a insensatez do desflorestamento para a criação de gado, para a plantação de soja e de outras monoculturas, mas o deserto anda velozmente, o clima se desequilibra e as catástrofes tornam-se iminentes na Amazônia e muito longe dela. Falta de aviso não foi. Na Amazônia equatoriana, ouvi a sábia explicação de membros do povo Shuar de que os rios andam e voam. Logo, eles podem mudar de lugar; e se as árvores regulam as chuvas, como até a ciência atesta, nada mais correto do que mantê-las em pé. Rios e florestas se completam.

Não será o alerta de um cacique a deter a voracidade do lucro. Mas suas palavras e sua coragem se inscrevem na história dos povos que se orientam por uma ética duradoura e profunda, na qual há menos espaço para intolerância, arrogância, egoísmo, vaidade e injustiça. Trata-se uma ética praticada, vivida e reconhecida como importante não só para os seres humanos. Esse modo de ver e viver no mundo não interessa aos que caçam o lucro imediato legal ou ilegalmente.

Por isso, o deserto amazônico só vai parar e os rios andantes e voadores só sossegarão quando a floresta em pé gerar dinheiro, mas muito dinheiro mesmo! Dinheiro, para ELES. Ou então se o mundo vier a se refazer num novo processo histórico. Afinal, para que as utopias se mantenham vibrantes, é necessário que pensemos que um outro mundo sempre será possível. Penso que é a esse mundo ao qual o cacique xinguano se refere.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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