A mulher-veneno

sábado, 9 de maio de 2009

Neuton Corrêa*

Para mim, aquela voz era o chamado da morte. O tom de advertência, assustador! A pronúncia alta, aguda e cavernosa me perturbou ainda mais. As palavras brotaram do nada. E não foram muitas, apenas quatro. Quatro verbos: “Olhou! Cheirou! Comeu! Morreu!”. Apavorado, pensei: “É comigo!”

Depois disso, veio-me o arrependimento. Em frações de segundos, pensei em inventar uma fórmula que pudesse fazer o mundo parar um pouquinho. Naquela hora, ah! se eu pudesse... Não queria muita coisa. Apenas que meu pescoço não se vergasse quando a moça de formas roliças e esféricas passou por mim.

Pensando agora, se o mundo parasse, sequer a olharia. Perder a vida somente por tê-la olhado de canto de olho, apenas para captar a protuberância gelatinosa de seus glúteos! Ora, não valeria a pena. Mas o tempo não para.

Foi a segunda vez que senti a morte perto de mim. A espinha congelou, os joelhos tremeram, os dentes se debateram e o chão aos poucos desaparecia de meus pés. A sensação de ver o fim da vida era a mesma da outra vez em que pensei que estava a caminho da eternidade.

A primeira vez que a morte me visitou ainda era adolescente, quando comandava o barco “chama-cachorro” (tchiii-tchiii-tchiii) de meu pai. Aliás, nesse dia, estava a horas com ele jogando palavras fora, no timão do B/M Almir. De repente, sêo Aguinaldo olha para mim e diz: “Faz um café lá prá nós”. Senhores, desse café, quase não volto.

Pois naquele momento, antes de ir para a cozinha, resolvi olhar a tolda do barco, como de costume. Ao tentar descer pela sala de máquina, caí na parte mais larga do rio Mamuru, onde ele se encontra com o Uaicurapá. Gritei, mas não houve jeito. Lentamente, fui perdendo o motor de vista.

Naquela hora, o sol começava a se esconder no igapó. Estava ciente que nos próximos vinte minutos meu pai pensaria que eu estaria fazendo café. Passado esse tempo, a chegada da escuridão e do frio negro da água já me fazia pensar onde seria minha última braçada e meu último suspiro.

Uma hora depois, alcancei a terra e não sei quanto tempo mais tarde fui localizado pelo holofote do Almir.

Tudo isso voltou a rodar em minha cabeça depois que ouvi aqueles quatro verbos. Eu estava esperando ônibus na parada do edifício-garagem, no Centro. De repente, aparece a mulher de bunda de gelatina, vestindo uma saia amarela, roçando uma coxa na outra e exibindo a papada traseira.

Na verdade, não chamava atenção apenas pelo corpo, mas pelo andar de passarela. Era um desfile, que botava suas formas redondas para rebolar. Ao passar por mim, juro, por Deus do Céu, amados, só por puro reflexo olhei para trás dela. Foi aí que ouvi a voz cavernosa falar perto de mim:

“Olhou! Cheirou! Comeu! Morreu!”

Tremi esperando a traiçoeira agressão pela costa, mas quando ele chegou lentamente ao meu lado voltou a gritar:

“Veneno para rato: Olhou! Cheirou! Comeu! Morreu! É apenas um real”

Foi um alívio!

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Myrria.

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Manoel Ardiloso

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Neuton Corrêa*

Manoel Gentil não suportava a própria família. Na grade-berço onde a mãe o prendia com os irmãos, enquanto passava o dia batendo roupa na beira de um tanque, implicava com os menores. Já garoto não se mistura com os meninos da vila. Diversão para ele era servir de gandula aos vizinhos do condomínio.

Adolescente, Gentil mostrava inclinação para a oposição ao que comumente a turma de sua idade adorava. Ao assistir à “Corrida maluca”, torcia para que Dick Vigarista vencesse a competição. Tinha prazer em ver a frustração das crianças da “Caverna do Dragão” serem enganadas pelo “Mestre dos Magos”.

Enquanto os rapazes de seu tempo ainda vestiam camiseta, calção e sandálias, Manoel Gentil experimentava roupas de linho, sapatos sociais e cintos que apertavam sua barriga acima do umbigo. O cabelo passava o dia todo teso e brilhoso. O primeiro paletó que usou anos e anos cobria-lhe a mão, o que lhe rendeu cacoete de sempre estar ajeitando a manga da camisa.

Na escola, desprezava os zeladores, que dele faziam caçoadas. Fez amizades com professores, que viam em Gentil um grande orador de discursos que eles próprios redigiam. Ardil, mesmo falando o que não pensava, adorava, pois desde muito cedo via-se inclinado para a política. Adorava Paulo Maluf e Antonio Carlos Magalhães, de quem tornou-se fã e por quem filiou-se ao PFL.

Manoel sumiu. Ou melhor: sumi da vida de Gentil, porque fui eu quem mudou do endereço onde me criei perto de sua casa. Encontrei-o há pouco tempo quando escrevia uma matéria sobre o transporte coletivo em Manaus. Nome estanho para mim, resolvi então recorrer à Internet para buscar informação sobre aquele líder estudantil, chamado Manoel Adiloso.

Pelo Google fui levado à sua identidade dele, mas a foto denunciava que Ardiloso e Gentil eram as mesmas figuras. No artigo que localizei dando conta dele, estava ali explicação para as escolhas que meu ex-vizinho fizera na vida. Gentil adotou o novo sobrenome para homenagear o tio, Antônio Ardiloso, que foi o orgulho da família por ter servido à antiga Arena.

Aliás, naquele artigo fiquei impressionado com as idéias que ele, aos 19 anos, defendia: prisão para lideranças que “perturbassem” os políticos no poder e remuneração pública para aqueles que se manifestassem pacificamente. Ah, para lembrar, o artigo foi escrito há cerca de oito anos quando a Câmara Municipal de Manaus discutia um projeto sobre a meia-passagem de autoria de um vereador-dentista.

Pois bem, amigos do Busão, esta semana testemunhei o Ardiloso saindo de uma reunião com o prefeito de Manaus. Deixou o encontro zombando de outros colegas que não entraram para a audiência. Ele estava todo orgulhoso dizendo que havia recebido a missão de cuidar da regulamentação das regras para o uso do passe estudantil nos ônibus.

É o “Frajola” cuidando do “Piu-Piu”.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Ficção e realidade*

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Wilson Nogueira**

(...) O apócrifo (O M...) noticia a realização de uma correição do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) no Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas por conta, dentre outras coisas, de supostas irregularidades na Comarca de Vila Bela da Rainha. O juiz do lugar seria membro de uma quadrilha, formada por funcionários públicos, juízes e desembargadores, que vende sentenças favoráveis a corruptos que desviam dinheiro público por meio do superfaturamento de obras do Estado e da União.

Corrupção no Judiciário já se tornou notícia corriqueira até na imprensa tradicional que circula por aqui, mas essa me chamou a atenção porque envolve um ricaço da cidade - O M... não revela o nome dele - que desvelou a sua tumultuada relação com os poderosos. O Senhor X, que se tornou milionário graças aos negócios subterrâneos que faz com o poder público, seria preposto de um esquema de ladroagem comandada por um empresário de ocasião.

Republico o trecho picante da entrevista:

OM... - Senhor X, é verdade que o senhor já foi vítima dessa quadrilha?
SX - Meu filho, se eu não comprasse uma máquina de imprensa, eu já estaria sem um real no bolso.

OM... - O senhor tem uma máquina de imprensa? E o seu jornal, cadê?
SX - Meu filho, a máquina é só pra dizer pra eles que eu posso acabar com eles na hora que eu quiser. É só eles me atacarem e eu boto um jornal ou uma revista para colocar os podres deles na rua.

OM... - Mas uma máquina de imprensa não é um investimento tão alto para ficar parado?
SX - Investimento alto é manter essa corriola com dinheiro todo dia. Quem tem negócio não-legalizado, como o meu, sofre na mão dessas catitas gulosas.

OM... - O senhor coloca todos no mesmo saco. É como se todos os juízes e desembargadores fossem corruptos. Eu, por exemplo, não acredito que o ilibado Doutor Saldanha, que mandou juízes, policiais e delegados de Polícia para a cadeia seja corrupto.
SX - Pois bem! Digo-lhe que ele faz isso para manter uma fachada de moralidade. Logo, logo esse povo todo estará na rua. Meu filho anote aí: tenha muito cuidado quando passar ali por aquele majestoso prédio do Tribunal de Justiça. Aquilo ali é uma casa mal-assombrada; os fantasmas que ali gravitam podem lhe surrupiar o paletó em plena luz do dia. Pra te falar a verdade, meu filho, ali até os muros metem as mãos nos bolsos dos transeuntes.

Essa narração apócrifa fez-me recordar de uma passagem de Francois Rabelais citada por Mikail Baktin, que ilustra a importância da fala hiperbólica e metafórica na Idade Média e na Renascença. Dizia isto: "Nesta cidade até a sombra dos mosteiros engravidam as moçoilas". Caro leitor, diga comigo: Viva a metáfora! Viva a hipérbole e todas as figuras de linguagem que ajudam os escritores a exagerar e a tentar transfigurar a realidade.

*Trecho do livro "O Andaluz" (Editora Valer/Manaus, publicado em 2005). Qualquer semelhança com os acontecimentos da vida real é mera coincidência.

**Sociólogo, jornalista e escritor.

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Boal visita o Jornalismo


Ivânia Vieira*


"Cidadão não é aquele que vive em sociedade, é aquele que a
transforma"

Augusto Boal, em março deste ano, na Unesco

Ouvi falar pela primeira vez de Augusto Boal no início dos anos 80 quanto estudante de Comunicação Social na então Fundação Universidade do Amazonas, hoje Ufam. Nossa velha grade, com aulas a partir das 7h, incluía cinema e teatro entre outras tantas matérias depois varridas literalmente por uma compreensão que prevalece até hoje de que é preciso acelerar o campo técnico do curso e reduzir outras áreas de conhecimento.

Coube ao professor Narciso Lobo nos apresentar Boal e o seu Teatro do Oprimido. As aulas dos outros professores e professoras (Selda Vale, Marilene Corrêa, Ribamar Bessa Freire, Walmir Albuquerque) pareciam combinadas com tudo aquilo que estávamos descobrindo e construindo, inclusive as CEBs locais.

O Teatro do Oprimido me fascinou. Era a senha para um momento especial - o povo na luta por liberdade. Nunca mais esqueci de Augusto Boal. Ousei ser íntima dele sem nunca ter apertado a sua mão.

Mais tarde, quando o Brasil era outro Brasil vi Boal no Fórum Social Mundial (FSM) e vi uma multidão de jovens e adultos correndo para também vê-lo e aplaudi-lo com entusiasmo e emoção. Meu encantamento de estudante apresentada a recortes da sua obra era confrontado na maturidade. Eu e a multidão de seguidores continuávamos encantados, como nos velhos tempos.

Um dia desses liguei a TV e lá estavam empregadas domésticas no teatro, levadas pelo movimento de resistência criado por Boal. De dia elas lavavam, passavam, serviam seus patrões, à noite, nas folgas, eram atrizes retratando suas próprias histórias e a história do País. Fantásticas, completas, envolventes. Um tapa na cara da burguesia e da mediocridade nacional.

No sábado (2) uma notícia era espalhada no Brasil: morreu Augusto Boal. Encolhida, em um canto de uma sala, pensei sobre as vidas geradas pela arte desse homem, o quanto ela mobilizou e ajudou a transformar, a criar sujeitos ativos. Poxa, Boal não deveria morrer. Ele integra aquele time de gente que é raiz profunda e cheia de galhos longos.

Agora, constato, Boal não tem mais como morrer. Seu Teatro do Oprimido e toda a sua produção de resistência espalhada pelo mundo são um bem coletivo e uma escola possível em qualquer lugar. Cada vez que um ato se completa, no teatro do MST ao do grupo de empregadas domésticas, é Boal em forma de vida e a cada sujeito ativo revelado é uma revolução gestada. A nossa foi na sala do "ICHL velho", com cuspe e giz.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Novo relatório da Repórter Brasil analisa impactos da soja e da mamona

Thaís Brianezi

A Repórter Brasil lança, neste final de abril de 2009, o quarto relatório “O Brasil dos Agrocombustíveis – impactos das lavouras sobre terra, meio e sociedade”, que analisa os impactos econômicos, sociais, ambientais, fundiários e trabalhistas da produção de soja e de mamona no país, nos últimos doze meses. Para fazer a pesquisa, a equipe do Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis (CMA) percorreu 21,4 mil quilômetros, por meio aéreo e terrestre, nos estados da Bahia, Goiás, Mato Grosso e Rondônia, além do Distrito Federal.

Soja
Com a diminuição de crédito ao agronegócio, a quantidade colhida de soja em 2009 (58,1 milhões de toneladas de grãos) deve se manter no mesmo patamar de 2008 (60 milhões de toneladas), de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Apesar disso, entre março de 2008 e março de 2009 foram construídas 14 usinas de biodiesel no Brasil, aumentando para 65 o número total de unidades e ampliando a capacidade nacional de produção do combustível em 23%, atingindo 4 bilhões de litros por ano.

O óleo de soja continua sendo a matéria-prima mais utilizada na produção de biodiesel no Brasil, respondendo por 80% do total, em média. Com isso, os agrocombustíveis ainda não representam uma alternativa concreta de fortalecimento da agricultura familiar. No Rio Grande do Sul, por exemplo, Estado campeão em vendas de biodiesel no mais recente leilão promovido pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a participação dos pequenos agricultores tem se limitado à venda de soja em grão às usinas, que assim obtêm do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) o Selo Combustível Social e as facilidades de financiamento e incentivos fiscais decorrentes deles.

Nos latifúndios, a mecanização intensa e o baixo uso de mão-de-obra nas lavouras de soja não impediram que no ano passado 125 trabalhadores escravos fossem libertados pelos grupos móveis de fiscalização em sete propriedades onde havia plantio do grão. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o caso mais grave em área de soja ocorreu em uma fazenda em Goiás, onde foram encontrados 78 trabalhadores escravos.

Os povos e comunidades tradicionais também sofrem com a aposta brasileira no agronegócio. Não por acaso, a 2ª Assembléia Geral da Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado (Mopic), ocorrida em dezembro de 2008, teve como tema “O impacto da soja sobre as terras indígenas do Cerrado”. Além da campanha da bancada ruralista para que a demarcação de terras indígenas deixe de ser atribuição exclusiva da Fundação Nacional do Índio (Funai) e passe pelo Congresso Nacional, há impactos diretos, como invasão de áreas por fazendas de soja e a poluição (causada pelos agrotóxicos) de nascentes de rios que entram em terras indígenas. Apesar disso, diante da dificuldade em consolidar alternativas de renda sustentáveis para as aldeias, o povo Paresi, no Mato Grosso, produz soja em grande escala, em parceria com fazendeiros e uma empresa de farelo da região.

O lobby ruralista se expressa também na reivindicação por investimentos em infra-estrutura, como o asfaltamento da BR-158, rodovia que viabilizará a exportação da soja pelo Porto de Itaqui, no Maranhão. Apesar de cruzar uma área de transição entre floresta e Cerrado e passar por duas terras indígenas, a obra não tem despertado no governo os mesmos cuidados que a rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163). Na região do Baixo Araguaia, o chamado “Vale dos Esquecidos”, só a expectativa de asfaltamento da BR-158 já foi suficiente para dobrar o preço do hectare de terra, agravar conflitos fundiários e atrair investimentos das multinacionais de soja (a Cargill, por exemplo, quadruplicará a capacidade de armazenamento de um silo localizado à margem da rodovia).

Dentre os impactos socioambientais da produção de soja no Brasil, o relatório traz ainda flagrantes de desrespeito à legislação ambiental no entorno do Parque Nacional das Emas, em Goiás, como o plantio de soja transgênica e a utilização de agrotóxicos proibidos.

Na Amazônia, a pressão da soja sobre a floresta diminuiu, segundo os signatários da Moratória da Soja. Mas ambientalistas avaliam que o desmatamento continua ocorrendo, agora em outros moldes, principalmente em áreas menores. Municípios como Feliz Natal, Gaúcha do Norte e Querência, no Mato Grosso, e Dom Eliseu, no Pará, campeões de desmatamento e importantes produtores de soja, continuaram a desflorestar e a plantar o grão nestas áreas.

Estado eleito pelo CMA para uma análise mais minuciosa, Rondônia vive uma expansão da soja que, de forma geral, tem empurrado a pecuária para áreas de floresta, causando assim o desmatamento indireto. Os produtores do Estado - que em 2008 apresentou o segundo maior crescimento percentual da área de soja do Brasil -, também estão pressionando por mudanças no Código Florestal que permitam uma ampliação do desmatamento legal. A soja em Rondônia também é responsável pelo aumento da concentração fundiária, a exemplo de Corumbiara, onde os sojicultores já invadem áreas de reforma agrária.

Mamona
Em 2009, a área plantada de mamona voltou a sofrer uma pequena queda. Segundo o relatório de safra da Conab de abril de 2009, a oleaginosa deve ocupar cerca de150 mil hectares, diminuição de 7,8% em comparação com 2008, quando o país plantou cerca de 160 mil hectares. Esta queda atinge principalmente a região Nordeste, maior produtora do país, que, dos 156 mil hectares cultivados em 2009, plantou apenas 142 mil este ano.

Este fenômeno pode parecer estranho, já que em 2008 a mamona atingiu ótimos preços (um pico de R$ 85 na Bahia e R$ 80 no Rio Grande do Sul). O cultivo da oleaginosa também recebeu um novo incentivo com a inauguração de três usinas da Petrobrás (em Quixadá, no Ceará, Candeias, na Bahia, e Montes Claros, Minas Gerais) e a opção política da estatal de investir prioritariamente nos produtores familiares de mamona.

A catastrófica atuação da empresa Brasil Ecodiesel nos últimos anos – atraso nos pagamentos, quebra de contratos, abandono da produção de mamona nas propriedades, entre outros –, no entanto, assustou muitos agricultores, que abandonaram a cultura. De acordo com o governo, como a empresa não cumpriu grande parte dos requisitos do Selo Combustível Social, mecanismo que garante a participação das usinas nos leilões de biodiesel e lhes oferece uma série de vantagens fiscais, de três a quatro das seis usinas da Brasil Ecodiesel devem perder o selo este ano. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário, esta medida deve “quebrar a Brasil Ecodiesel”.

Os pequenos agricultores também afirmam que tanto as empresas de biodiesel quanto os governos estaduais ou atrasaram a entrega de sementes, ou entregaram sementes de baixa qualidade, e não providenciaram a assistência técnica prometida, o que impactou o desenvolvimento da cultura. Outra crítica é a falta de visão sistêmica e de investimentos mais amplos nas propriedades familiares. Em Cafarnaum, município campeão de produção da mamona na região de Irecê, Bahia, centenas de agricultores migram para outros estados em busca de trabalhos temporários porque a não sobrevivem da própria produção.

De qualquer forma, apesar de ainda ser a vedete do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) e da Petrobrás, a mamona não é utilizada para biodiesel. Toda a produção brasileira se destina à ricinoquímica, mesmo a parcela adquirida pelas empresas de biodiesel, que, neste caso, atuam como meros atravessadores entre a agricultura familiar e a indústria química.

Este novo relatório do CMA também analisa a fundo as políticas do governo e da Petrobrás para a mamona, mostrando que o PNPB está tendo muitas dificuldades para atingir seus objetivos sociais. Se o programa conseguir cumprir a meta de inclusão da agricultura familiar deste ano, apenas 80 mil pequenos agricultores, de um universo de mais de quatro milhões, serão beneficiados. O último levantamento aponta apenas 28 mil famílias ligadas ao PNPB.

Quanto ao Selo Combustível Social, mecanismo que premia empresas que compram da agricultura familiar, mudanças levaram à diminuição das obrigações das usinas no Nordeste, que agora podem incluir na cota de gastos com os agricultores todos os custos dos contratos (assistência técnica, sementes, diárias, adubos, alimentação, etc), diminuindo o volume de produção efetivamente comprado dos agricultores – e, consequentemente, diminuindo seus ganhos.

Por fim, a decisão da Petrobrás de investir na mamona, oleaginosa muito mais cara que a soja, pode ser colocada à prova pelo mercado e por seus acionistas nos próximos tempos. No entanto, a empresa se justifica alegando que sua aposta é no futuro, quando a mamona, caso sua área plantada se expanda, poderia se tornar matéria-prima relevante para o biodiesel brasileiro. Independente disto, a cultura continua sendo um esteio do sertanejo nordestino, que tem mercado garantido para a sua mamona no setor químico. Mas se e quando a oleaginosa virará biodiesel é difícil de prever.

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