Valentão

sábado, 16 de maio de 2009


Neuton Corrêa*

Valentão perdeu uma perna. Nem gosto de lembrar do tempo em que tinha as duas. Só em pensar nisso me apavoro. Aquilo sim é que era papel de embrulhar prego, grosso, mais grosso que costa de cururu e casca de castanheira. Ninguém ousava contrariá-lo, apenas os desavisados, entre os quais acabei me incluindo.

Fui alvo dele na primeira vez que tive a infelicidade de embarcar no mesmo ônibus em que subiu, paradas depois. Implicou por causa de troco. Aos gritos, na catraca, dizia que queria pagar a passagem. Com a voz trêmula, a cobradora respondia que estava sem troco. Eu, tentando ajudar, disse que ele tinha direito a descer sem pagar. De olhos arregalados em minha direção, porém, ele respondeu: “E quem te perguntou?”.

Nesse dia, quis desaparecer. Só me lembrava da dona Maria, do tempo do CB (antigo supermercado de Manaus). Dona Maria se incomodava com tudo. Um dia, no CB, viu uma mulher escondendo bolachas debaixo da saia. Correu para dedurá-la. Ao sair da loja, minha velha amiga levou uma mãozada e foi advertida: “Isso aqui é para você nunca mais se meter nas coisas dos outros”.

Bem que eu poderia ter recordado desse conselho na hora que levei o carão daquele passageiro. Mas, como lembrar? A expressão dele parecia mais um cartaz com aquela caveira e os dois ossos cruzados, avisando: “Perigo de morte!”. A partir daí, intimamente, é evidente, passei a chamá-lo de Valentão.

A outra vez que aprontou foi a bordo do 422. Quando entrou na viagem, o ônibus já estava lotado. Ou melhor: superlotado! Foi o último a subir na parada do São Judas Tadeu. Restou-lhe ficar pendurado pelo corrimão da porta. De repente, começa o tumultuo. Era ele tentando passar para frente, mas não conseguia se mover.

Licença era uma palavra desconhecida para ele. Naquele dia, Valentão gritava: “passa, passa, passa”. Mas ninguém saía. Para piorar a situação, alguém gritou perto de mim: “Pega um táxi!”. Pra quê! Cutucaram o touro. Pois o brabo respondeu: “Quem é que é corno?”.

A confusão se instaurou. Valentão sai à caça de seu acusador. O bigode dele já estava molhado da baba que sua fúria produzia. Encarou os passageiros, um a um. Perto de mim, pisou no pé de uma garota que se contorceu de dor com a unha amputada. Com medo do Valentão, a moçota se conteve a fazer barulho com a boca, como quem chupa cana.

Naquele momento, o ônibus todo se revoltou contra ele. Para todo lado se ouvia: “Fala, corno”. Foi a viagem toda ouvindo provocação e respondendo com ameaças, até descer no Parque Dez, carregando uma caixa de ferramentas.

Passado quase oito anos daquele ataque de fúria, voltei a encontrá-lo. Foi numa viagem do 213. O bigode está mais crescido. Por onde passava as pessoas apertavam o nariz. Assim que subiu na viagem, deu bom dia a todo mundo. A um metro de mim, abriu dócil sorriso e entregou um papel que dizia assim:

“Queridos amigos, gostaria de contar com a ajuda de vocês. Moro alugado com a família e vivo vendendo jujuba para pagar o aluguel. A caixa custa seis reais e é dela que sobrevivo. Imploro a piedade de vocês porque há três anos perdi a perna em um acidente de trabalho e não posso mais fazer o que eu fazia antes”.
Quando, de volta, passou por mim, pedi o papel e depois fiquei imaginando que, de fato, Valentão não poderá mais fazer o que fazia antes.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustraçao: Myrria

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Ato contra a violência, a impunidade e a invasão da Ufam

sexta-feira, 15 de maio de 2009


Professores, estudantes e técnicos da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) – mais representantes de instituições da sociedade civil organizada – protestaram ontem, pela manhã, no hall do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), contra a violência e a impunidade. A manifestação foi gerada pela agressão física cometida pelos empresários Amin e Mansur Aziz, irmãos do vice-governador Omar Aziz, contra o professor doutor Gilson Monteiro, do Departamento de Comunicação Social da Ufam. Monteiro foi agredido a socos e pontapés dentro da sala de aula.

Os irmãos Aziz foram chamados por uma aluna – filha de um deles – que não gostou de ouvir o professor mencionar o nome do vice-governador como um dos citados pela CPMI que investigou crimes de pedofilia e corrupção de crianças e adolescentes no Brasil. Monteiro explicou que se referiu a um fato de domínio público como exemplo da relação entre poder e imprensa. Omar teria, na época, tentado impedir que essa investigação ocorresse e que o caso viesse a público. “Eu fui agredido fisicamente, mas a maior agressão é contra a universidade”, disse Monteiro. A Polícia Federal abriu inquérito para investigar as circunstâncias da agressão.

No final do ato público, os manifestantes foram até a reitoria da Ufam exigir um posicionamento público do reitor Heidemberg Frota contra o ato de violência dos irmãos do vice-governador a um dos servidores da instituição. Nenhum dirigente da universidade foi encontrado no local. Entidades do movimento social organizam uma grande manifestação de apoio à liberdade de expressão e contra a violência.

Confira o manifesto do ato público:

MANIFESTO GILSON MONTEIRO

A LIÇÃO DE AZIZ


Em 10 de dezembro de 1948, a Assembléia Geral das Nações Unidas proclamou um documento que entre nós parece estar sendo esquecido:

Em seu preâmbulo, diz aquele memorável documento:


A Assembléia Geral proclama

A presente Declaração Universal dos Diretos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.

Hoje, neste dia triste, sem esquecer dos artigos onde se declaram os direitos à vida, à integridade física e à segurança pessoal, temos de recitar os artigos XVIII e XIX :

Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.

e

Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

No dia 11 de maio de 2009, em sua sala de aula, no Instituto de Ciências Humanas e Letras, o Professor Gilson Monteiro, jornalista, candidato a Reitor nas eleições ocorridas na Universidade Federal do Amazonas no último mês de abril foi agredido com socos e pontapés, com palavras e gestos que o ameaçaram de morte. Um dos alunos presentes tentou socorrê-lo, mas foi advertido pelo agressor de que daquela forma seriam tratados todos os que mexerem com sua família. Nos dias seguintes, autoridades exercendo as mais altas funções no poder Legislativo e no Poder Executivo do Estado do Amazonas saíram em defesa do agressor e condenaram a vítima. O poder judiciário ainda não se manifestou.

Entre as declarações daquelas autoridades publicadas em jornais da cidade, encontram-se três que pretenderam ensinar o professor a se conduzir corretamente em sala de aula:


“No meu entendimento, isso serviu de lição para aqueles que não têm respeito no
seu espaço de trabalho.”



“Muita gente está confundindo liberdade de expressão com o direito de
caluniar e difamar. Não é isso não.”


“Há de se reconhecer a emoção do ato, que foi movido a exagero, mas não
foi exagero do professor ao tentar imbuir fatos levianos ocorridos no
passado?”

Disse o agressor, sem que nenhuma autoridade tenha até o momento se levantado para censurá-lo:



“Eu discordo de um professor de formar opinião dentro de uma universidade. Ele é
pago para ensinar”.

Não estamos aqui somente para lembrar os ensinamentos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Estamos aqui para denunciar o fato de que um Professor foi violentamente agredido no exercício da docência, humilhado na frente de seus alunos e ameaçado de morte por pessoa pertencente à família do Vice-Governador do Estado. Nossa denúncia aponta fato conhecido de todos, amplamente divulgada na cidade de Manaus e em jornais de circulação nacional. Denunciamos a agressão ocorrida no dia 11 de maio e temos de denunciar também a conivência e o apoio que autoridades do parlamento e do poder executivo deram ao agressor.

Conivência e apoio que atestam haver o Senhor Aziz dado uma lição que já fez escola. Uma lição da qual muitos dos que têm a obrigação de condená-la mostraram que, na verdade, não têm vergonha de disseminar as diferentes maneiras de a praticar.

O que queremos com esta denúncia? Somos professores, alunos, homens e mulheres, cidadãos brasileiros, estrangeiros no Brasil, cidadãos em outros países. Exigimos que o Estado onde vivemos e as autoridades que nele estão investidas das obrigações de defesa e promoção dos direitos individuais e coletivos dêem provas de que estão cumprindo seus deveres. Também exigimos a prova de que eles não est ão se lixando para o estado de direito.

Exigir-lhes que dêem prova de respeito à dignidade e a integridade moral e física dos que com eles não concordam parece, até agora, um desafio perigoso. O Professor Gilson Monteiro ousou lançar mão de exemplos que circularam na imprensa, comentados nos quatros cantos da cidade. O seu ensinamento dizia respeito à realidade onde vivemos. O que ele e nós aprendemos com a aula do Senhor Aziz? Que teremos, doravante, como Shakespeare, de falar do Reino da Dinamarca, onde algo de malcheiroso pode se espalhar pelo vento sem que ninguém, entre nós, seja infectado.

Esta denúncia será enviada à Ordem dos Advogados do Brasil, ao Presidente do Congresso Nacional, ao Presidente do Supremo Tribunal Federal, ao Presidente da República, a todos os sindicatos dos Professores no Brasil e no exterior e às Nações Unidas. Também será enviada ao Presidente da Câmara Municipal de Manaus, à Assembléia Legislativa e ao Excelentíssimo Senhor Governador do Estado.

Esperamos que estas autoridades se manifestem clara e publicamente sobre a Lição do Senhor Aziz. Ela não pode ser tratada como um acontecimento banal. Não se trata de uma ocorrência da vida privada. Homens públicos foram envolvidos em suas atividades públicas, profissionais e políticas. Todos os que respeitam a cidadania esperam que seus governantes lhes sirvam de exemplos.

Esperamos que estas autoridades ofereçam ao Professor Gilson Monteiro e aos que como ele pensam e se conduzem garantias de integridade física e moral, de liberdade de opinião e de livre exercício da docência. Sem este compromisso, acusaremos essas autoridades de cúmplices do Senhor Aziz e de promoverem a violência como solução aceitável dos conflitos sociais.

Manaus/AM, 15 de maio de 2008

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Indignação

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Wilson Nogueira*

O trânsito de Manaus já está transtornado, mas parece que essa situação não é o bastante para que o Poder Público o corrija imediatamente. A tendência, diante da ausência de vontade política de encarar o problema com interesse coletivo, é a de que a cidade fique cada vez mais estressada. A indignação é uma reação que, transformando-se em força social, pode mudar esse quadro.

O sufoco no trânsito é assunto do dia a dia dos meios de comunicação, dos especialistas em tráfego, dos pedestres e dos motoristas. As leis de ocasião, os planos diretores de araque e os rompantes dos governantes perdem-se nos engarrafamentos. De nada adiantaram. Assim como pouco servirão os que ainda vêm por aí, caso não sejam frutos do debate franco e aberto com os manauenses. Só assim, por meio de acordo público e notório, as leis e os planos poderão ser cumpridos.

Antes disso, o que é possível observar é a cidade se moldando pela necessidade e vontade do poder econômico – desde as pequenas às grandes agressões a convivência coletiva. Tem prevalecido o interesse privado sobre o interesse público. O que mais motivaria a autorização do funcionamento de estabelecimentos comerciais, com milhares de usuários, em ruas estreitas do centro da cidade? O que motivaria a colocação de um semáforo em plena Avenida Desembargador Santa Cruz Machado (antiga Avenida Tefé), um dos corredores entre o Centro, Zona Sul, Zona Leste e o Distrito Industrial? Esses fatos é que desconsertam o bom senso e agridem a cidadania.

Evidentemente o desafogo do tráfego urbano não é um problema fácil de ser resolvido. Mas ele precisa ser resolvido, senão a vida se tornará insuportável e os desdobramentos desse distúrbio são imprevisíveis. Enquanto a solução definitiva não chega, medidas rotineiras, como o cumprimento das leis que ordenam o uso das ruas, já desobstruiriam o tráfego em muitos corredores. O que se constata, no entanto, são carros estacionados irregularmente, carga e descarga de mercadorias em horários proibidos e retornos e semáforos em lugares inadequados.

Torna-se necessário, de igual modo, que o Poder Público garanta um transporte coletivo com quantidade e qualidade, para desestimular o uso do carro de passeio nos corredores de tráfego destinados aos ônibus. É compreensível que o usuário de ônibus, na primeira oportunidade em que lhe sobra uns trocados, compre um carro na esperança de que trocará o inferno pelo paraíso. É também por isso que as ruas recebem centenas de carros todos os dias.

Cientes da agressão à cidade, os governantes também demonstram indignação e até ensaiam medidas saneadoras. A sociedade não só desconfia como tem certeza de que essas atitudes são vazias, sem o propósito firme de resolver o problema de uma vez por todas. Se não fosse assim, agiriam para que as leis fossem cumpridas e criariam meios eficazes de combate ao estresse coletivo. A sociedade deve indignar-se, igualmente, contra esse jogo do faz-de-conta, para fazer com que as mudanças necessárias ao conforto social ocorram de verdade.

*Jornalista, sociólogo e escritor.

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Truculência

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Ivânia Vieira*

A universidade exige ser compreendida como espaço natural do contraditório. Alimenta-se no confronto e no conflito das ideias. Negar essa condição é matar a essência da instituição universidade e fazê-la funcionar como um escolão na mais degradante concepção de educação - como campo fértil ao autoritarismo, à truculência e terra árida onde as sementes da liberdade, da democracia e da cidadania não florescem.

O tipo de agressão da qual foi vítima, na tarde de segunda-feira, o Prof. Gilson Vieira Monteiro, do curso de Comunicação Social, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), denuncia o avanço desse escolão. Não apenas na universidade. Esse ato inqualificável tem raiz nos ensino fundamental e médio e explode no ambiente universitário na versão mais grotesca, o espancamento de um professor.

Não apenas um professor teve o espaço de sala de aula invadido e foi agredido, mas um dos princípios de convivência institucional está rompido. O ato de violência atinge a toda a Ufam. Os códigos desse novo momento estão postos de forma ameaçadora. Não é ficção da telenovela, é real e agora aconteceu conosco. Vence quem detém o poder maior.

Como nos conta a história ainda recente, a vitória é do arbítrio, realiza-se na promoção do medo e do terror, na certeza de impunidade. Nosso desafio é concordar com essa postura ou reorganizarmos nossa indignação e, como universidade, combater o modelo que ora ganha corpo e aprofunda a raiz no ambiente universitário.

A sala de aula é arena. Espaço privilegiado do debate, do sim, do não, das reflexões, das argumentações, das inquietações, da alegria e da dor de conhecer e produzir conhecimento. E conhecimento deve servir, acima de tudo, para que sejamos melhor como pessoas. As armas usadas são os conteúdos dos livros, os acontecimentos que viraram notícia no rádio, na TV, no jornal, na Internet para serem refletidos, questionados, acatados, refutados. A truculência não cabe nesse lugar. Aprendemos na dor o mal que ela representa à humanidade.

RESISTÊNCIA
Ao jornalista Cristovão Nonato nossa solidariedade. Vamos empatar essa luta. O aperto ficou maior, mas não é o primeiro obstáculo a ser vencido. Outros tantos já foram superados. Na fumaça do seu carro destruído está escrito resistência e esperança, companheiro.

Jornalista, professora de Comunicação da Ufam.

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Real e mágico

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Wilson Nogueira*

Notícias que pululam na mídia confirmam a impressão do poeta argentino Jorge Luís Borges de que a realidade é uma ilusão, e a ficção, a realidade. Não precisamos ir longe, nem na história nem na geografia, para citar casos de pleno domínio na feirinha da esquina e nas rodadas de finas bebidas destiladas e fermentadas.

Na comunidade do Açaí, no município de Parintins, perguntei a um agricultor: quantos filhos o senhor tem? Antes, dele, uma voz rouca veio do derredor: “O compadre tem oito! Ele só perde pro bispo!”. Gargalhada geral, claro. Outra voz se apressa: “Que fique claro: não se trata do bispo de Parintins. Esse parece que é comportado até demais”.

Dom Fernando Lugo, eleito presidente do Paraguai em 2008, tornou-se personagem real e imaginária de homens e mulheres pelo mundo afora. Seus feitos de pastor-reprodutor correm pelas ondas do rádio, da TV e das infovias na medida em que as mamães beatíssimas exigem que ele reconheça as paternidades cometidas sob a guarda da batina. As queixosas são tantas que formaram até uma comissão para tratar dos seus e dos direitos dos filhos com o agora presidente Dom Lugo.

No Brasil, os acontecimentos do cotidiano também atestam esse limite tênue entre o real e o irreal. Em sessão transmitida pela TV, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, foi acusado, pelo ministro Joaquim Barbosa, de ter capangas sob seu comando em Mato Grosso. “Vossa Excelência, quando se dirige a mim, não está falando com seus capangas do Mato Grosso”, afirmou Barbosa, em resposta a um rompente de Mendes. A desmedida da Alta Corte da Justiça brasileira encerrou o caso com uma nota lacônica e insossa – uma atitude de autopreservação da espécie.

No Congresso Nacional, os gêneros ficcionais são tão avassaladores e céleres que qualquer exemplo a essa altura já estaria superado. Mais surreal que o Congresso só a mídia brasileira, que só agora se deu conta de práticas ilegais e imorais cometidas por grande parte das “Vossas Excelências” desde a fundação da República. Justifica-se: Mas antes tarde do que nunca. Não é de se estranhar, portanto, que nem sempre notícia significa novidade. Por que será, hein?

Já no Amazonas, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) descobriu que juízes e desembargadores administram e praticam a Justiça do modo que lhes vem à veneta. Há três anos um desembargador levou um processo para a casa dele e até então não o havia devolvido. Na folha de pagamento do TJA havia um cabo PM com vencimentos de R$ 18 mil, um sonho de oficiais e suboficiais da cooperação. O relatório do CNJ sobre TJA tem 470 páginas.

Outro paradoxo é ver o deputado caçador de bandidos Wallace Souza suspeito de envolvimento com o narcotráfico e grupos de extermínio. Na casa dele, a Polícia Civil encontrou munição pesada, UR$ 240 mil e US$ 18 mil. O filho dele, Raphael Souza, é acusado de praticar os mesmos crimes. Não seria de se estranhar se, logo, logo, Wallace reaparecesse na TV berrando e perseguindo a ralé delinqüente como se ele fosse o cara.

Então a vida seria assim, feita de realidade e ficção – por sinal, mais ficção que realidade, porque aquilo que não pode ser vivido ao menos pode ser sonhado. É necessário explicar, entretanto, que é no sonho, na ficção e no imaginário que os seres humanos tecem a realidade almejada. É por isso que os poetas sonham de olhos bem abertos.

Deixo-os, a propósito, na companhia do poeta Dori Carvalho, com o poema As tetas do povo: “ fiquem aí os senhores/ mamando nas tetas/ do povo/ enquanto o povo/ mama nas tetas/ das pedras/ cuidado muito cuidado senhores/ qualquer dia/ as pedras viram armas qualquer dia/ a fome vira raiva/ qualquer dia/ a casa cai.”

*Sociólogo, jornalista, escritor.

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