A origem das coisas

sábado, 30 de maio de 2009

Neuton Corrêa*

Dei um jeito de ficar mais perto da conversa. Queria ouvir a resposta da pergunta que seria respondida pelo próprio inquiridor: “Vocês sabem do que se faz um político?” Bisbilhoteiro, orelhudo e ávido por conversas, pensei: “Essa eu não perco nem que tenha que passar da minha parada”.

Estava disposto mesmo a saber de que matéria-prima se faz o político. Afinal, não era uma pergunta qualquer. Era a pura filosofia. Civilizações e civilizações passaram milênios investigando a origem das coisas e não descobriram nada. E eu, ali, no aperto do 414, prestes a descobrir a origem das coisas.

Na verdade, não que as civilizações não tenham descoberto nada. Elas matutaram, mas cada uma encontrou uma explicação diferente. Os gregos, por exemplo, achavam que a origem de todas as coisas era a água; depois imaginaram que fosse o ar; pensaram no fogo... E não pararam por aí.

Houve até quem dissesse que as coisas eram só matemática. Já pensou? Mas explicava-se. “Tudo é número”. De fato, sim. Tenho um amigo que corre todos os dias para cima para baixo para perder alguns números de sua massa corpórea.

Aqui, perto de nós, no começo desse rio que passa à frente de Manaus, na cabeceira do Negro, os Dessana empreenderam tamanho esforço para explicar de onde vieram e de que as coisas surgiram. Tinham uma certeza: “Antes o mundo não existia” e o que existe hoje, pensaram, surgiu quando apareceu a “Avó do mundo”.

Naquela hora que me aproximei da falação do ônibus, lembrei até do catecismo. Lá também, debaixo da mangueira do barbudo “Acaba-rancho” da Catedral, já ouvia as primeiras explicações para a origem das coisas. Lembram dessa frase: “No princípio era o Verbo e o Verbo se fez carne”? Era explicação semelhante que esperava naquela viagem.

Mas, amigos do busão, tive a infelicidade de ouvir a explicação. Veio do menor da turma. Um sujeito que entrou à altura da Torquato Tapajós, perto da Philips. Vestia calça jeans, um paletó preto, uma camisa azul e uma gravata que ainda não estava lhe engasgando.

Depois que conseguiu chamar atenção dos companheiros de viagem, começou a dar a resposta:
“Parente, um político passava na praça, vê um artesão fazendo uma escultura. Ele para e diz:
- Quero ver se você faz um político.

Prontamente, ele caminhou para trás de um muro e voltou com um barro que ninguém suportava o mau cheiro. Misturou com um resto de areia, amassou e mostrou para o cidadão:
- Está aqui.

O político não gostou da forma, mas fez outra provocação. Quero ver agora você fazer um vereador.

O artesão voltou para o muro, pegou uma quantidade maior de barro insuportável, amassou a terra com os pés e, com as mãos, deu forma ao vereador. Criou um boneco, colocou olho, boca e vestiu a escultura com um paletó. Aí, o artesão mostrou para ele:
- Está aqui.

Parente, o político ficou todo animado. Nem se importava com o cheiro da massa. E fez nova encomenda.

- Quero ver agora você fazer um deputado.

Aí, parentizinho, o artesão correu para trás do muro, olhou, coçou a cabeça e disse, lamentando:
- Olha, o barro que eu tenho aqui é pouco, não dá para fazer um deputado”.

Depois disso, perto da Assembleia Legislativa, o homem desembarcou.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura/Ufam.
Ilustração: Myrrya

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Wilson Nogueira e a Amazônia

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Tenório Telles*

O cientista Djalma Batista entendia a Amazônia como uma esfinge a ser decifrada – tarefa que só seria vencida com a elaboração de um saber adequado às especificidades regionais. Defendia, nos anos 70 do século passado, a necessidade de se promover ações educativas capazes de proporcionar o preparo técnico e científico que permitiria o aproveitamento sustentável de sua biodiversidade.

Nesse empreendimento de decifração do universo amazônico, os estudos sobre os processos culturais na região têm ajudado a desvelar a complexidade das manifestações artísticas e o simbolismo da festas populares como fatores fundamentais da constituição da identidade regional. Prova disso são as reflexões de pesquisadores como João de Jesus Paes Loureiro, Benedito Nunes, Márcio Souza, Renan Freitas Pinto, Marilene Corrêa, Edinea Mascarenhas Dias, Neide Gondim.

O livro “Festas amazônicas”, de Wilson Nogueira, é tributário dessa nova realidade reflexiva sobre a Amazônia, em que o debate sobre a identidade, a cultura e as questões socioeconômicas tem ocupado o foco de estudiosos de diversas áreas do conhecimento. A visão expressa pelo autor desta obra não se encerra na análise unilateral do tema enfocado, mas amplia-se para uma perspectiva que engloba o regional e os desdobramentos do globalismo: “A Amazônia hoje, como natureza, sociedade e cultura, é, também, o resultado do processo histórico de expansão do modo de produção capitalista e das suas formas de intervenção: mercantilismo, colonialismo, imperialismo, internacionalismo e globalismo”.

Wilson Nogueira suscita elementos novos em suas reflexões sobre o processo cultural amazônico, problematizando as festas regionais em suas vinculações com as demandas econômicas, ao mesmo tempo em que “verifica as relações das festas populares com o mercado capitalista na Amazônia”, fundamentando seus argumentos “na confluência da história, da economia, da sociologia, da antropologia e da comunicação social”, associando-os à sua sensibilidade e olhar de “pesquisador participante”.

A pretexto de estudar as manifestações populares mais expressivas da Amazônia, o escritor, na verdade, empreende uma acurada reflexão sobre a complexidade e as contradições decorrentes do choque das demandas impostas pelo capitalismo e o universo simbólico das populações amazônicas, fato que não passou despercebido ao olhar da professora Marilene Corrêa que, ao comentar o trabalho, enfatiza o fato de o autor ter escolhido “olhar a Amazônia por meio de suas festas populares”.

O livro de Wilson Nogueira é revelador sobre os processos socioculturais em curso no espaço regional, que ajudam a revelar a esfinge, decifrando-lhe os segredos, enigmas e perspectivas de futuro. Pela seriedade e rigor de seu trabalho reflexivo, com foco na realidade regional, Nogueira constrói sólida reputação intelectual e se destaca como pesquisador comprometido com os problemas e o futuro da Amazônia.

*Escritor, membro da Academia Amazonense de Letras.

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Por uma nova conquista

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Wilson Nogueira*

Quem não se imagina em um mundo estável? O conforto é bem melhor. Não há dúvida sobre isso. O problema é que o mundo se tece nas contradições e, por isso, os lugares e momentos de conforto tornam-se raros, principalmente para os que vivem muito aquém das ilhas de riqueza ao redor do Planeta. Os ciclos das crises no capitalismo desnudam essa realidade que se esconde nas épocas de pseudo-estabilidade. Pronto! O mundo está em crise novamente, e o que fazer agora?

Nunca os governos mundiais agiram tão sincronizados e imediatamente para reanimar a circulação de dinheiro no mercado e retomar a produção. Os resultados dessa ação tendem a evitar que o mundo vá até ao fundo do poço, como nas crises anteriores. Lembremo-nos, por favor, dos dois filhotes da crise de 1929: o nazismo e o fascismo, cuja ambição de controle global desaguou na segunda guerra mundial. É possível observar por esse ângulo que as crises no capitalismo não dizem respeito apenas à paralisia do dinheiro.

A provável solução para a crise atual, portanto, não se encerra com a desobstrução do mercado financeiro. Há, nesse momento, uma questão maior a considerar: o que fazer para evitar o colapso do Planeta em razão da exaustão que lhe impõe o modo de produção vigente? O mundo tem hoje 6,6 bilhões de pessoas. Todas – ou praticamente todas – estimuladas para o consumo sem controle. Afinal, é dessa lógica que sobrevive o capitalismo.

Impõe-se necessária e urgente uma nova realidade para o mundo fora do capitalismo que se conhece hoje. A crise, além de expor facetas do capitalismo, precisa agitar a inteligência na busca de novos padrões de sobrevivência, de convivência e de conhecimento. Há pouca margem para se pensar em ajustes duradouros para um sistema que, historicamente, degrada a vida e reduz os recursos naturais em escala planetária. Cálculos matemáticos simples demonstram que o mundo estará insuportável daqui a 20 anos em razão dos impactos do aquecimento global. Os cenários vislumbrados, a partir daí, são cada vez mais apocalípticos: conflitos generalizados pela disputa de água e alimentos.

A amortização desses impactos depende da redução do consumo de energia gerada por combustíveis fósseis, das novas descobertas e do uso ampliado das atuais fontes renováveis de energia, e, sobretudo, da renúncia ao consumismo. Para se livrar da catástrofe, a sociedade mundial terá que se assentar em um novo padrão de vida e convivência ainda não experimentado plenamente. Não é difícil imaginarmos uma sociedade na qual a compra de objetos e produtos materiais e culturais se destinem, unicamente, à qualidade da vida material e espiritual. Difícil será construí-la.

Essa tarefa não pode mais ser protelada. Nunca o planejamento das micro e macro estruturas esteve dependente de um futuro tão visível. Por isso, planejar e administrar sem levar em consideração a situação em que viverá a humanidade nos próximo 50 anos é um crime. Nesse sentido, há governos, empresas e muita gente cometendo crimes por aí, apressando o desconforto das novas gerações. Assim, fica difícil sonharmos com um mudo melhor, mais confortável.

* Sociólogo, jornalista e escritor.

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Tarefa de eleitor

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Ivânia Vieira*

A sessão especial no Senado pela passagem do primeiro ano de morte do senador Jefferson Péres (completado no dia 19 deste mês) tinha muitas cadeiras vazias. Esse tipo de acontecimento, lá e cá, cada vez mais perde relevância e é consificado. Do evento de Brasília vale anotar pelo menos uma das tantas frases ditas sob a inspiração da atuação política de Péres, a do senador por Roraima, Mozarildo Cavalcanti. Em seu discurso, o parlamentar devolveu ao eleitor a tarefa de impedir que maus políticos sejam eleitos e de mandar de voltar para casa os eleitos cujos mandatos desonraram.

Cassar um parlamentar por falta de decoro é uma briga grande e difícil. O grito dos eleitores não costuma ser ouvido e, com alguma freqüência, prevalecem composições de outros interesses muito distantes do bem coletivo. Ainda assim e, talvez por ironia da história, Mozarildo presta um favor enorme à sociedade brasileira ao lembrar do quanto ela pode fazer se estiver organizada e melhor informada. Muitos bandidos com cara de ‘mocinhos’ e/ou candidatos ao título começam a aparecer e a reaparecer na orquestração em torno das eleições de 2010.

Vale começar hoje a espiar essas figuras, a fazer um reality show da/na política. Nenhum de nós vai ganhar R$ 1 milhão ou ter participação especial nos programas de entretenimento da TV, mas seguramente impediremos que muitos milhões de reais sejam desviados, usados por grupos privados usurpadores dos bens públicos cuja mão se estende por toda a estrutura do poder, com as suas grandes famílias entranhadas e vorazes.

Várias parafernálias tentam amansar a indignação, desmantelar a base de formação de uma consciência crítica. É gigantesca a estrutura erguida em nome da cultura da frivolidade e do assujeitamento coletivo, ainda assim os Luiz Odilo caminham firmes e ensinam sobre liberdade. O sistema de auto-proteção aos maus políticos e aos maus administradores não se sustenta diante de cidadãos e cidadãs indignados. Por isso tanto investimento feito para maquilar realidades e premiar com mandatos grandes corruptores.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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O controle do imaginário segundo Luís da Costa Lima

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Wilson Nogueira

O imaginário sempre esteve sob controle. Essa afirmativa conduziu o Professor Doutor Luís da Costa Lima, do Departamento de Literatura da PUC-RJ, a uma complexa e demorada pesquisa sobre a relação do ato criativo humano, principalmente nas artes e na literatura, com o poder, segmentos de poder e com o mercado. Dos estudos e reflexões sobre o tema resultou a elaboração da teoria do controle do imaginário, assunto que, segundo o próprio pesquisador, exige cada vez mais energia intelectual aprimorada. Luís Costa Lima participou, em Manaus (AM), nos dias 12, 13 e 14 de maio, do “Colóquio nacional poética do imaginário: literatura, história e memória”, promovido pela Cátedra Amazonense de Estudos Literários e pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Em entrevista ao TEXTOBR, ele também falou sobre outros assuntos, como crítica literária e profissionalização do escritor no Brasil. Confira:

Professor, qual o eixo orientador da teoria do imaginário?
A idéia é simples, mas, ao mesmo tempo, exigiria uma equipe de pesquisadores para explicá-la, porque eu, sozinho, nunca darei conta da extensão do problema. O que se entende por controle do imaginário? Muito sumariamente, sabemos que não existe sociedade sem que haja um conjunto de regras, e próprio de uma regra é proibir alguma coisa ou admitir outras. Nesse sentido, toda sociedade já tem consigo naturalmente um controle. Não é sobre esse controle natural, derivado do ordenamento de regras, que me refiro quando falo em controle do imaginário.

Controle do imaginário supõe, sim, que tal sociedade não é um corpo homogêneo, como um núcleo, mas que apresenta certos setores ou classes com valores diferenciados. Então, o setor com classe dominante tem conjuntos de valores que procura defendê-los antes mesmo de eles serem atacados. Por controle, entende-se, portanto, essa espécie de Espada de Dâmocles que pesa sobre a cabeça do produtor, do artista. Por que do artista? Porque a obra de arte é, por excelência, obra do imaginário. E é a espada de Damocles que, a qualquer instante, pode desabar.
Isso supõe potencialmente que tal obra contém práticas ou contestação de valores que são os valores da classe dominante, classe ou setor dominante. Fundamentalmente é isso que é controlo do imaginário.


O mercado então seria um mecanismo de controle?
Eu tenho estudado o controle basicamente do Século 16 para cá. Nos séculos anteriores aos momentos da globalização, a partir da década 1980, o controle tinha um caráter dominantemente ético-religioso ou um caráter científico. Desde que ciência se tornou discurso principal, ela se tornou, também, um instrumento de controle da obra de arte. Com a globalização, em vez de o controle se basear em valores éticos ou científicos, observa-se o que eu chamaria de uma neutralização estética – o controle a partir de uma neutralização estética. Isso quer dizer: uma determinada obra ou ação pode ser contrária a valores dominantes, entretanto, os manipuladores do mercado verificam que, mesmo agressiva, porque é contrária, isso vende. Então essa obra não é só vendida, mas estimulada exatamente porque ela é contrária aos valores dominantes. Como isso é possível? Ora, através de uma neutralização do estético. Não se considera a obra pelo seu valor estético, mas pelo seu valor de mercado.


Qual seria o melhor exemplo para essa situação?
Parece-me que o exemplo é menos freqüente em literatura do que na pintura. Situação típica seria a do gerente de um banco que tem atrás de si uma obra de pintura abstrata. Ele não entende absolutamente aquilo, está se lixando para aquilo, entretanto, sabe que aquilo tem um grande valor de mercado.


"O que vem dá em regionalismo, realismo e toda essa série cujo termo correto seria imbecilidade"
Na opinião do senhor, qual é o gênero literário dominante no Brasil hoje?
Eu verificaria duas tendências. Uma que eu acredito dominante – ela mantém uma tendência nossa que é o documentário, o realismo. A idéia da obra como espelho – com ou sem aspas – da realidade. Essa tendência atravessa o Século 19 e vem para o Século 20, o que vem dá em regionalismo, realismo e toda essa série cujo termo correto seria imbecilidade. Isso impõe um controle do ficcional. Esse controle do ficcional, parece-me, continua dominante entre nós. Mas, ao mesmo tempo, eu vejo surgir um movimento contrário. Vejo com muita esperança uma tendência contrária. A tendência que começar a romper com a obrigatoriedade de a obra ter consigo índices de brasilidade evidentes – esse exemplo estaria na obra de Bernardo Carvalho –, e a tendência da substituição da idéia de regional e regionalista pela idéia de reflexão. Ou seja: reflexão da memória, da herança, sobretudo, de migrantes – isso corresponderia, fundamentalmente, à obra de Milton Hauton. Essas seriam as duas tendências.


Observei, no colóquio, que o senhor se insurgiu contra o reconhecimento da carta como obra literária. É isso mesmo?
A consideração a ser feita é que não se leva em contra, normalmente, a grande mudança que a idéia de literatura tem a partir de 1960 a 1970, o auge da reflexão teórica contemporânea, que modifica completamente a idéia de literatura que se desenvolve a partir das histórias literárias do Século 19. Essa idéia suponha a literatura como um conceito de metahistória, vindo lá de Homero, atravessando os gregos, passando pelos romanos, quando se sabe que, historicamente, a idéia de literatura como um discurso autônomo, diversificado, próprio, vem apenas do final do Século 18. Vem do chamado primeiro romantismo alemão. Isso degenera rapidamente a literatura como expressão de um eu, da individualidade, eu quem falo, enquanto o cientista observa – essas besteiras.

Leva-se em conta, portanto, que toda essa revisão do conceito de literatura põe em cena uma coisa que a gente não deveria esquecer, que é a literatura como nós a entendemos, ou seja, que é a literatura com discurso ficcional, próprio, distinto do texto historiográfico ou do discurso das ciências sociais. Essa acepção, repito, é recente, do final do Século 18. É nesse sentido que vem a minha oposição à carta como elemento literário.

Quando Cícero se retira para a sua propriedade, para escrever as suas cartas, ele não está pensado carta como nos entendemos. Quer dizer, como nos entendemos: eu lhe escrevo uma carta (... se para tanto eu me retiro não sei para onde para que essa carta seja mais elegante etc). Você ao recebê-la, pode ser que ela seja muito bonita, pode ser que ela seja à la Rui Barbosa, mas carta não é.

Carta, para nós, supõe um documento auxiliar da história. A carta antiga não é isso, não é um acessório da história, e tão pouco a obra antiga é uma obra ficcional. Em princípio, tomar a carta como um gênero literário, supõe entender, como o expositor fazia, literatura como expressão refinada ou exploração de situações universais... Confesso, sinceramente que isso é o antiquarismo a toda a prova.


Como o senhor observa o Brasil como lugar de cenas e cenários para a literatura. Aliás, nesse aspecto, o Brasil é um lugar explorado?
Acho que pensar a literatura brasileira é chamar a atenção para um fenômeno que me parece mais inexplicável até hoje. O fenômeno Machado de Assis. Machado é cercado por todos os lados por realismos, controles, explorações da natureza, nacionalidade, todos os princípios estranhos à idéia de literatura, mas Machado consegue driblar tudo isso com uma simplicidade genial. Não consigo entender como é que aquele mulato consegue essa genialidade toda. Obviamente, que não pelo fato de ele ser mulato, mas pelo fato de ser brasileiro cercado por aquele ambiente.

Nesse sentido, na medida em que Machado é uma grande exceção, e na medida em que as tendências antimachadianas... Tomo o ensaio de Machado sobre instinto e nacionalidade, quando ele vai dizer: olha, a nacionalidade é um instinto, no sentido de que o fato de eu nascer aqui ou ali me faz criar, automaticamente, uma série de valores, atitudes e reações que são como que instintivas. Então, explorar [isso na literatura] como tal é uma imbecilidade. O fato de ser machado uma exceção entre nós significa dizer que somos hoje uma exploração muito pobre, muito controladora da dita realidade nacional. Falar em realidade nacional em termos de literatura já é controlar a expressão literária.


Quais são as possibilidades de profissionalização do autor no Brasil?Praticamente nulas. Há dentro do mundo capitalista – e no mundo inteiro hoje só existe o sistema capitalista – uma larga voracidade de lucro. Isso é redundância. Falar em capitalismo é falar, obviamente, em voracidade. Mas o mercado editorial apresenta, como algumas poucas exceções, uma voracidade muito específica.

Como é que se traduz essa voracidade editorial entre nós? No favorecimento indiscriminado daquilo tudo que é livro de autoajuda ou é livro de diluição, ou é livro com possibilidade de ser best seller. O grande inimigo de uma fecundação literária brasileira está nos editores, em primeiro lugar; em segundo lugar, no fato da conivência entre a academia e esses preceitos reais. Você tem na última década uma possibilidade de simpósios e encontros de literatura como nunca houve nesse País, mas em que simpósio, em que encontro essas questões são levantadas? Não são levantadas. É isso é que eu chamo da perduração do que o Sérgio [Sérgio Buarque de Holanda] designava como cordialidade. A dita cordialidade. Ou seja: confundir crítica intelectual com crítica pessoal. A dita cordialidade é responsável pelo fato de que essas grandes questões sejam sabidas mas não sejam discutidas.


“A academia brasileira é extremamente irregular. Você encontra em meia dúzia de universidades algumas figuras de qualidade efetiva cercados por grandes continentes de mediocridade”.
Qual a sua opinião sobre a crítica literária brasileira como orientadora do leitor? Como orientadora eu não diria. Diria como mediadora no sentido de facilitar o leitor a reconhecer bem ou mal diferentes direções e novidades. Nesse sentido, a crítica como mediadora praticamente desapareceu com o desaparecimento dos suplementos, e o fato de que o que se chama de jornalismo cultural inexistir entre nós. Isso é um grande vazio. A ausência da crítica mediadora representa um grande vazio.

No interior da academia, no interior da universidade, vejo alguma coisa que não é muito simpática nesse sentido, mas que precisa ser dita – eu não faço questão nenhuma de ser simpático. A academia brasileira é extremamente irregular. Você encontra em meia dúzia de universidades algumas figuras de qualidade efetiva cercados por grandes continentes de mediocridade. Claro, isso não é exclusividade brasileira, a qualidade não é bem uma propriedade humana. Mas entre nós essa divergência se acentua. Você tem uma margem de mediocridade muito grande, uma maioria de medíocres em relação a umas poucas figuras excepcionais. Parece-me que isso, também, não é exclusividade do campo da literatura, mas estamos falando de literatura...


Qual é a lição que o senhor toma desse encontro de Manaus?
O meu maior medo a respeito de Manaus era o calor. Esse medo não se cumpriu. Acredito mesmo que foi uma excepcionalidade, uma sorte. Mas a coisa que mais me impressionou no Amazonas foi... Uma coisa é saber que somos um país continental. Outra coisa é verificar essa continentalidade. Foi a vinda a Manaus que me fez perceber essa coisa extraordinária que eu não sei como explicar. Como é que nós conseguimos essa unidade nacional, onde se tem diferenças de sotaques, mas são apenas de sotaques. Você fala português de ponta a ponta do Brasil. Em Manaus, eu tive a sensação de que falo mais português do que no Rio Grande...


Qual a sua avaliação sobre o acordo ortográfico da língua portuguesa? A ausência de um trema para mim é um sofrimento, como suponho que tenha sido um sofrimento no começo do século do século passado, como o desaparecimento do y e do w.


Obras de Luís Costa Lima
Dispersa Demanda (1981)
O Livro do Seminário (1983)
O Controle do Imaginário (1984)
Sociedade e o Discurso Ficcional (1986)
O Fingidor e o Censor: no Ancien Régime, no Iluminismo e Hoje (1988)
A Aguarrás do Tempo: Estudos sobre a Narrativa (1989)
Pensamentos nos Trópicos (1991)
Limites da Voz: Montaigne, Schlegel (1993)
Limites da Voz: Kafka (1993)
Vida e Mimesis (1995)
Terra Ignota (1997)
Mimesis: Desafio ao Pensamento (2000)
Euclides da Cunha: Contrastes e Confrontos do Brasil (2000).

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