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Eu, minha sogra e as pipiras
sábado, 6 de junho de 2009
Uma homenagem pelo Dia dos Namorados Neuton Corrêa* Chegou, finalmente, o dia. O dia que irei descontar o transtorno que minha sogra causou às pipiras de casa. Na segunda-feira, ela me pediu para levá-la à casa de dona Maria, velha amiga da família que se mudou para outro bairro. Desde então, fiquei tramando o troco que vou lhe aplicar pelos problemas que causou às minhas aves preferidas.
Dinoca, a dita mãe de minha mulher, não conhece o endereço. Já lhe falei qual ônibus tem que pegar. Ela, porém, não se deu por satisfeita. Quer mesmo que eu vá. E já que terei que fazer o sacrifício aproveitarei para lembrar bastante dos meus passarinhos.
Dinoca é apenas um dos apelidos que ela tem. Chamam-na também de Bidoda e de Coca. Dinoca é o agrado familiar; Coca é para os mais íntimos; e Bidoca é a confusão que o pessoal faz com Dinoca. Pois é, moro com ela há 20 anos. Casei com a Darci e ganhei a Coca de brinde, porque minha esposa é filha única.
Já faz tempo que quero lhe aplicar essa maldade. Desde 2001, quando troquei a Zona Sul pela Zona Norte. No novo endereço, tinha tudo o que um caboco na capital sonha, especialmente sessenta metros quadrados de quintal ainda no chão. E mais: repleto de mamoeiro.
Foi nesse espaço que comecei a admirar as pipiras. Os mamoeiros eram uma festa para elas. E elas, uma festa para mim. Passava horas a observá-las. Gostava de ver minhas parceiras de quintal comendo e chorando dentro do mamão. De tanto observá-las, acabei conhecendo a filosofia das pipiras, ecologicamente correta.
Passei a perceber que de cada mamoeiro elas comiam apenas um mamão. Furavam sempre o mais bonito. Comiam até o final e só passavam para outra fruta depois que a polpa daquela acabava.
Certa vez, ao chegar em casa, não encontrei mais os mamoeiros. As últimas imagens deles eram somente toras das plantas jogadas no chão, como cadáveres frescos, postos lado a lado, ainda sangrando.
Para tentar restabelecer a companhia das pipiras, apelei para outra solução. Plantei duas bananeiras. No pé da cova, fiz uma advertência: “Essa bananeira é das pipiras”. Não houve jeito. No primeiro cacho, antes da fruta amarelar, a Coca chegou na minha frente, cortou o talo, separou as pencas e abafou as bananas para amadurecer em uma saca.
No segundo cacho, usei minha autoridade de chefe de família que achava que tinha. Tão logo a bananeira pariu o mangará, avisei: “Não quero que ninguém mexa nesse cacho”. A ordem foi obedecida. Aí, pensei, agora vou pendurar a banana no caibro do telhado para ver minhas pipiras fazendo o banquete dentro de casa.
Mas, senhores, vocês não vão acreditar. A Dinoca foi lá e cobriu as bananas com um pano. Fiquei com um nó na cabeça porque as pencas estavam no alto, tão alto que fui obrigado a imaginar a arte que fez para subir na cumeeira.
Descobri isso quando ela começou a tirar as frutas amarelas. Para chegar à altura, Dinoca arrastava uma enorme mesa de madeira, puxava uma cadeira para perto, colocava outra cadeira sobre a mesa e ficava à vontade para mexer no cacho.
Depois disso, definitivamente, havia desistido. Mas, na semana passada, resolvi, de novo, buscar uma forma de reatar a amizade com as choronas. Fui à feira e comprei dois mamões. Coloquei-os no quintal para atraí-las, mas quando cheguei do trabalho, vi somente uma banda de mamão jogada no lixo, limpa como cuia raspada.
Amanhã, quando terei que levá-la na casa de dona Maria, já sei o que vou fazer com a Coca. Colocarei minha sogra no Circular 015. Serão apenas três horas de viagem. Poderia ir pelo 450. Daria apenas meia hora. Mas acho que esses 180 minutos que vamos rodar serão suficientes para ela perceber o porquê de nesses 20 anos eu ainda estar saboreando a mesma fruta.
*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Myrria Marcadores: Crônicas
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A Copa e a reza da ‘Tia Maria’
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Ivânia Vieira*
'Tia Maria' anda triste. Ela rezou para Manaus não ser subsede da Copa de 2014. No domingo (31), enquanto uma multidão explodia em alegria pela confirmação da cidade na lista das 12 capitais brasileiras que vão sediar os jogos, 'Tia Maria' encolhia-se, desolada.
Seu pedido não foi aceito, pode no máximo ter ajudado a gerar o dilema ao qual se referiu o presidente da Fifa, Joseph Blatter, na hora da escolha da cidade da Amazônia, na da mais além disso. A tia não entende e não aceita a matemática de determinados investimentos feitos por aqui.
Por que investir R$6 bilhões no projeto Copa 2014 enquanto a área de saúde está quebrada? Questiona ela, mais confusa ainda como apoio da massa à iniciativa. Não se trata de um caso típico de ranzinice. A atitude dela expõe uma tensão ignorada com alguma freqüência e aliviada pelos remédios das festas públicas.
Usuária do Sistema Único de Saúde (SUS), mãe de duas jovens, ambas acometidas de câncer, 'Tia Maria' até gosta de saber sobre a vida dos jogadores e de torcer pelo Brasil. Mas, no dia a dia, conhece as ladeiras e o precipício a serem vencidos para conseguir uma consulta médica e realizar os exames pedidos. Sabe exatamente o tamanho da agoniada espera e de como o 'calendário da marcação' é demorado e incerto.
Percebe a vida escapando na filada tentativa de ser ouvida, com alguma atenção, por um médico e perdeu a conta da quantidade de vezes em que foi tratada como qualquer coisa. Sonha comum sistema público de saúde que a veja como pessoa portadora de direitos e, por isso, terá, quando ela e um dos seus precisarem, uma estrutura física e humana de qualidade para recebê-la.
Nesse momento, diante da dor provocada por tantos nãos, pelos equipamentos quebrados, pela falta de profissionais, 'Tia Maria' rejeita a festa da Copa. Ela não tem mesmo o Que festejar, sua vida tende a continuar do mesmo jeito: esperando a vaga, o equipamento ser consertado, o calendário da marcação de consulta ser mais curto, arrasando-se na sobrevivência.
Seria muito bom se pudéssemos festejar a escolha de Manaus com a certeza de que estamos fazendo a lição de casa com esmero. Ou seja, investindo dinheiro público na garantia de qualidade de vida dos amazonenses e vigiando o destino dessa verba. 'Tia Maria', seguramente, seria mais uma nessa multidão e nos surpreenderia estendendo a bandeira e, mesmo com dificuldades, dando pulinhos de alegria de torcedora.
*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.Marcadores: Crônicas
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Copa e foguetório
Wilson Nogueira
Os manauenses correm o risco de herdar da Copa de 2014 apenas o foguetório. Essa possibilidade deve-se, principalmente, à ausência da população na definição das prioridades apresentadas à Fifa na ampliação e melhoria dos serviços e equipamentos da cidade. É óbvio que os organizadores da competição exigiram prioridade à garantia de conforto e comodidade aos que se envolverão de modo direto com os jogos, como torcedores, turistas e jogadores.
A adequação da cidade às necessidades da Fifa custarão mais de R$ 6 bilhões. A maior parte desse dinheiro sairá dos cofres públicos. Nada mais justo do que a população decidir sobre como e onde aplicar esse dinheiro, ainda que condicionada a compatibilizar as melhorias da cidade ao bom desempenho das partidas. Decisões compartilhadas resultariam em obras com aproveitamento mais amplo e mais duradouro.
Ninguém em sã consciência seria contra a realização de jogos de uma copa mundial de futebol em casa. Afinal, futebol é o esporte mais popular dos brasileiros. Além disso, movimenta muito dinheiro, cria expectativa de emprego e renda. Não é de se estranhar que milhares de pessoas de 17 cidades torceram nas ruas, na frente dos aparelhos de TV, da tela do computador ou de ouvidos grudados no rádio para se ver incluídos nessa celebração de repercussão planetária. A comemoração da escolha de Manaus ocorreu no estacionamento o estádio Vivaldo Lima. Lá, os manauenses ouviram foguetório, longos discursos e dançaram noite adentro.
Espera-se que, passada a euforia, a população perceba que precisa assumir o papel de protagonista na preparação da cidade para a Copa. Quaisquer das obras – a reconstrução do estádio, a abertura de uma rua ou uma linha de trem de superfície – deveriam passar pela avaliação popular. O instrumento mais comum e mais eficaz de participação popular ainda é a audiência pública. Claro, essa ou outra medida similar só se concretizará por pressão social. Os donos e mentores dos kits das prováveis obras querem distância desse tipo de prática de cidadania.
É imprescindível, já há muito tempo, que as cidades se estruturem em padrões que reduzam os impactos ecológicos atuais e os previstos para o futuro bem próximo. Manaus não tem transporte coletivo urbano funcional, embora figure como um dos mais caros do País; também não possui espaços públicos seguros e decentes, como parques, praças e balneários. A Copa surge como oportunidade para mudança substancial no sistema urbano manauense. Dinheiro há com certa abundância, mas não esperem que os gestores dessa dinheirama criem ciclovias ou bibliotecas nos terminais de ônibus.
Infelizmente, o desfecho da Copa, para a maioria dos manauenses, é possível prever com larga margem de acerto. Só uma ampla mobilização cidadã poderia ajustar os interesses de um evento às necessidades permanentes de uma cidade mutilada pela negligência dos seus governantes. De outro modo, restarão o foguetório e alguns monumentos bizarros como lembranças de um passado glorioso. Outra vez!
*Sociólogo, jornalista e escritor.Marcadores: Crônicas
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Catalepsia política
terça-feira, 2 de junho de 2009
Massilon de Medeiros Cursino*
Ainda era menino quando a Rede Globo produziu a série “O Bem Amado”, escrita pelo genial Dias Gomes e dirigida por Regis Cardoso e Jardel Mello, entre 1980 e 1984, sendo a primeira novela em cores da televisão brasileira.
Odorico Paraguaçu, interpretado por Paulo Gracindo, era o prefeito da pequena cidade de Sucupira, no interior baiano, onde a política provinciana produzia as mais hilariantes cenas, satirizando os políticos regionais e suas práticas.
Odorico Paraguaçu, que havia morrido no fim da telenovela, ressuscita no primeiro episódio da série. Para justificar o restabelecimento do prefeito, foi diagnosticado “catalepsia”, uma patologia rara que ocorre durante o sono, por isso, o prefeito não havia de fato falecido e sim caído em um sono profundo. Foi restituído a seu meio e ao seu ofício, para a felicidade dos seus correligionários sucupirenses, principalmente das irmãs cajazeiras.
Muitas cenas de “O bem Amado” foram reacendidas em minha memória nos últimos dias ao assistir aos acontecimentos pitorescos de Parintins, por ocasião da entrega do cartão “SOS Enchente” aos mais de mil e quinhentos necessitados, vítimas da subida das águas no município.
As cenas típicas das políticas provincianas parintintin começaram pelas faixas glorificantes espalhadas em pontos estratégicos da cidade, exaltando o mandatário estadual, que acabou não vindo e somente mandou representante. Em seguida, a disputa para identificar quem primeiro soube que o governador não viria à cidade.
No aeroporto, outra competição, saber em que carro o representante do governador faria o percurso até a cidade. E, por fim, a ansiedade dos políticos e aspirantes a cargo político pelo convite a ser um dos que entregaria o cartão solidário.
E como lembrei Sucupira, ao ver políticos quase extintos querendo ressuscitar a custa de um cartão de trezentos reais, é muito provável que lá na entranha, no mais recôndito de alguns amortizados políticos, tenha ressurgido a idéia de que, tal como Odorico Paraguaçu, a sua morte não seja uma realidade. Reacendem a esperança de que seu diagnóstico seja apenas de um sono hibernal, ou seja, uma catalepsia política projetiva!
*Economista, Bacharel em Direito, Pós Graduado em Gestão Pública, membro da Academia Parintinense de Letras.Marcadores: Crônicas
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Ler, escrever, viver
segunda-feira, 1 de junho de 2009
"O conhecimento é uma condição para a existência." Tenório Telles*
Pensando sobre a necessidade do conhecimento para a vida, pus-me a pensar sobre o ato de ler e suas conseqüências para a existência do ser humano. Afinal ser leitor é muito mais do que uma relação com a palavra, é um ato que extrapola o texto e se projeta no mundo. É por isso que todo diálogo com a palavra resulta num diálogo com a realidade e sua complexidade. Essa reflexão começou com a leitura de uma passagem de “Antígona”, do dramaturgo grego Sófocles: “Não vivo para a inimizade, mas apenas para servir aos amigos./ Decerto. Não sou pelo ódio, sou pelo amor./ Não estou aqui para compartilhar o ódio, estou aqui para compartilhar o amor”.
Convenço-me a cada dia de que a leitura é uma necessidade existencial. Pergunto-me: Como viver sem ler? Sem aprender? Sem se construir, aprimorar-se? O conhecimento é mais que uma necessidade ditada pelas demandas profissionais e sociais, é uma condição para a existência. Uma pessoa que não estuda é alguém condenado a ser escravo da ignorância e dos outros. É por isso que os políticos venais e oportunistas tripudiam sobre a ingenuidade e estupidez dos incautos. Num mundo de luz e sabedoria, de pessoas esclarecidas e críticas, não haverá lugar para esse tipo de gente que nos governa atualmente. Chega a causar asco ver e ouvir a fala, os argumentos e os gestos desses homens (questiono-me se merecem ser chamados de homens).
A leitura é um antídoto a essas mazelas. Uma pessoa que lê desenvolve aptidões e capacidades que a torna diferente. São inúmeros os exemplos que ilustram a força transformadora da leitura. Todo aquele que aprende a amar os livros e o saber se distingue pelo senso de responsabilidade, pela consciência social e atitude generosa em relação ao próximo. Esse sentido e sensibilidade conduzem esses espíritos de luz a uma postura de compaixão e compromisso com a vida, a justiça e a possibilidade de construção do novo. Isso talvez explique a negligência com que as elites políticas têm tratado o direito de acesso da sociedade à informação e ao livro. Sem falar que, como não lêem, não a consideram relevante. Nisso está provavelmente uma das razões de nosso atraso e indigência.
Ler e escrever são experiências definitivas na vida do ser humano e da sociedade. Lemos para viver, para sentir prazer e encontrar um sentido para o nosso existir. O que pode ser mais prazeroso que a leitura de um belo texto? Ou revelador que a força iluminadora de um poema? Só os espíritos superficiais e mesquinhos podem se contentar com uma existência resignada e limitada aos prazeres materiais e à vaidade. Para essas criaturas viver é o imediato e o virtual. Estragam suas vidas correndo atrás de ilusões, dinheiro, poder e bajulação. Tudo pra nada. O tempo vem e desfaz toda glória vazia, levando ao chão castelos de fantasia e arrogância.
A criação é a outra face dessa busca por um sentido novo para a existência. O prazer de criar um poema, uma canção, um romance é uma experiência indescritível e enriquecedora. A verdade é que ao criar, o artista também se cria e transforma. Além de contribuir com sua criação para iluminar a vida dos outros. Por isso, trabalhar para fazer de nossa terra uma cidadela de leitores é mais que um desafio, é um compromisso daqueles que têm responsabilidade com a vida, com o ser humano e com o futuro.
* Escritor, membro da Academia Amazonense de Letras.Marcadores: Crônicas
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