Segredo de vizinhos

sábado, 20 de junho de 2009


Neuton Corrêa*

O rapaz desembarcou do 713 e foi recebido com um revólver apontado em sua direção. O disparo era uma questão de tempo. Em frações de segundos eu viraria testemunha de um crime ou quem sabe seria a outra vítima do projétil daquela arma. A cena acontecia a dois metros de mim.

A violência que se anunciava me transformava em pedra. Pensei em ver se o que escorria entre minhas coxas era suor, mas até o pensamento congelava. Nessa hora, me peguei com todos os santos e santas, deuses e deusas e até com os caboclos da minha vizinha, Mãe Emília.

Do ônibus ouviam-se gritos, que aos poucos desapareciam à medida que o busão se deslocava lentamente. Até onde pude ver, alguns ainda colocaram a cabeça pela janela, mas não viram nada. Do meu lado, ninguém esperou para ver. O banco da parada se esvaziou num piscar de olhos.

A situação começou a piorar. O homem da arma, um cidadão de mais ou menos cinqüenta anos de idade, obriga o rapaz a se ajoelhar. Acho que a vítima não deveria ter mais do que 22 anos de idade. Ele se ajoelhou e depois foi ordenado a colocar as mãos na cabeça.

O rapaz esboçou algumas palavras, mas a fúria do homem era tanta que nada o faria mudar a ideia de eliminá-lo. O garotão queria saber o que estava acontecendo e homem dizia: “Cala tua boca seu f.d.p., que tu sabe muito bem o que está acontecendo. Tu e aquela f.d.p., que vai me pagar também”.

Minha nossa, pensei, vai ser um duplo homicídio.

O primeiro crime estava decretado. O cidadão, enquanto esteve na parada, passou o tempo olhando para os ônibus que passavam. Levantava e sentava num vai-e-vem inquietante. E nas últimas vezes que se levantou colocava as mãos na cintura e balançava a cabeça, primeiro em negação, depois em positivo.

Agora dá até para traduzir o que ele falava com ele mesmo. Talvez fosse assim: “Não, não tem jeito: será hoje”.

Enquanto eu pensava milhares de coisas, ele apontou a arma para cabeça do rapaz. Mas nessa hora, do outro lado da rua, alguém grita, com a autoridade suave de uma voz feminina: “Não faça isso. Você vai acabar com sua vida. Ele vai morrer e você vai ficar sofrendo”.

Parecia que eram essas palavras que ele estava esperando, pois, assim que escutou o conselho começou a chorar e a falar: “Esse filho da mãe acabou com a minha vida”.

Depois disso, começou a falar com sua presa, ali, ajoelhada:
- Por que você fez isso com ela?

O garoto nada respondia. Os passageiros começaram a voltar para a parada. O cidadão baixou a arma. Naquele momento, todo mundo queria saber de que ele estava falando. E ele mais uma vez indaga, agora com um tom de quem acabara de tirar uma tonelada de sua cabeça:
- Por que você fez isso comigo? Você se criou em casa...

Meu medo nessa hora já tinha dado lugar à curiosidade. A reação daquele homem, as palavras dele, frente àquele menino, eram típicas reações de pai que implica com o envolvimento da filha com a pessoa que não lhe agrada.

Então, pensei, matar o menino só por isso? Não seria melhor ajeitar as coisas? Mas, amigos do ônibus, vocês nem imaginam o que ele disse. O teor não vou tirar nem pôr a mais:

- O que você fez com minha mulher? Ela nunca me deu isso. Nem eu nunca tive coragem de fazer isso com ela nos meus 30 anos de casamento. E tu, cara, estragou tudo!

Todos na parada ficaram se entreolhando e rindo. E meu ônibus apareceu logo.

PS: Sugestão enviada pelo leitor André Viana.


*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

Ilustração: Romahs

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O terrorismo de Alan Garcia

quarta-feira, 17 de junho de 2009


Wilson Nogueira*

O presidente do Peru, Alan Garcia, segue à risca a mofenta cartilha do clã Bush. Ele quer que a sociedade peruana e a comunidade internacional acreditem na versão de que o Estado peruano massacrou terroristas em vez de índios em campanha pela demarcação das terras em que vivem há milênios. Caso dependesse de Garcia, a região de Bagua, na selva amazônica, seria incluída no “eixo do mal”. Na tragédia, ocorrida no último dia 5, morreram dezenas de índios e policiais.

Em termos de perigo planetário, Bagua teria, para Garcia, o mesmo status da Coreia do Norte e do Irã, países que possuem instalações nucleares sem fiscalização da Organização das Nações Unidas (ONU). Observa-se que quem faz terrorismo é o próprio presidente, que joga os povos indígenas contra os demais segmentos sociais peruanos. Ao injetar medo na sociedade, Garcia visa, também, esconder os interesses das medidas desastrosas que resultaram no massacre.

A imprensa revela que o governo peruano não fez a demarcação plena das terras indígenas porque elas são cobiçadas por companhias multinacionais de petróleo, de produção de energia elétrica e de outros minérios. Tais multis se sentem donas da selva por conta do Tratado de Livre Comércio (TCL) entre o Peru e os Estados Unidos. É de domínio público que Garcia agiu de má-fé ou foi imprudente e irresponsável ao mobilizar tropas militares para Bagua sem a mínima experiência em tensão social envolvendo povos indígenas. O diálogo, pelo visto, não interessava ao governo de Alan Garcia.

Lembrou-me uma leitora que a violência contra índios e camponeses é da índole desse político quando está no controle do poder. “Até hoje no Peru são desenterrados centenas de corpos de camponeses assassinados pelo exército durante o primeiro período do governo de Alan García (1985-90). Faz-se o mesmo com os nossos irmãos falecidos da Amazônia. Precisamos de observadores internacionais para não esconder a realidade do que aconteceu”, comentou.

Muito bem lembrado. É importante que a comunidade internacional não faça vista grossa a esse massacre. Cabe-lhe, por meio de ongs, governos e instituições multilaterais, pressionar o Estado peruano para que assegure uma investigação isenta e eficaz sobre o caso, com o acompanhamento das organizações de defesa dos direitos humanos e da causa indígena. Um procedimento dessa envergadura poderá apontar os responsáveis pelo crime, para que sejam julgados e punidos exemplarmente, conforme exigem a democracia e a justiça.

A impunidade só fortalece as ações e a retórica terrorista do presidente Alan Garcia, que faz o jogo do capitalismo de terra arrasada. Está em curso hoje, como resistência e alternativa à globalização antiecológica e causadora do aquecimento global, uma nova compreensão de desenvolvimento, na qual se inclui a experiência dos índios e demais povos amazônicos que manejam os recursos naturais com ínfima agressão ambiental. É dessa experiência que o Planeta necessita. É dela que Garcia quer se livrar.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Sarney, a crise e nós

Ivânia Vieira*

O presidente do Senado, José Sarney, usou, ontem, 33 minutos, segundo agências de notícia, para livrar-se, perante a opinião pública, de responsabilidades. Devolveu ao Senado a crise vivida na/pela Casa, tentando descolar-se dela, como se isso fosse possível. Sarney tem raízes profundas no Senado, está encrustrado nas paredes e é um dos articuladores da cultura ali vigente. Não pode negar a sua história.

Acerta ao chamar os seus pares a partilhar a crise de agora, afinal os atos por ele patrocinados são parte de um poder realizado mediante um pacto maior envolvendo parcela expressiva dos 81 senadores e com braços longos no Executivo. Nessa partilha da crise conseguiu ter respostas mansas, inclusive da oposição. Mas, erra quando sua fala tem um reduzido enunciado.

Para quem falou Sarney? Qual é o efeito dessa fala? Esperávamos decisões firmes. Até por sobrevivência, a Casa deveria nessa terça-feira ter mudado o seu script tradicional, assumindo compromissos, datados, com a sociedade. Não o fez. Preferiu o caminho do passado, cheio de vícios, de alianças indigestas e com um alto custo para o bolso do brasileiro.

O Senado se distancia da condição de alto conselho e faz a opção em ser pequeno. A sucessão de escândalos, provocada pelos próprios senadores, não pode ser esquecida ou minimizada com a admissão pública de que a “crise é do Senado”. Todos já sabemos disso. Falta saber quantos senadores estão, de fato, determinados a mexer em interesses de grupos e traçar um plano de valorização da instituição.

Ontem era um dia bom para aplicar a primeira dose do remédio. O que se viu, ao contrário, foi uma encenação sem reação maior. Nesse ritmo, logo a crise ética da Casa será de responsabilidade exclusiva dos eleitores. Os senadores serão vítimas e a sociedade algoz.

*Jornalista, professora de Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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O apelo de Silvinha

terça-feira, 16 de junho de 2009

Neuton Corrêa*

Embarquei e assim que passei pela catraca ouvi um grito: “Repórter do ônibus, por favor, me ajude!”. A primeira reação que tive foi descer imediatamente da viagem. Afinal, alguém ali acabara de revelar minha identidade secreta de passageiro-repórter. No entanto, o clamor ficou mais sério, e eu ainda mais preocupado.

Resolvo olhar na direção de onde saía o apelo, mas as lâmpadas do 045 estavam apagadas. Tento identificar a pessoa. Não consigo. Olho outra vez. E nada. Fecho um pouco os olhos como quem mira alguma coisa, vejo uma mulher se levantar e ouço de novo: “Repórter do ônibus!”.

Perto de mim, ao abrir a boca pela terceira vez, senti a pele reagir como num frio de malária. Não dava para controlar o tremor que a voz me provocava. Era uma voz fina e desafinava e entrecortada por um soluço penetrante. Mais penetrante foi quando vi seus olhos transbordando água por várzea e terra firme.

A um palmo de mim a reconheci. Mas não pude lhe dizer nada, pois assim que se aproximou ela me deu abraço forte e suspirou no meu ouvido: “Ainda bem que você apareceu aqui”. Encabulado diante dos outros passageiros, perguntei o porquê e ela respondeu: “Acabei de ser assaltada duas vezes”.

Não poderia deixar de achar que aquilo era um exagero. Mas exagero não combinava com sua história, com a história da Silvinha que conheci no beco Paris, perto da usina de energia elétrica, e com quem estudei vários anos.

A Silvinha, nas primeiras séries, não abria a boca para nada. Entrava no corredor do Ryota Yoama se arrastando de costa na parede. Chegava assim na sala e ficava as quatro horas da manhã imóvel em sua carteira. A menina do primário não era diferente da que voltei a encontrar no magistério anos mais tarde.

Quando a reencontrei, porém, no segundo grau, em 1991, ela já era mãe pela terceira vez. Teve a primeira criança com 15 anos; a segunda, com 17; e a caçula aos 20 anos de idade. A terceira menina ainda vi crescer na barriga da Sílvia. O pai... Bem... O pai era um homem casado que veio assumir a segunda família só recentemente.

Havia pelo menos 15 anos que não via a Silvinha. Em Manaus, há cinco anos virou cobradora de ônibus. A última lembrança que tinha dela era do tempo em que era magrinha. Passeava de bicicleta com a filha em uma cadeirinha de ferro trançada de macarrão de borracha. Hoje, a menina está com 18 anos e no primeiro período do Curso de Pedagogia mantido pela mãe.

Pois era a universidade que mais fazia a Silvinha chorar naquela noite. Depois que me abraçou foi isso que repetiu não sei quantas vezes: “E agora, como vou pagar a faculdade da minha filha?”. Insistia no assunto sem se importar com os ferimentos que trazia no braço, até lhe perguntar o que era aquilo. E ela respondeu:

- Acabei de ser assaltada. E sei que vou ser assaltada de novo.
Sinceramente, fiquei sem entender e indaguei:
- Como assim?
- O ladrão entrou no ônibus, pediu toda a renda da viagem. Aí eu disse que não ia dar nada e olha o que ele me fez. (Relatou mostrando ferimentos no braço direito e à altura do ombro esquerdo).

- Você correu risco de vida, disse-lhe.
- É, mas eu não tenho mais dinheiro para ser assaltada. No início do ano, os ladrões entraram no ônibus e levaram mais de R$ 100 da minha viagem. Semana passada, mais R$ 50.

Depois disso, pedi que ela comparasse o valor do dinheiro com o valor de sua vida. E ela devolveu o problema:
- E a faculdade da minha filha, como fica?
A conversa, para mim, ficou sem rumo. Pedi que explicasse. Ela engoliu o soluço, enxugou os olhos e falou:

- Toda vez que acontece um assalto no ônibus somos assaltadas duas vez. Primeiro pelo ladrão, depois pelas empresas, que tiram o valor do assalto do nosso salário. Como não tenho mais dinheiro, resolvi enfrentar a sorte.

O ônibus parou onde desceria e desci, prometendo-lhe escrever alguma coisa sobre o assunto.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia.
Ilustração: Carlos Myrria.

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Turnê pelos igarapés de Manaus

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Wilson Nogueira*

Sugiro que a Prefeitura promova uma turnê com industriais, empresários da construção civil, comerciantes e consumidores pelos igarapés de Manaus antes da vazante. Constatarão o óbvio: a morte das águas por asfixia provocada por lixo industrial e doméstico. Será impossível não perceber que somente um compromisso de não agressão à natureza entre os diversos segmentos sociais evitará a agonia dos igarapés e dos seres que dependem deles, como peixes, répteis, aves, plantas e gente. No final, em solenidade transmitida pela televisão, todos assinariam um termo de ajuste de conduta em defesa da vida.

Os gestores públicos, fabricantes de embalagens plásticas, de pneus, de latarias e empresários da construção civil preferem culpar os pobres pela sujeira a reconhecer que também participam da destruição à natureza. É mais cômodo argumentar contra os subempregados e desempregados que ocupam as margens dos igarapés. Eles chegaram – devagarzinho ou em levas –, montaram suas palafitas e fincaram raízes. Mal educados, atiram na rua e nas águas o plástico e a lataria que embalam alimentos. O mesmo destino tem os dejetos e a água servida que produzem.

Essa história empurra ainda mais o pobre para o subterrâneo social. Que destino cruel é esse: além de pobres, ainda são imundos! A é retratada no inchaço demográfico que se acentuou a partir da década de 1970, com a implantação da Zona Franca de Manaus. Milhares de pessoas migraram para Manaus em busca de emprego. Umas se acomodaram nas margens dos igarapés. Outras derrubaram a floresta do entorno urbano e criaram novos bairros de barracos improvisados. O exército de reserva de trabalhadores, necessário ao empreendimento industrial, formou-se, sem as mínimas condições de saneamento básico, nas bordas das ilhas de riqueza.

No item qualidade de vida, Manaus também é uma cidade do “sem”: sem rede de esgoto, sem coleta e sem tratamento adequado do lixo, sem transporte coletivo decente, sem parques e praças com equipamentos de uso público, sem planejamento público... É evidente que esse quadro perverso e doentio nega a existência da própria cidade como um lugar da cidadania. Os pobres sofrem a maior consequência da ausência da cidade. Sobre eles caem todas as culpas pela insalubridade e insanidade do espaço público degenerado. Impõe-se sobre os ombros dos que se alojam no arremedo de cidade o maior peso de preconceito e negligência com a qualidade da vida urbana. Essa postura é abominável, pois o bem-estar coletivo é resultado de compromissos sociais compartilhados.

Onde andavam os gestores da cidade que não evitaram a invasão dos igarapés? Responderão os que estão de plantão: as palafitas são heranças malditas do passado. Ouve-se, de modo recorrente, essa desculpa esfarrapada. A necessidade de corrigir o incorrigível chegou ao cúmulo de a transformação dos igarapés em córrego ser a melhor solução para limpar a imagem do centro da cidade. Na periferia, a derrubada de árvores e a ocupação dos igarapés se multiplicam a cada eleição a espera dos Prosamins, condutos de entrada e saída de dinheiro de bancos interessados em financiar ações simpáticas ao meio ambiente.

As fábricas também não param de produzir pneus, vasilhames PETs, baterias para carros, sacos plásticos e outras embalagens e produtos que entulham os igarapés e rios dentro e no entorno da cidade. A Prefeitura até gaba-se de retirar milhares de toneladas de lixo das águas. Entremeadas nas águas turvas descem outras toneladas de metais pesados, dejetos e águas domésticas e comerciais sem tratamento. Sintomaticamente, há dezenas de torres de apartamento e indústrias próximas aos igarapés. O habite-se desses estabelecimentos é emitido pelo poder público. Nota-se que a degradação do meio ambiente é um ato de cúmplices que tem início entre os que detêm poder econômico-político.

Essa é uma conversa que cairia bem em uma turnê pelos igarapés de Manaus que ainda não foram aterrados nem ocupados totalmente por palafitas. Reconheço que a proposta é absurda, porém, está longe de ser do tamanho do contra-senso que aponta os pobres como únicos responsáveis pelo lixo que entope os esgotos e os igarapés. Não dá para eximir a indústria, a construção civil, o comércio e os gestores públicos da responsabilidade pelo destino do lixo que produzem. Não dá mais para vê-los fingir que não fazem parte desse problema.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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