Gay Talese em Paraty

quarta-feira, 8 de julho de 2009


Lúcia Carla Gama*

Um dos releases distribuídos na Festa Literária de Paraty anunciava: “não é pequena a expectativa em torno da presença de Gay Talese no evento, como já deixaram claros os depoimentos, entrevistas, resenhas e reportagens a seu respeito publicados recentemente na imprensa brasileira”.

O norte-americano Talese, um dos criadores do chamado jornalismo literário, é a simpatia em pessoa. E superou as expectativas tanto na coletiva de imprensa realizada na manhã da quinta-feria, 2, quanto na mesa da qul participou, na tarde do sábado, 4. Contando parte de sua história, como a ida do pai de vez para os Estados Unidos após deixar a Calábria, na Itália, e como ele próprio começou a trabalhar no jornal The New York Times, Talese deu um recado significativo aos jornalistas que cobriram a Flip: “you can´t google your way to life. You have to be there”, ou seja: você não pode procurar à distância, no Google, por exemplo, seus caminhos, as informações que precisa, você precisa estar lá, no lugar, você precisa ver”.

E o jornalista foi em busca, viu. Fez faculdade de jornalismo graças a um amigo do pai e chegou ao poderoso diretor do The New York Times por indicação de um conhecido que se dizia primo do chefão e, na realidade, nunca foi. “A descoberta de que não existia parentesco foi um constrangimento geral, mas deixei num papel meu nome e número de telefone ao pleitear a vaga de servente de café naquele jornal. Duas semanas depois, em casa, recebi o telefonema que dava início à minha carreira”. Aos 21 anos, vindo do Alabama, sem conhecer nada em Nova York, Talese sabia que era preciso ousar. “E não tive medo. Vesti minha melhor roupa, fui muito educado com todos que me atenderam e não perdi a oportunidade que tive”.

Nem esta primeira de entrar num grande jornal, mesmo como servente de café, nem a de se diferenciar por um estilo de texto muito particular. “Sempre soube que não queria escrever jornalismo puro, queria escrever pequenas histórias com fatos e nomes reais. Eu queria recriar”, disse, ao falar, de pé, apesar dos 77 anos, por mais de uma hora para uma atenta platéia de jornalistas que acompanharam a coletiva.
Platéia que não se conteve e assumiu o papel de fã ao partir em busca de autógrafos ao fim da explanação. Talese atendeu a todos com atenção e elegância, pousando para fotos e respondendo perguntas mais particulares.

Na saída, aguardado pelo repórter da Rede Globo, Sílio Boccanera, para uma entrevista, ele disse não se importar que os jornalistas que participaram da coletiva acompanhassem a gravação, ao que Sílio negou, temendo um furo. Talese riu, fez um movimento com a cabeça e esticou o olhar que repetia: you can´t google your way to life. You have to be there!

*jornalista
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Chico Buarque é de carne e osso

terça-feira, 7 de julho de 2009



Lúcia Carla Gama*

Acontecia assim: manhãs de sábado ou domingo, nós todos lá pela casa da minha avó, no Boulevard Amazonas, no aparelho de som um LP do Chico tocando. Os meninos da tia Nazinha, pequenos, aumentavam o barulho que Naína, Lulinha e eu fazíamos naturalmente. Papai deitava no sofá, encarte do disco em mãos, acompanhando as letras das músicas que o som reproduzia. De vez em quando vó Maria vinha da cozinha: não sei como vocês gostam deste Chico que parece fazer as músicas na hora, porque não tem rima alguma! Vô Petrônio passava, dava uma olhada e ria. “E um dia, afinal, tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava carnaval, o carnaval, o carnaval”.

Quando o tio Jacson estava na área, o ritual se repetia: conversa fiada e um copo de whisky ao som do Chico antes da decisão de que caminhos seguir no final de semana. E foi assim, neste clima, que cresci ouvindo este que considero o maior compositor da música brasileira, que me perdoe Roberto Carlos, em seus 50 anos de carreira. “Olhos nos olhos, quero ver o que você diz, quero ver como suporta me ver tão feliz”.

E tinha mais: sábados na casa do Lasmar, as pedras do dominó batendo na mesa, Alex, André, Lulinha e eu inventando filmes enquanto aguardávamos o pirarucu frito e Chico tocando no som da sala. “Hoje você é quem manda falou tá falado, não tem discussão, não. A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão, viu?!”

Até que fui crescendo, ficando mais taludinha, e por conta própria passei a perceber as letras e músicas do Chico. Impossível ficar indiferente a história de Geni e o Zepelin – “joga pedra na Geni, joga bosta na Geni. Ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir...”, ou não se emocionar com os versos de Gente Humilde – “E aí me dá uma tristeza no meu peito, feito um despeito de eu não ter como lutar. E eu que não creio peço a Deus por minha gente. É gente humilde, que vontade de chorar” - que mais tarde descobri serem de Vinícius de Moraes, que deu a Chico na camaradagem a parceria. Foi com o Buarque que pela primeira vez ouvi falar do poeta chileno em Trocando em Miúdos, “devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”. Com ele cantei a verdadeira sem-vergonhice em Com açúcar, com afeto “e ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado, ainda quis me aborrecer, qual o quê, logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato, e abro os meus braços pra você”. E, como Chico, também, já me perguntei “me diz, me responde, por favor, pra onde vai o meu amor, quando o amor acaba?” Isso tudo bem antes de fazer a tatuagem com o nome da Letícia “pra me dar coragem pra seguir viagem, quando a noite vem”.

E ouvi histórias, várias, que davam conta de que papai cantava com minha tia Nazinha, feito dueto, como na gravação original “quem é você, advinha se gosta de mim, hoje os dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim”. De que quando foi lançada O meu guri, seu Lula cantava o refrão pensando no Lulinha, então com cinco anos. “Olha aí é o meu guri, olha aí. Olha aí é o meu guri”. E havia as histórias ditas reais, de quem lia a vida do compositor e se interessa por sua obra: Meu caro amigo foi feita para Augusto Boal que estava exilado, na época da ditadura “a Marieta manda um beijo para os seus, um beijo na família, na Cecília e nas crianças, o Francis aproveita pra também lembranças a todo o pessoal, adeus”; Construção possui palavras proparoxítonas ao final de todos os versos. “Amou daquela vez como se fosse a última, beijou sua mulher como se fosse a última e cada filho seu como se fosse o único”; Atrás da Porta, que estava inacabada, recebeu o ponto final assim que Chico ouviu a interpretação de Elis Regina com todos os gemidos e ais que só ela sabia fazer “te adorando pelo avesso, pra mostrar que inda sou tua, só pra provar que inda sou tua...”. Cálice ganhou esta grafia pra driblar a censura em tempos de ditadura “mesmo calada a boca resta o peito, silêncio na cidade não escuta”.

Até que num dia do verão de 1988 eu tive a chance de assistir Chico ao vivo, no Canecão, no Rio, com papai, Lasmar e Rosa e ouvi-lo propor “vamos fazer um pecado, safado, debaixo do meu cobertor”, ele, que era o herói cujo cavalo só falava inglês, ou perguntar “o que será que será que dá dentro da gente e que não devia, que desacata a gente, que é revelia, que é feito uma aguardente que não sacia”. Pude ali, ver o artista em cena, cantando e dançando, ora tocando o violão e dividindo o palco com mestre Marçal, enquanto a platéia acompanhava olhos atentos, músicas na ponta da língua. “Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito, exijo respeito, não sou mais um sonhador, chego a mudar de calçada quando aparece uma flor, e dou risada do grande amor, mentira!”

São 21 anos desde aquele janeiro até que decidi rever Chico Buarque. E quando soube que ele estaria na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, só que desta vez falando sobre literatura, não pensei duas vezes e comprei passagem e ingressos.
A mesa da qual ele participou com o Milton Hatoum, um amazonense que me deixa cheia daquele orgulho besta, foi uma delícia. Os dois estavam descontraídos, falaram de escrita, riram e fizeram a platéia rir, esbanjaram charme. Até que ao final o anúncio: Chico autografaria os livros, era só entrar na fila.

Fã assumida, mas com alguma dose de reserva, não quis encarar o protocolo. Também não tinha comigo o Leite Derramado, já lido. Preferi esperar Chico passar - como em A Banda - e tocá-lo de leve quando ele chegou ao lado, sem ver a vigia catando a poesia entornada no chão.

* Jornalista
Foto: reprodução do jornal O Globo
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