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O olhar da vida
sábado, 1 de agosto de 2009
Neuton Corrêa*
“Caro passageiro-repórter, após confessar-lhe meu pecado maior e ler esta penitência em sua coluna, estarei pronta para descansar em paz. Há muito, como o dia precisa da noite e a noite precisa do dia, sinto que devo tornar pública a história do olhar que salvou a minha vida e a vida de minha filha.
Falo do olhar dela. Pelo olhar, apenas pelo olhar, ela transforma as coisas. Isso acontece desde os primeiros minutos em que a tomei em meus braços, como uma graça divina. Naquele tempo, tínhamos dois meninos. Lindos! Mas queríamos uma menina. Meu marido e eu pedimos a Deus e Ele prontamente nos atendeu.
Assim que ela veio ao mundo, chorou apenas para cumprir o protocolo do nascimento. Depois, sorriu, sorriu para nunca mais parar. Na primeira vez que meu marido foi visitá-la, depois do parto, ela se derreteu toda para ele. Parecia entender a felicidade que representava para a nossa família.
Os anos se passaram. Ela estudou. Fez Direito. Estudou não para ser advogada, mas apenas para satisfazer o sonho que um dia sonhei para mim. Nunca me falou isso, mas sinto. Dedicou-se mesmo à Contabilidade. Abriu uma empresa e hoje domina um império que cresce a cada ano.
Como funcionária de seu empreendimento, já que nunca admiti receber dela alguma coisa de graça, percebo que toda essa prosperidade acontece graças ao seu olhar. Testemunho isso no escritório onde trabalho. Às vezes, quando o clima está carregado, ela chega, olha, sorri e as coisas mudam.
Isso tudo, repórter do ônibus, deixa-me orgulhosa, principalmente quando as pessoas falam dela perto de mim. Dá vontade de saltar da mesa e dizer: ‘Eu sou a mãe dela’. Acontece, amigo, que as coisas não eram para ser assim. Aliás, nem deveriam estar acontecendo. E a culpada disso não acontecer seria eu.
Três anos depois que nasceu, o pai dela morreu. Eu não trabalhava. Apenas cuidava da casa. Meu marido provia tudo. Tudo! Depois que ele partiu, meu paraíso virou um inferno. Passava a noite esfregando trouxas e mais trouxas de roupa dos ricos do Centro e o dia trabalhando em casa de família.
Um ano depois, emagrecendo e pensando nas humilhações que sofria, via as coisas piorarem. Os meninos já se viravam. Mas, minha menina, ainda bebê, não. Toda vez que olhava para ela eu chorava. Não agüentava vê-la feliz com a vida desumana que vivíamos.
Entrei em depressão. Comecei a pensar em pôr fim à minha vida. Planejei várias situações. Porém, em todas, sempre eu partiria só eu. ‘E minha filha?’, pensava. Decidi que ela também deveria partir para a viagem eterna.
Na minha cabeça, só havia uma maneira de acabarmos nossas histórias juntas. É por isso que escrevo hoje para a sua coluna. Pensei que nosso fim deveria ser debaixo de ônibus. Assim, eu e ela estaríamos livres dos sofrimentos e das humilhações deste mundo.
Planejei tudo. Iríamos aparecer do nada na frente do ônibus. Tomaríamos a linha que fazia viagem do Centro ao Parque Dez. A linha parava onde hoje é a bola do Eldorado.
Naquele dia, ela estava muito feliz. Dei banho na minha filha e fomos para o local planejado. Na beira da rua, ela me perguntou: ‘Mãe, a gente vai passear de ônibus?’. E ela mesma respondeu: ‘Oba! Vamos passear de ônibus’. Para não desistir, com o coração apertado, evitei olhar para os seus olhos. Fugi várias vezes de seu olhar, mas toda vez que olhava eu via seus olhinhos brilhando. Mesmo assim estava convicta.
O primeiro ônibus passou e tive medo. Quando o segundo coletivo apareceu, eu já estava decidida, mesmo. Peguei-a pelo colo e antes de me atirar na frente do carro, olhei para os seus olhos pela última vez para me despedir dela, mas ela me olhou e me abraçou como quem diz: ‘Mãe, eu quero viver!’.
Hoje, ela vive e eu ainda vivo para vê-la viver.
Manaus, 23 de julho de 2009. De sua leitora contrita”.
*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.Marcadores: Crônicas
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Um professor, um companheiro
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Ivânia Vieira*
Anos 80, o Brasil era um caldeirão. Eu estudava Jornalismo. Nas horas inventadas entre o estudo e o trabalho, seguíamos professores, militantes da Igreja Católica nas ações do Cimi Norte I, da Pastoral Operária, da Pastoral da Juventude, do Grupo Kukuro... A sala de aula tinha um pé na rua, nas noites longas no porão da Arquidiocese de Manaus, produzindo jornalzinho, no mimeógrafo para, em seguida, em estado de êxtase, colocar os impressos na rua.
Nessa mistura apaixonada pelo aprendizado, tínhamos a utopia de provocar mudanças, pelo menos provocávamos muita raiva nos acomodados e no poder instituído. As caminhadas missionárias eram um acontecimento. Nessa época nascia uma relação com uma turma que marcaria minha vida para sempre. Dela fazia parte Narciso Lobo (foto), o jovem professor da UA que nunca me perdeu de vista e não se aquietou até eu retornar à Ufam, em 2001, como aprendiz de educadora. Dividimos a mesma sala, até o dia 23 de julho, quando Narciso disse adeus às coisas terrenas, deixando projetos e sonhos em busca de aliados para provocar novas inquietações.
Hoje, diante de uma extrema dificuldade em lidar com as palavras, recordo o Narciso solidário. Sem ignorar os momentos de impaciência, é essa solidariedade firme, amadurecida, capaz de rever posições e dizer “eu errei”, uma das heranças deixadas pelo professor para nós. Como pesquisador, não fez reserva de mercado, ao contrário, socializava livros, artigos e suas pesquisas. Recordo a sua batalha por uma universidade mais perto da comunidade, por um jornalismo crítico, pelo exercício do debate e do confronto das ideias. Combateu o apego exagerado às técnicas na formação do jornalista, condenou os métodos fechados porque, dizia, são engessadores da arte de pesquisar, insistiu, como um sacerdócio, na importância da leitura e na formação humanística dos profissionais da área. Ultimamente, contava o tempo para se aposentar ao mesmo tempo que se declarava “tão animado” com a turma do primeiro período.
Ouvi, no dia 24 de julho, quando nos despedíamos dele, Luzarina Varela, uma ex-metalúrgica, afirmar, com emoção: “Narciso aproximou a academia dos trabalhadores”.
Que esta inquieta vida seja oxigênio quando o comodismo e as alianças perigosas ameaçarem justificar nossa existência.
*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas.Marcadores: Artigo
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Diante do teste
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Ivânia Vieira*
O que dizer sobre a dor da perda? E como falar dela quando chega em três versões? É como vendaval inesperado. Arrasta quase tudo para longe, abre buracos enormes. Ficamos pequeninos, sem saber sobre o próximo passo a ser dado, sobre qual palavra escrever. Ainda é de agonia o momento vivido com essa viagem veloz e não anunciada, do Vando, do Marcos Figueira e do Narciso Lobo. O primeiro se foi um dia antes e os outros dois no mesmo dia desse mês de julho.
As lentes estão embaçadas, parecem anunciar o não-encontro enquanto nas ruas os detalhes de cada um deles se multiplicam nas pessoas, colocando em dúvida se os três realmente não estão mais entre nós. Nossa! Ainda vejo, dois anos depois, tantos Ivomar revividos nos cabelos grandes, presos, nas sandálias ‘franciscanas’, no sorriso aberto, bonito, na conversa despojada que tanto sucesso fazia. Os três juntam-se a essa sensação como desculpa para aliviar a tristeza ou, quem sabe, descobrir nas semelhanças até então ignoradas um sinal da eterna permanência deles entre nós.
Tento recolher os fragmentos deixados por esse vendaval. Sem jeito, procuro reuni-los e, assim, perceber, com a reconstrução, outras vidas nascidas dessas existências. É nessa colheita, feita de lembranças e da saudade irracionalmente doída, que a vida vivida por eles desfila teimosamente.
Vando, com os irmãos, ocupou, desde menino, parte dos natais e dos dias das crianças da minha vida, nos fazendo realizar peripécias em nome da fantasia coletiva. Vivia, agora, a fase da descoberta dos desafios de ser um jovem pai, sem desgrudar dos irmãos, sorrindo para todos nós, o mesmo sorriso que só a mãe deles sabia sorrir.
Marcos espalhou em nosso mundo a música e seu amor pelo rádio, pela cultura, pelos livros, somou de corpo e alma com a comunicação popular e, perturbadoramente, voou para viver todas as suas paixões tentando conjugar em novos tempos de cantoria o verbo liberdade.
Narciso abraçou a ousadia, desde o tempo do jornalismo de resistência, na poesia-denúncia ou apenas na condição de amante, em meio a livros, artigos, alunos e, mais recentemente, no blog, Como professor, insistiu na importância da formação humanística, na construção de um curso de Jornalismo competente e solidário porque entendia ser esse o outro papel da academia. Vivia o melhor momento de pesquisador e reunia projetos, em forma de sonho, para o qual não parava de convocar os estudantes e as organizações populares.
O que dizer? Se a compreensão sobre a morte insiste em não acontecer. Ana Célia Ossame diz que o cristal quebrado é a vida, tão bonita, em pedaços no chão. Então, emocionalmente desorganizada, tento espalhar esses cristais que passaram por nossas vidas.
*Jornalista, professora do Curso de Comunicação da Universidade Federal do Amazonas.Marcadores: Artigo
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Diário de bordo
Wilson Nogueira*
Domingo, 26/07/2009. O Zenzão partiu do lago do Tarumã por volta das 11h, com destino a qualquer lugar tranquilão, ali pertinho, no rio Negro. Não há uma hora estimada para o retorno. Talvez lá pelo pôr-do-sol. “Se precisar, esticaremos pela noite”, avisa o comandante. Afinal, navegar é preciso. Já era assim na época do poeta Fernando Pessoa. Imagine agora, com GPS, telefone celular e rádio sintonizado na frequência de navegação da Marinha. A luz que bate no espelho d’água emite uma profusão de raios. É tão intensa que embaça a visão.
Encantado com as águas, heim? Isso mesmo! Não só pelas águas. Há vários trechos de igapó do Tarumã que ainda não foram derrubados. Outros abrigam marinas que guardam barcos de luxo ou são portos de outros empreendimentos. Na margem direita, perto do Negro, destaca-se uma torre de concreto e, perto dela, um enorme guindaste. A idéia que se tem é a de que esse monstrengo foi abandonado às pressas. Consta que ali funcionaria um hotel-cassino dos Maksoud, financiado pelo contribuinte brasileiro. A carcaça de ferro e cimento tornou-se mais um dos sinais da corrupção por ali.
O monstrengo fica para a popa do Zenzão, que agora sulca as águas negras em marcha de cruzeiro. O calor é arrefecido por lufadas de vento que entram pela proa. Zenzão conhece os banzeiros, as curvas, os portos e as praias das proximidades de Manaus. Ele mantém uma relação de respeito com a natureza. De tudo que ela lhe oferece, Zenzão só quer um lugar sossegado para os seus passageiros. Um ambiente onde todos possam contemplar e amar a natureza. Taí, pertinho de nós.
Amarramos o cabo na copa de uma árvore, na boca do Tarumazinho. Nesse local, as águas lambem as copas do igapó. Largados no piscinão, encontramos sob os nossos pés, aqui e acolá, copas de árvores. Assim, dá para conferir o quanto os rios amazônicos encheram neste ano. Os passageiros dos aviões que sobem e descem do e no aeroporto brigadeiro Eduardo Gomes extasiam-se com a visão impar dos rios e da floresta. Mal suspeitam da floresta de igapó debaixo d’água.
Dá gosto banhar-se no rio, longe das margens, protegido pelos equipamentos de bordo do Zenzão. Veio-me à cabeça, entre as braçadas, o espanto do repórter Otávio Ribeiro, o legendário Pena Branca, quando se deparou com o rio Negro. “Pô, cara, isso aqui é um piscinão, o maior do mundo”, repetia em carioquês. Pena Branca participou da equipe que fez a edição histórica da revista Realidade sobre a Amazônia, em 1972. Um feito de desbravadores. Um alerta para a necessidade de preservação da Amazônia.
O Zenzão retornou quando o sol se escondia por trás da floresta. Na despedida, acompanhados por violão sem uma das cordas, cantamos, juntamente, com alguns moradores da comunidade Livramento, a música Amazonas, de Chico da Silva: “Eu amo esses rios da selva / Nas suas restingas meus olhos passeiam/ O sangue nasce nas suas entranhas / E nos seus mistérios meus sonhos vagueiam...” Quem toca e puxa o canto é o próprio Chico, que, também, tem colocado o seu talento na defesa da Amazônia, para que outras gerações possam tomar banho na copa das árvores.
*Sociólogo, jornalista e escritor.Marcadores: Artigo
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O perdão e a farinha
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Neuton Corrêa*
A bombonzeira consegue associar o perdão à farinha. Isso me fez lembrar do amigo Wilson, que sempre diz: “Tem gente para tudo neste mundo e ainda sobra um para brincar debaixo do boi”. A vendedora de bombons, por exemplo, acha que quem come farinha, como a gente, não pode perdoar.
Essa conversa religiosa ocorreu há poucos dias, em um ponto de ônibus da rua Pará, na luxuosa área do Vieiralves. Nesse dia, atrevi-me, ali, a esperar o 122. É a única linha que passa por lá. Talvez por causa desse monopólio, passa a hora que bem entende. Mas eu não estava com pressa e resolvi enfrentar a espera.
Vi a vendedora de longe. Ela estava sentada ao lado de uma barraquinha metálica, montada ao lado da parada de ônibus. Cruzava as pernas, sobre as quais descansava um livro grosso. Parecia tão concentrada na leitura que ao vergar a coluna e baixar a cabeça em direção às letras seu corpo formava um “C”.
Assim que me aproximei, ela me perguntou: “O senhor acha que quem come farinha pode perdoar?”. Sem entender a questão, apenas sorri. Afinal, não consegui ligar uma coisa à outra. Para mim, farinha tem sentido de peixe. Essas duas coisas, sim, peixe e farinha, aqui na Amazônia, não se separam.
Lembro quando cheguei por aqui, pela capital, o dito Wilson ria das montanhas que fazia no meu prato. E, eu, comigo, resistia: “Isso é porque ele não conhece meu compadre Juveco”. Esse é um grande comedor de farinha. Um pedaço de peixe para ele significa meio litro da fofa.
Nunca notei, porém, que o Juveco fosse piedoso ou impiedoso por causa disso. Na verdade, a farinha o fazia mais engraçado. Tanto que virou humorista. E dos bons.
A pergunta da bombonzeira induzia à certeza de que o comedor de farinha não perdoa. Para tentar compreendê-la, cheguei ainda mais perto. Percebi que o livro que segurava em suas coxas reunia vários cantos de igreja. Ela revirava as folhas para frente e para trás e corria o olhar sobre as letras com a ponta de um lápis.
Peguei três caixinhas de Chiclets e lhe dei R$ 1. Antes que levantasse de seu banquinho para passar o troco, resolvi perguntar-lhe:
-Por que a senhora acha que quem come farinha não pode dar o perdão? E ela começou: - Meu pai conhecia a Palavra. Eu me criei com ele e desde pequena, graças a Deus, nesses meus 60 anos, sou temente a Deus.
Continuei sem entender a ligação do perdão com a farinha e ela continuou: - Olha, tem muita gente por aí que toma o Santo Nome em vão. - Sim, respondi. E ela: - Isso é o Mandamento. - É verdade, disse-lhe, e o Segundo Mandamento. E finalmente ela falou: - Pois é, eu fui na igreja esses dias e falei dos meus pecados para o pastor. Ele disse que iria me libertar. Eu fiquei alegre, mas depois ele olhou para mim e disse: “A senhora só vai ter que me pagar”.
- O que o senhor acha? Um comedor de farinha desses tem condições de tirar meus pecados? Claro que não, respondeu a bombonzeira.
Rindo, concordei com ela.
*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Homahs Marcadores: Crônicas
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