"O povo era eu"

sábado, 22 de agosto de 2009


Neuton Corrêa*

Amados de todos os sábados, peço-lhes desculpas pela crônica passada, aquela do “Deputado Pirarara”, que durante um comício engoliu um eleitor e a mãe do eleitor. Nela, citei o nome do personagem Marupá, mas não escrevi uma linha sobre ele. O leitor José Augusto mandou uma carta me esculhambando por causa disso.

Pois bem, Zé, Marupá é o Euler. Profissão: carregador de candidato. Isso mesmo, carregador de político em tempo campanha. Hoje, com 20 anos de atividade, desenvolveu uma impressionante força e resistência para o exercício da profissão, que o Ministério do Trabalho ainda não reconheceu.

Tem outra qualidade, da qual costuma gabar-se, a de perceber quando um político está bem ou está mal em relação ao eleitorado. É só olhar com quem ele anda. Nunca está longe do poder. Quando sente que a situação não está boa, corre para as bandas daquele que está melhor. E, assim, nunca perdeu uma eleição.

Em 2004, por exemplo, servia ao prefeito Sorriso de Jesus, filho de tradicional família de políticos de Parintins que ocupou todos os cargos eletivos que bem quis. Naquele ano, porém, Euler passou a observar que a força do grupo ao qual servia estava se definhando, após 40 anos de poder.

Notou o enfraquecimento quando Sorriso de Jesus passou a conversar em códigos com o pai. Certa vez, disse Marupá, o prefeito havia acabado de deixar o porto de uma de suas cinco ilhotas, no derredor da cidade, quando o patriarca viu o adversário passar com um helicóptero e o advertiu: “Meu filho, o negócio está difícil: nós aqui por baixo e eles lá por cima”.

Depois de ouvir essa e outras comparações, em plena campanha, Marupá trocou de candidato. E não se envergonha de contar isso. Aliás, conta detalhes do tempo em que serviu aos antigos coronéis da Ilha Tupinambarana.

Em uma rodada na última festa da padroeira da cidade, contou que viveu um drama no último comício da eleição do pai de Sorriso a deputado estadual. O evento foi precedido de uma caminhada, que levaria o candidato ao palanque. Marupá caminhou mais de cinco quilômetros preparando-se para carregá-lo a qualquer momento.

Quanto mais a caminhada se aproximava do local da festa, mais o candidato se empolgava. O apresentador do comício, Carlos Augusto dos Gelos (hoje vereador Tambaqui), não cansava de falar das qualidades do político e a anunciar: “Ele está vindo aí, ele está chegando, carregado nos braços do povo”. Aquilo deixava Marupá em êxtase.

A festa foi crescendo. A quinhentos metros do local, Euler recebe a tão esperada ordem: “Vai, entra embaixo”. Marupá não perdeu tempo. Foi por trás do candidato, meteu o cangote no meio das pernas do velho político, pôs o candidato no ombro e o conduziu até palanque.

Dessa chegada festiva, Marupá contou alguns detalhes: “Quando o velho já estava agasalhado em cima de mim, senti aquele negócio estranho lambando minha cara. Pensei em soltar minha mão da perna dele, para jogar aquele grão para trás, mas, se eu tirasse, ele poderia cair. A situação ficaria pior. Eu tinha que aguentar. E agüentei! Afinal, o povo carregando o deputado era eu!”.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Homahs

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Entre a placa e a cartolina

quarta-feira, 19 de agosto de 2009


Ivânia Vieira*

No ritmo incerto das obras na cidade, a população de Manaus sofre. Paga um preço alto demais pela omissão dos poderes quanto ao dever de fazer funcionar serviços fundamentais como o abastecimento de água, de energia elétrica e de telefonia.

As grandes placas coloridas carregando slogans das administrações parecem provocar o povo que come poeira, enfrenta um dos piores períodos de alta temperatura, confusão no trânsito e falta de saídas alternativas para essa situação caótica.

Há uma parcela de gente que não pode sequer tomar um segundo banho, pois a água voltou a ser escassa. Na outra ponta, a insegurança pública completa esse enredo. Mulheres, crianças e adolescentes continuam levantando suas cartolinas para pedir socorro e para pedir que as autoridades públicas cumpram com suas responsabilidades.

Em meio ao grande tormento que é ir e vir na cidade, que é chegar em casa e não ter acesso à água e à luz, começam a aparecer os salvadores da pátria ocasionais. Usam velhos recursos de manipulação pois têm certeza de que ainda é possível fazer o mesmo discurso e obter mandatos. As viciadas palavras de ordem estão nas emissoras de rádio e nos programas de televisão, retomadas ‘despretensiosamente’ por figuras que se anunciam um pouco antes da campanha eleitoral de 2010 como preocupadas com “a crítica situação do povo”.

As cartolinas, no embate com as placas, podem fazer a diferença. Quem as levanta como bandeira denunciando as mazelas da população tem a tarefa de caminhar para além do imediato e criar base mais sólida. Tem a missão de se posicionar contra aqueles que usam o povo como massa de manobra, de questionar o preço das refeições e dos serviços oferecidos “gratuitamente” nessa época pré-eleitoral. Esse é um bom momento de aprender para ver mais longe e tomar decisão em favor da sua própria existência com mais qualidade, mais dignidade e respeito a sua condição de gente.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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