O assalto à casa de Josibel

sábado, 5 de setembro de 2009

Neuton Corrêa*

No andar superior da casa, aflita, com revólver na mão, Josibel abraçava a irmãzinha de 5 anos e gritava para baixo: “Mamãe, pelo amor de Deus!”. Embaixo, desesperada, com as mãos amarradas pelos dedos entrelaçados, a mãe de Josibel gritava para cima: “Minha filha, pelo amor de Deus!”. Na porta da casa, o bêbado tentava falar alguma coisa, mas ninguém lhe dava ouvidos.

A aflição não era para menos. Três meses antes, a casa de Josibel havia sido assaltada por fugitivos do presídio situado a algumas quadras dali. Na ação, os bandidos colocaram o revolver na barriga de seu pai, apertaram o gatilho três vezes, mas nenhum detonou. Sorte igual não teve a filha caçula. O quarto disparo foi na direção da menina. Pegou no braço, de raspão.

Por causa disso, adotaram várias medidas de segurança: colocaram grades nas portas e janelas, instalaram câmeras de segurança e providenciaram armas para cada um da casa. Josibel, com 21 anos, chegou a freqüentar escola de tiro. Dedicou-se com afinco às aulas e se tornou uma habilidosa atiradora.

Os vizinhos também foram afetados pelo drama. Tanto que qualquer movimento estranho que viam na casa de Josibel era motivo de desconfiança. E foi numa cisma dessas que eles viram um bandido atacar novamente a casa. Suspeitaram do novo ataque porque a loja da família, no primeiro andar, estava entreaberta. Alguém liga para os pais de Josibel que haviam acabado de sair. Como ficara só, Josibel se trancou no quarto com a irmã.

Os pais retornaram e, de fato, o comércio estava aberto. O acesso para o outro piso também. Ao ver aquilo, a mãe entrou em desespero. Sem coragem para subir, começou a gritar. Josibel se assustou! Imaginou que a mãe e o pai estivessem na mão dos bandidos e também entrou em pânico.

O pavor tomou conta dos vizinhos, do quarteirão e do bairro inteiro. Em pouco tempo, a casa estava cercada por curiosos e gente disposta a acabar com o sofrimento da família. O único tranqüilo, ali, era o bêbado, que estava para ser escorraçado de tão chato que se tornara.

Da multidão que se dispôs a salvar Josibel, apenas um teve coragem: um operário que carregava sacos de cimento numa construção ao lado. Ele colocou uma escada apontada para o quarto da moça e subiu. Branco da poeira de cimento e com a camisa amarrada na cabeça, como burca árabe, ao colocar o rosto na janela a situação piorou.

Josibel achou que aquele homem era o bandido que havia dominado sua mãe e que agora estava partindo em sua direção. Não pensou duas vezes. Apontou o revólver na direção da janela. Antes do pior, o operário saltou-se escada a baixo. Na queda, ouviu o tiro.

No chão, amarelo de nervoso, ele relata o que viu: “Não é um ladrão! É uma ladra! E ela está armada e tem uma menina de refém”. Os pais de Josibel choram. A Polícia é acionada e chega num ônibus com uma tropa vestindo uniforme rajado, com metralhadoras e um atirador de elite, que cobria o rosto com uma meia também preta. O bêbado tenta falar com eles, mas é ameaçado de prisão.

Os gritos de Josibel e da mãe de Josibel já comovem até os mais insensíveis. Como estratégia, a Polícia espera a noite chegar e decide atacar. Mas antes resolvem ouvir o porre, que diz para todos: “Olha, vocês estão é marcando toca. Acontece que vocês pensam que lá em cima tem um ladrão e ela também está pensando que aqui em baixo tem ladrão. E não tem bandido nem aqui nem lá.”. Era verdade, ali não havia nenhum bandido.

Encontrei Josibel ontem, no 125 (Ufam). Assim que me viu, desconfiada, apontou seu belo e miúdo olhar para mim e abriu um leve sorriso, dizendo: “Aconteceu outra comigo...”.

*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Falta o sal da sensatez

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ivânia Vieira*

A discussão entre o Governo e o Congresso Nacional sobre o pré-sal é a própria negação do bom debate. Expõe um estágio atrasado que já deveria ter sido superado pelas partes.

O pré-sal não pode ser compreendido como assunto em torno do qual oposição e situação vão medir forças. Está para além desse parâmetro e exige um olhar atento dos governos, dos demais poderes e da sociedade em nome da qual decisões, nessa área, vêm sendo tomadas. O tema reivindica a formação de cenários, de estratégias e uma enorme responsabilidade quanto à definição de um plano nacional de exploração desse potencial petrolífero.

Ao contrário, na última semana as manifestações nos corredores do Congresso apenas reafirmaram a disputa miúda cujo interesse maior é saber qual candidato e/ou candidata à presidência da República carregará a bandeira do pré-sal como passaporte para suceder Lula.

A grosseira tentativa de partidarizar a questão atrasa a possibilidade de promover uma discussão que inclua o Brasil e o situe, modernamente, diante das novas exigências nacional e mundial. Uma das mais importantes demandas é a ambiental, aliás condição mantida à distância do assunto pré-sal embora nela resida um dos grandes problemas para a exploração pretendida nessas camadas. Legisladores e executivo brigam por conta do destino do dinheiro enquanto a outra face do programa é deixada de lado numa omissão que deve custar um alto preço à sociedade brasileira.

GENEROSIDADE
Agradeço profundamente a Tenório Telles, poeta, escritor, professor, amigo, pela generosidade e respeito a mim dedicados, bem como ao nosso trabalho, pequenino, feito em bairros de Manaus. Eu e a turma de jovens que faz o Comunicadores Populares de Base acontecer recebemos, com os escritos de Tenório, publicados neste jornal no dia 29 de agosto, um prêmio agora guardado no lugar mais especial. A luz está acesa e se renova.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Uma mulher comprometida com a vida

Tenório Telles*

Tem muita gente que acha que a vida se justifica pela quantidade de poder e dinheiro que uma pessoa for capaz de acumular. Ou que uma sociedade só é reconhecida se for próspera e rica economicamente e, assim, gerar conforto material. Essa forma de pensar está enraizada na alma dos indivíduos, entranhada no seu ser e no seu coração.

O sentir, o olhar, os sonhos - tudo está plasmado por essa ideologia feita de indiferença, egoísmo e solidão, que nega a bondade, a fraternidade, os valores espirituais, em que o que importa são os fins, o sucesso a qualquer preço, o ter. O triunfo dessa lógica não é sem resistência.

Como faróis na escuridão, homens e mulheres, nos bairros, nos campos, nas margens dos rios e nos lugares mais longínquos deste planeta, carregam em seus corações a chama da esperança e da fé na possibilidade de construção de um mundo diferente e mais humano, fundado na generosidade, na compaixão, no respeito ao próximo e no amor ao conhecimento. Eles representam a negação da violência, do individualismo e da intolerância. Suas verdades são antídotos ao veneno do preconceito, da arrogância e do sentimento de superioridade daqueles que acham que são melhores porque têm dinheiro, posição, status ou pela cor da pele.

A vida não vale por essas coisas, nem por essas pessoas. Na verdade, essas criaturas contribuem para a existência ser pior: prejudicam os outros em razão de seus interesses mesquinhos. Esse tipo de gente é a erva daninha do jardim da existência. A “pedra no meio do caminho”, da qual nos fala Drummond no seu célebre poema. É obstáculo no percurso dos que ousam ir mais longe e também espinho na caminhada daqueles que carregam no peito a bondade e trabalham pelo bem comum. Gente desse jaez conspira, atravanca e fere quem encontra pelo caminho, ou quem imagina possa ser um risco aos seus propósitos.

Felizmente na vida nem todos são erva daninha, pedra ou espinho. Há os que são semente, flores e passarinhos. Ajudam a plantar, cuidam, partilham seus frutos e nos alegram com a canção de seus sonhos. Ivânia Vieira faz parte dessa linhagem nobre de seres humanos. Sua prática de vida é afirmativa de seus compromissos com a mudança e com a luta dos homens e mulheres excluídos de seus direitos, do acesso à informação e privados da cidadania. Jornalista e professora da Universidade Federal do Amazonas, Ivânia é uma das mulheres mais lúcidas e coerentes desta terra. Cidadã consciente do seu papel no mundo, sua prática social é marcada pela solidariedade e atitude crítica em relação às injustiças e brutalidades deste tempo ultrajado pela violência e banalização do mal.

Seu exemplo de vida é um testemunho de que o ser humano pode ser diferente e fazer a diferença. Como professora personifica a conduta e o cuidado dos mestres: é, na verdade, uma educadora, compromissada não só com o dever de informar, mas de formar seus alunos, orientando-os para um entendimento crítico do mundo, para que sejam leitores ciosos da realidade e profissionais conscientes de suas responsabilidades.

O trabalho dessa semeadora de luz não se resume à sala de aula e às suas atividades como jornalista. Dedica parte de seu tempo a ações sociais, tomando partido da luta das mulheres, dos trabalhadores e dos jovens. Exemplo disso é sua participação no projeto Comunicadores Populares de Base, na Zona Leste, em que orienta dezenas de jovens para que sejam protagonistas sociais e utilizem as ferramentas da comunicação social para ajudar as suas comunidades a refletir sobre suas demandas e seus anseios. Ivânia Vieira honra e dignifica o milagre vital com que foi brindada pela providência.

Escritor, coordenador editorial da Valer.

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Meu amigo Aldrin e a canoa da esquina


Massilon de Madeiros Cursino*

Amigo, ontem passei naquela esquina e perguntei o preço da canoa. Aliás, pelo tamanho está mais pra bajara que pra canoa. A cor não é a de nossa preferência, mas isso é fácil, manda-se pintar.

Perguntei o preço, é meio salgado, só que dá pra pechinchar e conseguir um desconto considerável. Ela é um pouco grande pra vir num triciclo. Melhor será encomendar o trabalho a um carroceiro, essa atividade já em extinção em nossa cidade que em muito pouco se assemelha com a Parintins do final da década de 70 e início da de 80, quando para chegarmos à sua casa tínhamos que atravessar o antigo campo de aviação. E a turma pegava no seu pé e do Paulo Hérberth, o cuspão, por morarem “pra lá da placa”.

Ironia do destino e viemos todos morar no Bairro de Palmares, o mesmo lugar que, quando curumins, chamávamos de “pra lá da placa”. E não foi pouco que ralamos para construir o nosso lar nesse bairro. Eu atravessava a rua Oriximiná e lhe confessava os meus empréstimos bancários. Você fazia o mesmo sempre! Foram vários os “papagaios”, mas valeu a pena. De amigos de infância a vizinhos e felizmente a nossa história está se repetindo no apego de nossos filhos.

Pois é, numa das esquinas do nosso bairro, no caminho de nossas casas está à venda aquela canoa que você me declarou ser um sonho de consumo. Com sua peculiar modéstia você me falou que quando retornasse, com saúde, a compraria para navegar pelo Macurany, que lava os nossos quintais.

Amigo, para chegar em casa e redigir esta folha, tive que passar por aquela esquina da canoa. Ali, um calafrio tomou conta de mim. Fiquei emocionado! Meus olhos ficaram marejados por saber que acabastes de partir deste mundo. Tão jovem, tão talentoso, tão entusiasta e com tantos projetos pessoais, fostes precocemente chamado pelo Grande Arquiteto do Universo para servir em outra dimensão.

Fechei os olhos úmidos e visualizei você, dentro daquela canoa, atravessando o rio da vida com destino ao Oriente Eterno. Você, como sempre sorridente, dando adeus a todos nós que aqui ficamos a chorar sua partida.

Dói demais ter que responder ao seu aceno.
Vá com Deus, meu amigo e irmão!

*Economista, Bacharel em Direito, membro da Academia Parintinense de Letras.

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O disfarce da mídia

Wilson Nogueira*

Os conglomerados de comunicação, por questões óbvias, defendem de modo articulado as idéias, iniciativas e práticas liberais ortodoxas e, como consequência, sufocam as demais. Esmeram-se, para o cumprimento dessa tarefa, em engenhosas dissimulações. Não haveria, para o velho ou novo liberalismo sectário, nada edificante fora do guarda-chuva do livre mercado. A procura de um novo caminho ou mesmo de um novo jeito de caminhar, para esse tipo, não faz sentido.

O rádio, a TV, a revista e a internet sentenciam que o PT agoniza. Os Nostradamus da pesquisa de opinião pública – da opinião formada por esses conglomerados – revelam até o que ainda é indecifrável: Lula não fará o seu sucessor ou sucessora. Desfiam-se, em seguida, pseudo-recorrências históricas, como se presidentes com a história de vida e com a habilidade política de Lula não fossem uma raridade. Os conglomerados sabem disso, mas não contextualizam suas análises historicamente. Optam pelo encobrimento da totalidade dos fatos.

Ninguém desconhece que o PT e o presidente Lula enfrentam muitas dificuldades internas e externas. Escândalos e promessas cumpridas parcialmente ou não-cumpridas comprometem ambos. O mesmo se pode dizer dos acordos político-partidários que o Palácio do Planalto fez em nome da governabilidade. Há desgaste no governo e no partido, mas lhes impor derrota virtual antecipada não encontra respaldo em análise embasada na realidade. Essa postura, que se vê de maneira ostensiva na mídia, só reflete o desejo da ideologia liberal radical.

A grande imprensa só não consegue esconder o disfarce quando infla pré-candidaturas mais pelo estrago que elas poderão causar no terreno da esquerda do que por acreditar na competência administrativa de suas políticas. Essa é uma velha estratégia desse liberalismo que não se contenta em ficar fora dos plenos domínios do poder econômico e político. Ao dissimular, ela dissipa os adversários políticos, ao mesmo tempo em que tenta confundir a opinião pública em favor dos seus parceiros históricos. Não haveria nada de estranho se esse alinhamento fosse claro e transparente. O problema é que ele se disfarça, em grande medida, na suposta objetividade da produção de notícias.

Quando os fatos são contextualizados, é possível visualizar que, se o PT e Lula estão moribundos, o que então não dizer dos partidos e lideranças preferenciais da mídia para o exercício dos poderes da República? Há práticas, mais velhas, mais surradas e mais excludentes que as do mercado exacerbado? O Lula e o PT não são, certamente, os únicos caminhos no horizonte do Brasil. Até por que eles, por meio do diálogo e alianças políticas, inclusive com setores liberais, ensinaram que a arte de governar pode ser praticada, também, na diversidade ideológica. Mas esse é um assunto que os conglomerados preferem ignorar.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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