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Abordagem desigual
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Wilson Nogueira*
No Brasil e, provavelmente, no mundo, pouco se soube das circunstâncias em que foi aprovado, pelo Congresso colombiano, o plebiscito que dirá se o presidente Álvaro Uribe concorrerá a um terceiro mandato. Os conglomerados da mídia abordaram esse fato como algo do cotidiano da democracia. O artifício que pode manter Uribe no poder não valeria para Hugo Chávez nem para Lula. É isso que demonstram as revistas, os jornais, as TVs e os sites que agem contra quaisquer experiências fora ou mesmo nas bordas do velho liberalismo.
O silêncio dos conglomerados abre caminho para o provável terceiro mandato de Uribe, sem que os porquês desse apoio fiquem explícitos para opinião pública. Não medem esforços, entretanto, para impedir que líderes regionais mais à esquerda estiquem seus mandatos por voto popular. Motivo principal: esses representariam um perigo para a democracia, que, afinal de contas, se alimenta e se realimenta da alternância de poder. Mas por que essa preocupação dos conglomerados midiáticos não se estende a Uribe? Verifica-se, nesse tratamento desigual, o comprometimento dos oligopólios midiáticos com outros grupos econ?micos e políticos e não com os princípios da democracia.
Se a república bolivariana de Chávez é uma ameaça à democracia latino-americana, por que a continuidade de Uribe no poder não se constitui em ameaça a paz regional? Uribe é hoje o gestor militar dos Estados Unidos no continente sul-americano. O pretexto de combater guerrilheiros, paramilitares e narcotraficantes, permitem que o governo Uribe e os Estados Unidos transformem a Col?mbia em potencia bélica regional. Os norte-americanos pretendem mais nesse campo. Querem, neste momento, instalar uma base militar em território colombiano. Por isso, precisam de feitor confiável no poder como garantia aos seus investimentos.
Uma base militar dos Estados Unidos na Col?mbia não é bom sinal para a região. Os norte-americanos são useiros e vezeiros em invadir territórios alheios. Bastam-lhes alguns avisos de revolução social, ainda que ela ocorra nos limites da democracia capitalista, para enfurecer o Tio Sam. Por isso, é pertinente explicar que a progressiva militarização da Col?mbia atende a interesses camuflados na luta contra os cartéis de drogas e grupos armados. Os fatos dizem que o braço bélico norte-americano se configura em vigilância a supostas ameaças ao que resta da influência geopolítica dos Estados Unidos na região.
A movimentação militar colombiana instiga a caserna dos demais países. A Venezuela de Chávez tem se armado e realizado treinamento militar com os russos. O Brasil acaba de negociar tecnologias e armas militares com a França a pretexto de defender a Amaz?nia e as reservas de petróleo da camada pré-sal. É visível a reação militar dos vizinhos da Col?mbia. Sinal de que ninguém engole a justificativa simplória de Uribe para se manter no poder. Afinal, como disse Lula, os Estados Unidos bem que poderiam combater o narcotráfico dentro dos seus territórios. Mas esse é outro assunto inconveniente para os conglomerados. Preferem tratá-lo na superfície a explicá-lo em profundidade, assim como se referem a mais um mandato para Uribe.
*Sociólogo, jornalista e escritor.Marcadores: Artigo
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O outro grito
Ivânia Vieira*
A 15ª edição do ‘Grito dos Excluídos e das Excluídas’, realizada na segunda-feira (7) em várias cidades brasileiras, simboliza o retorno do movimento social à cena pública. Em um período de ressaca, desde a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República, as organizações de resistência retomam o caminho da rua, o lugar na praça e refazem a pauta de reivindicações.
Funcionando como uma espécie de guarda-chuva das insatisfações populares, o Grito fez da sua romaria, no 7 de Setembro, uma síntese das graves questões, cujo enfrentamento tem sido ignorado e/ou minimizado pelos órgãos e agentes públicos. O mosaico das reivindicações (vale à pena passear na Internet ou pelas fotografias dos protestos ocorridos em praticamente todas as capitais brasileiras) exibe o acumulado nesses anos, não como uma derrota. Ao contrário, é parte do aprendizado, da construção de um novo papel para essas organizações e da inclusão de novas necessidades impostas ao movimento.
Compreender a ‘cidadania ativa’ da qual fala o arcebispo de Manaus, dom Luiz Soares Vieira, é parte dessa exigência. Se antes o slogan era pelo direito de ter cidadania, hoje o embate é decifrar o que é ser cidadã e ser cidadão, qual é o grau de responsabilidade imposto a quem se posiciona nessa condição.
O movimento social recomeça a sua investida. Nele, os jovens exercem um papel preponderante, não apenas porque neles está depositada a parcela maior da esperança de construir mudanças, mas pela enorme dívida que esse modelo de mundo deixa à juventude. Em várias regiões do mundo, os jovens estão sem horizonte e os governos discutem uma outra demanda. Então, é neles e com eles que o grito se realiza e se prepara para ecoar mais longe, em cores, poesia e na alegria.
*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.Marcadores: Artigo
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