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Os sem-biblioteca
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Wilson Nogueira*
O ex-prefeito de Parintins Benedito Azedo contou-me que, certa vez, assombrou-se com a revelação de um também ex-prefeito do mesmo município sobre o hábito da leitura. “Benedito, meu caro, faz ao menos dez anos que eu não passo a vista num livro”. Azedo queria engatar uma conversa sobre o tema de um livro que acabara de ler. Ao ver que a prosa não correria nesse rumo, o leitor entusiasmado convidou o seu interlocutor para tomar um cafezinho numa birosca do mercado municipal, que se localiza em frente ao Palácio Cordovil, então sede da prefeitura. “Aceito o convite, meu caro, até porque, desde que assumi, nunca mais pisei no mercado”.
É isso mesmo! O que esperar de um governante que despreza o hábito de ler e de dar uma olhada nos prédios públicos e históricos da cidade que dirige. A distância entre o mercado e o gabinete do prefeito de Parintins, naquela época, não chegava a 100 metros. Azedo explica que de um governante com esse perfil pouco se pode esperar de melhoria nos setores da educação e da cultura. Em Parintins, por sinal, a ferrugem corrói as estruturas do que seria a Casa da Cultura, caso gestores corruptos não houvessem consumido o dinheiro destinado a sua construção. No papel, consta que o prédio até foi inaugurado.
É preciso cuidado para não generalizar, mas é possível afirmar que gestores que não tenham gosto por livros ou por outras manifestações artísticas venham a incentivá-lo por meio de políticas públicas. Será mais provável, no entanto, que as atividades culturais ganhem relevo se o governante entender que elas são tão importantes para ele quanto para os munícipes. Nesse contexto, o espanto de Azedo, que também poderia soar como piadinha de boteco cult, ganha relevância de crítica embasada na realidade, porque poucas prefeituras reconhecem os projetos culturais como meios de inclusão social.
No ranking das bibliotecas públicas do Anuário de Estatísticas Culturais de 2009, documento elaborado pelo Ministério da Cultura, o Amazonas aparece em ultimo lugar entre os demais estados. Apenas 59,68% dos municípios amazonenses têm pelo menos uma unidade em pleno funcionamento. Trata-se de um dado vergonhoso e preocupante, porque, sem biblioteca, sem acesso aos livros, não há como cobrar qualidade no ensino. Daí para frente se repete o circulo vicioso que impede a população pobre, principalmente, de ter cesso ao conhecimento, tão necessário para o presente e para o futuro.
Meu caro Benedito Azedo, ainda bem que, em nível nacional, os números do MinC são mais animadores. Entre 2005 e 2006 aumentou o número de municípios brasileiros que possuem museus (7%), bibliotecas públicas (4,8%) e teatro/salas de espetáculo (1,5%).
*Sociólogo, jornalista e escritor.Marcadores: Artigo
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Por uma ficha limpa
Ivânia Vieira*
A cidadania brasileira acaba de estabelecer um novo marco na sua caminhada. Ao colocar dentro do Congresso Nacional um projeto de iniciativa popular amparado por 1,3 milhão de assinaturas, provoca um espetacular efeito de reação muito além do campo político-eleitoral.
A campanha “ficha limpa”, sob responsabilidade do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), integra um projeto maior – “Combatendo a corrupção” - cujo embrião data de 1996. Há 13 anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) identificou a compra de votos como um dos mais graves desvirtuamentos do exercício da democracia. A intervenção proposta à época estava amarrada a um compromisso batizado pelos idealizadores de ação de “mudança estratégica”. É o que está sendo feito, sem perder de vista obstáculos previstos e outros que surpreenderam.
A estrada longa e com muitos trechos desconhecidos provocou momentos de euforia e de desânimo entre os caminhantes. A lei nº 9.840 cujo aniversário de dez anos foi comemorado na segunda-feira (28) é fruto dessa histórica mobilização nacional. Chegar a um milhão de assinaturas foi muito duro. Mas o movimento conseguiu e, em 1º de outubro de 2000, um novo mecanismo legal de combate à corrupção eleitoral entrava em ação. Hoje, mais de 600 eleitos foram cassados por envolvimento em atos de corrupção.
A “mudança estratégica” permanece como bússola. A campanha ficha limpa é, a partir de agora, um projeto para ser votado pelo Congresso Nacional. Significa avanço, pois provoca um debate fundamental sobre quem são os candidatos que querem nos representar, qual é folha corrida deles, os expõem publicamente, obriga-os a prestar esclarecimentos e ajuda o eleitor a tomar decisão com mais liberdade. Crescemos juntos na limpeza do caminho.
Deixe sua marca Quem não colocou o nome nessa primeira grande coleta ainda tem chance, é só buscar o endereço www.mcce.org.br. Também foi dada a largada a uma outra tarefa do movimento popular: pressionar os parlamentares para a tramitação imediata da proposta.
*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.Marcadores: Artigo
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