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A ‘percura’
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Neuton Corrêa* Tomei um susto enorme! A mulher que sentava atrás de mim meteu a cabeça e o bedelho na conversa que tinha com meu irmão a bordo do 329. Parecia tão envolvida com o papo que já entrou dando pissica. O susto só não foi maior porque o sotaque dela eliminava qualquer ameaça que pudesse vir daquela vozinha.
Acho que ela vinha prestando atenção na gente havia muito tempo, porque nós estávamos quase sussurrando. Se bem que um sussurro num ônibus velho é um grito. Mas a intervenção da mulher foi tão precisa, tão precisa que parecia a terceira pessoa do diálogo.
Tive vontade de rir, mas o Ricardo, meu irmão, de pavio curto, não. Ele fechou o rosto, porém, antes de reprimi-la, a envolvi na conversa. Afinal, às vezes, no busão, tem cada diálogo que dá vontade de meter o bedelho, mesmo.
Lembro, por exemplo, da “sereia de Manaus”. Era o comentário do 423. Todos, ali, estavam convencidos de que o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) havia recolhido de pescadores do lago Tarumã um peixe de cauda longa e cabeça com traços humanos. Ouvi até um passageiro dizer: “Isso é o fim do mundo!”
Assim que vi a zoeira sobre o peixe estranho, procurei saber sobre o que estavam falando. E identifiquei! Era um aparelho celular que corria de mão em mão com um vídeo do YouTube. Quando chegou minha vez de olhar a imagem, tive vontade de dizer que aquilo era uma armação. Mas, na naquela hora, tolo seria aquele que não quisesse acreditar que em Manaus existia sereia.
Outra vez que quis virar o olhar para uma conversa de ônibus foi quando as prevenidas entraram no 505. Eu não queria opinar sobre nada, apenas ver o gesto que imaginava que elas poderiam estar fazendo. Eram três jovens baixotas, peitudas, pernas curtas e grossas.
Elas se gabavam uma para outra: “Peguei uma desse tamanho.” A outra completava: “Peguei um assim, ó!” A terceira perguntou para as duas: “Mas tinha preservativo para isso?” As três riram, e uma falou: “Eu uso é de duas.” Confesso, senhores, que consegui conter a curiosidade.
Pois bem, no dia em que peguei o 329 com o Ricardo, antes de tocar no assunto que a mulher não resistiu, já havíamos falado de vários temas. Mais coisas de família, puxadas pelas clássicas perguntas: “Como vai o fulano? Como vai o sicrano?”
Mas o Ricardo não queria falar disso. Queria tratar da parede que mandou embuçar na casa dele. Antes de iniciar o serviço, quis me ouvir sobre pedreiro. Indiquei o Chagas, que já trabalhou em casa, mas ele achou caro.
Ricardo achou melhor contratar um vizinho e, para baratear ainda mais o custo da obra, pôs a mão na massa como servente. Deu no que deu. Arrependido, meu irmão me confessou: “Se eu pego esse f.d.p. hoje, nem sei do que seria capaz de fazer com ele”.
Foi aí que a bisbilhoteira colocou a cabeça entre nós e disse: “Ah, meu filho, te ‘acarma’, ‘te acarma’, porque pedreiro é que nem marido: a gente ‘percura’, ‘percura’, ‘percura’, ‘percuuuuuura’ e não acha um que preste.”
Olhei para ela e concordei: “É verdade, e a senhora vai ter que ‘percurar’ muito”. E nós três continuamos a conversa.
*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.Marcadores: Crônicas
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