Lei para fotos

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Wilson Nogueira*

Legisladores franceses e ingleses querem regulamentar o uso de fotografias adulteradas em material publicitário, editorial e artístico. A medida deve ser seguida por outros países, porque se trata de um fenômeno de escala planetária. Poucos anônimos e celebres resistem ao uso do Fotoshop, o programa mais utilizado para retocar e modificar fotografias, para melhorar a imagem. Os produtos e informações não estão fora dessa modalidade de fraude. Os dois países querem se prevenir, acima de tudo, contra a indução à bulimia e à compulsão por cirurgias plásticas.

A autora da lei francesa, Valérie Boyer, propõe que a fotografia fotoshopada esteja acompanhada do seguinte esclarecimento: “Essa fotografia foi retocada para modificar a aparência física de uma pessoa”. É bem provável, caso a proposta vire lei, que todas as capas de revistas masculinas venham a circular com esse carimbo. Na Inglaterra, estão em debate possíveis restrições ao retoque de imagens de campanhas publicitárias dirigidas a menores de 16 anos. Está em curso uma ofensiva contra a correção das imperfeições da imagem, para atender a certo padrão estético, cuja função é excitar o consumo de alto padrão.

Ao ler essa matéria na Veja (edição 2135), lembrei-me dos santinhos dos candidatos em campanha eleitoral. Há casos em que a fotografia impressa no panfleto é apenas uma vaga lembrança da imagem física do candidato. Por isso, a fotografia, que deveria representar a realidade, transforma-se numa obra de ficção. Assim, muitos eleitores escolhem seus candidatos pela falsa aparência. Compram gato por lebre e, por isso mesmo, correm o risco de ser representados por pessoas inescrupulosas.

No meio editorial, os exemplos estão nas bancas de revistas e jornais da esquina, no outdoor e na tela do computador. Modelos femininos e masculinos perfeitos. Magérrimos! É dessa forma que se movimenta o mercado editorial, publicitário e artístico. Se o Brasil viesse a adotar uma lei idêntica à pretendida pelos franceses, faltaria tinta para carimbar tanta advertência a leitores e demais usuários dos meios de comunicação.

Enquanto uma regulamentação específica sobre esse tema não chega por aqui, vale a pena dar uma espiada no Código de Defesa do Consumidor, que ganhou a fama de ser o mais completo do mundo, para verificar se há algum artigo que possa enquadrar, penalmente, aqueles que adulteram imagens para enganar e obter lucros. Em termos de mercado editorial, o correto mesmo é falar em muitíssimo lucro!

Aliás, é bom lembrar que ninguém está impedido de ganhar dinheiro com obras de ficção, desde que elas se apresentem como tal.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Crianças e sustentabilidade

Ivânia Vieira*

Nesses dias, algumas questões têm acelerado minhas inquietações quanto ao presente de centenas de crianças e o futuro incerto de tantos adultos. São, hoje, as crianças sem escola do Parque São Pedro, da Praia Dourada e da comunidade Tambor, para falar apenas de algumas dezenas delas. Criança fora da escola não é fato isolado. Ao contrário, expõe uma situação ampliada de abandono. Ao mesmo tempo, o Amazonas se apresenta ao mundo com um dos mais arrojados discursos em defesa da sustentabilidade. Não combina uma situação com a outra. São antagônicas.

O tempo sem escola é uma agressão à trajetória de vida desse universo de crianças. Junta-se a ela, a condição inóspita em que vivem. Não é a pobreza do Estado a geradora dessa realidade, mas a ausência de vontade política dos governos, a maioria deles mergulhada em escândalos de desvio de recursos públicos. Há também uma cultura de conveniência co-alimentada pelos demais poderes pouco incomodados pela nossa frágil cidadania.


DESABRIGADOS
No próximo ano, o mundo terá aproximadamente 50 milhões de ‘desabrigados ambientais’. A denominação, dada pela Organização das Nações Unidas (ONU), engloba as vítimas de tempestades, da degradação da terra, das queimadas, da redução da quantidade e da qualidade da água. Mulheres e crianças formam a grande massa de desabrigados, informa a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi).

A Organização Mundial da Saúde (OMS), chama atenção para os 4 milhões de crianças, com idade abaixo de cinco anos, que morrem anualmente em consequência dos desequilíbrios ou acidentes ambientais. As causas citadas pela OMS são as mais diversas, dentre as quais a poluição do ar e da água, exposição a substâncias químicas, furacões e enchentes, que provocam envenenamento, diarréia, cólera e malária, infecções respiratórias e outras doenças. Esse é um quadro do mundo e está muito perto de nós, basta olhar as margens dos hospitais públicos, as ruas e a periferia desta cidade.

*Jornalista de A Crítica e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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A caminhada ideal

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Massilon de Medeiros Cursino*

Havia escolhido meu Bairro para ser minha pista de caminhada. Sairia de casa, no final do “Palmares”, e iria até o sinal do cruzamento das ruas Paraíba e Rio Branco. Já havia antecipadamente marcado no hodômetro de minha motocicleta que aquela distância era equivalente a um quilômetro. Um de ida e um de volta. Faria 2 quilômetros diários, ideal para iniciante.

O ziguezague entre a rua e a calçada acresce a distância, algo em torno de 100 metros. As calçadas foram invadidas por casas, umas confundem passeio com o pátio e o morador, com o espírito de propriedade, chega a se ofender caso o pedestre use aquilo que presume ser seu.

O que seria só uma caminhada se transforma em alternância de andar e correr, diante das ameaças dos cachorros criados na rua, sob o olhar do dono que só se manifesta quando a carrocinha pega alguns deles. De acordo com meu amigo soldador “Pimenta”, só na curvinha, perto da escola, há 4.542 cachorros. É claro que isso é um exagero, pois são muitos os cachorros, mas não tantos assim!

O pior é que na minha Rua tem um vizinho criando um pit bull. Por conta disso, meus filhos deixaram de fazer as compras no comércio da esquina e tudo sobrou pra mim. Uma caixa de fósforos que falte e lá vou eu!

Contudo, o que é interessante é que o vizinho que resolveu criar um pit bull não é tão fortão ou “forçoso”, já que geralmente os donos de pit bull são do tipo bombados, isso já foi provado cientificamente. Há estudiosos da psicologia que levantaram teses de mestrado e doutoramento sobre o assunto: “ele é um cão que se molda ao seu dono”. No caso de meu vizinho, ele é uma exceção à regra, porém tirou o lazer de meus filhos passearem de bicicleta pela rua e até de fazerem pequenos mandados.

Retorno da caminhada indicada para o stress, para o condicionamento físico e para o coração, mormente mais estressado do que saí. Pior ainda foi avistar o portão da minha residência escancarado e minha cachorra dálmata “Pandora” na rua. E ela já assustou uns três transeuntes que passaram pelo local.

Para não acharem que estou ficando cafona ou chato, o jeito vai ser eu reduzir ainda mais o meu espaço: Vou limitar a fazer minha caminhada dentro de meu terreno e em volta da minha casa!

*Economista, Bacharel em Direito, Pós Graduado em Gestão Pública, membro da Academia Parintinense de Letras.

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