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Desemprego feminino
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Ivânia Vieira*
Números divulgados por organismos internacionais nos últimos dias de outubro mostram um quadro extremamente difícil para mulheres e crianças em todo o mundo.
Na América Latina e Caribe o desemprego urbano atingiu 8,5% no segundo trimestre deste ano. Os dados são da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que não projetam mudança de cenário até o final de 2009.
São mais 2,5 milhões de pessoas desempregadas nos países da América Latina e no Caribe. O número total dos sem emprego na parte urbana dessa região somaria 8,4 milhões, informa o boletim conjunto dos dois organismos intitulado ‘Conjuntura laboral na América Latina e Caribe: Crise nos mercados laborais e respostas contracíclicas’. No ano passado essa taxa ficou em 7,5%.
Mulheres e crianças são as mais afetadas pela expansão do desemprego. Representantes da OIT falam da necessidade de “aumentar a igualdade de acesso e as oportunidades em relação ao desenvolvimento de competências laborais”.
Há coincidência de dados na abordagem desse tema. Publicada de cinco em cinco anos, a Pesquisa Mundial sobre o Papel da Mulher no Desenvolvimento, sob responsabilidade do Departamento de Assuntos Econômicos e sociais das Nações Unidas (ONU), identificou que os salários para as mulheres são 16,5% inferiores aos dos homens. O estudo aponta que na América Latina, mais da metade das pessoas sem renda (entre 20 e 24 anos de idade), executam trabalho doméstico não remunerado. Nesse segmento, é alta a presença das mulheres cuidando de crianças, doentes, idosos e outros membros da família.
A pesquisa coloca como questão de urgência repensar estratégias de crescimento e de capacitação econômica das mulheres como um posicionamento firme diante dos efeitos da crise econômica. Em Manaus, durante o 1º Encontro de Mulheres da Floresta (Emflor), nos dias 19, 20 e 21 de outubro, essa foi uma das reivindicações feitas. Falta a resposta governamental.
*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.Marcadores: Artigo
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O bêbado tricolor
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Neuton Corrêa*
Tudo foi muito rápido. O professor aterrissou no asfalto no mesmo instante em que o ônibus fazia a curva. Sua cabeça ficou posta na direção das rodas. Ele ainda tentou se levantar, mas suas pernas o empurraram um pouco mais para frente. Para não ver a cena, vedei os dedos e levei as mãos aos olhos, que já estavam fechados.
Impotente, testemunhava tudo da parada de ônibus da Escola Estadual Santana, a poucos metros do jornal. Antes do pouso forçado, o professor olhava para frente, queria andar para frente, mas suas pernas não obedeciam. Mirava para um rumo e ia para outro. O máximo que conseguia era caminhar como caranguejo: apenas para os lados. Na verdade, apenas para o lado esquerdo. Para o direito, não dava. O muro o impedia.
Como não conseguia andar pela calçada, tentou a estratégia da aranha: andar seguro à parede. Encostou o peito nas grades de proteção da sede do Serviço Geológico do Brasil, perto da Susam, e começou a se deslocar. Deu alguns passos, mas desistiu. Ora as mãos não acertavam o ferro, ora eram as pernas que não lhe suportavam.
Depois disso, virou de costas para os ferros e escorregou. Desceu lentamente pelo gradil, sentando-se ao chão. Com a cabeça cambaleando, passou as mãos na calçada, como quem prepara a cama para dormir, mas imediatamente deu um súbito salto, frustrado com uma queda. Mas ele não desistiu.
O professor tentou novamente ficar de pé, porém, descobriu que, naquela hora, andar como os humanos era uma coisa impossível para ele. Tanto que, obstinado a chegar em casa, dobrou os joelhos na calçada, inclinou o peito para o chão, pôs as mãos na frente e, como um quadrúpede, continuou a caminhada. Mas caiu outra vez.
A cena me fez lembrar a dupla Manelito e Roberto Carlos. Eram dois carregadores do mercado central de Parintins que não se desgrudavam. Manelito era o mais velho. Andava com a cabeça baixa por causa da corcunda, que ficava ainda mais saliente com um nó que tinha no meio da costa. Roberto Carlos era famoso por atacar mulheres e sempre apanhar de suas vítimas.
Manelito e Roberto Carlos passavam de madrugada para o trabalho e só retornavam para casa no início da noite, geralmente, costurando a rua. Um dia protagonizaram um episódio que sempre me lembro quando vejo um bêbado enrascado.
Os dois retornavam do trabalho. Com dificuldade, conseguiram chegar no longo muro do cemitério, pela rua Clarindo Chaves. Roberto Carlos se encostou ao muro. Manelito ajoelhou e andou de quatro. Perto do fim do muro, Roberto Carlos começou a rir, dizendo para o colega, com a voz travada:
– Manelito, tu não vai chegar em casa. Teu joelho não vai agüentar. Manelito, porém, reagiu: – Eu vou chegar. Tu é que não vai. Quero ver o que tu vai fazer quando o muro acabar.
Enquanto lembrava de Manelito e Roberto Carlos, o professor continuava seu esforço. Até então nem sabia quem era ele. Aliás, nem sei se é professor. Chamo-o assim, porque um dia, antes de descer para a Ladeira do Forró (clube que funciona ao lado do jornal, às quintas-feiras), ele passou por lá e se apresentou como tal: professor de Matemática.
Pois bem, naquele dia em que ele estava embriagado, meu susto só passou depois que o ônibus cruzou o ponto onde eu estava. O professor continuava estendido no asfalto e se debatendo. Corri o mais depressa possível, porque, logo atrás, uma carreata de flamenguista estava se aproximando. O risco era maior porque o professor vestia uma camisa do Fluminense, contra o qual o Flamengo havia acabado de jogar.
*Filósofo, mestrando do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Ilustração: RomahsMarcadores: Crônicas
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A sucumbência de um soldado da malária
Massilon de Medeiros Cursino*
Moribundo, com a tez cianosada e pálida, inerte a tudo como quem está viajando em seus pensamentos. Mais um soldado se despede dos seus. Desta vez não mais retornará para contar as estórias e bravatas de quem combateu com coragem o exército inimigo.
Sem o seu fardamento cáqui, sem seu par de botas pretas, sem sequer seu boné que ostentava sobre o quepe o mapa do Brasil. Diferentemente de outrora, também não estava mais armado com sua bomba de burrifo em que sempre carregava a mistura à base de Dicloro Difenil Tricloroetano, o DDT.
Como membro da fileira de um exército, tinha que enfrentar, além da saudade dos familiares, o rio, a mata fechada e as intempéries da densa floresta tropical. Ia ao encontro hostil para afrontar um combatente minúsculo, porém de uma agressividade funesta. O opositor era um pequeno inseto, culicídeo do gênero anópheles que se agigantava por ser o transmissor de uma doença parasitária de evolução crônica, a malária ou maleita. A doença que se tornara a mais expressiva das endemias tinha que ser combatida com o rigor de um exército preparado para uma verdadeira guerra.
A maior altivez do soldado da malária era poder dizer que não havia uma residência, por mais longínqua que fosse, sem registro da sigla de sua campanha e a respectiva numeração de controle.
O DDT utilizado para chacinar o anopheles que transmitia o impaludismo era o veneno amigo, pois já havia evitado milhões de mortes e inspirado até um Prêmio Nobel. No entanto, como também ocorre em outras guerras, o companheiro pode vir a se tornar o próprio algoz. Assim se procedeu com o DDT, que acabou por exteriorizar sua outra face.
O tempo se encarregou de promover um novo desafio ao combatente. O soldado, não mais com sua juventude e força, teve pela frente mais uma contenda, muito mais forte que aquele minúsculo inseto, além de que apresentava uma feracidade capaz de sobrepujar rapidamente seu contendor. Desta forma, o soldado se fez traído por aquele que sempre julgou ser seu maior aliado, através de uma detração irreparável.
O soldado Zé Assis foi mais uma vítima. Partiu ao encontro de seus companheiros de luta. São todos heróis anônimos, Homens que sacrificaram suas vidas na defesa da vida de seu povo. Eles singraram os rios, embrenharam-se nas matas e venceram uma longa guerra, todavia, saíram feridos de morte pelos furúnculos e sarcomas.
Diante de uma cena que se torna cada vez mais comum, na qualidade de órfão de um soldado da malária, que sentiu na pele a mesma dor que ora vivem os familiares do senhor Zé Assis, imploro providências ao poder público, ao Ministério da Saúde, a reparação das seqüelas que essa guerra causou a seus combatentes. Isso é o mínimo a exigir, em nome de quem com muita altanaria sacrificou a própria vida para cumprir um fiel dever de Estado!
*Economista e bacharel em Direito.Marcadores: Artigo
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