Teste para cego

sábado, 14 de novembro de 2009


Neuton Corrêa*

Meu tio se tornou famoso na medicina (popular) desde o dia em que curou a crônica dor de cabeça da mulher de um amigo. Bastou um galho de vassourinha na mão direita, a mão esquerda na cabeça dela, cinco Creio em Deus Pai, três Salve Rainha, três Ave Maria e três Pai Nosso, para que a amiga voltasse à vida.

Até o amigo se convenceu dos poderes de meu tio. Pudera! Assim que começou a benzer a cabeça da mulher, pediu um copo d’água e mudou de voz; com o galho de vassourinha, aspergia o corpo da paciente da cabeça aos pés; ao terminar o ritual, suado, balançou a cabeça, recuperou a voz natural, perguntou para onde o Sol se punha e nessa direção atirou o ramo, que já estava murcho.

Titio foi tão convincente que, no início da noite, ao ligar para o amigo em busca de informação da esposa, ouviu: “Rapaz, ela está tão bem que acabou de ir para a igreja agradecer o milagre que você fez”. Ele também se achou. Tanto que sempre que pode faz questão de lembrar do caso.

O que eu não sabia sobre o meu tio é que ele tivesse o poder de curar cegueira. Tenho certeza que o método usado por ele nunca foi aplicado pela Oftalmologia. E isso não faz muito tempo, no máximo dois meses.

Esse tio é o mais ilustre irmão de meu pai. Lucinor Barros é o nome dele, o mais novo de uma família de sete irmãos. Está com 65 anos e agora, aposentado, passou a viver como turista, sempre acompanhado da esposa, Lisa (Lisamar). Tenho por eles um carinho muito grande, afinal, meu primeiro presente (um carrinho de ferro) foram eles que me deram. Isso foi no Natal de 1977, quando eu estava com sete anos.

Lucinor tem importância histórica para o Brasil. Uma de suas criações ainda será objeto de muitos estudos. Aos 22 anos de idade, fundou a maior manifestação popular da Amazônia, o Festival Folclórico de Parintins. Lamenta o fato de nunca ter recebido um convite para assistir à festa que criou, mas não se perturba com isso.

Não se perturba porque sempre está bem humorado. Agora, por exemplo, que está de volta ao Amazonas, após longos anos em Boa Vista, soube que o irmão Sabino havia sido acometido de um derrame (Acidente Vascular Cerebral). Procurou-o em Manaus e não o encontrou.

Lucinor, porém, não desistiu. Descobriu que o tio Sabino estava morando na cidade de Presidente Figueiredo e para lá se tacou. Esta semana, encontrei o titio a bordo do 422. Ele embarcou na parada do condomínio São Judas Tadeu. Na viagem, ele me contou como foi o encontro com o irmão:

“Menino (ele sempre começa a falar assim), eu olhei pro Sabino e estranhei:
- Como é que tu tivestes um AVC e não tem uma sequela? Aí, ele respondeu:
- Eu só perdi a vista. Perdi um lado do olho. Só consigo enxergar do direito. Do olho esquerdo não enxergo nada. Nada!
Menino, eu desconfiei daquilo. Aí, resolvi aplicar um teste:
- Faz o seguinte, Sabino, fecha o teu olho bom. Tapa ele com a mão.
- Assim?
- Isso, deixa só o olho cego aberto.
E perguntei: Tu ta vendo alguma coisa? Aí, ele respondeu:
- Não! Não enxergo nada.
Menino, aí eu peguei e fiz assim (ele armou dois cotocos bem firmes nos dedos) e botei na cara dele. Na hora, o Sabino caiu na risada. E eu disse para ele:
- Tá doido, Sabino, pensa que sou leso?”
Ri de meu tio e fiquei imaginando o teste para cego.

*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia;Ufam.

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O vestido da intolerância

sexta-feira, 13 de novembro de 2009


Ivânia Vieira*

Em artigo em que discute a intolerância, o professor Antonio Ozaí da Silva, da Universidade Estadual de Maringá (PR), adverte: “a construção de uma sociedade fundada em valores que fortaleçam a tolerância mútua exige o estudo das formas de intolerância e das suas manifestações concretas, aliado à denúncia e combate a todos os tipos de intolerância”.

O pesquisador chama atenção para o fato de que a “tolerância pressupõe a intransigência diante das formas de intolerância e fundamenta-se numa concepção que não restringe o problema da tolerância/intolerância ao âmbito do indivíduo; esta é também uma questão social, econômica, política e de classe.”

O vestido de Geisy, a estudante quase banida da Universidade Bandeirante, atualiza as questões enfocadas pelo professor Ozaí. A universitária provocou seus pares ao ir à faculdade usando vestimenta que agrediu a uma parcela de estudantes. Estes reagiram agredindo-a, constrangendo-a, encurralando-a.

A direção da Uniban avança na postura de intransigência ao decidir pela expulsão da estudante. Recua após constatar a repercussão do caso e o tamanho do estrago feito inclusive para os negócios da escola.

O episódio não se encerra com o recuo da direção da faculdade. Não houve bom senso. Ao contrário, houve, sim, a negação desse preceito por todos os protagonistas - a garota, seus colegas, a reitoria da universidade.

A onda provocada por esse caso espirra seu veneno em todos nós. Mostra como a morada da intolerância é larga, disfarçada, cínica, tem esteios ainda muito bem fincados. Por meio dela, diariamente, lá e cá, são realizados e justificados atos de intransigência nos locais de trabalho, nas ruas, em casa. Diminui as pessoas. Está escondida, até em um microvestido e se revela mortal.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.
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O feio

domingo, 8 de novembro de 2009


Neuton Corrêa*

Não via o Bitinho havia muito tempo, desde o dia em que a mãe dele, com uma criança no colo, e seus irmãos saíram correndo na rua, desesperados, pedindo socorro. Bito, como também era conhecido, foi o único a ficar na casa. Fechou a janela e a porta da frente e até hoje nunca mais pôs os pés de volta ali.

Bitinho era o primeiro filho do Bitoca, o terceiro comerciante a se instalar na rua de casa. Isso ainda no fim da década de 1970. Era um visionário. Enquanto o mundo desconhecia segmentação de mercado, Bitoca já possuía um comércio especializado. Só vendia cachaça. Preferia vendê-la em dose. Ganhava mais.

Bitinho nasceu e se criou ali. Parecia imitar o pai em tudo. Passava horas sentado atrás do balcão à espera dos clientes de sempre. Ah, antes de seguir na história, convém um parêntese. Bitoca também inovou no nome do empreendimento. Era um comércio com nome e sobrenome: “Quiosque do Bitoca São Jorge: ponto dos amigos 100% todos nós”.

Bitoca morreu, e Bitinho tomou a frente do negócio. Ainda era adolescente quando herdou o “Ponto dos Amigos”. Tocou o quiosque até onde pôde. Sem conseguir enfrentar a concorrência, migrou o investimento para o setor de frutas e verduras e ajudou a mãe e irmãos mais novos.

Por trás do balcão do quiosque, porém, Bito não escondia apenas o corpo. Acalentava ali também uma decepção. Estava com 25 anos de idade e nenhuma garota havia se interessado por ele. Além disso, nunca foi correspondido em suas investidas.

Bitinho fazia de tudo para chamar a atenção das meninas. Estava à frente da moda. À noite, quando deixava o Ponto dos Amigos, sempre aparecia com novidades. Lembro-me da calça-balão e da camisa branca de mangas cumpridas que vestiu para ir ao Palmeiras Clube. Não tinha como não chamar a atenção para si. Mesmo assim, não arranjava nada.

Nem as bicicletas novas que comprava lhe ajudavam. Nem as que mandava enfeitar: colocava retrovisor no guidão, brilhava os raios e até estofado colocava na garupa. Mas nada disso o ajudava. Apenas aumentava seu sofrimento.

Sua angústia chegou ao extremo quando começou a perceber que toda a garotada de seu tempo já estava casada. Passou então a se achar o rapaz mais feio do mundo. Perturbado com isso, tentou dar fim à própria vida por várias vezes. E todas as vezes foi salvo.

O drama do Bitinho não parou por aí. Pelo contrário, aumentou. Aumentou no dia em que soube que o Claudemir, com quem partilhava as angústias, havia casado. Claudemir era seu grande amigo. Bitinho o julgava mais feio do que ele.

O casamento do amigo era a senha. Estava na hora. Mas achou que sua família inteira também deveria morrer. Ofereceu-se então para fazer o almoço. Era um caldo de tambaqui. Sem remorso algum, Bito adicionou veneno para rato e chamou a mãe e os irmãos para comer.

Foi nesse dia que sua mãe, com a criança no colo, e seus irmãos saíram correndo para a rua. Na hora em que o seu irmão mais novo colocou a colher no prato, Bitinho se arrependeu e falou do tempero que havia usado. Com o histórico suicida dele, ninguém pensou duas vezes. Lembro-me ainda hoje dos gritos de sua mãe depois que ele fechou a janela e a porta: “Meu filho, não vai comer isso! Você é o meu filho lindo!”.

Desde esse dia, Bitinho sumiu da rua. Encontrei-o esta semana. Estava a bordo do 301. Levantei para falar com ele, mas, ao me aproximar da cadeira onde sentava, vi o Bitinho, concentrado, de mãos dadas com uma jovem muito simpática.

*Filósofo, mestrando do programa de Pós-Graduação, Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Myrria.

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