À procura de Deus

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009


Neuton Corrêa*

Não era manhã nem tarde. Era meio-dia. Pontualmente! A panela não estava no fogo, mas a barriga estava vazia. Vazia e longe de casa. Bem longe! Então, peço um caldo-de-cana. A garapa chama um salgado, um croquete (de macaxeira). “De carne ou de camarão?”, pergunta a vendedora: “De carne”, respondo.

Quebro o salgado para colocar pimenta. Aparece uma mulher, apressada, e pede informação: “O 205 para aqui?”. Faço coro com a vendedora: “Não, para na outra.” O motorista freia atrás de outro ônibus. No limite! O cobrador mete a cara na janela e grita: “Me dá um refrigerante, aí!”. A vendedora se apressa e entrega o pedido.

Movimento normal, apesar da agitação. Normal até aparecer o Euder, que acabava de sair do Prato Cidadão (Centro). Saiu do restaurante mexendo com os passageiros que estavam ali perto. O primeiro que o vi cutucando reagiu com um empurrão. Euder só não caiu por que se apoiou em um grupo de pessoas que estava na beira da rua. Uma delas o empurrou de volta (para ele não cair debaixo do busão).

E foi assim, importunando um a um, que Euder chegou a mim (ele estava com o rosto cheio de farinha):
- Tu sabe onde mora a Rosa?

Antes de responder, minha cabeça se acelerou a imaginar aquela história no papel. Afinal, não é todo dia que se encontra alguém exalando todo tipo de cheiro em uma parada de ônibus à procura de uma Rosa. Para aproveitar a abordagem, preparo o espírito para suportar o cheiro e respondo-lhe com outra pergunta:

- Que Rosa?
- Minha irmã! minha irmã!, grita ele, para o desespero de minha mulher, que a esta altura já estava a metros de distância torcendo a boca por causa de meu interesse por esse tipo de biografias. Como Euder permitiu uma conversa, mesmo que breve, tento saber onde morava. E, para a minha surpresa:

- Moro no Dabaru:
- Como!? Dabaru?
E ele, de novo, grita:
- Dabaru! Dabaru! Dabaru!

Eu, alegre com a resposta, porque, em 1989 conheci um lugar com este nome, replico:
- No pé do morro?

Ele, finalmente, fixa o olho para o meu rosto e pergunta em voz baixa e sem repetir as palavras:
- Tu sabe onde é?
- Sei, em São Gabriel da Cachoeira (Dabaru é um bairro da cidade), não é?

Bastou eu falar isso para ele começar a molhar os olhos e a tentar beijar minha mão. Foi nesse momento que perguntei o seu nome e ele respondeu:
- Euder.
- Euler?
E ele outra vez grita, repreendendo-me:
- Não, meu nome é Euder. Euder Ribeiro de Souza! Euder Ribeiro de Souza! Euder Ribeiro de Souza!

Procuro contê-lo, mudando de assunto:

- E você procura a Rosa?

Juro, a resposta me pegou de surpresa:

- Não, eu procuro Deus.

Meu Executivo 807 apareceu e não deu mais para conversar com o Euder, de 39 anos, que ainda ficou lá, falando para mim: “Honra teu pai e tua mãe e os dias de tua vida serão prolongados”.

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia-Ufam.

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A promessa de Tucuruí

Massilon de Medeiros Cursino*

Quando o ex-prefeito de Parintins Carlinho da Carbrás falou em linhão de Tucuruí, todos acharam ser mais um dos seus devaneios. Parecia um ente profético pressagiando, faltando-lhe apenas um manto e a longa barba para haver verossimilhança aos seres que anunciavam os propósitos divinos.

Cheio de ira e cólera, alimentada por uma assessoria que já o acordava contando o dito nas rádios cipós de beira de esquina, o alcaide bradava e desafiava aqueles descrentes de que o progresso um dia chegaria. Um ser messiânico, um protótipo ou versão moderna de Antônio Conselheiro da Amazônia.

Carbrás não ousou dizer que o sertão viraria mar, nem que o mar viraria sertão. O que fez foi desvendar que a senha para solução do problema energético de Parintins e do Estado seria o tal linhão de Tucuruí, que deixava de ser um assunto restrito aos livros de geografia para se tornar o grande mote político.

O desenvolvimento e o progresso passariam obrigatoriamente pela mudança da matriz energética. E a saída seria a extensão procedente da usina de Tucuruí.

Talvez todos saibam que Tucuruí é uma cidade paraense situada à margem do rio Tocantins, onde foi construída a maior hidrelétrica brasileira em potência, 8370 MW (megawatt). O que é provável que nem todos saibam é que o nome “tucuruí” significa rio das formigas. Sim, daquele inseto que vive em sociedade e está em todo lugar a perturbar ou aporrinhar nossa vida e pós-vida.

Se louco foi quem pensou, o que dizer de quem prometeu tornar concreta a loucura?

Se o dito louco tinha razão, infere-se que quem de público prometeu teve boa intenção. O certo é que até o presente, o que se sabe é que o linhão vai passar pela outra margem da sede do município de Parintins, dando adeuzinho aos sonhos alimentados há mais de uma década.

Já que formiga ferra, por que não admitir que nós nos ferramos? Ou quem sabe, talvez um dia o linhão venha atravessar o rio Amazonas, que é um rio de águas barrentas e não de formigas?

Não custa nada acreditar. Sejamos perseverantes e alimentemos esperança, afinal, como disse o Presidente Lula ao chegar ao poder, após três derrotas consecutivas: “A esperança venceu o medo”.

Não tenhamos medo da interrupção de energia elétrica. Pelo tempo de existência do problema já estamos habituados aos apagões e aos prejuízos que ele produz.

Como escreveu Thiago de Melo: “Faz escuro, mas eu canto”.

* Economista, Bacharel em Direito e Membro da Academia Parintinense de Letras.

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Gabriela

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Lúcia Carla Gama*

Chova ou tenha lua, qualquer delas – cheia, minguante, crescente ou nova – ela está lá, na esquina da rua que dá acesso ao condomínio de luxo. Loura, boa estatura, corpo esbelto, chega não se sabe de onde. Vem sempre por volta das 18h, os últimos raios de sol ainda acesos nestes tempos de verão amazônico.

Costumeiramente, veste um short bem curto, que mais parece a calça maior de um biquíni, e um soutien de lycra, como se fosse a parte de cima do suposto duas peças. As roupas minúsculas têm adereços, brilhos e fios cintilantes, que lhes confere um ar solene, mais chique.

Nos pés, sempre, um par de botas. Marrom, preto, amarelo, azul, vermelho, lilás, modelos variados, como as cores, canos altos ou mais baixos, todos saltão 15. No cano das botas, numa grafia caprichada, lê-se o nome Gabriela, quando o espaço permite, ou Gabi, no caso de botas de canos mais curtos.

Na esquina da rua movimentada, ela desperta interesse e consegue clientes em busca de prazer, sexo livre. É comum ver um carro e outro parando para pegá-la ou devolvê-la ao ponto do negócio. Desperta também curiosidade: é mulher mesmo ou se trata de um traveco bonito, bem cuidado?

Os moradores do condomínio de luxo já acostumaram a passar pela figura ao entrar e sair de casa nas noites manauaras. Uns olham e cumprimentam com uma leva buzinada, a tratam ternamente por Gabi, e mostram a quem os visita, como se fosse uma peça de decoração. Outros ficam constrangidos e censuram a presença da moça nas proximidades do local de residência. “Isso não é coisa que se faça, tanto emprego, e tantas formas de ganhar vida com mais decência”! E a polêmica gira em torno da loura garota de programa.

Até que uma noite, numa reunião de condomínio no condomínio de luxo, Gabi ganhou os holofotes. Em meio às discussões sobre melhoria do local de moradia, regras de comportamento e boa convivência, um jovem médico, 30 anos no máximo, seis meses de casamento, sentencia ser necessário tirar a prostituta do ponto em que fica, em respeito à moral e aos bons costumes. “Sabe como é, né? Acabei de casar, daqui a pouco terei filhos e não gostaria que eles vissem aquela mulher ali, naqueles trajes”, afirma ele, fazendo com que todos lembrassem, em silêncio, os versos antigos e tão atuais de Belchior “apesar de termos feito tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

Sugestão ouvida e não comentada, os condôminos deram seqüência à reunião. E após discussões e providências a tomar encerraram o encontro. Foi então que, tendo partido o jovem médico, no momento dos comes e bebes, um empresário, bem mais vivido, casamentos feitos e desfeitos, filhos crescidos, não se contém: “Puta que pariu, o cara quer tirar a Gabi da esquina e eu, doido, querendo saber quanto ela cobraria para escrever o nome da minha loja naquela bota”!

*Jornalista

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Uma boniteza de fila

Ivânia Vieira*

Sábado (28 de novembro), no bairro Itaúna, em Parintins (AM), uma aglomeração humana em estado de alegria ignora solenemente o sol forte e o calor intenso. Prefere organizar-se em uma espécie de fila dançante e aguardar ansiosa pela hora de escolher um livro.

Crianças, jovens e adultos compunham a ‘fila do livro’ em frente a escola municipal Irmã Cristine. Em poucos minutos, estavam diante de uma mesa sobre a qual vários títulos espalhados podiam ser tocados, folheados, levados como presentes autografados por alguns autores, como os jornalistas Wilson Nogueira, Mazé Mourão e Neuton Corrêa, este em dia de lançamento do seu ‘Entre Linhas’.

A imagem, não acertada, é fantástica. Zomba da verdade reducionista e altamente comprometida com a mesmice de que as pessoas no Amazonas, em particular e, no Brasil, em geral, não gostam de livros nem de leitura.

Pois, ali, foi o livro o grande mobilizador das atenções. Uns chegaram na motocicleta, outros usaram bicicleta e muitos caminharam até à escola para conhecer escritores, conversar com eles e receber livro. Pouco depois, era possível vê-los carregando a prenda no lugar mais cuidadoso.

A vida de repórter nos proporciona ver as mais humilhantes filas as quais tantas pessoas são submetidas na condição de esmoleiras, sem dignidade e colocadas como miseráveis sociais. Quantos votos não foram comprados nesse universo da política menor?

Por isso, poder ver pessoas reunidas em torno de livros e leituras é como desenhar um sonho e insinuar-se em direção a uma outra possibilidade. É assim a sensação diante de uma das tantas faces do Festival Literário Internacional da Floresta (Flifloresta). No Careiro da Várzea, as pessoas chegaram à sede do município transportadas em canoas e barcos. Em Parintins, onde o festival fez a sua estreia na última semana, uma multidão enamorou-se do circuito literário, bailou com ele e decidiu ser aliada da grande conspiração, agora, impossível ser silenciosa porque escreve em tom maior um outro capítulo na nossa história.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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