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A poesia do Homem Cavalo
sábado, 12 de dezembro de 2009
 Neuton Corrêa*
Enquanto aguardava o 676, detive-me a observar o vaivém de pessoas empurrando carrinhos de rolimã. Umas traziam baldes, panelas, latas e garrafas PET. Outras, além das vasilhas, um passageiro. Geralmente uma criança transportando outra e se divertindo com o drama da falta d’água no bairro Jorge Teixeira.
Um desses motoristas me chamou atenção. As batatas de suas pernas e as veias tufadas de seus braços mostravam o esforço que fazia para vencer a ladeira. O carrinho dele estava carregado. Agasalhou mais de três dezenas de PETs. Organizou as garrafas em dois andares e ainda pendurou algumas na direção do rolimã.
Fiquei tão concentrado na cena que não o vi vencer a subida. O carrinho de madeira transportou meus pensamentos para a vida de seu Vicente. Seu Vicente é um agricultor que conheci em um assentamento do Incra. Logo no começo, quando não sabia seu nome, chamava-o de “O Homem Cavalo”.
Tratava-o assim (de mim para mim) desde a primeira vez que o encontrei na estrada do assentamento. Ele trançava um pano em sua cabeça e cordas o amarravam pelos braços e pela cintura. Tudo isso para puxar uma carroça carregada de galhos de árvores e toras de madeira. Isso faz seis anos.
Tentei falar com ele naquele dia mesmo, mas o motorista do pau-de-arara não ouviu meus apelos. Assim que cheguei em casa, peguei a bicicleta de meu pai e voltei à estrada, mas não o localizei. Ainda saí perguntando se alguém o tinha visto, mas só ouvi respostas negativas. Parecia que havia se tornado invisível.
No ano seguinte, voltei a ver seu Vicente. Ele estava no mesmo lugar e puxando a mesma carroça de lenha. Tão logo o pau-de-arara parou, corri para falar com ele, porém outra vez sumiu. De novo, saí perguntando, mas ninguém o via. Cheguei até a pensar que essa vida de passageiro-repórter estava me fazendo ver coisas.
Disposto a provar minha sanidade mental para mim mesmo, montei uma espera para o Homem Cavalo. Passei dois dias, manhã e tarde, e, finalmente, o encontrei. Ele surgiu na hora em que o Sol começava a mergulhar nas águas do rio Amazonas.
Achava que encontraria um homem brutalizado, mas a primeira coisa que seu Vicente me falou foi da poesia que compôs. Fez música! Até disputou festival da canção. Cantou uma delas para mim. E mostrou-me os últimos poemas que escrevera. Palavras, amigos do busão, que sangram a alma para falar de saudades. Seu Vicente espremeu gotas de meus olhos, que embaçaram com a pureza de suas rimas angustiadas.
Tentei por várias vezes fazê-lo falar da carroça, mas aquele não era o maior peso que carregava. Percebi isso quando o indaguei sobre seus filhos: “Tenho cinco filhos”, respondeu ele, contando nos dedos. Citou a mais nova, com três semanas de vida, e incluiu o mais velho, um adolescente de 15 anos de idade: “A gente está esperando ele. Ele vai chegar! Tenho certeza que ele vai chegar!”
Pedi que explicasse a razão de tanta expectativa e foi aí que descobri o sentido da poesia saudosa do Homem Cavalo. Seu Vicente perdeu o filho em uma manhã de domingo. O menino estava com cinco anos de idade. Era seu companheiro de trabalho e de viagem. Naquele dia, à beira do rio, ele combinou com a criança: “Fica aqui, que eu vou vender esse carvão e volto já”.
Ao retornar para a canoa, porém, seu Vicente não encontrou mais o filho. Passou dois anos, dia e noite, retornando ao mesmo local à espera da criança que virou poesia.
Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Ilustração: MyrriaMarcadores: Crônicas
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Cúpula incandescente
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Cúpula do Teatro Amazonas, em Manaus, na noite do dia 6 de dezembro, na festa de abertura do Natal de 2009. (Foto: Wilson Nogueira) Marcadores: TEXTO DA LUZ
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Teto de Tocantins
Foto (Wilson Nogueira) capturada de aeronave a 18 mil pés de altitude, no teto do Estado de Tocantins, na boca da noite do dia 1º. de dezembro.Marcadores: TEXTO DA LUZ
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Aprender para resistir
"Corrupção faz mal porque apodrece a pessoa ao retirar dela a dignidade e o direito à voz."
Ivânia Vieira*
Levar o debate sobre corrupção para o meio popular é uma exigência da humanidade. Há uma aliança, construída pela ignorância, cumplicidade, afinidade e habitus, entre a cultura da corrupção, corruptores e corrompidos. A escola ensinou ser natural o exercício dessa prática. O suborno prevalece como princípio de vida e é apresentado às crianças desde muito cedo como regra de convivência na sociedade.
Quem suborna melhor ganha prêmios, costuma se tornar referência - uma espécie de consultor sobre como se dar bem na vida - e pode até ganhar mandatos, legitimados pelo voto popular. O desafio é levar adiante ações capazes de desconstruir essa concepção. Não é uma tarefa fácil e de curta duração. Ao contrário, exige investimentos permanentes, visibilidade e apropriação do assunto como objeto de discussão o mais amplamente possível.
Hoje é um dia de mobilização internacional contra a corrupção. Uma experiência recente que tem no Brasil participação ativa para a definição dessa data. Eis aí um dado interessante, pois parcela expressiva de brasileiros costuma citar o País como o lugar da corrupção, mas dificilmente se pergunta o que faz sobre essa situação. Prefere a pseudo-indignação do tipo “não tem jeito de mudar”. Eis uma cumplicidade eficiente para impedir mudanças.
A Organização das Nações Unidas estima em 110 o número de países que assinaram a Convenção contra a Corrupção, no ano de 2003, na cidade de Mérida, México. No Brasil, desde 2005, o texto tem força de lei. Falta ganhar as ruas, as escolas, as igrejas, os bares, as praças virar a outra marca que alguns querem impedir de o País ostentar. Corrupção faz mal porque rouba o dinheiro público (e é preciso aprender sobre os efeitos desse roubo). Corrupção faz mal porque apodrece a pessoa ao retirar dela a dignidade e o direito à voz. Será apenas uma coisa, marcada por um preço. *Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam. Marcadores: Artigo
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A cueca e o dinheiro
Massilon de Medeiros Cursino*
O uso da cueca é um hábito antigo, provavelmente iniciado pelos Celtas no século VI da era Cristã. Já o dinheiro é mais antigo. Suprimiu o escambo, séculos antes de Cristo.
Apesar da distância temporal quanto ao surgimento, ambos têm uma relação muito próxima; basta lembrar que quando o dinheiro está no bolso masculino ele está separado da cueca apenas por um fino pano.
A política tem estreitado sobremaneira esta relação. Na década de 40, o deputado carioca Edmundo Barreto Pinto tornou-se pioneiro da cassação por quebra de decoro parlamentar, ao posar só de cueca para o famoso fotógrafo Jean Manzon da Revista “O Cruzeiro”.
Nessa relação surgiu um elemento a mais, o dinheiro. A cueca passou a ampliar seu leque de utilidade, servindo também de transporte de valores, com risco mínimo de perda. No máximo uma patologia de pele, enquanto torce-se para que não haja por perto um detector de alta tecnologia ou uma câmera de filmadora.
PT e DEM, divergente nos ideais políticos, demonstraram que em seus quadros existem pessoas que compartilham da idéia de ampliar a utilidade da cueca, que vai muito além de moldar e acomodar as genitálias.
José Adalberto Vieira da Silva, assessor do deputado cearense José Nobre Guimarães, petista dos mais genuínos, foi flagrado, em 2005, transportando 100 mil dólares, dinheiro este que, segundo conclusão do Ministério Público Federal do Ceará, era propina proveniente de um contrato de financiamento em investigação, de R$ 300 milhões, fechado entre o BNB (Banco do Nordeste) e o consórcio Alusa/STN (Sistema de Transmissão do Nordeste).
O escândalo envolvendo o Governador do Distrito Federal, seus assessores e empresários produziram imagens vergonhosas envolvendo pessoas, dinheiros e cuecas. O empresário Alcyr Collaço aparece colocando maços de dinheiro na cueca.
Vêm à tona escândalos e lá está a cueca para ser citada e acusada de guardar dinheiro ilícito. Enquanto isso o bolso não contem seu desconforto em saber que está perdendo espaço e atribuição. Os estilistas de vanguarda já pensam até em produzir cuecas com bolsos para evitar o contato do dinheiro sujo com o pinto!
*Economista, Bacharel em Direito e membro da Academia Parintinense de Letras- APL.Marcadores: Artigo
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A profecia de Severo
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Neuton Corrêa*
Gerson Severo já havia profetizado há um ano: “Passageiro-repórter, tu estais condenado a andar de ônibus para o resto de tua vida”. Lembro-me disso toda vez que retorno para casa, quando, pendurado no 439, no 351, 423, 329, 442, 446, 304 ou até mesmo no 014, o corpo reclama da jornada.
O que não esperava é que as palavras do Gersinho (antes era Gersão) voltassem a ser pronunciadas como um apelo. Parece coisa feita, como diria dona Varlinda, ou uma tragédia, como diziam os filósofos gregos, para se referir àquilo de que a gente não consegue fugir. A voz veio da última pessoa a deixar o Parintins Convention Center, onde lancei, no sábado passado, meu livro “Entre Linhas”, no qual reúno nossas conversas de todos os sábados.
Foi uma festa linda! Uma boniteza de festa, para usar as palavras da amiga Ivânia Vieira. Na verdade, não era uma festa, era um festival: o Festival Literário Internacional da Floresta de Parintins (o Flifloresta-Parintins), com direito a tudo. Até os personagens de nossas crônicas apareceram por lá.
Papai e mamãe quase me matam do coração. Deixaram o Miriti, mas só depois de dez avisos no Mensageiro da Amazônia da rádio Alvorada. Ficaram na penúltima fila das 600 cadeiras. Kafran, velho amigo da Catedral, chegou puxando a perna e perguntando por seu livro. Deilson Trindade, aquele que morreu e ressuscitou em uma de nossas histórias, também apareceu por lá.
O Bequinho (Roberto Paiva), de quem este ano o diabetes tirou a perna direita, não foi, mas fui atrás do amigo. Não fiquei muito tempo com ele. Também não agüentaria mais do que dois minutos nesse reencontro. Afinal, lembraria do futebol e do drama que passou em casa recuperando-se da enfermidade.
Massilon, Tony e Inaldo Medeiros e Messias Cursino, meus vizinhos, estavam orgulhosos. O Baga (o nome dele é Paulo César), nem se fala. Gritou quando me viu: “A 31 de Março (rua onde nasci e me criei) tem mais um artista”. Mário Cid não pôde ir, mas dona Dagilza o representou muito bem. Foi uma solenidade e tanto. Uma pavulagem só.
O evento foi tão importante para a cidade que o prefeito Bi Garcia e primeira-dama, Michele Valadares, cancelaram viagem à Festa do Guaraná de Maués, eles e o vereador e amigo Petro Velho, se sentaram na primeira fila do Flifloresta.
Ah, de novo, ia esquecendo: a Darci, minha esposa, e o Segundinho, meu filho, não perderam o acontecimento. A Darci até pediu férias, e o Segundo, seguiu rio abaixo.
Horas antes do acontecimento, eu e o Wilson Nogueira fomos ao bairro Itaúna distribuir livros. A distribuição cultural foi parar na beirada, em barcos que levarão nossas palavras escritas sabe se lá para onde.
Pensam que a pavulagem acabou? Não! Os famosos escritores Thiago de Melo, Márcio Souza, Guilherme Fiúza, Zemaria Pinto, Dori Carvalho, Mazé Mourão (que até pastorinha dançou) compareceram à festa, orquestrados pelo maestro Tenório Telles, a quem as Crônicas do Busão rendem homenagens e gratidão.
E foi assim, caros leitores, a festa do lançamento de nosso primeiro filho, na terra onde nasci. Sim! Claro, houve, sim, sessão de autógrafos. Eu ao lado de Thiago, Márcio, Fiúza e Wilson e uma longa fila de amigos querendo conhecer um pouco dos nossos encontros semanais.
Quando tudo já estava encerrado, que me preparo para pegar o tricliclo para voltar para casa, ouço o grito do último cidadão a deixar o Flifloresta. Parecia alguém acordando outro: “Passageiro-repórter! Passageiro-repórter! Não para de andar de ônibus!”. Assim, lembrei o presságio do colega de trabalho Gerson Severo.
Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Marcadores: Crônicas
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