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A morte de Paulão
sábado, 26 de dezembro de 2009

Neuton Corrêa*
Cegueré foi o encarregado da notícia: Paulão estava morto! Não fez alarde. Percorreu a vizinhança tímida e lentamente. Saiu casa a casa anunciando a morte do irmão. Em poucos minutos, a sala-quarto onde estava ficou cercada. Cabeças e mais cabeças se amontoavam pela janela para olhar o corpo.
As vizinhas mais velhas foram as primeiras a chegar para ver o féretro. Dona Maura Garapeira chegou com duas estearinas e mandou comprar mais uma vela “Sete dias e sete noites”. Dona Preta, assim que foi avisada pelo Cegueré, meteu a mão num galho de papoula com flores vermelhas, juntou o feixe a cinco talos de espada de São Jorge, e fez o primeiro arranjo para colocar sobre o falecido.
Os mais jovens chegaram depois. Marquinho foi o primeiro. Ele morava na frente da casa do Paulão. Chegou assustado! Afinal, era parceiro do extinto. Saía com ele não somente pela companhia, mas, principalmente, porque se divertia com as surpreendentes ideias que o Paulo tirava de vez em quando. Aliás, naquele ano, Paulão tinha tido várias ideias que ele próprio duvidava.
Pois bem, a notícia se espalhou rapidamente. Correu como folha na correnteza, talvez não pela morte, mas pela tragédia que se abatia sobre sua família. Pudera, em junho fora o pai que morrera de um fulminante ataque cardíaco. Em julho, deprimido com a perda, foi próprio Paulo que tentou se matar com uma corda no pescoço. Depois, dizia: “Não, eu só queria saber como é que o cara fica quando está na forca.”
Foi justamente esse episódio que provocou sua morte naquele dia. Depois da tentativa de suicídio, Paulão passou a ser chamado de Tiradentes. Passou a ser chamado assim por causa da marca da corda que passou muito tempo para sumir de seu pescoço. Pois não é que ele gostou do apelido. Tanto o é que fazia questão ser chamado como tal.
Ele não ficou satisfeito apenas em ser chamado pelo nome do herói nacional. Queria ser o próprio. Deixou crescer o cabelo, a barba e o bigode e uma corda pendurada ao seu pescoço passou a ser seu cordão. A barba não ficou como ele queria, porque apenas uns fiapos cresceram em seu queixo e o bigode não passou de uns taloszinhos.
Mesmo assim não desistiu. Queria ter a popularidade de Tiradentes. Mas, como saber? Foi aí que chamou dois irmãos para falar sobre sua morte. Bené, o mais velho, não topou. Cegueré (Antonio é o nome dele) concordou com Paulão. Antonio não tinha nenhum problema na vista. Pelo contrário, enxergava. E muito bem. Cegueré foi o apelido que trouxe da infância por conta de um terçol que o acompanhava sempre.
Foi ele, Antonio, quem organizou o velório. Colocou o corpo numa mesa; colocou as mãos do irmão sobre o peito, entrelaçou os dedos na posição de defunto; colocou algodão nos orifícios do nariz e dos ouvidos de Paulo; cobriu o corpo com um lençol branco; cercou o corpo de velas. Mas impôs uma condição: ninguém podia entrar no quarto. Ninguém! Era o único dentro do quarto e apenas levantava e baixava rapidamente o lençol.
No início da noite, quando a casa dele já estava tomada de curiosos, Bené, o irmão mais velho que trabalhava no IML, chegou e quis saber. Informado, replicou. “Esse, mesmo, não está morto. Se tivesse morrido, teria passado por mim”. Ele, então, entrou no quarto, suspendeu a cobertura e sentou a mão no peito do irmão, que se levantou gritando: “Porra, Bené, eu só queria ver se as pessoas gostavam de mim!”
- Tu precisava ver, macho, a correria das velhinhas, quando o Paulão se levantou, contou esta semana meu amigo Romário, durante uma viagem no 350.
*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Marcadores: Crônicas
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A surra no povo
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Ivânia Vieira*
A Assembleia Legislativa e a Câmara Municipal de Manaus acabam de repetir um exercício antigo e, não raro, com efeito indigesto de longa duração para a sociedade. Demonstram um alto grau de dependência ao Executivo e pouca importância aos eleitores e à sociedade.
Ontem, as duas Casas deram uma surra no povo. Ao concordarem em votar apressadamente matérias de relevância às vésperas de um recesso, expõem a estreita democracia cultuada pelo Executivo e o Legislativo do Amazonas. A agilidade na análise dessas matérias não corresponde à desenvoltura, é ressignificada como postura servil de um poder, de alinhamento absoluto, pois a oposição - uma exigência do jogo democrático - não oferece riscos, não ameaça o já estabelecido e tem minguado.
Na pauta da Assembleia Legislativa, estavam a autorização para o Governo do Estado emprestar mais R$ 200 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o pacote de obras da Ponte sobre o rio Negro, e R$ 142 milhões da Caixa Econômica destinados a obras da versão estadual do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Na da Câmara Municipal, propostas de alteração na cobrança do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e do Sistema de Limpeza Urbana, nome dado pela prefeitura para o já batizado projeto da taxa de lixo. Todas as matérias foram aprovadas, com larga vantagem e muita opacidade. Prevaleceram os interesses dos governos estadual e municipal. Foi negado à população o direito de conhecer as propostas e discuti-las. Afinal, é na vida dela que se dará o efeito das decisões tomadas por deputados e vereadores.
A tática de aguardar o apagar das luzes para aprovar propostas polêmicas nas quais repousam muitos pontos obscuros está entronizada. Se para alguns eleitores a chicotada dói, é momento, de novo, de eliminar os analgésicos, anotar nomes e condutas e preparar-se mais para as eleições de 2010. Se a indignação é do tipo resignada, então eles estão certos.
*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas.Marcadores: Artigo
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