O lugar de pessoas

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ivânia Vieira*

Cenas instigantes se desenrolam dentro e no entorno do complexo viário Gilberto Mestrinho, na Zona Leste. Inaugurada no sábado (30), a obra é objeto da curiosidade popular - uma espécie de ponto turístico. Nesse caso, de um turismo antagônico, pois nega o prazer inerente a essa atividade. O complexo nasceu para escoar carros, numa cidade em asfixia. No sentido avenida André Araújo bairros uma placa informa a velocidade máxima permitida, 40 Km/h, arrastando motoristas impacientes que apostavam em mais espaço para correr quando a obra estivesse concluída.

O show de buzinas e do alarme das ambulâncias tentando abrir espaço onde não tem mais espaço é parte desse cenário pós-moderno. Pedestres, ignorados pela arquitetura do complexo, passam fugazmente entre a contemplação diante do novo e do medo de serem literalmente atropelados.

Alguns metros, na avenida General Rodrigo Otávio, usuários de ônibus estão entregues à própria sorte. Como nos velhos tempos, o ponto de ônibus não oferece nenhuma estrutura de proteção. Se faz sol, defendem-se colocando no alto da cabeça alguns pertences; se chove, a coisa piora, porque correr para as casas mais próximas pode significar perder o ônibus e aumentar a hora de espera.

É possível ver populares fotografando o amontoado de concreto. Um senhor, um desses fotógrafos, disse-me, com uma ponta de orgulho, que queria mostrar aos parentes dele “como a cidade cresceu”. Incluiu o complexo no roteiro de visitas para apresentar a eles quando vierem do interior.

Não há sinônimo entre o crescimento que pressionou gestores públicos a construírem passagens de nível, viadutos, passarelas... e o desenvolvimento. Obras, como o complexo viário, são a receita para resolver temporariamente um problema. O pior é a não inclusão dos pedestres. Se no passado isso era conduta normal, hoje as novas cidades são aquelas que incluem não apenas carros e construções e sim o lugar de pessoas.

*Jornalista e professora da Ufam.

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