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Cuidar da Terra

Ivânia Vieira*

Vale a pena ter um jardim? Perguntava-nos José Lutzenberger na segunda metade do século XX, ao apontar a nossa falta de mentalidade para ver a beleza do mundo e nossa cegueira diante da Natureza. Lutzenberger vê o jardim como uma das compensações frente a corrida grotesca que nos torna a cada dia mais neuróticos e desequilibrados.

O jardim de Lutzenberger contribui substancialmente para a saúde do corpo e da alma e pode ser entregue a terceiros pois “só saberá fazer um jardim que lhe proporcione  realmente satisfação e serenidade aquele que aprende a amar de fato a Natureza porque este se dedica pessoalmente às suas plantas”.

Faltam jardins no mundo e para o mundo. A corrida está mais neurótica neste século XXI.  Reflexões produzidas por 1.350 cientistas para compor o documento Avaliação Ecossistêmica do Milênio, no período 2001-2005 apontam para o agravamento dos problemas humanos na relação com o Planeta Terra. Eis alguns indicadores:

1) A população do planeta é totalmente dependente dos seus ecossistemas e dos serviços que estes oferecem, incluindo alimentos, água, gestão de doenças, regulação climática, satisfação espiritual e apreciação estética. Nos últimos 50 anos, o homem modificou esses ecossistemas mais rápida e extensivamente que em qualquer intervalo de tempo equivalente na história da humanidade, para suprir a demanda crescente por alimentos, água pura, madeira, fibras e combustível. Essa transformação do planeta contribuiu com ganhos finais substanciais para o bem-estar humano e o desenvolvimento econômico;

2) Três grandes problemas associados a nossa gestão dos ecossistemas terrestres vêm causando danos significativos a algumas populações, especialmente as mais pobres, e a menos que sejam tratados, reduzirão substancialmente os benefícios a longo prazo que obtemos dos ecossistemas. São eles: cerca de 60% (15 entre 24) dos serviços dos ecossistemas examinados durante a Avaliação Ecossistêmica do Milênio têm sido degradados ou utilizados de forma não sustentável, incluindo água pura, pesca de captura, purificação do ar e da água, regulação climática local e regional, ameaças naturais e epidemias.

3) Há evidência definida, porém incompleta, de que as mudanças em curso nos  ecossistemas têm feito crescer a probabilidade de mudanças não lineares nos ecossistemas (incluindo mudanças aceleradas, abruptas, e potencialmente  irreversíveis) que acarretam importantes consequências para o bem-estar humano.

4) A partir de 1945, mais terras foram convertidas em lavouras do que nos séculos XVIII  e XIX juntos. Os sistemas cultivados (áreas onde pelo menos 30% da paisagem  consiste de lavouras, cultivo alternado, criação de gado confinado ou aquicultura de  água doce) cobrem um quarto da superfície terrestre do planeta;  Aproximadamente 20% dos recifes de corais do mundo foram perdidos e outros 20%  foram degradados nas últimas décadas do século XX; aproximadamente 35% das 12 áreas de manguezais foram perdidas nesse período (nos países onde se têm dados suficientes, que englobam cerca de metade das áreas de manguezais); o volume de água confinada em diques quadruplicou desde 1960, e o volume de água retida em reservatórios é de três a seis vezes maior que em rios naturais; a extração de água dos rios e lagos duplicou desde 1960; boa parte da água utilizada (70% do uso mundial) vai para a agricultura.

Cuidar da Terra, nossa Casa comum, pede ação já. O teólogo Leonardo Boff propõe uma conversão ecológica global capaz de traduzir o cuidado da Terra como o cuidar da beleza que a terra nos proporciona, das suas paisagens, da diversidade que abriga, dos sonhos que a Terra nos proporciona, do sagrado que a Terra contém.

* Jornalista e professora da Ufam

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Equilibrista

Rio Madeirinha, Amazonas, Brasil

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Águas líquidas e sólidas

Na vida amazônica, o barco geleiro é estratégico para o trabalho dos pescadores.

Porto do Careiro da Várzea, Amazonas, Brasil

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Uma vida mais que um prefixo

Ivânia Vieira

Tarcila Prado de Negreiros Mendes, falecida há uma semana, é uma dessas mulheres geradoras de curiosidades. A história dela faz parte de tantos livros de mulheres à espera da escrita em versão ampliada. Nessa existência de 74 anos, a ex-primeira dama do Amazonas encarnou capítulos singulares da própria história política amazonense e  amazônida.

Dos políticos mais velhos ouvi repetidas vezes, em meio a realização das tarefas jornalísticas, muitos relatos a respeito da “mulher do governador Amazonino Mendes“. Todas eles tinham em comum um dado: a garota nascida no Município de Maués que muito jovem estava à frente das lutas estudantis como presidente da União dos Estudantes Secundaristas do Amazonas (Uesa). O tempo da juventude dela era o da longa ditadura imposta no Brasil e de uma luta silenciada das mulheres. Dizem esses políticos mais velhos que coube a Tarcila envolver Amazonino Mendes, um ano mais velho que ela, nas atividades político-cultural.

Desses relatos, entrecortados por manifestações diversas, fica a indicação de uma garota-líder reconhecida pela combatividade e dedicação no fazer política que, enamorada, decidiu gradativamente atuar  em outro plano. Tornou-se companheira por quatro décadas de um dos homens que viria a se constituir em referência de poder regional. Amazonino Mendes, três vezes governador do Estado, três vezes prefeito de Manaus e senador. Mãe de três filhos, duas mulheres e um homem, avó e espectadora privilegiada  por longa duração da arte de fazer política no Amazonas.

A morte de Tarcila Mendes, no dia 9 de setembro, em São Paulo, foi anunciada seguindo a tradição jornalística no País e no mundo: “morre a ex-primeira dama do Amazonas” ou “morre mulher do ex-governador Amazonino Mendes” e outros tantos arranjos de uma escrita dominadora por onde escoa a invisibilidade da outra pessoa. Tarcila, nesses construídos, virou notícia por esses “atributos”.

Uma pergunta permanece: quem foi essa mulher amazonense chamada Tarcila Prado de Negreiros Mendes? Fazedora de política quer nas inflamadas e históricas reuniões da Uesa, quer nos bastidores da resistência, nas articulações onde paixão duplicada se imbricava, no olhar atento às reuniões dos homens da política que decidiam os destinos do Amazonas, sobre a morte ou a vida de partidos políticos, no lidar por vezes solitário e violento com as tramas do poder, na tentativa elástica de preservar os filhos, a família. Quais foram os sonhos sonhados de Dona Tarcila? Quais foram as lições aprendidas, as tristezas e alegrias guardadas?

A mulher Tarcila não é um apêndice. Uma nota de rodapé. Ambos recursos são importantes. Podem, para o olhar mais atento, reunir dados às descobertas singulares. No caso da história das mulheres têm sido um jeito de secundarizar as existências e as lutas por elas travadas. A escrita pelo viés masculinizado é farta nessas negações, o que é um exercício cruel, violento e lamentável das inteligências porque ao se expressar nessa limitação prevalente deixa de contar histórias incríveis de mulheres (e de homens). Como essas histórias não são “coisas a parte” e “relatos insignificantes”, cada vez que o ato se repete também são deixadas encobertas ou nas sombras outras faces das famílias, dos municípios, dos Estados, do País, do mundo. Tarcila carrega perguntas para além do prefixo ex.

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Alice no cordel da resistência

Alice no cordel da resistência

“A falsa tartaruga soluçava

Mas foi parando de chorar

E falou da quadrilha da lagosta,

O que Alice iria admirar,

Uma dança bem divertida

Que acontecia no fundo do mar”

(Alice Cordel, Jorge Bandeira, 2015)

Ivânia Vieira

Era o último dia de julho. Parecia ser aqueles dias das festas juninas quando o céu combina com as Estrelas e a Lua para encantar a Terra. Em troca, a gente da Terra dança tantas danças no Nordeste e no Norte, faz oferendas de iguarias e mergulha em rios de simpatias. Mas era julho reservando o seu 31 para brincar de alegria. Ah, não só brincar. Aprender brincando, cantarolando o riso, abraçando a curiosidade como se dela não quisesse mais largar.

Na Escola Estadual Ruy Araújo, no bairro Cachoeirinha, Zona Centro-Sul, um clima de kizomba com lascas de dabacuri tomava conta de uma turma de professores e de estudantes. Noite de festa. Jorge Bandeira, um dos professores de História, carregava “Alice Cordel” para lançar. Com 76 páginas, no formato bolso, a publicação é uma teimosia espetacular de Bandeira. Teimar é realizar sonhos.

A edição junta-se a tantas outras iniciativas pelo mundo na comemoração dos 150 anos (1865-2015) da publicação de “Alice no país das maravilhas“, de Lewis Carroll. Nessa empreitada de danação, Jorge Bandeira recebeu o sim solidário do escritor, poeta, professor e realizador de sonhos Tenório Telles (responsável pela preparação e montagem da edição), do colega de escola, Jorge Alencar (ilustrações, aliás muito bacanas), e do colega de outras fases de escola, o professor da Ufam, Sérgio Freire (apresentação). O “fim” da escrita de Bandeira termina com a indicação de um endereço e uma data: “Manaus, casa do cachorro, 1º de maio de 2015″. É um gatinho o carregador da dedicatória dessa obra à filha de Bandeira, Carolina.

Reproduzo trechos da apresentação – conversa gostosa – feita por Sérgio Freire sobre a adaptação produzida por Jorge Bandeira: “(…) O livro de Carroll celebra a rebelião e a desobediência. Figuras despóticas são ridicularizadas em sua ineficácia e incompetência. Metaforizar os sentidos convoca a resgates (…) Obras fundadoras circulam. Não só circulam. Circulam de várias formas, nas mais diversas linguagens. Essa é a sua vocação”. O livro recém-lançado por Jorge Bandeira é “fruto da inesgotável gravidez de Alice”.

Diz Sérgio Freire,”desta vez, a menina cai no buraco do coelho e tem a sua história contada por meio do cordel. Antropofagicamente, a história é engolida por um gênero de  tradição oral que, herdado da tradição portuguesa do século XVI, ganhou identidade na terra brasilis, mais especificamente no Nordeste. Sua textualização, nas mãos hábeis de Jorge Bandeira, dá sabor local à narrativa de Carroll (…). É como se no jogo da rima batêssemos o remo da canoa de forma ritmada e singrássemos o rio de uma identidade toda própria, idiossincrática, indo ao encontro do imponderável sentido das coisas do mundo. Do nosso mundo”.

Bandeira nos carrega nessa leitura atualizando a Alice em diálogo aberto e promissor com o teatro. Nos dias de festa da cultura, muitos jovens trouxeram Alice para o palco.

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Segurança Pública

Ivânia Vieira

Sérgio Fontes, o delegado da Polícia Federal escolhido pelo Governo José Melo para comandar a Secretaria de Segurança Pública no Amazonas, enfrenta nessa condição o desafio de acertar. Um acertar em várias direções. Literalmente os tiroteios e massacres estão acontecendo para além das balas e dos corpos apresentados na mídia na versão número. São condutas articuladas e determinadas a desestruturar ainda mais uma estrutura que já é falha, viciada e com braços abraçados àquilo que deveria ser combatido.

Zeloso e determinado na condução da sua formação profissional, o jovem secretário de Segurança reúne os indicadores de competência que o credenciam para o posto. E, ao aceitar assumi-lo, carregou a esperança de milhares de famílias quanto ao bom enfrentamento ao sistema de violência do qual o Amazonas e Manaus, na expressão mais visível, foram feitos reféns.

A série de assassinatos – o primeiro grande confronto dessa gestão – expôs muitas questões até agora a maioria delas sem respostas. Uma ficou evidente no périplo na mídia: a solidão solitária do secretário de Segurança Pública. Um sinal ruim. Os discursos feitos à época das posses dos que assumiram a tarefa de tornar o setor de segurança no âmbito público eficiente, eficaz e justo tiveram como palavras-chave “todos pela vida”, “redução da violência na Estado”, “qualificação dos recursos humanos”, “diálogo” e “ação”. Sete meses depois esses marcadores parecem ter evaporado diante do tamanho dos conflitos internos para demarcar poder no aparato oficial e das conexões fortemente construídas com outros setores. Era um secretário sozinho quem falava e teve a coragem de assumir, publicamente, que houve falhas. E, por vezes, um comandante da Polícia Militar tentando explicar o que, por esse viés, não era e não é explicável. O Governo Estadual, na sua expressão mais ampla e coletiva, demorou muito a tomar posição diante de uma sociedade em estado de pavor.

Pelas redes sociais, o esquema do terror e da promoção do medo já estava espalhado obrigando escolas a reduzirem horários de aula, professores a buscar alternativas entre eles para tentar manter as aulas e orientar sem rumo estudantes e familiares desesperados. Massacrados pela onda virtual do terror, jovens, adolescentes e as famílias tateavam no escuro, forjavam outros caminhos, outras estratégias que pudessem livrá-los da próxima bala, da próxima facada, da próxima ocupação dos espaços onde essas pessoas moram, transitam, vivem. Um posicionamento firme e claro do governo (e dos outros Poderes interdependentes) não veio. Os aflitos continuaram e continuam em aflição temendo ser as próximas vítimas enquanto os promotores desse sentimento avançavam, avançam?.

Quanto tempo Sérgio Fontes irá resistir? Não no enfrentamento do que vem de fora e sim nos poderes obscuros do que está dentro do sistema dessa segurança pública. Nessa resistência teria que contar com a disposição e a determinação política do Governo Estadual de fazer valer as palavras-chave dos discursos de posse, de se colocar e de insistir em gestos concretos na decisão anunciada lá atrás de que segurança pública tem que ser compreendida e realizada na feição mais coletiva e sinérgica das várias instâncias governamentais, do Legislativo e do Judiciário. Que Sérgio Fontes vença a solidão e consiga estabelecer trilhas seguras e solidárias para levar adiante o plano de segurança pública estadual/regional.
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Negros do Amazonas reivindicam espaço de Poder

Ivânia Vieira *

A tecnologia e a inovação devem ser braços reais no desenvolvimento das políticas públicas na Amazônia e no Brasil de forma mais geral. Somente assim será possível avançar e superar obstáculos tanto no contingente de pessoas a serem alcançadas quanto na efetividade dessas políticas em tempo menor, afirma a pesquisadora e professora Heloísa Helena Corrêa da Silva, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Uma das cinco expositoras no 4º Encontro de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas, realizado no sábado (25), de 9h às 18h, no Centro Universitário Nilton Lins, Zona Norte, Parque das Laranjeiras, Zona Norte, a pós-doutoranda Heloísa Helena abordou o tema Mulheres da Pan-Amazônica: avanços e desafios apresentando alguns dados da pesquisa que ora realiza. O tema do encontro deste ano foi Mulheres Negras nos Espaços de Poder.

Heloísa Helena questiona a ausência da tecnologia e da ciência na implementação das políticas públicas e considera que esse distanciamento se reflete diretamente na manutenção das desigualdades e da falta de qualificação regionais. “Temos que desenvolver tecnologias que nos possibilitem inovar e alterar o atual quadro amazônico e pan-amazônico”, defende. “Se queremos lutar por desenvolvimento nessa região, precisamos buscar qualificação nos recursos naturais. Precisamos saber sobre como daremos conta de políticas públicas que contemplem os insumos regionais”. O protagonismo das mulheres pan-amazônicas na manutenção de valores e de vigor de uma economia informal é um dado que sobressai de acordo com a pesquisadora. “A figura da mulher é majoritária. No Brasil, é olhar com atenção os registros oficiais do Programa do Governo Federal Bolsa Família”.

ÍNDIAS E NEGRAS

Para a professora Otacila Barreto, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, pela Ufam, a resistência indígena se realiza cotidianamente em várias frentes. “Falo para vocês que estamos resistindo fisicamente, enquanto expressão da cultura e como uma proposta de sustentabilidade”. Para a educadora indígena, da etnia tucano, a luta dos indígenas tem caráter permanente e, hoje, “está diante de várias ameaças”, em função dos projetos propostos e em andamento que asfixiam as terras indígenas e impactam duramente o modo de vida dos povos tradicionais.  Otacila fez a saudação dela na língua tucano e perguntou quem poderia traduzir o que ela disse. Ali, fora a mãe dela, presente na plateia, ninguém sabia.

Amazonas, o mais racista dos Estados

Estudiosa da história da escravidão africana na Amazônia, a pós-doutora Patrícia de Melo Sampaio, da Ufam, classifica o Amazonas como um dos Estados mais racistas do Brasil porque “nega e silencia sobre a presença negra nessa região”. Na exposição onde trata do “ser escravo em Manaus no século 19″, Patrícia mostra que ao contrário do que ocorreu em Belém e no Maranhão, onde a maioria dos escravizados eram homens, em Manaus as mulheres compunham o maior número.

De acordo com a pesquisadora, para 353 escravizados, mais de 500 negros viveram em Manaus e nunca foram escravos. Para a ela, o silenciamento sobre os pretos do Amazonas mostra uma posição que está vinculada à escravidão como uma marca de pensar o Brasil. Pensamento que ainda é forte e determina um imaginário para reforçar a negação dos negros no Estado e uma política de branqueamento.

“Queremos ação para além do papel”

“Queremos saber o que existe hoje, realmente, de política afirmativa no Estado do Amazonas. No papel tem muita coisa, e sem ser no papel, como ação efetiva, o que tem?”, questiona a ativista ex-metalúrgica Luzarina Varela. Uma das referências da luta pelos direitos da mulher no Estado, Luzarina se diz cansada e impaciente com as “políticas de papel”, onde tudo é certinho, até bonito enquanto a realidade revela um outro cenário perverso.

A presidente da Comissão da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Amazonas (OAB-AM), Maria Gláucia Barbosa Soares, afirma que o Estado do Amazonas, na esfera do Poder, está longe de uma política afirmativa real. “Precisamos avançar muito e  sensibilizar os que estão no Poder, sejam homens sejam mulheres, e o Poder Público deve fazer a sua parte”.

“Não temos uma política específica para mulheres negras”

A secretária de Estado, Justiça e Cidadania do Amazonas (Sejusc), Graça Prola, mediadora de uma das duas mesas no 4º Encontro de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas, disse que o Estado não tem política específica para as mulheres negras. O que está sendo construído é um plano de ação para as mulheres. Citou algumas atividades que estão sendo elaboradas em conjunto com representações dos movimentos sociais, tais como a criação do Conselho Estadual de Igualdade Racial (em fase de aprovação); o estatuto de igualdade racial: agendamento de uma série de reuniões com outras secretarias governamentais, como a de Educação, para tratar da aplicação da Lei nº 10.639/2003 (torna obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira), e com líderes religiosos, enfocando a intolerância religiosa; e a campanha “Juventude Viva”. A secretaria lembrou que o Amazonas aparece em 8º lugar entre os Estados brasileiros onde mais se mata jovens.

SAIBA MAIS

O 4º Encontro de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas contou com a participação de 149 pessoas (que assinaram a ficha de frequência). É uma realização do Fórum de Mulheres Afro-Amerindias e Caribenhas, criado em 2012, numa parceria dos movimentos feministas do Amazonas, da Secretaria de Mulheres do Partido dos Trabalhadores (PT-AM), da Ufam, de organizações do movimento negro com o Consulado da Venezuela.

DESTAQUE

A ativista e educadora Surbis Surami Landinez, do Movimento Cumbe da Venezuela (que corresponde ao quilombo no Brasil), foi uma das participantes do 4º encontro. Ela falou sobre a importância da educação na perspectiva crítica para as mulheres. Renata Pequeno, da Fundação Palmares, de Brasília, apresentou a agenda de atuação da fundação que quer regionalizar a sua pauta.      “Saio daqui com um enorme aprendizado e muitas tarefas a fazer para ampliar nossa presença além de São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Bahia”, disse.

* a autora é jornalista profissional e membro do Fórum de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas

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O mundo está cheio de Grécia

Ivânia Vieira

A terça-feira grega arrastou o tempo para além do  um segundo a mais desse ano. Em alguma medida, todos nós, conectados, fomos levados  a ser parte desse drama. Isolado, o país de um pouco mais de 11 milhões de habitantes mergulha numa crise econômica cujas repercussões são impossíveis de serem medidas pelos números fartos lançados entre pacotes e negociações fracassadas envolvendo os Governos da Zona do Euro.

O problema grego não diz respeito unicamente aos gregos ou aos países do bloco. É um problema do mundo. Um modelo econômico escancarando as suas marcas e espalhando o fel da receita. A região compreendida como União Europeia concentra 26,5 milhões de desempregados. Estão no topo da lista do desemprego, a Grécia, com uma taxa de 27%; Espanha – 26,8%; e Portugal- 17,8%. Na outra ponta, com as menores taxas de desemprego, a Aústria – 4,9%; Alemanha – 5,4%; e Luxemburgo – 5,6%.

Em artigo no diário digital “Nova Tribuna”, o professor de economia e políticas públicas Vicenç Navarro, afirma que as políticas de austeridade, com cortes da despesa e do emprego público, a desregulamentação do mercado orientada para reduzir os salários, e a ajuda das instituições ao capital financeiro, que quer dizer predominantemente à banca, têm cumprido um papel-chave na redução do nível de vida das classes populares na União Europeia e de forma direta nos países dessa região onde o desemprego explode, como a Grécia. Navarro aponta à aguda limitação da sua capacidade aquisitiva, diminuição da procura, redução da atividade econômica e da produção de emprego, além de aumentar a pobreza e a miséria. O desemprego aumenta e a criação de mais vagas está completamente estagnada.

Quando criado o bloco europeu em 1992, estava embrulhado por uma proposta de promoção da unidade política e econômica da Europa; Melhorar as condições de vida e de trabalho dos cidadãos europeus; e as condições de livre comércio entre os países membros;  Reduzir as desigualdades sociais e econômicas entre as regiões; Fomentar o desenvolvimento econômico dos países em fase de crescimento; Proporcionar um ambiente de paz, harmonia e equilíbrio na Europa. O fator Grécia mostra que há uma distância gigantesca entre o que foi acordado e as práticas dos que detém o poder econômico na feitura da UE ou no recorte menor da Zona do Euro.

“É concebível que o restante da Europa e a Alemanha acordem e se deem conta de que suas exigências à Grécia são absolutamente revoltantes”, reagiu ontem em entrevista à BBC o prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz. “Para mim, é óbvio que a austeridade fracassou. O povo grego foi o primeiro a dizer: ‘Nos negamos a renunciar à nossa democracia e aceitar essa tortura da Alemanha’. Mas, com sorte, outros países como Espanha e Portugal, vão dizer o mesmo”. Quando questionado se o governo grego não é culpado pelo presente caos. Stiglitz observa: “Ainda que a Grécia tenha sua parcela de culpa na situação (que levou aos problemas fiscais descobertos em 2010), a desastrosa situação em que o país se encontra desde então é de responsabilidade da Troika”. (como é conhecido o conjunto formado pelo FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu).

O prêmio Nobel de economia deixa um alerta aos governos e às sociedades: “Espero que essa crise ajude a mudar a maneira pela qual o mundo enfrenta as crises das dívidas soberanas dos países.”. Esse modelo só tem êxito para uns poucos mediante a exclusão e os sofrimentos de milhares de pessoas.

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O primeiro A de nossas vidas

Ivânia Vieira

O que faz um professor em nossas vidas? Se por alguns minutos refletirmos a respeito, um mundo de revelações marcantes será desnudado. Na minha experiência, desde o grupo-escolar Murilo Braga até à Ufam, professor@s me ensinaram a vencer o não e cravar o sim do eu posso fazer, foram e são esteios que me ajudam a tecer caminhos e seguir em frente e, numa opção de cumplicidade, na feição mais solidária, sem ignorar os atropelos desse caminhar.

Me apresentaram, lá trás, o papel almaço – nossos cadernos – livros ou pedaços deles feitos em cópias (foi assim na graduação) para descobrir entre prazer e dor o exercício de vencer cada página e testar a compreensão. Me ensinaram sobre disciplina e respeito e, a cada período vivido como estudante, me apontaram o espaço criativo no qual posso voar para realizar.

Nesse caminhar professor@s estiveram comigo sempre. Juntos por afinidades várias ou por circunstâncias nos descobrimos burilando o A – aquela primeira letrinha desenhada em tantas formas nos esforços iniciais de aprendizagem. A partilha dessa caminhada é feita de tensões (trabalhos entregues em cima da hora, depois do prazo, notas justas, injustas, enfrentamentos no posicionamento político, gestos generosos, celebrações por vitórias mais pessoais, advertências e um posicionamento espetacular – a capacidade de desnudar nossos escritos e neles passear, nos levando junto, em novas construções do conhecimento).

Nessa greve das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) que não é fato novo porque é fruto da desatenção prolongada dos governos com o setor, professor@s têm sido desqualificad@s. Um série de adjetivos é lançada nas diferentes plataformas de comunicação na tentativa de forjar o perfil de quem aderiu ao movimento. Por vezes, com profunda tristeza, constata-se professores desqualificando seus pares e estimulando estudantes a seguirem esse caminho. A história mostra como é fácil erguer abismos e multiplicar as cercas que construir pontes como dado novo.

Não são vagabundos nem arruaceiros os que no sol e na chuva, no calor ou na sala refrigerada estão em luta hoje por garantias nesse trabalho-missão de ser professor; Burilar o A é também compreender o fardo da responsabilidade repassado à categoria para que dê conta dele diante da sistemática precarização; É dizer não ao pacto que  arrasta os problemas transformando-os em questão/sofrimento de cada um o lidar com eles; Burilar aquele A do começo das nossas vidas de estudantes é aprender a reafirmar a esperança em luta para realizar novas conquistas e manter a dignidade.

Arte em TeseAs mostras feitas pelo professor-mestre João Gustavo Kinen, da Universidade Federal do Amazonas são expressão de um roteiro envolvente. Vale conferir. No sábado (27), Gustavo irá à Academia Amazonense de Letras, na rua Ramos Ferreira, 1009, Centro, a convite do projeto Sábado na Academia, série Arte Em Tese para falar, a partir das 10h, das Passagens sonoras amazônicas na obra de Arnaldo Rebelo. Sob essas paisagens, a série encerra a primeira temporada de 2015. Coordenado pelo incansável prof. Zemaria Pinto, o projeto revela fôlego e vem se tornando um dos espaços de circulação do conhecimento produzido pelas instituições de ensino e pesquisa do Amazonas, de confrontação de ideias e de aprendizados.

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A greve é uma chance nova

Ivânia Vieira

Há uma resistência necessária e vital no movimento de paralisação dos técnico-administrativos e dos professores da Universidade Federal do Amazonas. Mais: entre o desânimo, os conchavos, ataques e estado de letargia, a greve iniciada na segunda-feira, para os professores, tem um conteúdo promotor de descobertas de possibilidades de agir e acrescentar experiências na luta pela melhoria dos salários e no enfrentamento ao processo de precarização das atividades acadêmicas.

Faz-se democracia quando as faixas no campus da Ufam dividem posicionamentos – favoráveis e contrários à greve. Estas estão publicamente expostas e resultam da maior participação no modo assembleia da categoria na última década: 567 professores (dados da Associação dos Docentes da Ufam). No dia 9, desse universo, 292 professores votaram pela paralisação; 271 disseram não; e quatro se abstiveram.

Os próximos dias serão testes para o exercício do ser resistência e para vencer o marasmo que toma conta da vida da instituição. Como ocupar os espaços e animar professores para que cada corredor, sala e as áreas cobertas sejam a expressão criativa dessa presença. Nesse ato, os estudantes são a outra parte fundamental. Passa por eles ampliar o som, tornar o ritmo mais frenético e ousar nas práticas que envolvem outros ambientes de aprendizado para além da sala de aula.

A luta em defesa da universidade pública, gratuita e socialmente referenciada (slogan que embala a paralisação) ganhou dimensões mais complexas porque remete à exigência de compreender as opções e os acordos que o Brasil faz internacionalmente e os planos propostos nacionalmente envolvendo eixos como economia/educação/cultura). Na configuração construída, a universidade pública está asfixiada, a gratuidade ameaçada e a referência social brecada sob vários aspectos. A compreensão não é contemplativa, é ação.

Alterar o quadro que tornou-se real no desmantelamento da instituição universidade  com igual característica implica ter a coragem cotidiana de denunciar a situação, desenvolver articulações que resultem em um posicionamento mais coletivo das partes envolvidas nessa engrenagem. Estamos, a passos largos, perdendo as referências históricas que nos fizeram chegar até aqui. E sem esse conteúdo ressignificando outras dimensões ganham  espaço e sinalizam com a naturalização daquilo que  historicamente se constitui em risco à existência da universidade pública, gratuita e de qualidade. Esses são alguns dos temas que estão cada vez mais ausentes nas salas de aula e quando colocados, por vezes, é pelo viés da retaliação, da rejeição e da ignorância das lutas travadas.

Nesse sentido, a experiência da greve é outra chance de posicionamento dos professores, dos técnico-administrativos e dos estudantes em defesa da educação autônoma e crítica e contra os engessamentos que tentam viabilizar a entrega desses espaços a modelos de uso para poucos. Que os caminhos agora percorridos sejam marcados pelos saberes da alegria, da solidariedade, do respeito a nossa cultura, politicamente firme e coerente. É tempo de lutar e de realizar sonhos.

Arte em Tese – O jornalista, sociólogo e escritor Wilson Nogueira é o convidado de sábado (20), às 10h, da Academia Amazonense de Letras, na rua Ramos Ferreira, 1009, Centro, do projeto “Sábado na Academia”. O professor-doutor Wilson Nogueira conversará sobre Recriação do imaginário amazônico no boi-bumbá de Parintins, tema resultante da tese doutoral  do cientista.

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