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Jovens sob a égide do encarceramento

Ivânia Vieira

O encarceramento brasileiro incide sobre homens, negros, jovens, autores de crimes patrimoniais e que, em sua maioria, não chegaram a completar o ensino médio. É essa uma das conclusões do grupo de pesquisadores responsável pelo estudo Mapa do Encarceramento – os jovens do Brasil lançado há oito dias pela Secretaria-Geral da Presidência da República e Secretaria Nacional da Juventude.

O documento, de 116 páginas, apresenta a série histórica 2005-2012 dos encarceramentos cruzando variáveis que produzem um quadro crítico sobre os jovens pobres do País. É reforçada a posição de que uma das principais dificuldades do sistema prisional brasileiro está na ausência de assistência jurídica à população encarcerada. Dados do InfoPen (o sistema integrado de informações penitenciárias) indicam que aproximadamente 40% dos presos são provisórios; entre os condenados, cerca de 70% cumprem pena em regime fechado. A maior parte dos presos (29%) cumpre pena de mais de quatro a oito anos de reclusão e parcela significativa (18%) cumpre pena de até quatro anos, que, de acordo com a legislação, poderiam ser substituídas por penas alternativas.

Os homicídios aparecem como principal causa de morte de jovens de 15 a 29 anos. Os mais atingidos são jovens negros do sexo masculino, moradores das periferias e áreas metropolitanas dos centros urbanos. Com base nos dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM/Datasus), do Ministério da Saúde, foi montado o seguinte quadro: mais da metade dos 56.337 mortos por homicídios em 2012 no Brasil eram jovens (27.471, equivalente a 52,63%), dos quais 77% negros (pretos e pardos) e 93,30% do sexo masculino. E ressalta: “por essa razão, os homicídios de jovens representam uma questão nacional de saúde pública, além de grave violação aos direitos humanos, refletindo-se no sofrimento silencioso e insuperável de milhares de mães, pais, irmãos e comunidades.”

O mapa destaca o fato de a violência impedir que parte significativa dos jovens usufrua dos avanços sociais e econômicos e revela a perda de um inesgotável potencial de talentos para o desenvolvimento do País. “A exposição desse segmento a situações cotidianas de violência evidencia uma imbricação dinâmica entre aspectos estruturantes, relacionados às causas socioeconômicas, e processos ideológicos e culturais, oriundos de representações negativas acerca da população negra”. A violência contra os jovens não se limita aos homicídios. Dados do Infopen mostram que os jovens representam 54,8% da população carcerária brasileira. É mais uma forma de vitimização da população jovem.

Na Região Norte, o estudo constatou crescimento acentuado do número de presos nos Estados do Amazonas (126%) e Tocantins (125%). Pará e Rondônia tiveram o mesmo porcentual de crescimento (81%), sendo que nesse último há a retomada do crescimento entre 2011 e 2012, após queda significativa entre 2010 e 2011. Acre e Amapá tiveram os menores crescimentos da região: 39% e 30%, respectivamente.

Na Academia de Letras – No sábado (13), às 10h, na Academia Amazonense de Letras, na rua Ramos Ferreira, 1009, Centro, a professora-doutora Rita Barbosa de Oliveira, irá conversar sobre Literatura e Política na obra de Sophia Andresen. Profª Rita, da Ufam, é a convidada do projeto “Sábado na Academia”, série “Arte em Tese.”

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Espalhadores de sal na Terra

Ivânia Vieira

Se há, como afirmam estudiosos da área, co-responsabilidade dos movimentos sociais no marasmo vivido no Brasil, é possível perceber uma outra movimentação provavelmente resultante ou revigoradas a partir das eleições de 2014. A série de protestos e o cenário fértil apresentou ao País caras novas e reapresentou algumas caras velhas (essas com farta base para esconder o que efetivamente são), e discursos de tantas matizes.

Assim redesenhou-se a democracia. Cabe nela o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) e o seu grito pela “dignidade” no País, com direito a aplausos de um séquito. Cabe também exercitar a memória. Eis um exercício difícil e profundamente interessante. A ideia aqui não é falar de Caiado (quem se interessar o Google ajuda na busca da trajetória desse político), e sim tratar da re-aparição dos movimentos como um sal da Terra. São vários, talvez muitos, não massa, e sim reunindo afinidades e vontade de fazer acontecer. Os políticos deveriam prestar mais atenção e aprender com eles.

Em São Paulo, o Énois Inteligência Jovem está na rua de asfalto e nas infovias. São adolescentes e jovens realizando um trabalho dinâmico a respeito da violência contra as mulheres e a desigualdade de gênero. Entre outras ações, fazem algo simples e de repercussão larga: vídeos com meninas de vários lugares do Brasil onde elas próprias falam sobre o que é a violência e como essa violência está dentro de casa. Ações mobilizadas por grafiteiros, dançarinos e músicos e outras tantas iniciativas, nesse campo, estão ajudando a colocar a pauta da violência contra a mulher em outros enfoques, forjando estratégias e ampliando a solidariedade.

Em Manaus, o Mobilidade Urbana está entre as promissoras iniciativas. O grupo reúne profissionais, estudantes, pesquisadores, parlamentares determinados a colocar no trombone o tema “mobilidade” na cidade de Manaus. Desde o ano passado vem incomodando, tirando do lugar os sossegados e  ampliando espaços de debates em torno desse assunto. A relevância do pensar sobre mobilidade em Manaus é sentida todos os momentos do dia. A turma da mobilidade organiza, nesse momento, um encontro sobre Mídia e Mobilidade, sintonizada com um dos aspectos importantes no trato dessa questão, a comunicação. “Queremos dialogar com o pessoal da área, saber como veem a mobilidade e trocar ideias para avançarmos nesse item e, para nós, a mídia é valiosíssima”, afirma o professor-pesquisador Geraldo Alves, do Departamento de Geografia, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

O Mobilidade está conseguindo aproximar outras forças tecendo uma rede de convergência de interesses, proporcionando olhares mais críticos e aguçados sobre decisões que foram e estão sendo tomadas por gestores públicos no âmbito urbano com repercussões enormes no cotidiano dos moradores da cidade. Faz abrir um guarda-chuva no qual cada haste converge para um ponto central – a violência. Não ter calçada para se andar, não ter pontos de ônibus adequados, nem ônibus, iluminação pública adequada, mais parques, praças e jardins; não se respeitar os espaços para pessoas com algum grau de dificuldade poderem se movimentar na cidade, nem os estacionamentos a elas destinados são algumas das questões que brutalizam o lugar onde vivemos. Que esses grupos desconstruam poderes perversos e ajudem a socializar espaço e bens públicos ressignificando o ser cidade.

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Entidades promovem Semana dos povos da Amazônia

Na próxima segunda-feira, 01/06, moradores da comunidade Parque das Nações (bairro Tarumã, Zona Oeste de Manaus), onde atualmente mora cerca de 300 famílias indígenas, receberão representantes de várias entidades para discutir as causas e desafios para os povos deslocados para as cidades na Amazônia. O debate acontece das nove às 16 horas e abre a Semana dos Povos da Amazônia, evento promovido pela Articulação pela Convivência com a Amazônia – Arca.

A Semana tem por finalidade facilitar a articulação entre setores sociais, povos indígenas, comunidades tradicionais e organismos pastorais, por ocasião das comemorações do 05 de junho, dia mundial do Meio Ambiente. Visa ainda aprofundar o debate sobre temas de interesse comum, para fortalecer o projeto do Bem Viver, inspirado na experiência histórica dos povos da Amazônia que trata de um caminho alternativo à perspectiva desenvolvimentista, saqueadora e predatória em curso.
A Semana dos Povos da Amazônia acontecerá de 01 a 04 de junho com a realização de vários eventos e encerrará com a divulgação de um documento final onde os representantes das entidades e movimentos sociais apresentarão os resultados dos debates.
Na quarta-feira, 03, das 8h30 às 12h30 será realizado o Seminário com o tema “Modelo energético e o Bem Viver dos povos da Amazônia”. Entre os debatedores estarão o Procurador Federal Fernando Merloto Soave, do Ministério Público Federal no Amazonas, o Professor Célio Bermann, do Instituto de Energia e Ambiente da USP, Neuzete Paulo Afonso, moradora de área afetada pela barragem de Santo Antônio (RO) e uma Liderança indígena. O seminário terá como moderador o sociólogo Ivo Poletto, assessor do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social. O evento, que conta com o apoio do Centro de Ciências do Ambiente – CCA/UFAM, acontecerá no auditório Sumaúma, na Faculdade de Ciências Agrárias no Mini Campus da UFAM.
A Programação da Semana dos Povos da Amazônia será a seguinte:
Dia 01/06/2015
Horário: 09 às 16 horas
Debate: Os povos deslocados para as cidades na Amazônia, causas e desafios.
Local: Parque das Nações Indígenas – Tarumã, Manaus.
Dia 02/06
Manhã e tarde
Horário: 08:30 as 17horas
Encontro da ARCA – Socialização e estratégias de articulação
Local: CEFAM – Av. Joaquim Nabuco, 1023 – Centro
Dia 03/06
Manhã
Horário: 8:30 às 12:30
Seminário: Modelo energético e o Bem Viver dos povos da Amazônia.
Mesa:
Dr. Fernando Merloto Soave – MPF/AM
Prof. Célio Bermann – professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP
Neuzete Paulo Afonso – moradora de área afetada pela barragem de Santo Antônio (RO)
Liderança indígena
Moderador: Ivo Poletto – Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social
Local: Auditório Sumaúma – Mini Campus/UFAM (Faculdade de Ciências Agrárias)
Dia 04/06
Divulgação de documento da ARCA.

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Conselho Indigenista Missionário – CIMI
Regional Norte I (AM/RR)
Assessoria de Comunicação
Contatos: (92) 3238-3317/9295-4902
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Concorrência!

Área do Porto Manaus Moderna

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Travessia

Trabalho animal animal em ambiente de várzea

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Cuidado com a “tal de densidade”

Wilson Nogueira*

É preciso ter cuidado com o “fenômeno” da “tal densidade eleitoral”. Ele é muito perigoso, porque pode esconder, ardilosamente, “personas” do submundo do poder que, de repente, surgem como possibilidade de “opção de voto” para eleitores que, na realidade, clamam renovação na política. Essas “personas” são recorrentes em partidos que se fecham em si e não permitem que os eleitores construam, a partir da vivência e convivência das ideias, uma democracia que realmente se espraie em representação social digna desse nome.

Os partidos da velha política se valem das velhas estruturas que construíram para si, para se perpetuar no poder. Eles próprios inventores e inventados pelo poder dos poderosos de sempre. Assim, só entra para a política partidária aqueles que se submetem aos caprichos do círculo vicioso que rejeita a renovação de práticas e ideias. Forma-se, então, nos partidos, o ambiente propício à acomodação dos interesses mesquinhos que entortam a política como arte de bem proceder e bem governar. A velha política vem sendo adubada pelo oportunismo de toda ordem.

Os grupos e grupelhos que mandam e desmandam no país, por meio do controle da grande maioria dos partidos e da mídia tradicional, subtraem a democracia a interesses subterrâneos daqueles que se revezam no controle do dinheiro do contribuinte. E um dos ardis para que as suas vontades prevaleçam e permaneçam como o todo e sempre é exatamente inventar candidatos que causem sensação de novidade no eleitor, cuja aspiração é ter opções renovadoras.

Os candidatos da “densidade emergente” são, geralmente, aquelas figuras que se submetem a viver colados no poder a qualquer custo, com a única finalidade de tirar proveito para si ou para o grupo ao qual pertence. A esse tipo de gente não interessa a dignidade, porque o que lhe vale mais é a possibilidade de estar no e para o poder, praticando o oportunismo e a ganância. Dizem, sem cerimônia: “Há governo, estou dentro”, ou ainda: “Melhor puxar saco que puxar carroça”.

Se essa gente camuflada no poder ou sem a legitimidade das urnas, já é perigosa, imagine-as com as benções dos votos? Ah, aí sim, faz com maior desenvoltura aquilo que o apuí faz com a samaumeira, a maior e mais bela árvore da Amazônia: suga-a até matá-la, em favor do seu crescimento próprio. Na política, existem apuís e sementes de apuizeiros ao vento, esperando a melhor hora para se alojar e destruir árvores frondosas; e a melhor hora, para o parasita da política não é outra senão a da eleição.

A metáfora nos ajuda a não só pensar a política no mais amplo significado filosófico ou científico, mas também a alcançar, criticamente, o principal dos seus desdobramentos na vida cotidiana: o gesto de votar, comparável ao adubo de uma árvore, que poderá vir a ser um apuizeiro ou uma samaumeira. O eleitor, portanto, precisa se informar, avaliar e conhecer muito bem o processo eleitoral e suas leis. Pode, por exemplo, não votar e pagar multa; pode votar em branco ou anular o voto; em quaisquer dessas situações, estará se manifestando na eleição, que, aliás, para ser verdadeiramente democrática não deveria exigir voto obrigatório.

O que muda e o que mudará no Amazonas a se confirmar o registro eleitoral daqueles que se insinuam candidatos? Nada ou quase nada! A maioria do que vêm por aí, já está aí há mais de trinta anos. Os poucos que poderiam fazer alguma mudança nesse jogo de cartas e atitudes conhecidas não têm a tal “densidade eleitoral”, ou melhor, não aparelharam a estrutura do poder em benefício próprio nem têm dinheiro para pagar os laboratórios de marketing que fabricam “densidades”.

Por isso, muito cuidado, mas muito cuidado mesmo com os “formadores de opinião” e seus candidatos de “densidade eleitoral”. A saber, a eleição, no termo em que se encontra atualmente, é um jogo violentíssimo e suas consequências sempre desabam sobre a sociedade.

*O autor é jornalista e escritor

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Água para lavar o silêncio do Poder

Ivânia Vieira*

Eram recebidas com naturalidade pela maioria da comunidade de leitores de jornais locais (e de outras regiões) as manchetes principalmente as dos cadernos de Polícia que banalizavam a violência contra a mulher e desqualificavam as vítimas, responsabilizando-as por terem sido estupradas, espancadas, sequeladas, mortas. Editores desses cadernos tinham que ter um perfil para “trabalhar bem” tais notícias. E as notícias tinham audiência e se reproduziam em um sistema de violência por meio dos programas de rádios (onde essas matérias eram lidas e comentadas com efeitos de som). Esse modelo de jornalismo tripudiava sobre a dor da vítima e da família dela, ajudava a manter como lei o manual de comportamento das mulheres. Com uma noção muito forte: segui-lo ou candidatar-se a ser a próxima vitima.

Os casos de violência viravam piadas nas redações. Responsabilizavam a mulher violentada pelo crime, ora porque era feia, ora porque sua forma de se vestir provocava os homens ou porque era uma jovem de muitos relacionamentos sexuais. Enfim, a vítima não merecia respeito e teve o que merecia. Assim estava construída a sentença e a audiência da notícia.

O jornalismo e os jornais em todo o Brasil tomaram decisões importantes, embora ainda muito tenha para ser feito nessa forma de tratamento dos fatos. Essa mudança vem como resultado de uma série de ações, uma melhor formação profissional, a criação de fóruns de discussão, as novas exigências legais a partir da Constituição de 1988; o fortalecimento do movimento feminista; os direitos difusos provocando ranhuras numa concepção conservadora e machista da doutrina do direito e da Justiça; a caminhada de democracia brasileira e da cidadania.

A pesquisa apresentada no dia 27 de março, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) por meio do Sistema de Indicadores de Percepção Social (Sips) sobre o tema “Tolerância à violência contra as mulheres” mostra que a nossa caminhada apenas começou e terá muitos obstáculos a vencer. Foram ouvidas 3.810 pessoas, nas faixas etárias de 16 a 29 anos, de 30 a 59; e a partir dos 60 anos, de 212 municípios brasileiros. As respostas cruzadas traduzem resultados que precisam ser analisados a partir de cada lugar considerando as forças progressistas e retrógradas. No Amazonas essa estrutura tem peso enorme.

Alguns resultados da pesquisa: Aproximadamente 64% dos entrevistados e das entrevistadas afirmaram concordar total ou parcialmente com a ideia de que “os homens devem ser a cabeça do lar”; Chega a 79% os que concordam com a frase “toda mulher sonha em se casar”; e somam 60% as respostas à indicação de que “uma mulher só se sente realizada quando tem filhos”; Recebe a concordância de 82% dos entrevistados e entrevistadas a frase “o que acontece com o casal em casa não interessa aos outros”; Na mesma linha de aprovação, com 78,7% está a velha máxima da violência que “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”; e para 89% desse universo “roupa suja se lava em casa”; A ideia de que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família” é aprovada por 63% das pessoas entrevistadas; e 65% delas concordam com a afirmação de que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. A esse dado somam-se os 58,5% das pessoas que nesse estudo de percepção entendem que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.

O jornalismo, os meios de comunicação tradicionais,as redes sociais podem contribuir muito para desconstruir essa noção perversa que vive em casa, na escola, no trabalho, enfim nas instituições. Nosso respeito e nossa homenagem às mulheres que ontem foram à Assembleia Legislativa do Amazonas, na carona, a pé, em o dinheiro do transporte, em meio a chuva, para denunciar o silêncio que alimenta a violência contra todas nós.

*A autora é jornalista e professora no Curso de Comunicação da Ufam.

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Quando a alegria é triste

Ivânia Vieira*

Os debates sobre a economia verde são “tertúlias intelectuais”, comparou o cientista social Marcelo Seráfico. Para o professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o assunto reivindica discutir uma outra sociedade; não a reposição e sim a transformação. “Quem são os inimigos da economia verde?” provoca o estudioso apontando uma estrutura na qual funcionam cada vez mais o que batizou de “tanques de pensadores”, espaço devidamente agendado pelo capital para atender determinadas demandas sem que aconteça posicionamento crítico sobre o modo de produção de riqueza e de dominação vigentes.

Seráfico, mais os professores Luiz Antonio Nascimento e Márcia Calderipe, da Ufam, e Tiago Paiva, da Prodam, atuaram em uma mesa, no dia 30 de outubro, que tratou do tema: economia verde/sustentabilidade/erradicação da pobreza. A iniciativa de reunir os estudiosos foi da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia do Amazonas (Sect-AM), na atividade ‘Café Científico’, dentro da 9ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.

O encontro produziu indicações importantes que poderão seguir adiante ou serem esquecidas. Luiz Antonio Nascimento lembrou dos temas mágicos que percorrem periodicamente os textos e falas nas sociedades, nas universidades, tais como democratização, socialismo, democracia e, de acordo com o professor, a questão da hora – desenvolvimento sustentável. Disse que 75% dos alimentos consumidos no País são produzidos por trabalhadores que estão em 20% do território nacional enquanto o agronegócio detém 70% das terras, muitas delas resultado da ação de grilagem.

“De que modernidade estamos falando?”, questiona Nascimento alertando que nesse modelo o que se consolida é a insustentabilidade da economia verde. A antropóloga Márcia Calderipe indicou a vulnerabilidade da academia que aceitou ficar a reboque de ideias frágeis como a do turismo sustentável. “O que é o turismo sustentável? A quem serve?” Para Calderipe, é preciso parar e olhar as intervenções urbanas, as populações transformadas em reféns.

Se as tertúlias, inclusive as intelectuais, provocam mais ressaca que mudanças de atitude, eis alguns elementos que podem enfrentar o mal-estar e colocar a ação na rua.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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O papel da memória

Ivânia Vieira*

Tornar a memória uma atividade do presente sempre rende confusão. São tantos os esquecimentos construídos, rios de dinheiro e de receitas a partir de imagens para erguer o muro mental da não-lembrança em nome da reputação, da moral e dos bons costumes ocidentais. Às mulheres, o apagamento é um instrumento histórico do exercício da violência em vigor pleno na atualidade.

O parlamento é uma demonstração exemplar dessa condição. Não menos diferente é o processo para os cargos de comando no Executivo. Vejamos: pela primeira vez, o Brasil atinge a cota mínima de participação de candidatas aos cargos de vereador e de prefeito. Aliás, ultrapassou: as mulheres são 32,5% do total das candidaturas homologadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – 2,5% a mais dos 30% exigidos pela lei 9504/97 (a Lei das Eleições). Venceu-se a batalha cínica travada anos seguidos entre o reservar e preencher debaixo da qual os donos dos partidos se abrigaram para retardar o preenchimento da cota.

São 15 anos desde a edição da lei até à conquista desse número, no 12° ano do século 21. Entre a comemoração pelo feito (só possível porque houve uma ampla articulação nacional das mulheres para organizar a compreensão em torno dessa luta e de setores da Justiça Eleitoral que perceberam a insustentabilidade da hipocrisia dos proprietários das legendas partidárias) e a realidade um outro enfrentamento ocorre, silenciosamente.

As mulheres candidatas a vereadoras, na imensa maioria, têm que se virar em suas campanhas. A máquina partidária teve que engolir o preenchimento, mas atua deliberadamente para garantir o triunfo de uns poucos homens candidatos. São eles os eleitos primeiros pelos partidos e para os quais a estrutura trabalha.

A desigualdade na participação de homens e mulheres na política expõe o quanto a democracia precisa avançar e ser aprimorada. Lembrar disso é uma tarefa estratégica.

* Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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A outra meta

Ivânia Vieira*

Há um recorde não contabilizado pela mídia na maioria das abordagens sobre a greve dos professores universitários e a consequência dela. Professores, em função de um modelo de educação ainda fortemente cultuado no Brasil, são trabalhadores anônimos e colocados à margem dos processos de desenvolvimento periodicamente adotados pelo País. São tratados como estorvo quando deveriam receber dos governos e da sociedade um tratamento marcado pela atenção e com respeito à dignidade da qual são portadores.

A desestruturação da carreira de professor, como ora se assiste, não afeta isoladamente à sanidade dessa categoria. Ao contrário, expõe o nível de afastamento ao qual ela foi empurrada pelos governos.

A educação como prioridade elimina do discurso a figura do professor. Irônico e trágico, pois a tarefa desse profissional é promover o desenvolvimento intelectual, físico, moral, enfim ajudar na formação crítica dos estudantes e no estabelecimento de competências nas diferentes áreas. Ensino, pesquisa e extensão são um trabalho árduo, feito no cotidiano e nas condições mais precárias. Nessa tripla atuação, todos os dias, professores constroem uma rede para salvar vidas pela busca permanente do conhecimento.

Caminhei até aqui porque professores passaram pela minha vida provocando mudanças e continuam provocando inquietações. Ensinaram-me a ler e a ter necessidade de fazer novas leituras, a ter coragem e esperança, a questionar realidades e injustiças.

Professores universitários não têm auxílio-moradia, para o transporte, o telefone nem à aquisição de livros. Hoje, muitos professores estão doentes como resultado de anos de uma batalha invisível para a qual não há vale-saúde. Essa consequência não entra na lista dos danos apresentados nas reportagens sobre a greve.

A meta de viver dignamente porque se é professor não pode ter peso menor do que as outras metas. Professores são pessoas que lutam contra o desengano que consome, imobiliza e conforma o mundo.

* Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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