Archive for category Crônicas

Soltei a pomba: um sonho de liberdade

Neuton Corrêa

Enquanto ficou em casa, pomba foi chamada de Pimba. Era pequena, cabia na palma da mão e suas plumas não lhe cobriam todo o corpo.

Ela veio parar aqui por acidente, num sábado. Aquele dia foi trágico para ela. Eu havia saído cedo, no começo da manhã. E foi aí que tudo aconteceu.

Soube disso quando retornei no fim da tarde ainda no portão de casa, quando minha sogra pediu, já ordenando, que eu fosse à cozinha tirar o rato que estava preso, segundo ela, a uma armadilha pra rato. Minha sogra não suporta roedores.

Ainda demorei um pouco jogando com conversa com os vizinhos até decidir ver o tal ratão, como ela dizia. Mas fui.

De longe, debaixo de um armário, estava lá o ser se debatendo. Era parecido com rato. Mas para minha surpresa, ao me aproximar, deu pra notar que era um passarinho e não um roedor.

Grudado a uma cola, o passarinho estava muito machucado. Com cuidado cirúrgico retirei o bichinho de lá. As penas grandes de suas asas, da calda e as plumas do pleito estavam arrancadas, imensa a força que ela fez para se desprender dali.

Uma de suas patinhas estava quebrada.

Compadecido daquele sofrimento, decidi que cuidaria da Pimba, assim a batizei naquele instante, e que a devolveria à natureza tão logo estivesse recuperada.

Na hora, já era começo da noite, peguei minha Pimba e procurei um veterinário por perto de casa. A clínica mais próxima estava fechada, mas encontrei um consultório já baixando as portas e ainda consegui uma consulta pra ela.

Expliquei a ele começando com uma convicção: eu quero salvar essa pomba, doutor. Ele riu e já me deu o diagnóstico. “Esse é um animal silvestre e dificilmente vai se permitir viver sem liberdade”.

Insisti que queria tentar. Então, ele me vendeu uma gaiola, um pacote de comida pra pardais e uma seringa pra eu dar água do bico da bichinha. “Se você conseguir fazer com que ela beba água, talvez ela aguente”.

Peguei a dica do doutor, fui pra casa e lá conversei com minha pomba. “Tome isso”. Ela recusou a água no primeiro momento, mas aceitou depois. E assim, com comida e água na boca, a Pimba resistiu as últimas quatro semanas.

Nos últimos dias, porém, notei que a verdade do veterinário estava se confirmando. Minha Pimba não iria se permitia viver sem liberdade.

Ela já recusava a água e a comida e passou, na gaiola, andar agitada de um lado para o outro olhando por entre as grades que lhe abrigaram encarcerada.

Em mim, soava como um grito de liberdade e combinei com ela que a devolveria à vida que antes vivia até cair naquela cola.

Hoje foi o dia. Convidei colegas de redação. Lúcio Pinheiro e Aruana Brianezi vieram. O Segundinho fez o registro em vídeo. Antes de devolvê-la à natureza, como um pai que tenta deixar um sinal no filho para não perdê-lo na multidão, amarrei nela uma fitinha vermelha e cumpri minha a promessa de devolver-lhe uma vida sem cadeia.

E assim aconteceu!

A soltura da Pimba ocorreu no dia 21 de agosto de 2015 e no mesmo dia postei essa crônica em meu Facebook. Seis dias depois, fiz outro post sobre ela registrando: “Uma felicidade que nem sei como descrever. É única! Saber que ajudou a salvar uma vida. Lembram da Pimba? Taí é ela (foto). Livre! Está petengando, mas está em seu ambiente. Hoje ela veio me visitar. Feliz e emocionado estou!”.

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Ecos do Jorginho

Neuton Corrêa

A noite seria melhor do que a anterior. Havia promessa de que seria. Mais que isso: havia garantia, equipamentos e remédios que asseguravam a certeza do cumprimento da promessa. Porém, madrugada a dentro, Bruno acorda Jorginho no melhor do sono. Deve ter hesitado o que pôde, pensado milhões de vezes, afinal, era um recém-contratado servidor tendo que importunar o chefe.

Bruno mediu prós e contra e assentiu com sua íntima consciência que a decisão correta era acordar o chefe. Estava na primeira viagem, tinha que mostrar serviço. O dia seguinte seria a oportunidade que teria para expor suas competências, que não puderam ser plenamente expostas como queria, porque o Jorginho não permitiu no primeiro dia.

O Jorginho é diretor de uma importante autarquia do governo federal em Manaus. Bruno acabara de ser contratado e já se destacava em sua área tão logo chegou à repartição, tanto que foi escolhido entre outros mais experientes a viajar com o Jorginho, que antes do embarque o advertiu:

- Bruno, você é bom de sono?

- Sim, seu Jorge, eu durmo bem.

- Estou te perguntando isso porque a gente vai ter que dividir o mesmo quarto no hotel e meu ronco só não atrapalha quem dorme antes.

Sem noção do que viveria na viagem, Bruno tranquilizou o chefe:

- Não se preocupe, seu Jorge. Isso não vai me atrapalhar, não.

A primeira noite dos dois, no entanto, não foi apenas a estreia. Foi o teste que o Bruno precisava para ter certeza de que palavra de chefe é um decreto irrevogável. O cansaço da viagem fez o Jorginho querer ainda mais a cama para descansar ao estilo macaco-guariba.

Bem, o Jorginho não roncava tanto assim. O estrondo noturno foi aumentando à medida que seu atlético um metro e noventa e poucos centímetros iam ganhando massa, até não mais ser notado pela envergadura, mas pela largura.

A gordura começou a fazer parte de sua vida quando interrompeu sua rotina de atleta e passou a se dedicar ao emprego, onde goza de destaque após escalar degraus que sua perspicácia lhe permitiram galgar.

Voltando à primeira noite no hotel, o Jorginho nem fez a transição da vigília para o sono. Já caiu na cama roncando. O coitado do Bruno nem teve tempo de tapar os ouvidos e não conseguiu pregar os olhos.

No dia seguinte, com a vontade de explodir com o chefe, Bruno observou o Jorginho acordar, tomar banho e se preparar para o café, mas não teve coragem. Apenas falou com todo cuidado:

- Seu Jorge, nesse intervalo que o senhor vai pro café, o senhor pode me dá uma hora?

O diretor achou aquilo estranho e perguntou:

- Aconteceu alguma coisa, Bruno?

- Não, não, seu Jorge. É que eu não consegui dormir. O senhor roncou muito e muito alto.

No ato, Bruno foi liberado das atividades da manhã e com a promessa de que a noite seguinte seria diferente:

- O que é isso, Bruno, não precisa ir agora, não, descansa aí. E, olha, eu vou providenciar umas coisas que vão resolver essa situação. Sempre dá certo.

E assim aconteceu. Com a consciência pesada, Jorginho foi à drogaria, comprou Vick Vaporub pra passar no nariz e no peito antes de dormir, foi atrás de um dilatador nasal, daqueles usados por atletas, e antes de deitar asseverou:

- Pronto, Bruno, hoje você vai dormir como um bebê. Com isso aqui, com a ventilação passando livre pelas vias nasais, não tem como eu te perturbar.

Jorginho falou isso e foi logo apagando. O Bruno outra vez dormiria depois, mas não conseguiu. Tentou pôr fim ao importuno no ato, mas adiou a decisão de acordar o chefe até se encorajar e, finalmente, bateu no Jorginho, dizendo:

- Seu Jorge, seu Jorge! Acorde! Não deu certo. Lave esse Vick do seu peito, tire esse troço do seu nariz. Era melhor como estava antes. O negócio piorou. Agora, além de roncar, o seu ronco tá fazendo eco. Tá tudo ecoando e vai acordar o hotel inteiro.

Ah, pra fechar: o Jorginho perdeu 63 quilos e garante que não ronca mais, não como antes.

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Saudade de ti, Ropoca

Brincadeira de criança no lago do Macurani

Neuton Corrêa

O temporal havia passado, mas o que ele deixara só seria o começo da nossa brincadeira no Ropoca: barrancos e toras de madeira à deriva. As bolotas de capim viravam ambiente perfeito para uma manja pega e troncos de árvores, canoas sem quilhas que nos levavam de algum lugar para lugar algum.

A lagoa era a última parte da brincadeira que começou assim que a chuva atingiu a ilha. Erámos um grupo de mais ou menos uma dúzia de curumins. O mais velho talvez tivesse uns doze anos de idade. Naquele ano, eu completaria dez, já que eu estava na terceira série.

O temporal chegou numa hora perfeita para mim, depois do almoço. Meus pais já estavam na cesta e a chuva só faria eles esticarem o descanso do meio-dia. Eles sabiam que dia de chuva era futebol na certa no meio da rua.

Era exatamente isso que acontecia. Chuva e futebol. Perfeito! Perfeito até alguém ter a ideia de ir ao Ropoca. Afinal, já estávamos molhados e aparecer em casa com cabelo ressecado e de calção molhado eram somente consequência da bola no temporal.

Mas não foi tão perfeito assim. Tudo mudou quando a turma embarcou numa dessas toras à deriva. No começo, a brincadeira era apenas tentar se equilibrar sobre ela. Depois, remar para o outro lado daquele braço do lago do Macurani.

Já havíamos dominado a embarcação até que o vento voltou a soprar e perdemos o controle sobre a nossa canoa. Ainda tentamos domá-la, mas não conseguimos. Não perdemos tempo. Abandonamos o barco e decidimos dizer “braços pra que te quero”, nadando até o castanhal.

Foi uma diversão e tanto. O problema é que a hora se foi, a tarde se foi. Então, engrossei o coro e voltei pra casa ciente que seria recebido por uma ripa de cedro que o papai tirava das portas que a gente fabricava na movelaria do fundo do quintal.

Doeu, mas valeu.

Domingo, ao ver essa garotada despreocupada exatamente ali onde a gente brincava há mais de trinta anos, lembrei de minha infância.

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Cotidiano em Movimento

Marcus Stoyanovith

Assim como um rio correndo para o mar, viajei do Amazonas à Paraíba num breve regresso. Revi amizades, lugares e as praias com águas verdinhas, aguardando os ventos nordeste para ficarem um verdinho em folha. Como peixe de arribação, me surpreendi com um ato meio fora de moda nos tempos modernos: com as lembranças. Como um surfista num tubo veloz, me lancei na leitura do livro “Caminhos de Mim – Andanças pelos tempos descalços”, de Luiz Augusto Crispim. Ele já não está mais entre nós, mas sua obra o mantém vivo e atual em nossa memória. Mais ainda: deixa-nos ligados a coisas, aos espaços e aos lugares da nossa cidade.

Nas crônicas de Caminhos de Mim, Luiz Augusto Crispim nos envolve e ensina a valorizar nossas lembranças e isso é importante nessa vida de produto/preço, quando consumir, cada vez mais, é tudo que interessa. O passado e tudo que nele mora não têm valor e o quem somos vai depender muito do que temos, e o que temos são as visões dos cartazes coloridos com preços promocionais nas vitrines das lojas comerciais.

Crispim nos ensina que as lembranças nos ajudam a sermos felizes duplamente e que elas nos ajudam na construção de horizontes. Elas se completam quando valorizamos os espaços e lugares onde tudo aconteceu, mesmo que a arquitetura nos apresente outro cenário. Na base do “aqui onde era isso ou aquilo…”, a memória nos coloca no túnel do tempo e lá estamos numa época quarenta, cinquenta anos atrás, só para citar um exemplo.

O título, profundo e musical, revela a intenção do jornalista, cronista e escritor Luiz Augusto Crispim. É que, ao decidir refazer os caminhos, ele diz: “Pois bem, quero partir de um caminho diferente. Agora fica mais fácil, partindo de mim”. E começa aí uma das mais belas vivências e convivências do Eu/Homem com o seu lugar, suas casas, suas ruas, praças, colégios etc. Para cada caminho, uma lembrança e com ela veio o perfume, o sabor e as cores das épocas que via e mexe revivem naqueles que sabem viver sem desperdiçar uma gota de tempo.

Ao ler o livro, parte dele ainda em trânsito por João Pessoa, a bela capital da Paraíba, um sublime torrão, acabei por fazer outra viajem e com a mesma intenção de não perder tempo. E na aparente contradição de ganhar tempo voltando ao passado, mergulhei no tempo em que andava de Marinete (ônibus antigo), pulava o muro do clube Astreia com amigos de infância, ia correndo para aulas no Pio XII, e também lembrei as intensas paixões platônicas. Fui em todos os lugares que  despertaram  tais lembranças. Foi uma boa viagem.

De repente, pensei em como o cotidiano se movimenta (se é que é possível?). Pensei que podemos ir em qualquer direção além das tridimensionais que nos impõe o corpo físico de tal maneira que na viagem  através da memória fazemos uma ligação com o futuro, no presente. Caminhos de Mim, levou-me às lembranças de uma infância e adolescência já arquivadas. Essa é a maior importância desse livro: valorizar nossa memória por inteiro, ou seja: o Eu em harmonia com o lugar, o espaço, as coisas.

Para por em seu último livro suas andanças de pés descalços, Luiz Augusto Crispim contou a magia plástica de Flavio Tavares – uma inspiração para ele; Milton Nóbrega , na bela programação visual , testemunho de Sitônio Pinto na Orelha, projeto editorial Juca Pontes, Martinho Sampaio na editoração eletrônica e Ângela Bezerra de Castro, na contra capa. Em 92 páginas, Crispim caminha por 29 estações, cada uma com uma história, numa “poesia” de textos que mostram que paixão completa só aquela que vence o tempo do esquecimento e celebra o tempo da memória viva com as pessoas, os lugares, os espaços e todas as coisas do cenário chamado convivência.

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O recado da guariba

Neuton Corrêa

Era uma vez…

Vou começar assim: com “era uma vez”, mas a história é verdadeira. Aconteceu muito tempo depois de homem e macaco, cada um, ter ido para o seu galho. Obedeciam àquela sabedoria popular que diz: “cada macaco no seu galho” ou ao conhecimento que separa sociedade e cultura, homem e natureza, cru e cozido e por aí vai.

Fazia tanto tempo, tanto tempo que homem era homem e macaco, macaco; porém vira e mexe os dois estavam se encontrando.

Um desses encontros aconteceu no sítio onde meu pai e minha mãe escolheram para descansar na melhor idade. Foram para lá bem antes da aposentadoria deles, ao menos trinta anos antes.

O sítio, batizado com o nome de Santo Antonio, fica localizado no interior da Amazônia, no Município de Parintins, bem no meio da floresta, bem no meião. A frente dele é cortada por filetes de igarapé. Dizer que são filetes de água não é exagero. Meu pai se orgulha de falar isso à espera de algum danado lhe perguntar: “por que filetes d’água?” E ele prontamente responder: “aqui é uma nascente de rio”.

Os vizinhos do Santo Antonio são: à esquerda, o João Leite, que vive do cultivo de mandioca e da queimação de lenha para fazer carvão e vender na Vila Amazônia; à direita, meu tio Zé Corrêa e minha tia Menilza, a tia Mei, que cuida da criação de galinhas e porcos, enquanto tio Zé trata dos pés de açaí, que abundam em sua propriedade; o fundo do Santo Antonio é a floresta amazônica, nativa, majestosa, do jeito que a natureza deixou.

Por essa floresta, meu pai devota um respeito admirável. O respeito é tamanho que nunca mais entrou lá com um terçado nas mãos. Só retira madeira de árvore que já caiu e agora passou a cultivar espécies nativas que produzam esteios e as que lhe dão renda como andiroba, cumaru e castanha-do-pará. Às vezes, penso que tem medo da mata. Mas ele sempre me diz que não precisa mais do que tem e que não entra na floresta porque ela precisa de compreensão.

Meu pai se chama Aguinaldo Barros e minha mãe, Valda Corrêa. Eles compraram o Santo Antonio no ano de 1979. Não me recordo o mês, muito menos o dia. Só sei que quando se interessaram pelo sítio o rio estava cheio, muito cheio. E voltaram para fechar o negócio quando as águas já haviam baixado.

Fui nessa viagem que meu pai se encantou pelo sítio. Eu, mais que gostei. Para mim, era um paraíso: aquela água do igarapé, aqueles peixes do lago, aquela sinfonia dos passarinhos e dos bichos da floresta, as revoadas dos pássaros e o passeio enamorado dos casais de arara, de papagaios e de curicas nos fins de tardes e o jeito simples do povo de sempre cumprimentar a gente com um bom dia, uma boa tarde ou um boa noite. Tudo isso me encantava.

Uma coisa, porém me assustou: um barulho que ecoava floresta adentro e que eu não conseguia identificar. Era um barulho assustador. Parecia um forte vento soprando em meus ouvidos, semelhantes àqueles barulhos que a gente ouve quando se põe uma concha ou se encobre o ouvido com as duas mãos.

Era o barulho de um cantar ou de um gritar de uma voz grave, enfurecida com alguma coisa. Parecia o temporal do dilúvio se formando. Na primeira vez que ouvi aquilo pensei que fosse mesmo o fim do mundo. Mas, naquele mesmo dia que ouvi o fim do mundo cantando, suspirei aliviado quando o João Leite, que naquele tempo era garoto como eu, disse: “Esse capelão está muito longe”.

Ufa! O alívio imediato era porque a palavra capelão me remetia à figura do padre. Logo, imaginei que seria um padre andando por aquelas bandas. Mas o que faria um padre por ali? Ora, que tolice, um padre no meio da floresta? E segui ouvindo a conversa do João, do papai e de outras que pessoas a caminho do então desconhecido Santo Antonio.

Enfim, depois de horas, sem exagero, repito, depois de horas, chegamos ao lugar onde passei toda minha adolescência e para onde retorno nos dias hoje em minhas férias e folgas.

Chegando lá, os adultos que estavam com o papai, flexionaram um pouco os joelhos, abriram os braços em sinal de cautela e disseram, sussurrando com o dedo indicador direito no bico da boca: “Eles estavam aqui”. E eu, tremendo, perguntando de mim para mim: “Eles quem, Deus meu?”. Que bom que naquele tempo eu já havia feito a primeira comunhão e já sabia rezar o creio em Deus Pai, Todo Poderoso.

Havíamos acabado de atravessar o igarapé. Naquela época nem chegava a ser um igarapé nem um filete de água. Era apenas e tão simplesmente um olho d’água.

Estávamos subindo uma ladeirazinha, quando alguém começou a mostrar provas de que “eles” estiveram lá há pouco tempo.

Então, observei: galhos quebrados, restos de frutas ao chão, fezes frescas e secas e pêlos, muitos pêlos pretos e avermelhados presos nos troncos das árvores e sobre as folhas secas que encobriam o solo.

Ainda espantado, pensando que ali era a morada do fim do mundo, tive coragem de vencer a curiosidade perguntando o que era aquilo e, finalmente, ouvi pela primeira vez ouvi a palavra “guariba”. Mas o que era guariba?

- Guariba é um macaco. E acho que eles estavam morando aqui fazia muito tempo – disse um dos mateiros.

Para mim, era uma grande descoberta, porque a única coisa que sabia de macaco, até então, era que macaco era macaco. Naquele dia, porém, conheci um macaco que tinha nome. E nome bonito: “Guariba”.

Agora, escrevendo essas lembranças, já sei, consultando o dicionário Aurélio, que guariba é a designação comum aos símios platirrinos, cebídeos, do gênero Alouata, da América Central e do Sul, de coloração escura, caracterizados pela maxila inferior barbada, e sobretudo pelo grito peculiar. São frugívoros e vegetarianos, e vivem em bandos de mais de 12 indivíduos, guiados pelo macho mais velho, o capelão.

Três décadas se passaram e aquele barulho de fim de mundo voltou ao sítio Santo Antonio, hoje não mais isolado como era antes. Agora, chega-se lá até de carro. Os quase vinte quilômetros que se andavam para chegar ali foram reduzidos a doze quilômetros, por uma estrada aberta pela Reforma Agrária.

Meu pai encontrou os primeiros elementos do bando de macacos num fim da tarde. Estavam trepados em duas frondosas mangueiras plantadas exatamente no lugar onde encontramos pela primeira vez as guaribas. As mangueiras foram plantadas no mesmo ano que meu pai comprou o sítio, porém, as árvores nunca haviam produzido, apesar da insistência de meu pai.

E não foi por falta de trato. Papai fazia de tudo: simpatias em noite de Lua, puxava adubo orgânico para o pé das mangueiras, limpava as raízes, enfim, fazia tudo o que lhe mandavam, mas nada. Toda vez que passava pelas mangueiras, repetia: “um dia vou comer uma manguinha dessas árvores”.

A profecia do papai estava prestes a se confirmar. As duas mangueiras floresceram, floresceram, floresceram. A floração foi tamanha que o verde das folhas ficou pintado do branco da floração. E as frutinhas, que caíam antes de amadurecer, ficaram seguras aos galhos até a colheita.

Mas, naquele fim de tarde, as guaribas pareciam querer falar com o meu pai. Elas chegaram silenciosamente. Ele nem as notou. Ouviu apenas um barulho que, para ele, parecia a pisada de um gigante caminhando. Ele não sabia de onde o barulho vinha. Até que aguçou a audição e percebeu que as pisadas vinham da direção do igarapé.

Papai se aproximou lenta e atentamente até que percebeu o que era: um grupo de guaribas nas duas mangueiras atirando frutas verdes e maduras para o chão. Ele ficou enfurecido. Afinal, elas estavam desperdiçando aquilo que ele há décadas esperava. Mesmo furioso, ainda pôde parar para observá-las. As guaribas não comiam nada. Apenas apanham as mangas e as atiravam ao chão.

Depois de perceber isso, papai não contou conversa. Pegou uma lata velha, um pedaço de ferro e correu para debaixo das mangueiras fazendo barulho para espantar os macacos, que, no ato, não contaram conversa e saíram do Santo Antonio pulando de galho em galho.

Nesse dia, papai se recolheu mais cedo do que o de costume. Dormiu quando as estrelas ainda nem tinham espantado o Sol. Mas acordou no meio da noite com um barulho que para ele parecia uma ventania balançando as árvores e se aproximando da casa. E acordou a mamãe:

- Valda, está vindo um vendaval enorme.

Mamãe assentiu, acrescentando:

- E já vem com muita chuva.

Os dois se recolheram novamente. O temporal se aproximava da casa e estrondava ainda mais. Passou pela casa e depois de alguns instantes silenciou. Papai e mamãe estranharam a mansidão de ruídos que se fazia. Nem sapos coaxavam. Até que os dois começaram escutar a pisada do gigante que papai ouviu antes de dormir.

Dessa vez, porém, o gigante estava correndo, pois as batidas no chão ecoavam como um batuque. Papai abriu a janela, viu a festa que as guaribas faziam nas mangueiras, mas não teve coragem de pegar a lata velha e o pedaço de ferro. Ele percebeu que o bando era muito maior, mas muito maior, e ficou com medo de abrir a casa.

Os dois adormeceram e a primeira coisa que fizeram ao acordar no dia seguinte foi olhar as mangueiras. As guaribas haviam apanhado todas as frutas e as atirado ao chão. Não sobrou nenhuma. Nem as pequenas.

Até hoje, quando conta essa história verdadeira, papai repete: “Eu entendi o recado”.

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Lindo! Lindo! Lindo!

Neuton Corrêa*

Paulo Faria nasceu para o espetáculo. Iniciou na rádio Alvorada de Parintins ainda adolescente. Foi apresentador de programas de auditório, no antigo Teatro da Paz, e apresentou o boi bumbá Garantido por mais de um quarto de século: 26 anos. Pode-se dizer que é o criador da ópera folclórica narrada.

Garoto, eu conhecia o Paulinho apenas pela voz do rádio e pela fúria que despertava nos vizinhos torcedores do Caprichoso, que haviam se mudado para perto de casa, trocando o território azul pelo vermelho, mas não deixando a paixão pelo bumbá do coração.

A ira dos meus vizinhos explicava-se pela genialidade do Paulo. “Aquele grilo falante”, para usar uma das frases da vizinhança, dominava o espetáculo amazônico. Passava três horas apresentando os itens e mexendo com a galera, para agitar “a oitiva maravilha do mundo”, como ele definia o Garantido.

Não tinha quem segurasse aquele rapaz franzino ao entrar na arena. Ao ser chamado, corria para o centro da arena, cumprimentava autoridades, visitantes e depois chamava o momento que ninguém queria perder: a contagem, do longo “Ummmmmmmm, dooooois, trêêêês e quando o tambor de marcação irrompia o instante de silêncio para começa a festa. Coisa de arrepiar até hoje.

Mas tudo isso era previsível. A principal marca do Paulo Faria, porém, era o improviso, como o que ocorreu no festival de 1994. Paulinho anunciara a alegoria do Gavião Real. O gigante pássaro entrou batendo as asas no ápice do espetáculo trazendo o pajé, a cunha-poranga e tudo mais.

O apresentador se empolga, defende o quesito alegoria, mas foi nesse instante que o gavião, no centro do Bumbódromo, quebrou a asa esquerda. A galera contrária se agitava em gargalhada, enquanto do outro lado o desapontamento abatia o vermelho.

Paulinho, porém, não perdeu o tom e dirigiu fala aos jurados dizendo: “Observem, senhores jurados, perversos caçadores atingiram gavião real. É o lamento do nosso povo da Amazônia. Lindo! Lindo! Lindo! Lindo, galera vermelha e branca!”

*Editor da coluna Sim&Não do jornal A CRÍTICA, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.

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A cobra grande do Jair

Neuton Corrêa*

A enorme serpente estava furiosa. À beira do lago, um a um, a cobra grande devorava o que via em seu caminho: o pescador, o agricultor, a lavadeira, o curumim pulando n’água e até o fotógrafo Panela de Ferro, que registrava tudo naquela noite de disputa do Festival Folclórico de Parintins de 1981.

Naquele ano, a festa ainda ocorria no estádio Tupi Cantanhede, num palco suspenso de madeira de lei sobre a grama. O tabladão aguçava ainda mais a imaginação do artista Jair Mendes, que nos anos anteriores já havia inventado o boi biônico, as alegorias e a cada festival criava uma cobra diferente e cada vez maior.

A linha frente do Caprichoso, como eram conhecidos os dirigentes do bumbá azul e branco, descobriu na tarde daquele dia que a equipe do Jair tinha preparado um alçapão ao centro do tablado, de onde a cobra do Jair surgiria do nada para ganhar mais um festival.

Diante da informação, o Caprichoso não hesitou em frustrar a criatividade do contrário. Aproveitando-se da ordem de apresentação, o bumbá da Cordovil resolveu pregar o buraco feito pelo Garantido.

Para não perder pontos nem levantar suspeitas, a pregação do alçapão ocorreu durante a apresentação do Caprichoso. O martelo e um quilo de prego de três polegadas foram levados escondidos pela então secretária do boi Socorro Lopes e a operação, feita sob a saia de Dona Aurora, figura que lembra os bonecos de Olinda, ocorreu enquanto ela se apresentava no centro do palco.

Só agora entendi porque a cobra do Jair engoliu tanta gente naquele festival.

*Editor da coluna Sim&Não do jornal A CRÍTICA, filósofo, metre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.

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De volta para a senzala

 

Aldenor Ferreira*

Há seis meses, tornou-se rotina semanal percorrer 260 quilômetros de Jaboticabal para Campinas, no interior do Estado de São Paulo, sem me dar conta que o Brasil Colônia ainda permanece em traços, gestos e falas que podem ser ecos de um passado não tão distante dos mais de 500 anos que já se foram. Descobri isso ouvindo conversas dos outros no terminal.

Pois, toda quarta-feira, quando as luzes da cidade começam a se despertar com o descanso do Sol, desembarco no Terminal Rodoviário de Campinas. Ali, pego uma linha urbana para ir para casa. Como já comentei com os amigos do TEXTOBR, viajar é preciso, pois tenho aula uma vez na semana na Pós-Graduação da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp.

Confesso que nesse horário a visão do terminal não é muito boa. Sua moderna arquitetura é contrastada com um mar de gente que faz o lugar parecer mais com um reino de formiga de fogo depois de um curumim atirar uma pedra em cima do castelo, pois, do terminal partem ônibus intermunicipais, interestaduais, metropolitanos e linhas urbanas.

Aproveito esse cenário para exercitar meu olho e ouvido de Cientista Social, dedicando minha atenção às conversas dos inúmeros usuários que aguardam nas filas seus respectivos ônibus, estando, eu também, à espera de um.

Nas Ciências Sociais, isso se chama observação, uma técnica de pesquisa. Seria mais ou menos como exercer a técnica da participação-observação, na qual o observador faz parte de um grupo e aproveita essa situação para observá-lo. No meu caso, integro-me ao grupo de usuário do transporte público e do terminal.   

É fácil notar que ali, às 18h, estão voltando para casa muitos trabalhadores, homens e mulheres que passam o dia em Campinas, trabalhando em diversos ramos de atividade, principalmente nos ramos da construção civil, comércio e doméstico. As conversas nas filas denunciam essas atividades.

Campinas é uma cidade que cresceu muito nos últimos anos, possui distrito industrial e um custo de vida extremamente elevado. Isso criou uma demanda social alta por diversos serviços públicos como o de saúde, o de segurança, educação e principalmente o de habitação.

Como ocorre praticamente em todas as grandes cidades brasileiras, as camadas menos favorecidas são as que mais sofrem com essas questões e são relegadas à periferia da cidade. No caso da Região Metropolitana de Campinas (RMC), muitos trabalhadores moram nas cidades adjacentes.

Curiosamente, é da periferia, tanto de Campinas, quanto das outras cidades da RMC, que vem a grande maioria dos trabalhadores braçais que atendem às famílias abastadas dos bairros nobres da cidade.

Pois bem, estando eu um dia desses esperando o busão e exercitando os ouvidos e os olhos, testemunhei um diálogo que me fez refletir profundamente.

Ouvi um senhor de aproximadamente 40 anos, negro, barba rala, voz grossa, de estatura mediana e bem forte fisicamente, conversar com uma jovem senhora e sua colega, ambas na faixa dos 30 anos, sendo uma branca e a outra morena. A branca era magra e baixa, com cabelos claros e longos até a cintura. A morena era mais alta e mais forte, de cabelo curto e bem preto. Ambas muito sorridentes e falantes.

Esse trio estava em uma fila ao lado da minha e fazia piada com a própria situação de empregados, ora criticando o comportamento dos patrões, ora relatando situações de inferiorização enfrentadas e suportadas por medo de perder o emprego.

Elas, empregadas domésticas, ele jardineiro. Dá longa e animada conversa entre eles (provavelmente se conheciam), o que me marcou mais foi a frase que ele disse quando seu busão estacionou na plataforma: “Até que enfim! Demorou demais, não foi? (falou dirigindo-se às suas colegas). Estou louco pra chegar no meu barraco, amanhã tem jardim da mansão de novo”.

Eles partiram, eu fiquei por cerca de dez minutos esperando meu busão. Nesse tempo, as palavras barraco e mansão martelaram em minha mente. Lembrei do livro Casa-Grande & Senzala do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. Suspirei e falei a mim mesmo: “É… 18h, hora de voltar para o barraco, essa “senzala” que insiste em não desaparecer”.

*Sociólogo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Doutorando de Ciências Sociais pela Unicamp.

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Indignai-vos!

Ivânia Vieira*

Enquanto jovens gastam horas ‘discutindo’ que estão velhos aos 28, 30 anos, um homem de 94 anos é pura chama acesa. E contamina pelo vigor, pela paixão e ousadia. Stéphane Hessel literalmente incendiou o mundo em 32 páginas, com o “Indignai-vos!”, lançado em 2010.

Amado e odiado, Hessel encarna o mais desaforado e corajoso jovem. Ou, talvez, tenha se reinventado para balançar os jovens envelhecidos e chamar a atenção deles quanto à responsabilidade que têm com o futuro desse mundo. Para isso, é preciso desorganizar o mundo atual, gritar que não há conformismo com o modelo de vida imposto à maioria das populações do mundo.

Hessel, nascido em Berlim e naturalizado francês, foi da resistência na Segunda Guerra. E um dos redatores, em 1948, da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Hoje, conclama os jovens para evitar a derrocada, a não aceitar o desemprego, a construir uma outra sociedade e resignificar a democracia.

É esse homem que mobiliza para enfrentar os devastadores do planeta; para o combate à corrupção, à impunidade e à servidão da classe política e contra um sistema de “cooperação pela financeirização do mundo”.

Ele fala olhando uma Europa mergulhada em crise aguda, mas a matéria prima do “indignai-vos” cabe em qualquer continente, na maioria dos países.

A obediência ao consumo é um dos enfrentamentos propostos por Hessel. Afinal, na lógica constituída por e para a indústria do consumo reside um dos suportes desse mundo doente. Ter e ter virou obsessão, justifica qualquer ato. Crianças, adolescentes e jovens são as presas preferenciais.

A democracia aprisionada pelas oligarquias tornou-se um meio de negócio entre os poderosos e, asfixiada, perde a referência de ser uma experiência de êxito na história da humanidade. Por isso, Hessel é tempero novo na vida acomodada.

Em entrevista à “Carta Maior”, em dezembro de 2011, Stéphane Hessel disse: “Eu só convidei as pessoas a refletirem sobre o que elas acham inaceitável”. O convite continua valendo!

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Ambientalista e otário

Neuton Corrêa*

Interrompi minha caminhada de todos os domingos para atrapalhar a passarinhada de um homem que montou suas armadilhas em um igarapé assoreado à beira da Avenida das Torres. Encontrei-o quando ainda alongava os músculos sem imaginar que mais à frente, quatro quilômetros depois, eu o encontraria outra vez.

O Sol acabava de se mostrar por completo naquela manhã, quando ele passou por mim. O homem estava em uma bicicleta e levava, pendurado no guidão do veículo, uma gaiola coberta com um pano branco. Como passou muito perto de mim, pude notar que não era um pano qualquer, mas uma capa, preparada como quem encomenda roupa de alfaiate, que vestia o cativeiro conduzido pela avenida.

Assim que vi a gaiola, lembrei-me de um episódio que aconteceu ali nas proximidades e que me envolveu. Foi em um mercadinho do conjunto Boas Novas, no derredor do bairro onde moro, na Cidade Nova. Lá, nesse comércio, costumava molhar a palavra, mas, por causa de uma grade encapada como aquela do ciclista, fiquei sem clima para continuar frequentando o lugar.

Isso ocorreu no dia em que conversava com o dono de mercadinho e que, de repente, um rapazote apareceu na rua carregando uma gaiola. E eu, já com a palavra encharcada, surpreendi-me com o garoto carregando um passarinho aprisionado. A surpresa era porque imaginava que manter passarinho preso, coisa que via muito na minha infância e que era algo como moda, fosse coisa do passado.

Nessa hora, olhei para o dono do bar e disse-lhe, apontando para o garoto:

- Você sabia que eu pensava que passarinhada fosse coisa do passado e que a garotada condenasse isso?

O comerciante, então, baixou a cabeça, riscou o chão no qual sentávamos sobre tijolos que ali serviam de bancos de bar, e assentiu com o que eu dizia. E, encontrando clima para vender meus valores da ética moderna ambientalista, fui além:

- Vou te dizer uma coisa, vizinho: Se eu fosse o pai desse moleque, chamaria ele e diria: ‘meu filho, que gosto tem ver canto de preso?’.

O dono do mercadinho outra vez concordou comigo e comentou:

- É, vizinho, eu vou chamar e falar isso para ele.

Depois, visivelmente constrangido comigo, o comerciante deixou minha companhia e pôs sua mulher para atender. Entendi que ele não havia gostado da conversa e nunca mais retornei ao seu comércio.

Pois bem, enquanto caminhava lembrando-me dessa situação constrangedora para mim, encontrei o ciclista outra vez. Ele já estava dentro do terreno cercado com arame farpado, o que me fez deduzir, já predisposto contra ele, que o homem havia invadido uma propriedade particular para capturar passarinhos. Então, interrompi minha caminhada para atrapalhá-lo.

De birra, fiquei ali, olhando a passarinhada. Ele já havia montando a gaiola em uma galhada perto do igarapé e se preparava para armar uma espécie de rede de pesca, mas não conseguia estendê-la, porque não conseguia abri-la e porque passou a se incomodar com minha presença.

Eu estava preparado para denunciá-lo à Polícia. Havia razões de sobra. Primeiro, por invasão a propriedade particular; depois, poderia acionar o batalhão ambiental, mas minha intenção era constrangê-lo. Mas, minutos depois, ele percebeu minha intenção, pegou seus apetrechos, a bicicleta e foi-se.

À noite, quando achei que minha missão ambientalista do dia já havia acabado, naquela mesma avenida, num mega show com atrações nacionais que participavam da Virada Cultural, encontrei um jovem extremante emocionado com o Seu Jorge e a banda RPM, tentando arrancar uma árvore do canteiro central e fui lá.

Bem, não vou dar detalhes da confusão que se formou. Conto apenas o final, quando o rapaz me procurou e me disse: “Pô, cara, nem tinha me tocado que eu estava dando uma de otário. Vamos lá bater uma foto perto da árvore”. E eu, pensando no risco que corri e também me chamando de otário, aceitei fazer a foto.

*Filósofo e escritor.

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