Archive for category Poesias

Segredos na cidade

De: Arilúcio Bastos Lobato

Noite de solidão
As luzes invadem o pára-brisa
A cidade está deserta
Mas existe um mundo
Neste minúsculo espaço
Que pulsa para te encontrar

Cadê você? Por onde andas?
Por que simplesmente não invades a minha vida?
Destila toda a tua ferida e deixa eu te curar

Cala a tua boca, mas fala tudo aquilo que preciso ouvir
Enche meus ouvidos com os teus desesperos
Deslizando as mãos pelos meus cabelos
Talvez eu possa te ajudar

Tenho certeza de que posso derramar na tua mesa
Palavras que aliviarão a minha alma
Que me trarão a calma
Por precisares de mim

Prefiro acreditar que o desespero é teu
Prefiro aceitar que as minhas coisas são tuas
Prefiro dizer que me amas
Pra te levar pra cama e curar a minha dor

Chega! Quebrei as minhas regras
Ultrapassei os meus limites
Já te dei vários palpites
Reconhece o meu valor

Acabei de te ver
Então, entra e senta
Olha nos meus olhos e comenta
Pois a música é pra te agradar

Agora é que percebi
A cidade é pequena
E já nem é tão deserta assim
Ainda existe aquele mundo de emoções

É minha linda
Só entrei nesta rua
Para reconhecer minha fraqueza
Debruçar na tua mesa
E dizer que te amo.

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A excomunhão da vítima

Miguezim da Princesa*

I
Peço à musa do improviso
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria,
Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.

II
Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.

III
Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.

IV
Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.

V
O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.

VI
Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina, sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.

VII
É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.

VIII
Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda,
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.

IX
Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.

X
E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão.

(*) Poeta popular, Miguezim de Princesa, é paraibano radicado em Brasília.

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Manah Manaós

Antônio Paulo*
Maio/1991

Manah Manaós
De longe te vejo
Do alto da hiléia habitada
Num fim de tarde de maio
Na hora do rush citadino.

Teus arranha-céus em meio à floresta
Tuas obras faraônicas.
O verde se confunde com o granito
Num céu cinzento de fumaça industrial.

Goles de cerveja te observam, vislumbram
O paisagismo vesperal
Sem pensar, sem refletir
Sobre o caos que espelha em tua face.

Favelados, loucos mal tratados
Operários escravos da zona
Que nada tem de franca.

Manah, Manaós!
Calcutá dos trópicos,
Ecológica por excelência
Governada por Boto
Parido da corrupção e da mentira.
Alguém de te viu e vê como tu és
Mesmo que seja numa tarde de sol poente.

* Jornalista, correspondente do jornal A Crítica em Brasília (DF)

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Tempo de delicadezas

Eu tenho uma saudade generosa
Nos bolsos da camisa,
Anotações rabiscadas no
Guardanapo de papel
Para me despir frente ao sorriso
Do meu amado
Batendo à porta.
______________________________
Há quanto tempo não sei de ti
Dos teus sinais, encantos e sorrisos,
E tua espontaneidade, a quem entregas?
Há quanto tempo estão perdidos meus versos
Nessa estrada infinita de te querer…

__________________________
Vou quebrar os vidros
Do teu coração
Pra te pegar com as mãos.

__________________________
Estendo meus braços ao sol
Para secar a saudade de ti…
__________________________
Desse amor, guardarei os risos
que não escaparam pelas portas
cada vez que nos derretemos…
__________________________
Meus olhos encheram-se
de pássaros.
Vôo no adormecer.
__________________________
Meu amor por ti nunca acaba
Está guardado no amanhã.
__________________________
Quando ficar sem você
Vou partir para o deserto
E inspirada,
Cantarei como as cigarras,
Rasgando o silêncio da minha saudade
Pra espantar as lágrimas
Que não mereces.
Não olhaste nos meus olhos
Para dizer que ias…

Ana Celia Ossame

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O Brasil e os sentidos

Wilson Nogueira*

Vi o tuxaua irado.

Ouvi os seus lamentos profundos. Senti que a floresta e os rios estremeceram de dor: a dor da morte. O índio matis que faz da sua lança a arma de guerra, um instrumento de apoio para se manter de pé, encarna o desespero dos povos do Vale do Javari diante da morte semeada pela redução da natureza amazônica a produtos disputados pelas sociedades modernas.

O tuxaua, em sua língua, entoa uma cantiga triste, um lamento fúnebre.

“Ele se refere à dor do seu povo sobre a morte dos velhos e das crianças”, informa um jovem índio tradutor. “Esse ritual é muito triste. Os índios do Javari estão muito tristes. Eles passam semanas, dia e noite, cantando esses lamentos”, afirma um funcionário da Fundação Nacional de Saúde (Funasa).

Assisti a essa cena em agosto do ano passado, na cidade amazonense de Atalaia do Norte. A realidade dos povos do Vale Javari só não continua a mesma porque piorou. Nem o canto dos tuxauas nem a enxurrada de apelos dos mais jovens, principalmente por meio da Internet, sensibilizam o Poder Público e a sociedade. Esses clamores somem na burocracia dos governos e na indiferença (quase generalizada) aos dramas vividos pelos índios.

O vaivém dos gângsteres de colarinho branco entre os cárceres da Polícia Federal e os hotéis de luxo de São Paulo, por sua vez, deixa o “estado democrático de direito” por um fio. Deputados, senadores, juízes, procuradores e ministros se engalfinham numa luta de retórica infernal. As instituições brasileiras balançam. A democracia, nesse qüiproquó, parece maionese em estúdio de TV.

Os “Dantas da vida” não mataram ninguém, não são pessoas perigosas, por isso, não mereciam algemas, nem ser expostos ao espetáculo televisivo. Certo! Isso mesmo! Alternaram-se nesse argumento mixuruca senadores e deputados insuspeitos de alguma ligação com o roubo dos cofres do contribuinte. Para que não pairem quaisquer mal-entendidos sobre “eles”, “eles” mesmos esclarecem, sem que ninguém lhes pergunte, que estão ali para defender a “democracia” e mais nada.

“Eles” fazem de conta que não compreendem que a subtração de dinheiro público causa mortes, pobreza e exclusão social. Desconheceriam, também, que esses fatores desestabilizam o Estado Democrático de Direito – de direitos e deveres iguais. Mas eles sabem, sim, que os “Dantas da vida” e seus protetores são perigosíssimos e que deveriam ser tratados como portadores dessa periculosidade.

Pra que algemas de ouro para essa turma?

Enquanto isso, a presença da morte por hepatite, malária e diarréia exige que os líderes Korubo, Maioruna, Matis, Canamaris, Marubo e Culina recorram aos limites de suas forças para enterrar seus mortos.

Este é o Brasil!

*Socólogo, jornalista e escritor

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