Archive for category cinema

CONTROL (Inglaterra 2007)

Yusseff Abrahim*

Depressivo, autodestrutivo e epilético. A combinação presente no talento musical que o mundo conheceu como Ian Curtis – voz e alma da revolucionária banda Joy Division – é apresentada no início de Control por meio de um mosaico de situações que vai destilando o comportamento e as percepções do jovem que cresceu na culturalmente insossa cidade de Macclesfield, nos arredores de Manchester, Inglaterra.

Sem lugar para expandir o seu potencial criativo, Ian (Sam Riley) foi se tornando um jovem introspectivo, indiferente diante do grito de crianças para que devolvesse a bola que escapou da brincadeira e passava próxima aos seus pés, assim como o “bom dia” diário do pai a cada retorno do colégio. Fazia do quarto o refúgio da vida sem cores que julgava levar, dialogando com as folhas de papel onde escrevia poesias, ou local para ouvir LPs de ídolos como David Bowie e Iggy Pop. Finalizado em preto e branco, o filme traduz a melancolia do protagonista mesmo depois sua entrada na banda Warsaw (Varsóvia), rebatizada para Joy Division (Divisão da Alegria) e sua rápida decolagem para o sucesso.

O cultivo do contexto histórico-musical da época transporta o espectador ao clima dos shows que ferviam a cena londrina, a exemplo da banda punk, Sex Pistols, expoente maior de uma época onde a atitude subjugava a qualidade musical, e do performático David Bowie & Spiders Mars, que representava a ruptura ao estilo punk-rock que abastecia o imaginário de Ian Curtis e uma legião de admiradores ávidos por outras experimentações sonoras. Tudo isso em curtos momentos servindo de cenários que testemunharam a convergência entre os futuros membros da banda e o empresário Rob Gretton.

Os últimos anos de Ian Curtis retratados no filme, mostram a vida de um ídolo que não suportou conviver com a bomba-relógio da epilepsia instalada dentro de si e que detonava o sentido de renascimento de cada fato que promovia reviravoltas positivas ou não da sua vida. A construção linear deixa a sensação de uma história rápida, assim como os quatro anos de existência da Joy Division, embora aditivada com algumas sequências longas expondo introspecção e as angústias vividas pelo vocalista que se tornou símbolo da angústia coletiva de uma geração.

Músicas de compasso insistente temperadas com guitarras, baixo e vocal sombrios. A trilha sonora evidencia o legado de uma banda que se tornou ícone da transição do rock com a fusão de texturas eletrônicas e a criatividade no uso de efeitos semi-artesanais como o chiado de sprays e sons de vidros estilhaçando (este último não colocado no filme).

Após a morte precoce de Ian Curtis, em 1980, os demais integrantes da banda fundaram o grupo New Order (Nova Ordem) que se consolidou como sucesso mundial nos anos 80 e 90. O filme é uma oportunidade para conhecer mais sobre a banda que influenciou uma geração seguinte de músicos bem sucedidos como Nine Inch Nails, Radiohead, Smashing Punpking, She Wants Revenge, Franz Ferdinand e The Killers. No Brasil, nada menos que a Legião Urbana, aliás, qualquer semelhança entre a performance de palco de Ian Curtis com Renato Russo não merece o rótulo de injustiça.

FRASES MARCANTES

“Eu vivo da melhor forma possível, o futuro agora faz parte do meu passado”.

“Você é minha, irrecuperavelmente minha”.

“Pensei que ataque epilético fosse coisa de tantã”.

“Você foi incrível, Ian! Arrebentou, mas me diga quem ganhou a luta dessa vez, o Ian ou o Ian”?

“Quando eu estou lá em cima do palco eles não entendem o quanto eu me dou e o quanto isso me afeta”.

EM CARTAZ EM SESSÕES DIÁRIAS. Horário único de 15h10. Sala 8 do Cinemark, no Studio 5.

*Visite o blog do autor ESPREMEDOR DE CINEMA

No Comments

Estômago

Yusseff Abrahim*
Tudo começa com uma cômica explicação sobre a origem do queijo gorgonzola pelo simpático personagem Raimundo Nonato (João Miguel), transbordando pureza em um sotaque nordestino arrastado, ele demonstra uma felicidade esfuziante ao transmitir aquele conhecimento.

Estômago (Brasil/Itália 2007) é uma obra que eleva a comida ao posto de Centro do Universo: princípio e fim. Da necessidade humana básica de se alimentar até o poder exercido sobre os outros por parte de quem domina a arte que transforma comida em fonte de prazer. É a refeição que une os personagens na trama costurada no realismo sem filtros, cruel, transforma vidas, influencia comportamentos rendendo ao espectador momentos temperados por gargalhadas ou profunda compaixão. Tudo graças à existência de duas coxinhas em um boteco, mal feitas, mas que servem de salvação ao esfomeado Raimundo, recém-chegado à capital paulista que, sem dinheiro, se endivida por conta dos R$ 3 reais do custo do salgado e acaba escravizado por Zulmiro (Zeca Cenovicz), o dono do muquifo.

Ao ser iniciado na cozinha pelo patrão sem jeito, Raimundo revela aptidão no manuseio dos ingredientes superando seu desajeitado mestre na preparação do dueto clássico de bar – coxinha X pastel de carne – criando uma fama nas proximidades que o conduz a reviravoltas e ao contato com novas e sofisticadas receitas.

Chama atenção a inteligente construção do roteiro contando o antes e o depois de uma mesma história conduzidos paralelamente. Para quem assiste, o suspense fica em torno do que aconteceu na saga deste tal Raimundo Nonato, personagem de uma inocência que chega a ser comovente, ao ponto de ser difícil imaginar que fato derradeiro o teria levado da cozinha à cadeia. O filme leva um molho abundante de humor sarcástico, sádico, repleto de diálogos escrachados das línguas ferinas dos personagens que só sossegam quando estão ocupadas em saborear as onipresentes iguarias.

De co-produção Brasil/Itália, Estômago, do diretor Marcos Jorge (O Encontro, 2002) é uma ode à gula e à luxúria como dois dos mais fortes ingredientes da vida, embalada por uma trilha sonora de indisfarçável inspiração nas obras do diretor e mito cult, Quentin Tarantino, com assobios recorrentes e um agradável abuso no som de metais entre o rockabilly e a surf music. Vá ao cinema, confira um final surpreendente e veja se você concorda: desde o filme Durval Discos (2002) o cinema nacional não produzia uma cena de tão bizarra inteligência. Estômago vale cada fotograma, mas não ouse assisti-lo com o SEU vazio.

Frases marcantes

“Cozinha simples é como uma pintura de Picasso: simples, mas intensa”.
“Pense num queijo de macho, é o gorgonzola”.
“Quero uma coisa boa mesmo
de bacana. Sabe aquela coisa que tu come e quase goza?”.
“Filé mignon é o
melhor do boi, é como bunda de mulher”.

O filme estreou nesta sexta-feira (15) e fica em cartaz diariamente em sessão única no Cinemark, às 15h10. Ingresso: R$ 4 reais (inteira) / R$ 2 reais (meia). Duração: 100′

Este texto também está disponível no http://espremedordecinema.blogspot.com/

*O autor é jornalista

No Comments